Skip to main content

Full text of "Portugal antigo e moderno : diccionario geographico, estatistico, chorographico, heraldico, archeologico, historico, biographico e etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias ..."

See other formats


^ a/ ->•>{?- 'r, .r il t»<? . - 1 i « »Ç *5> jr ll l 'Jj .r Jl ! -v; ^ *r 11) T» % t£ 15^ ^ íT V^V"* ' rí i 

yy * Hf ^ ^ir ^ " v ^ "W* ^ * v ' ^ 11T ^ ^ ^' v ' 

r^v3^P7>^ ?= 5$^^£^ ^^S^^^ 

X&JiKrtift TíV^ífL^w! J!C'''X Xv^JlW^X Xi?j^%K yc^JIL^X VW? JI^^N yA>*J»L'v*X yV JIC 

kv, -wr ^ xv, ^ir ^ xv, -wr ^ xv, *W^/< y xv, "WS)* xv, ^ %ff,w s% xv, v 


>Í0> JlVrW JlL'"X Va 1 * »>fV* 

xv ^jf ^ xv ^jr^!$ xv ^ir 


$k xv,->»r % >>i& xv. ^ir* x § ^ft-^ifí^ ■^jr^ -''Oir^ ?'-^Jfi 

=^ ^HVT^ ^2VS^ r^&á^ 




w, *>ir <sy. xv, ^ xv. ^ xv, ->|r xv, ^ir xv, 
xv, ^ir í>>í xv. ^jr xv, ^ xv, ^ir ^ xv, x v, ^ir 

2l> <^~^kj2-J ^"V^rflgj ^^k>c^ ^gPK^G^ Sr^^^ ^y^' 


KV, ^èf j$$t XV, "Mf ^ XV. *>|f 


■^S <^~jj:/vrS f ,òvL.^~S f~VivCVT"> c^Tw^CT** r~^7^X7^ r ' 
> '> ^ v 'WÍH' «» ^ ^ v *^ iP*' ^ «o * ^ «o m jí v fíj 
JfW^K ^ Jlv "''K VA^JfL'"/»x y^jlc^x ^ JfW %S 7HfJi\ 

xv, ^ xv, y xv, ^jf^ xv, -^r^ XV, W $g .vv,y 
Í vLír*"Í^ cfWjl> í^^^y ÍÍE*&i W 


y>\?J*\r"'*í\ xa* vIL Vx ^'v 
xv, -Mr xv, *ur ^jí xv. -^ir 

T d! ii "5/ íT W 2» ^ ^ «o a : 

^írrjfTí^ il\ ^ ^ T - 

J\ C "VX JlC *w JlW 

xv. *>ir jjjí xv, xv, 

í> il ii ^ a< ^ *r vt 1 2 


^ r^4^ ^T^? ^Tx 
Cx Va^jIc^n Vi^JlL'^ y^ JIl''/.X y^JIL*'^ Va^jK 

"'«N >{o> Ví^ JlW '^ÍX >t\>?" ^/IC y^ "vjv Xv v »</" 

^ xv, *w* ^ xv, ^ir ^ xv, ^ xv, xv, ^ X'/, ^ 
'lj ^^^^^^ ^A^^^ 

^ tóM tm0 tW0 ^PÍP e ^ 


>io '"'í< viv* jlc 'vi^ >ív^ jiL 
yv, $>'/. xv, *\êf ^ xv, ">ir 


• ^ ^ «o * - , /, ^> , ,4, 33 , ^v^l rt\ j; v ^ íT- |t\ ^, ^ ^ . o m jí »i ^ * ; t 
''-n y^ãHC^K Xví jfw^/K ?ív^viL^K^vwtv?'í* >iv>* JfL'vx jv 
i?/. xv, $}í xv, *>4r ^ xv, "Nir 5?'* llf xv, *S|i 

ÍSé Sr^^fW Vpfc ÚSMèfd C^PnW 


/i^JiV^x ^ v J't'v.v /i^Jfw 

Vicf JfL*^ JiC*v^ J'L 
xv, ^ir S"/- xv, ^i/" xv, ^ir 

xv, ^if ^ xv,^m^x x'Oir 


^ r^.V^i r^fc^ ?*P-í 
m iT, ^ v * -t *4 ^ ÍP ^ ^ ' J it\ /í v ' r 
%x >i^JIL r '*x yA*^»L''/.x yi^Jfc^x y^JK^x y,^JK'o!< y^j\\ 

xv,^ir xv c>x >jv,^ir^ií xv ^ir ^ xv,^ir^Hí xv *m/ 

>>> ^jr w "\\f nv xv 0 \\f $y w ^ir <*y xv 

v :'4 ^ (Ti y ' % ^ í J ; ^ m ^j? ^ ^ r íft & v- m ~i $ v |t 
'«x /a*> /ív^ '<n y»vs ^«x y^ viw /í\> v»w v\ yv^ 

^y kv, ->ir ^>y xv, ->ir ^ xv, ^ir ^ x v, -wr xv, \jr ^ xv. 



PORTUGAL 

ANTIGO E MODERNO 



DECIMO PRIMEIRO VOLUME 



PORTUGAL 

ANTIG O E MO DERNO 
DICCIÕNÃRIO 

Geogrraphico, Estatístico, chorographico, Heráldico, 

Archeoloyico, 
Histórico, Biographico e Etymologico 

OE TODAS AS CIDADES, VILLAS E FREGUEZÍAS DE PORTUGAL 

E DE GRANDE NUMERO DE ALDEIAS 

n «* K?f 9 Q i e if tas S& ° n °taveis, Por serem pátria de homens celebres, 
por batalhas ou outros factos importantes que delias tiveram locar, 
por serem solares de familias nobres, 
ou por monumentos de qualquer natureza, alli existentes 



NOTICIA DE MUITAS CIDADES E OUTRAS P0V0AÇÕES r DA LUSITÂNIA 

QUE APENAS RESTAM VESTÍGIOS OU SOMENTE A TRADIÇÃO 

P0fi 

Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal 




LISBOA 

Livraria Editora de Tavares Cardoso & ísmão 
5 —Largo do Camões —6 
1886 



J^ISBOA 

TYPOGRAPHIA MATTOS MOREIRA 

i5, Traça dos Restauradores, 16 
1886 



D? 
1*1 



THE 6ETTY CEN1 tW 1 
L1BRARY 



PORTUGAL ANTIGO I MODHO 



V 



VIL 

VIL DE, MATOS— freguezia do concelho, 
comarca, districto e diocese de Coimbra, na 
província do Douro. 

Orago— S. João Evangelista— fogos 148 — 
almas 592. Carvalho deu-lhe 160 fogos. 

Foi curato amovível da apresentação do 
parocho da freguezia de Barcouço,— perten- 
ceu ao extincto concelho d'Ançã— depois ao 
de Catanhede— e hoje pertence ao de Coim- 
bra por decreto de 24 de outubro de 1855. 

Comprehende as aldeias seguintes:— Vil 
de Matos (sede da parochia) Vendas de 
Sant'Anna, Mourellos, Costa e Rios Frios,— 
os casaes da Murteira, Cartaxos e Cova de 
Coelhos— e a quinta da Zombaria, perten- 
cente ao sr. dr. Julio Augusto Henriques, 
benemérito director do Jardim Botânico de 
Coimbra e muito illustrado lente de botâni- 
ca na Universidade,— a quinta do Barreiro, 
pertencente ao barão do Cruzeiro, de Mogo- 
fores,— a do Burlegão, pertencente a Joa- 



VIL 

quim Maria Diniz— e a do Paraíso, perten- 
cente ao sr. conselheiro dr. Francisco de 
Castro Freire. 

As suas freguezias limitrophes são:- An- 
tuzende e Trouxemil, do concelho de Coim- 
bra,— Ançã, concelho de Cantanhede, — e 
Barcouço do concelho da Mealhada. 

Dista de Coimbra 12 kilometros para N. E. 
—da estação de Souzellas (C. de ferro do N.) 
7 kilometros para 0,-119 do Porto— e 232 
de Lisboa. 

Atravessa esta freguezia a estrada muni- 
cipal da ponte da Carvalhinha á povoação 
de Vil de Mattos;— dista 3 kilometros da es- 
trada districtal de Coimbra a Cantanhede— 
e 2 da estrada real de Lisboa ao Porto. 

A egreja matriz é pequena e tem altar- 
mór e 2 lateraes com decorações de talha 
singela;— em ura dos altares lateraes se vê 
uma lindíssima imagem de Nossa Senhora 



PORTUGAL 

ANTIGO E MODERNO 



DECIMO PRIMEIRO VOLUME 



PORTUGAL 

ANTIG O E MO DERNO 
ICCIONARIO 

Geographico, Estatístico, cliorographico, Heráldico, 

Archeologico, 
Histórico, Biographico e Etymologico 

DE TODAS AS CIDADES, VILLAS E FREGUEZIAS DE PORTUGAL 

E DE GRANDE NUMERO DE ALDEIAS 

Se estas são notáveis, por serem pátria de homens celebres,, 
por batalhas ou outros factos importantes que n"ellas tiveram logar, 
por serem solares de familias nobres, 
ou por monumentos de qualquer natureza, alli existentes 



NOTICIA DE MUITAS CIDADES E OUTRAS P0V0AÇÕES'0A LUSITÂNIA 

DE QUE APENAS RESTAM VESTÍGIOS OU SOMENTE A TRADIÇÃO 

por 

Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Lea! 





LISBOA 

Livraria Editora de Tavares Cardoso & Irmão 
5 — Largo do Camões— 6 
1886 



J^ISBOA 

TYPOGRAPHIA MATTOS MOREIRA 

i5, Traça dos Restauradores, 16 
1886 



D? 

In 



THE GETTY CENlkkv 
UBRARY 



PORTUGAL ANTIGO 1 MUI 



V 



VIL 

VIL DE MATOS— freguezia do concelho, 
comarca, districto e diocese de Coimbra, na 
província do Douro. 

Orago— S. João Evangelista— fogos 148 — 
almas 592. Carvalho deu-lhe 160 fogos. 

Foi curato amovível da apresentação do 
parocho da freguezia de Barcouço,— perten- 
ceu ao extincto concelho d'Ançã— depois ao 
de Catanhede— e hoje pertence ao de Coim- 
bra por decreto de 24 de outubro de 1855. 

Comprehende as aldeias seguintes: — Vil 
de Matos (sede da parochia) Vendas de 
SanfAnna, Mourellos, Costa e Rios Frios,— 
os casaes da Murteira, Cartaxos e Cova de 
Coelhos— e á quinta da Zombaria, perten- 
cente ao sr. dr. Julio Augusto Henriques, 
benemérito director do Jardim Botânico de 
Coimbra e muito illustrado lente de botâni- 
ca na Universidade,— a quinta do Barreiro, 
pertencente ao barão do Cruzeiro, de Mogo- 
fores ,— a do Burlegão, pertencente a Joa- 



VIL 

quim Maria Diniz— e a do Paraiso, perten- 
cente ao sr. conselheiro dr. Francisco de 
Castro Freire. 

As suas freguezias limitrophes são:- An- 
tuzende e Trouxemil, do concelho de Coim- 
bra, — Ançã, concelho de Cantanhede, — e 
Barcouço do concelho da Mealhada. 

Dista de Coimbra 12 kilometros para N. E. 
—da estação de Souzellas (C. de ferro do N.) 
7 kilometros para 0,-119 do Porto— e 232 
de Lisboa. 

Atravessa esta freguezia a estrada muni- 
cipal da ponte da Carvalhinha á povoação 
de Vil de Mattos;— dista 3 kilometros da es • 
trada districtal de Coimbra a Cantanhede— 
e 2 da estrada real de Lisboa ao Porto. 

A egreja matriz é pequena e tem altar - 
mór e 2 lateraes com decorações de talha 
singela;— em um dos altares lateraes se vê 
uma lindíssima imagem de Nossa Senhora 



062 1 VIL 



VIL 



do Rosario, Tem mais nas Vendas de Santa 
Anna uma capella publica d'esta invocação, 
com festa própria e romaria annual no 1.° 
domingo depois de 26 de julho, — em Rios 
Frios a de S. Thomé, também publica, sem 
festa ha muitos annos,— e uma capella par- 
ticular na quinta da Zombaria. 

A capella de Sant'Anoa já foi a matriz 
d'esta paroehia e é bastante antiga, porque 
já se vê mencionada na Chorographia Por- 
tugueza, bem como a de S. Thomé. 

Banham esta freguezia o rio de Caval- 
leiros, que atravessa o Valle Travesso e 
desagua na Valia do Norte (parallela ao 
Mondego) a distancia de 5 kilometros, — e 
as valias da Linteira e do Carregal, que 
desaguam no rio de Cavalleiros, em Valle 
Travesso. 

Tem 2 pontes, — 3 moinhos em Cadavae, 
Paraíso e Carvalho, que moem milho, trigo 
e centeio — e 1 em Valle Travesso, que se 
emprega em preparar o arroz. 

Produz milho, trigo, centeio, cevada, fei- 
jões e nomeadamente vinho de mesa, muito 
bom, e arroz. 

Este ultimo artigo constitue hoje uma das 
produeções mais importantes d'esta paro- 
ehia, mas tem dado origem a febres devas- 
tadoras, muitos desgostos, muitas desordens 
e grandes questões que promettem reviver. 

A cultura do arroz tem sido uma mina 
para muitos proprietários d'este districto, 
mas foi uma verdadeira praga para esta e 
outras muitas parochias I . . . 

Daria grossos volumes tudo o que se tem 
escripto sobre tão momentoso assumpto e 
bem quizeramos aproveitar o ensejo para 
consignarmos aqui os tópicos principaes da 
grande questão, mas somos forçados a ali- 
geirar e resumir e portanto apenas indica- 
remos muito summariamente a parte que 
prende com esta paroehia: 

Data de 1864 ou 1865 a cultura do arroz 
n'esta paroehia. 1 



1 Referimo-nos á cultura em grande escala, 
pois já desde 1853 se haviam feito ensaios 
e tentativas. 



O dr. Eusébio Rodrigues Manique, de 
Coimbra, comprou uma grande porção de 
terreno no sitio de Val Travesso, setneou-o 
todo de arroz em um d'aquelles annos e, 
como auferisse lucros, proseguiu com a 
mesma cultura nos annos de 1866, 1867 e 
1868; desenvolveu-se porém logo uma me- 
donha epidemia de febres pestilenciaes 
n'esta freguezia e na de Barcouço, sualimi- 
trophe, a ponto tal que os habitantes das 
duas parochias e da de Ançã resolveram 
fazer justiça por suas mãos. 

Em certo dia aprasado (um domingo) 
reuniram se na ponte de Maurelles alguns 
centos de pessoas, — homens e mulheres, 
velhos e novos, padres e seculares, — inva- 
diram os arrosaes do dr. Eusébio e d'ouíros 
— e destruiram-nos completamente todos. 

Nem o dr. Eusébio nem outro algum dos 
proprietários d'arrosaes colheram n'aquelle 
anno um grão único de arroz!. . . 

lnstaurou-se processo contra os delin- 
quentes, mas ninguém ficou culpado, porque 
todas as testemunhas inqueridas disseram 
que aquelles destroços foram causados pelos 
habitantes das tres freguezias em massa, 
sem distineção de pessoas. 

Em vista de facto tão estranho o dr. Eu- 
sébio e os outros exploradores da mina da 
orysicultura esmoreceram; não mais semea- 
ram arroz desde 1868 até 1876, pelo que o 
estado sanitário d'esta paroehia e das limi- 
trophes foi excellente durante aquelle pe- 
ríodo; mas em 1876 a sacra fames auri 
determinou vários egoístas a posporem á 
saúde publica os seus interesses;— repeti- 
ram a cultura do arroz e a desenvolveram 
em larga escala, desenvolvendo-se logo na 
mesma proporção as sezões malignas, como 
consequência evidente, necessária, fatal, 
ameaçando converter esta e as parochias 
limitrophes em um deserto. Graças, porém, 
á dedicação do ex. mo sr. Bispo Conde (D. 
Manuel Correa de Bastos Pina) e d'outros 
cidadãos beneméritos, ha 3 annos que foi 
extincta a cultura do arroz n'esta e em ou- 
tras parochias d'este districto de Coimbra 
onde a orysicultura era mais nociva á saúde 
publica. 



VIL 



VIL 663 



Foi óptimo o estado sanitário d'esta fre- 
guezia até 1883, mas este anuo dois especu- 
ladores de Mira arrendaram ao sr. Alberto 
Ferreira Pinto as terras de Val Travesso e 
de novo as semearam d'àrroz, pelo que o 
parocho d'esta freguezia e todos seus paro- 
chianos representaram ao governo contra 
semelhante sementeira e em abril ultimo 
foram pessoalmente entregar a representa- 
ção ao sr. governador civil de Coimbra, que 
prometteu fazer-lhes justiça; receiam po- 
rém que sejam obrigados a appellar para 
meios violentos, como já fizeram duas vezes, 

— a l. a unidos aos habitantes das freguezias 
de Ançã e Bareouço — a 2." de per si sòs e 
com menos felicidade, porque ficaram pro- 
nunciados em numero de 14. 

No supplemento ao artigo Coimbra volve- 
remos ao assumpto e iremos um pouco mais 
longe; entretanto quem quizer iniciar-se na 
grande questão dos arrozaes pode ler — a 
lei de 1 de julho de 1876, os officios que o 
sr. bispo-conde dirigiu ao governo com 
data de 7 de janeiro e 26 de fevereiro de 
1881, — e 15 de fevereiro de 1882, — a 
Pastoral do mesmo sr. com data de 3 d'abril 
de 1882, — os decretos de 23 de março e de 
5 d'abril do mesmo anno, — o n.° 1 das 
Instituições Christãs, 1.» serie, 1883, pag. 
14, — e o n.° 8 das mesmas Instituições, 1." 
serie do 2.° atino, 1884, pag. 249. 

Tudo isto corre impresso e torna evi- 
dentíssima a nefasta influencia dos arrozaes 
sobre a hygiene publica, nomeadamente nos 
concelhos de Coimbra, Montemor-o- Velho, 
Figueira, Soure, Pombal, Condeixa e Leiria; 

— mas, para se formar idéa de quanto po- 
dem o sophisma e a sêde do lucro, ou a 
sacra fames auri, devem ler-se também, 
como reverso da medalha .n'este assumpto, 
as celebres cartas de Amaro Mendes Gaveta, 
pseudonymo de um dos nossos mais lau- 
reados poetas contemporâneos, grande pro- 
prietário e grande cultivador dos malditos 
arrozaes no districto de Coimbra. 

Apesar de haver sido terminantemente 
prohibida a cultura dos arrozaes em 1867 
e 1882, ella teve um incremento de 80 p. c. 
nos últimos 10 annos, calculando-se em 



1:880 hectares o chão empregado hoje na 
dita cultura??!!!... 
Isto é ofjficial. 

Na correspondência de Coimbra para o 
Commercio do Porto, que é sem contéstação 
o jornal menos faccioso e mais serio de todo 
o nosso paiz, se lia com data de 20 de se- 
tembro ultimo (1884) o seguinte: 

«Já principiou a colheita do arroz, cuja 
producção é abundantíssima. A este respeito 
podemos informar que nunca a oryzicultura 
no districto de Coimbra tomou tanto desen- 
volvimento como no presente anno. E isto 
apesar de todas as leis, portarias, decretos 
e commissões! As doenças originadas nas 
emanações deletérias d'estes verdadeiros 
pântanos também este anno recrudesceram, 
havendo povoações onde as febres intermit- 
tentes teem feito grandes estragos. 

«E' lamentável que a saúde dos povos 
assim esteja á mercê do capricho e ambi- 
ção dos potentados monetários e das in- 
fluencias politicas, que são os que aqui, 
como em toda a parte, querem e defendem 
os arrozaes.» 

VIL DE SOUTO— Freguezia. V. Villa de 
Souto. 

VILHARIGAS ou VILHARIGUES — Fre- 
guezia do concelho de Vouzella. V. Paços de 
Vilharigues, vol. 6.°, pag. 397, col. 2." 

VILIAR — porluguez antigo — despresar, 
ter em pouco, desestimar. 

De uma sentença de 1496 consta que a 
villa de Val de Prados, era terras de Bra- 
gança, devia ter forca, picota e tronco por 
ser villa sobre si, sem por isto viliarem e 
deshonrarem a villa de Bragança. 

VILLA — designação de centenares de po- 
voações, casaes e quintas do nosso paiz. 

Só este tópico (em boa hora o encete- 
mos!...) daria um volume, se não fossemos 
obrigados a aligeirar e resumir quanto pos- 
sível para vermos se fechamos o diccionario 
com este 10.° volume, reservando para o 
supplemento as rectificações e addicções. 

VILLA. — Em todos os nossos documen- 
tos até os fins do século xn se tomou 
villa não por uma povoação grande, supe- 
rior a uma aldeia e que tivesse juiz, senado 



664 VIL 



VIL 



e pelourinho eom os mais distinetivos de ju- 
risdieção civil e criminal, mas sim por uma 
pequena ou grande herdade, casal ou granja, 
comprehendendo terrenos com sua casa rús- 
tica e abegoaria para recolher os fructos e 
criar os gados e outros animaes domésti- 
cos. 

Dividia- se a villa, segundo Columella, 
em urbana, rústica e frutuaria. A primeira 
constava de uma casa mais elegante e aceada 
(casa nobre) em que o senhor da villa resi- 
dia temporária ou permanentemente; — a 
segunda pouco ou nada tinha de polida e 
era destinada para habitação do colono e 
sua família; constava também de curraes, 
cortes e cobertos para os animaes e apres- 
tes da lavoura ; — a terceira finalmente era 
o que chamamos adega ou celleiro. A villa 
(herdade ou quinta) menos importante era 
denominada villula, villar e villarinho. 

Desde os fins do século xii até os do sé- 
culo xv também algumas vezes se tomou 
villa como synonimo de cidade, assim se en- 
contra em muitos documentos villa de Bra- 
gança, de Lamego, de Coimbra, da Guarda, 
etc, mas desde o tempo de el-rei D. Af- 
fonso III se começou a chamar villa uma 
povoação grande ou cabeça de concelho, na 
qual se decidiam as causas na primeira in- 
stancia e n'esta ultima accepção se toma hoje 
em Portugal a palavra villa. 

V. Aldeia no supplemento. 

VILLA D'ALA — freguezia do concelho 
do Mogadouro, districto e diocese de Bra 
gança, província de Traz-os-Montes. 

Orago — Nossa Senhora da Assumpção,— 
fogos 122,— almas 535. 

Reitoria. Foi curato annual da apresenta- 
ção do marquez de Távora, da coroa e da 
mesa da consciência. 

Dista 9 kilometros do Mogadouro para E., 
35 de Miranda para S. O., 56 de Bragança 
para S. E. e 10 da margem direita do Douro. 
Toca na povoação de villa d'Ala, séde d'esta 
freguezia, a estrada da villa da Bemposta 
para o Mogadouro. 

Comprehende mais esta freguezia as al- 
deias de Paçô e Santiago. 

As suas parochias limitrophes são Thó, 
Mogadouro, Variz e Villa de Rei. 



Ha n'esta freguezia uma pyramide geodé- 
sica que marca 816 metros d'altitude sobre 
o nível do mar. 

O seu chão é áspero e frio e as suas pro- 
ducçoes dominantes são batatas, lã e ce- 
reaes. 

Entre esta parochia e a de Variz está a 
serra d'Ala, onde se encontram vestígios de 
povoação importante antiquíssima que tal- 
vez fosse cidade outr'ora. 

Vide Ala, serra, vol. l.°, pag. 45. 

VILLA ALVA ou VILLALVA — freguezia 
do concelho e comarca de Cuba, districto e 
diocese de Beja, província do Alemtejo. 

Orago Nossa Senhora da Visitação, — fo- 
gos 370, — almas 1:400. 

Foi villa e teve por donatário o duque de 
Cadaval. Pertenceu ao concelho de Villa de 
Frades e á comarca de Beja. 

D. Manuel lhe deu foral em Lisboa com 
data de 1 de junho 1512. Livro dos Foraes 
Novos do Alemtejo, fl. ó6, col. 2." 

Veja-se o processo para este foral na Gav. 
20, Maço 12, n.° 24. 

Está situada em planície na margem es- 
querda de uma ribeira affluente da de Odi- 
vellas, 10 kilometros a E. da estação d'Al- 
vito e 12 ao N. da de Cuba, na linha férrea 
do sul, 29 ao N. de Beja e 134 a S. E. de 
Lisboa. 

Comprehende além da villa, povoação 
única d'esta parochia, os montes ou ca- 
saes de Gandra, Zambujal, Farelôa, Ribeira, 
Chouriça, Marqueza e Antas. 

É priorado e em 1768 rendia 600:000 rs. 

As suas producções dominantes são vi- 
nho, que é o melhor do distrieto, azeite e 
lã, pois cria bastante gado. Também produz 
muita frueta de pevide e de caroço e cor- 
tiça. 

A sua herdade mais importante é hoje a 
do Zambujal, pertencente ao sr. José Maria 
Ayres Parreira Capas. 

Freguezias limitrophes — Cuba, Oriolla, 
Villa Ruiva, Villa de Frades e Albergaria 
dos Fusos. 

Tem uma estrada a macadam por Villa 
de Frades para a estação de Villa Nova da 
Baronia e outra para a estação de Cuba. 



VIL 



VIL 665 



A sua egreja matriz é pequena; está no 
meio da villa e a poucos metros de distan- 
cia ha uma torre que foi feita quando trou 
xeram de um dos conventos d'Evora um 
bom relógio que n'ella colloearam. 

Diz-?e que esta freguezia tomou o nome 
do antiquíssimo casal de Monte Alvo. 

Tem casa de Misericórdia, hoje em deca- 
dência. A sua egreja soffreu varias modifi- 
cações, mas ainda conserva alguma obra de 
talha dourada de merecimento. 

Ha ainda n'esta parochia mais 2 templos 
públicos pouco notáveis, — ao todo 5. 

A industria local reduz-se a uma fabrica 
de rolhas de cortiça, que são exportadas 
quasi que exclusivamente para a America 
do Norte. 

Também exporta alguma madeira d'alamo. 

A distancia de 4 kilometros d'esta villa 
(approximadamente) no sitio de Malk-abrão 
ou Malcabrão teem appareeido algumas 
moedas antigas de prata e cobre. Em uma 
se lia Cesar Tib. 

Ha n'esta villa um edifício brasonado, 
pertencente ao sr. Fernando Guilherme 
Guedes Pimenta. Está ha Praça Velha, junto 
da torre do relógio. Tem mai3 dois bons 
edifícios, embora sem brazões, — um na 
Praça Nova, pertencente a Joaquim Antonio 
da Fonseca, — outro na rua da Miseri- 
córdia, pertencente á sr. a D. Anua Rita da 
Cruz Arce. 

Esta villa nunca foi fortificada, nem teve 
convento algum, nem feiras ou mercados. 

Ainda n'ella se veem os antigos paços do 
concelho e a cadeia. O pelourinhojá desap- 
pareeeu. 

T m um largo arborisado e 5 ruas pnn- 
cipaes — de Lisboa, Misericórdia, Figueira, 
Carreira e Outeiro. 

Ha n'esta freguezia 5 moinhos de vento e 
3 d'agua na ribeira de Odivellas, onde ha 
também uma ponte de pedra junto da ex- 
tremidade d'esta parochia. 

Villalva assenta nas vertentes septen- 
trionaes duma pequena cordilheira de mon- 
tes que fazem parte da serra dAlpedreira, 
ramificação da serra d'Ossa. V. Alpedreira. 

Tem duas escolas d'instrucção primaria 



elementar para os dois sexos, — 1 hospital, 
que é o da Misericórdia, — e 1 hospedaria 
de Manuel Calado da Luz. 

Temos em nosso poder uma copia do fo- 
ral que D. Manuel deu a esta villa e bem 
quizeramos extractal-o/ porque é muito in- 
teressante, mas como este artigo vae já bas- 
tante longo, no supplemento encontrarão 
os leitores o extracto do dito foral sob o 
mesmo titulo Villa Alva. 

VILLA D'AL VA — villa acastellada e fre- 
guezia em 1240, hoje uma pequena e pobre 
aldeia pertencente á freguezia de Poiares 
no concelho de Freixo d'Espada á Cinta, 
província de Traz os Montes. 

V. Alva, vol. l.° pag. 169, — Barca d' Alva. 
no mesmo vol. pag. 324 — e o Douro Illus- 
trado, pag. 66 a 68. 

VILLA DALVARO — villa e freguézía do 
concelho de Oleiros, comarca da Certã no 
antigo priorado do Crato, até 1882 patriar- 
chado de Lisboa e desde 1882 bispado de 
Portalegre. 

E' priorado. Conta hoje 356 fogos e 1:374 
habitantes. 

Orago S. Thiago Maior. 

Comprehende esta freguezia, alem da 
villa, os logares de Gaspulha, Povoa da Tal- 
vinheira, Povoa do Meio, Povoa de Cima, 
Val da Carreira, Sendinho de Santo Amaro, 
Quartos dAlem, Quartos dAquem, Quarti- 
nhos, Valinho, Pandos, Bexinheira, Com- 
geira, Longra, Sarnadas dAlem, Sarnadas 
d'Aquem, Val dos Vascos, Portilla, Gorga, 
Povoas, Povoas da Ribeini, Casal da Ordem, 
Beco, Frazumeíra, Pecegueiros, Maria Go- 
mes, Travessa e Portalegre. 

V. Alvaro, n'este diccionario, tomo 1.° e 
no supplemento — e as Memorias da Villa 
de Oleiros pag. 236, pelo rev. ,n0 Sr. D. João 
Maria Pereira do Amaral Pimentel, bispo 
d' Angra. 

VILLA DO BISPO — villa, freguezia e 
séde do concelho d'este nome, comarca de 
Lagos, districto e diocese de Faro na pro- 
víncia do Algarve. 

Orago Nossa Senhora da Conceição, — 
fogos 277 e 1:181 habitantes. 

A Chrographia Portugueza em 1708 deu- 



666 VIL 



VIL 



lhe 200 fogos, a Chrographia do Algarve 
em 1837 deu lhe 211 — e o Portugal Sacro 
e Profano 144 em 1768, acerescentando que 
o seu parocho tinha de rendimento oito 
moios de trigo e era prior da apresentação 
alternativa do papa e do prelado. E' hoje 
viga irar ia. 

Dista 4 kilometros para O. e 6 para o N. 
do oceano, que aqui fórma um pontal, espé- 
cie "de península tendo na sua extremidade 
S. O. o cabo deS. Vicente a 10 kilometros 
d'esta villa, a qual dista de Lagos 25 kilo- 
metros e de Faro cerca de 100 para oeste. 

Em 1840 esta villa com a de Sagres e as 
freguezias de Bordeira, Budens Barão, Ra- 
poseira e Carrapateira constituíam o con- 
celho de Villa do Bispo, extincto pelo de- 
creto de 2i d'outubro de 1855, passando as 
ditas freguezias para o concelho de Lagos; 
mas por decreto de 10 de setembro de 1861 
foi restaurado o antigo concelho de Villa do 
Bispo com as mesmas freguezias, exce- 
ptuando a de Bordeira e a sua annexa de 
Carrapateira, que passaram para o concelho 
de Aljesur; mais tarde a de Carrapateira 
passou outra vez para este. 

Compreheude pois este concelho hoje 4 
freguezias — Budens, Raposeira e Carrapa- 
teira, sua annexa, Sagres e Villa do Bispo, 
com o total de 

Fogos 953 

Almas 4:151 

Superfície em hectares 22:867 

Prédios inscriptos na matriz 7:504 

Esta freguezia tem uma area bastante ex- 
tensa ; o seu chão é alto, lavado dos ventos 
e muito saudável, pelo que outr'ora vieram 
residir para este concelho, como para uma 
estação de saúde, muitas famílias abastadas 
e cavalleiros de pontos distantes, o que ainda 
revelam os claros vestígios de embellesamen- 
tos que se notam nas quintas de Val Santo, 
Guadalupe, Lontreira, Alagoas, etc. 

Comprehende esta freguezia, alem da vil- 
la, os casaes, quintas e hortas seguintes: Ta- 
bual ou Atabual, Pedralva, Santo Antonio, 
Horta Garcia, Pena Furada, Monteso e Mur- 
ração. 



As herdades principaes hoje são Fonte dos 
Monteiros, pertencente a José Cardoso e 
Valle do Paço, de José de Sousa Marreiros 
Cintra, ambos d'esta villa. 

Freguezias limitrophes:— Budens, Rapo- 
seira, Sagres e Bordeira, sendo esta ultima 
do concelho de Aljesur. 

Ê atravessada pela estrada do litoral, em 
via de construcção. 

Os seus templos reduzem se á egreja ma- 
triz, que se acha em bom estado de conser- 
vação e tem boas alfaias, avultando entre 
ellas uma custodia de muito merecimento. 
As festas principaes que n'ella se celebram 
são a da padroeira, N. S. da Conceição, no 
dia 8 de dezembro, e a de S. Vicente no dia 
22 de janeiro. 

Costuma haver aqui annualmente um pe- 
queno mercado de gado bovino que dura 
duas a tres horas e que chamam feira da 
villa. 

O seu terreno é muito fértil, como todo o 
Cabo de S. Vicente, por justos títulos deno- 
minado celleiro do Algarve; as suas produc- 
ções são trigo, cevada, milho, batata redon- 
da, chicharos, grão de bico, algum vinho, lã 
e queijos, pois cria bastantes cabras e ove- 
lhas e do leite fazem queijos excellentes e 
manteiga. 

Tem igualmente abundância de peixe, le- 
bres, coelhos e perdizes. 

A sua agua potável é boa. 

Foi conduzida para a villa por um peque- 
no aqueducto. . ' 

Apesar da fertilidade do solo, os seus ha- 
bitantes em geral são pobres, porque a maior 
parte da propriedade pertence a estranhos. 

As mulheres vestem surianos e estame- 
nhas e occupam-se na colheita do esparto 
para diversos usos. 

Segundo a Geographia Commercial dlo sr. 
João Felix, ha n'este concelho 23 theartes de 
lã. 

A antiga povoação de Santa Maria do Ca- 
bo, hoje séde d'esta paroehia, foi doada aos 
bispos do Algarve por el-rei D. Ma.nuel, 
quando visitou o Cabo de S. Vicente, pelo 
que desde então se ficou denominando Al- 



VIL 



VIL 



667 



deia do Bispo e Villa do Bispo depois que 
D. Pedro II a elevou á cathegoria de villa e 
lhe deu foral (diz a Chorographia Moderna) 
mas nem Franklim nem a Chorographia do 
Algarve o mencionam. 

Ha aqui um vasto Reguengo que perten- 
ce aos próprios nacionaes e um baldio para 
logradouro commum e pastagem dos gados. 
Se fossem divididos em courellas pelos ha- 
bitantes da freguezia e convenientemente 
agricultados, podiam transformar-se em um 
bom elemento de riqueza. 

Nas Memorias para, a Historia Ecclasias- 
Uca do Algarve, eseriptas pelo mesmo auctor 
da Chorographia do Algarve, João Baptista 
da Silva Lopes e publicadas pela Academia 
Real das Scieneias em 1848, se diz a pag. 
641 (nota) : 

«Estes dous concelhos (Villa do Bispo e 
Aljesur) não devem subsistir por insignifi- 
cantes: os seus moradores vão a Lagos con- 
sultar Medico, Cirurgião, Advogado, e pro- 
ver-se de tudo que lhes falta, levando ali to- 
dos dias os seus géneros para vender». 

Aiuda existem os antigos paços do conce- 
lho e a cadeia d'esta villa, mas já não existe 
o pelourinho, que estava na praça, porque 
foi derrubado por um tufão no dia 4 de fe- 
vereiro de 1871, pelas 5 horas da manhã. 

Esta freguezia é banhada por uma ribeira 
que lem uma pequena ponte na estrada do 
litoral e desagua no oceano a 12 kilometros 
de distancia. 

Ha n'esta freguezia 2 minas de manganez 
e de outros metaes, simplesmente registra- 
das, no sitio de Morração. 

N'esta parochia é sensível a falta de arvo- 
redo, inclusivamente de figueiras que tanto 
abundam na maior parte do Algarve. 

João Baptista da Silva Lopes menciona na 
sua Chorographia um benemérito prior d'es- 
ta parochia, José Pedro da Silva Gonçalves 
Reis que, em premio do seu zelo pela pros- 
peridade dos seus parochianos, foi perseguido 
e preso em 1823 e veiu a morrer martyr da 
liberdade poucos mezes depois de sair pela 
segunda vez da prisão, em 1833. 

Causou aqui muitos prejuisos o grande 



terremoto de 1 de novembro de 1755. Des- 
moronou todas as casas da villa, exceptuan- 
do unicamente uma ! . . . 

Este beneficio foi um dos melhores do Al- 
garve. O seu prior recebia os dízimos das 
miuças, que eram importantes. 

Os dízimos da massa grossa d'esta fregue- 
zia e da de Sagres foram alguns annos arren- 
dados por 1:600$000 réis, cento e dez al- 
queires de trigo e duas pipas de mosto. 

VILLA BOA — Aldeia da freguezia de 
Serapicos no concelho de Valpassos, perten- 
cente á diocese de Braga desde 1882. 

Foi séde da extíncta freguezia de Santo 
Estevão de Villa Boa de Carças. O sr. J. M. 
Baptista na sua Chrographia Moderna men- 
ciona mais 27 aldeias ou simples povoações 
e 4 quintas ou casas com o nome de Villa 
Boa. 

VILLA BOA — Aldeia da freguezia de Boi- 
vão, concelho de Valença do Minho, da qual 
já se fallou no vol. l.°, pag. 407, col. 2.» 
Vide. 

Comprehende esta freguezia as aldeias de 
Lordello, Pedreira, Paço, Cimo de Villa e 
Villa Boa. 

N'esta foi publicamente exautorado com 
todas as formalidades do estylo, em 10 de 
outubro de 1839, o 2.° sargento de infan- 
teria n.° 10. José da Silva Rosa, condemna- 
do em ultima instancia a ser-lhe despida a 
farda com todos os signaes de despreso, e 
degredado para um dos logares da Africa 
por 10 annos. 

O crime do dito sargento foi o ter abusa- 
do da sua auctoridade e extorquido dinheiro 
a vários moradores d'aquella aldeia. 

Toda a guarnição da praça de Valença foi 
assistirão acto da exautoração. 

VILLA BOA — freguezia do concelho e co- 
marca de Mirandella, distrieto e diocese de 
Bragança na província de Traz os Montes. 

Orago Santa Maria Madaglena, — fogos 67, 
almas 304. 

Em 1768 contava 43 fogos e rendia réis 
30$0u0. 

Pertenceu ao concelho de Lamas d'Ore- 
lhão, extincto pelo decreto de 31 dezembro 
de 1853, pelo qual passou para o de Miran- 
della, e atá á ultima circumscripção dioce- 



668 



VIL 



VIL 



sana feita em 1882, era do arcebispado de 
Braga. 

É reitoria, hoje annexa civilmente á fre- 
guezia do Franco. Foi apresentada pelo vi- 
gário de Lamas de Orelhão, mas os dízimos 
d'esta parochia, da do Franco e das outras 
d'aqutlle extincto concelho pertenciam ao 
convento das freiras franciscanas de Santa 
Clara de Villa do Conde. 

Comprehende além da povoação, séde da 
freguezia, a pequena aldeia da Gricha, que 
também já foi parochia. 

As suas fregueziaslimitrophes são— Fran- 
co, Ávidagos e Abreiro. 

Dista 3 kilometros para S. E. da estrada 
nova de Villa Real a Mirandella e Bragança, 
— 20 da séde do concelho e 92 da séde do 
disiricto. 

Ê atravessada por uma estrada municipal; 
deve passar a 15 kilometros de distancia 
a linha ferroa de via reduzida em construc- 
ção da foz do Taa (linha do Douro) a Mi- 
randella,'— e dista da foz do Tua e da linha 
do Douro 30 kilometros para N. E. 

Oi seus templos reduzem-se á egreja ma- 
triz e a uma capella sem terem coisa algu- 
ma digna de menção. 

E' banhada por dois pequenos ribeiros 
que nascem na serra do Franco e desaguam 
na margem direita do Tua a 12 kilometros 
de distancia, sem terem pontes nem move- 
rem moinhos. 

As suas produeções dominantes são vinho, 
azeite e cereaes. 

O seu vinho é bom, como vinho de pasto, 
por estar esta freguezia comprehendida na 
região da Terra Quente, mas os seus vi- 
nhedos acham-se compromettidos e doentes, 
como todos os do Douro, depois da invasão 
phylloxerica. 

É uma aldeia pequena e pobre. 

Muito tínhamos a dizer com relação á 
freguezia do Franco, hoje identificada com 
esta, mas como somos obrigados a aligeirar 
e resumir, veja-se Franco n'este diccionario 
e no siipplemento. 

VILLA BOA — Freguezia do concelho e 
comarca de Barcellos, districto e diocese de 
Braga. Abbadia. Orago S. João Baptista, fogos 
60, almas 280. 



Em 1768 contava 66 fogos ; era da apre- 
sentação da mitra e rendia 300 mil réis. 

Dista de Barcellos 3 kilometros para N., 
cerca de 20 de Braga para O. e 4 da mar- 
gem direita do Cavado para N. 0. 

Comprehende as aldeias de Villa Boa, 
séde da freguezia, Covello, Egrega, Estrada, 
Tornada, Forca Velha, Jordão, Bermil, Se- 
rôdio, Cachada, Curujo, Ribada e Siadim. 

As suas produeções dominantes são vinho 
verde e cereaes. 

Foi da apresentação da mitra. 

VILLA BOA — freguezia do concelho e 
comarca do Sabugal, districto e diocese da 
Guarda, província da Beira Baixa. 

Orago S. Pedro ad Vincula, — fogos 200,. 
almas 801. 

Em 1768 era curato da apresentação do 
reitor da Nave ; — contava 109 fogos e ren- 
dia 401000 réis; — depois foi annexa á fre- 
guezia da Nave, 3 kilometros distante para 
leste, mas desde 1834 é abbadia indepen- 
dente. 

Pertenceu ao bispado de Lamego, — de- 
pois ao de Pinhel — e desde 1882 ao da 
Guafda pela suppressão legal do de Pinhel 
e pela ultima circumscripção diocesana 
operada em 1882. 

Esta freguezia é formada por uma povoa- 
ção única. Não tem aldeias nem quintas, 
casaes ou herdades dignos de men<;ão. O 
seu prédio mais considerável é a quinta do 
Costa, entre esta freguezia e a de Rendo. 

Parochias limitrophes — Souto e Nave, a 
leste, — Buvina, ao norte, — Rendo, a oeste 

— e Quadrazaes, ao sul. 

Dista 8 kilometros do Sabugal para N. E. 

— 28 da Guarda para S. O. — 15 da estação 
da Cerdeira na linha da Beira Alta, — 242 
da cidade da Figueira, — 296 do Porto — c 
420 de Lisboa. 

Ha n'esta freguezia as 3 capellas seguin- 
tes — Nossa Senhora da Assumpção na séde 
da parochia; S. Gregorio 2 kilometros a 
leste, no cabeço do seu nome e Santo Antão 
1:500 metros ao sul, entre Villa Bia e 
Ouzendo, freguezia hoje annexa á de Gua- 
drazaes. 



VIL 



VIL 669 



A de S. Gregorio tem festa e romagem no 
dia 12 de março e a de Santo Antão 2 festas 
com romagem também a 17 de janeiro, dia 
do orago, e na 2." feira immediata á dominga 
in Albis 

Santo Antão é particularmente venerado 
pelos povos circumvisinhos que, em satisfa- 
ção de voios, costumam offertar-lhe no dia 
17 de janeiro, trigo, centeio, dinheiro, chou- 
riços e pés de porco. E' tal a fé com este 
santo que as mulheres de Quadrazaes cos- 
tumam esfregar a capella cora lenços e de- 
pois com os lenços a cara, julgando que 
isto as preserva das bexigas I . . . 

Esta paroehia é banhada pelo ribeiro da 
Murganheira que move 6 moinhos, 4 pisões 
e 2 fabricas de cobertores de lã. Não tem 
pontes e desagua a menos de 1 kilometro 
d'esta paroehia na ribeira de Poucafarinha, 
confluente do Côa. 

As suas producções dominantes são — 
batatas, milho, centeio, trigo e castanhas. 

Tem uma escola d'instrucção primaria 
para o sexo masculino, creada era 1882. 

Ao digno abbade actual d'esta freguezia, 
o sr. padre Francisco da Ressnrreição Que- 
lho, agradeço os apontamentos que se dignou 
enviar-me. 

VILLA BOA — freguezia do concelho e 
comarca de Sattam, districto e diocese de 
Viz^u, província da Beira Alta. 

Orago S. Miguel,— fogps 349, almas 1 :573. 

Em 1768 era vigairaria do padroado real, 
contava 200 fogos e rendia 40$000 réis. 

Comprehende 8 aldeias — Abrunhosa, La- 
dario, Serraquim, Travaço, Travacinho, 
Travaneella, Portella, Villa Boa, Carvalho, 
Crujeira, Fervença, Forno Telheiro, Outeiro, 
Prechocas, Sequeiros, Torneiros e Villa 
Nova. 

As suas quiDtas principaes são— Ramada 
e Paços, de Antonio Maria Lopes d'Almeida 
Ferreira,— Tapada, de José Cardoso de 
Carvalho Homem, — Regada e torneiros, de 
Antonio e Manuel de Figueiredo, — Sequei- 
ros, do cónego Francisco d'Abreu, — Coru- 
geira, do dr. Valeriano Pinto de Queiroz, 
— Egreja, de Manuel de Figueiredo — e 
Villaboinha, do Visconde de Loureiro. 
volume x 



Freguezias limitrophes — Villa d'Egreja, 
S. Pedro de Franco, Povolide, Pindo, Lu- 
zinde e Rio de Moinhos. 



Dista da séde do concelho, que é a paro- 
ehia de Villa da Egreja, 7 kilometros para 
S. O. — de Vizeu 20 para N E — da linha 
férrea da Beira Alta (estação de Mangualde) 
20, — da Figueira 148, do Porto 204 e de 
Lisboa 328. 

A povoação de Villa Boa está em um 
valle, cerca de 3 kilometros a E. da mar- 
gem esquerda do rio Sattam, rio que dá o 
nome a este concelho e desagua no Dão, 
confluente do Mondego. 

Atravessa esta freguezia a estrada distri- 
ctal n.° 40 e passa a 7 kilometros a estrada 
municipal de Caslendo a Mangualde. 

Ha n'esta freguezia 4 capellas publicas 
— Senhora da Esperança, privativa da sua 
irmandade, S. Silvestre, S. Paulo. S Domin- 
gos e 5 particulares — uma em Torneiros, 
outra em Serraquim, outra na Abrunhosa 
e duas em Villa Nova, - todas em bom es- 
tado de conservação. 

Ha também n'esta freguezia, além da sua 
egreja matriz em Villa Boa, outra egreja no 
Ladario, que era a matriz da villa e paro- 
ehia d'este nome, hoje extincta e annexa á 
Villa Boa. 

V. Ladario, vol. 4.° pag. 10, col. 1." 

A capella de Nossa Senhora da Esperança 
na aldeia da Abrunhosa é um dos mais 
formosos templos das circumvhinhanças, 
muito elegante, bem alfaiada, muito bem 
tratada e situada era local muito interes- 
sante e pittoresco. Pertence a uma riea e 
numerosa irmandade 1 com muitas indul- 
gências e privilégios especiaes e todas as 
indulgências concedidas á venerável archi- 
confraria do Santíssimo Sacramento da Ba- 
sílica lateranense de Roma, á qual foi agre- 
gada em 174'L 



1 Esta irmandade foi erecta em 1690, 
sendo bispo de Vizeu D. Jeronymo Soares, 
e em 1716 contava 3ò'0 irmãos. O papa Ale- 
jandre VIU lhe concedeu muitas imíulgen- 
cias. V. Sant. Marian. voi. 5.° pag. 476. 

43 



670 VIL 



VIL 



Tem luzida festa e grande romaria no 
dia da padroeira, 8 de setembro. 1 

Ha na povoação e villa extincta do Ladario, 
hoje parte integrante d'esta freguezia de 
Villa Boa, uma feira considerável todas as 
segundas feiras depois do 4.° domingo de 
cada mez, avultando em gado bovino preto 
e cereaes. 

Na mesma povoação ha um grande edifí- 
cio brasonado, hoje em ruinas, pertencente 
ao conde da Lapa, e outro na povoação de 
Torneiros. Pertenceu ao dr. Diogo do Ama 
ral e hoje é de Antonio de Figueiredo. 

Ha também no Ladano um edifício im- 
portante e digno de menção, embora não 
seja brasonado, — é a antiga Casa de Borba, 
hoje em reediíicaçào e pertencente a Luiz 
Philippe de Carvalho- Homem. 

Esta freguezia de Villa Boa nunca foi 
villa, mas sim a do Ladario, hoje extincta e 
annexa a esta. 

Ainda conserva o seu vetusto pelourinho 
como tropheu da gloria perdida. 

Banham e fertilisam esta parochia o Sat- 
tam e 8 ribeiros, dos quaes 3 desaguam no 
Côja e 5 no Saltam. 

Tem 12 moinhos, uma azenha e 2 pontes 
de pedra, — uma em Villa Boa, outra em 
Fer vença. 

As suas producções dominantes são — 
cereaes, vinho e fructa. 

Tem apenas uma aula d'instrucção pri- 
maria elementar para o sexo masculino. 

Appareceram e conservam-se ainda na 
aldeia de Travacinho duas moedas romanas, 
uma de cobre e outra douro, do tempo de 
Constantino Magno (dizem os apontamentos 
que recebi da localidade) — e o dr. Húbner 
diz que appareceu aqui uma lapida sepul- 
chral na aldeia de Villa Boa, mas não deu a 
copia d'ella. Notic. Arch. de Port. pag. 66, 
na traducção feita pela Academia Real das 
Sciencias d* Lisboa, 1871. 

A sede d'este concelho e d'esta comarca 



1 «A riqueza do templo e o magestoso do 
arraial não tem igual entre nós» — diz um 
jornal de Vizeu. 



de Sattam está, como dissemos, na parochia 
limitrophe— Villa da Egreja, mas muito 
injustamente, pois por todas as considera- 
ções a sede d'este concelho e d'esta comarca 
devia ser a importante povoação do Ladario, 
hoje pertencente a esta freguezia de Villa Boa. 

Para evitarmos repetições, vejam-se os ar- 
tigos Sattam, vol. 9.° pag. 64 — e Villa da 
Egreja. 

VILLA BOA DO BISPO — freguezia do 
concelho e comarca de Canaveses, districto 
e diocese do Porto na província do Douro. 

Orago Santa Maria, — fogos 362, almas 
1:360. 

A Chorographia Portugueza (vol. l.° pag. 
398 a 400) deu lhe em 1706 — 260 fogos 
— e o Portvgal Sacro e Profano em 1768 
deu-lhe 329 fogos e 600000 réis de rendi- 
mento ao seu vigário, que era apresentado 
pelo prior dos cónegos regrantes de Villa 
Boa. 

Pertenceu esta freguezia ao antigo conce- 
lho de Bem Viver (vol. l.° pag. 382 col. 2. a ) 
extincto, bem coroo o de Soalhães, pelos 
decretos de 31 de março e 28 de dezembro 
de 1852 — e 31 de dezembro de 1853, pas- 
sando as freguezias que os compunham e 
outras a constituir o novo concelho do 
Marco de Canaveses. 

Comprehende esta freguezia os logares de 
Betiro, Lamoso, Pinheiro, Pombal, Veiga, 
Formiga. Casal, Casadella, Casal de Mattos, 
Lages, Meixide, Estrada, Sidraes, Cavalhões, 
CavalhÕesinhos, Bairral, Uzenda, Deguilhas, 
Fafiães, Bouça, Bibeira do Barco, Bibeira 
de Cima, Bibeira de Baixo, Albello, Valle, 
Valverde, Mirijeíro, Quebradas, Villar, Ou- 
teirinho, Coalva, Quintâs, Carcavellos, Eidi- 
nho e Lavandeira— e as habitações isoladas 
de Baceira, Bremes e Gandra. 

Está na margem esquerda do Tâmega e 
as suas freguezias limitrophes são — a O. 
S. Paio de Favões e Ariz *, — Sande a S. — 



1 Esta parochia pertence ao concelho de 
Canaveses e não ao de Baião, como por la- 
pso se dis«e quando se fallou á'Ariz. Tem 
aqui a sua casa o visconde d'Ariz, na povoa- 
ção da Feira Nova, onde se faz uma feira 
importante bimensal, nos dias 12 e 27. 



VIL 



VIL 671 



Avessadas a E. — e ao norte Abragão, na 
margem direita do Tâmega. 

Dista cerca de 12 kilometros da foz do Tâ- 
mega e da lioha férrea do Douro, (estação 
de Marco) — 9 da sede do concelho e 72 do 
Porto. 

Passa ao nascente d'esta freguezia a es- 
trada n.° 12, de Basto a Entre os Rios, que 
a liga com a estação do Marco — e já chega 
á freguezia limitrophe de Abragão a nova 
estrada a macadara dé Penafiel ao apeadeiro 
da Palia na linha do Douro. 

Moninho Viegas, o gasco, em cumprimento j 
d'um voto feito quando andava por estes sí- 
tios pelejando contra os mouros, fez aqui 
um mosteiro de cónegos regrantes, ao qual 
deu principio em 990 N'este mosteiro pas- 
sou os últimos 5 annos da sua larga vida o 
bispo resignatario do.Porto D. Sizeoando, ir- 
mão do fundador. 

Vivendo aqui o santo e decrépito D. Size- 
nando, costumava ir todas as sextas-feiras 
dizer missa em uma capella que havia no 
monte próximo, cerca de 2 kilometros para 
o nascente do mosteiro, dedicada a S. Sal- 
vador, e, estando um dia a celebrar o sancto 
sacrifieio, os mouros que ainda habitavam 
terras não muito distantes na margem es- 
querda do Douro, o surprehendei am e tru- 
cidaram, em 1035. Os cónegos regrantes o 
sepultaram sob o altar da capelinha onde 
foi morto e alli se conservaram os seus res- 
tos mortaes 107 annos, até 1142, data em 
que D. Pedro Ribaldis, bispo do Porto, indo 
ao dicto mosteiro, mandou abrir o tumulo de 
D. Sizenando, cujo corpo encontrou intacto 
e o fez trasladar para a egreja do mosteiro, 
onde foi mettido em um outro tumulo de 
pedra (á direita, entrando pela porta princi- 
pal). O 1.° tumulo tinha a inscripção se- 
guinte: 

III KAL. FEBR. OBIIT 

in DoMmo D. Sesnandus, Epis 
copus Portugal" a Maurorijm 
teus confossu9, dum sacrum 
faceret. Era MLXXIII. 

«aos 30 dias do mez de janeiro falleceu 
o bispo do Porto D. Sizenando, morto ás 



lançadas pelos mouros, quando estava a di- 
zer missa. Na era de 1073 (anno de 1035).» 

O 2.° tumulo (na psrede da egreja do con- 
vento) tinha esta inscripção : 

Martvr, & Antistes jacet hic 
rite sepultus v. idus octob. in 

Era M. C. LXXX. 
Sesnadus nomine, qubTChristus 

a d aethera supsit 
III Kal. Feb. in Era M.LXXIII. 

«O marfyr e bispo D. Sisnando, a quem 
Christo levou para o ceu em 30 de janeiro 
do anno de 1035, foi aqui sepuliado com so- 
lemne rito em 2 d'outubro de 1142.» 

Esta parochia tomou o titulo de villa desde 
que el rei D. Affonso Henriques visitou este 
mosteiro e o coutou, em 12 de fevereiro de 
1141. 

Dizem que se denominou Villa Boa por 
ser o seu chão mimoso, saudável o fértil,— 
e do Bispo para commemorar e perpetuar o 
martyrio de D. Sizenando. 

Também se diz que foi este santo e mar- 
tyr o primeiro christão que se sepultou den- 
tro de um templo (a capellinha de S Salva- 
dor) no bispado do Porto, honra que nem 
aos fundadores das egrejas se concedia, como 
prova o terem sido sepultados seu irmão e 
sobrinhos em jazigos nas paredes da egreja 
do convento para o lado dos claustros, onde 
ainda^hoje se conserva a inscripção seguinte: 

Era M. C. LX. 1 obit D. Mumò 
Viegas, pkioli, qui dicitur gascus, 
et filii ejus, egas muniz, et 
Gomez Muniz. Requiescãt 
in pace. amen. 

•Na era de 1060 (anno de 1022) morreu 
o prior D. Moninho Viegas, chamado o gasco, 
e jazem aqui com elle seus filhos Egas Mo- 
niz e Gomes Moniz. Dencancem em paz. 
Amen.» 



i Assim se lê na Chronica dos Cónegos Bè- 
grantes, vol. l.° pag. 288, mas deve lér-se: 
Era M. LX. 



672 VIL 



VIL 



Este mosteiro de Villa Boa, originaria- 
mente de cruzios, passou em 1740 para os 
jesuítas, que alli viveram até á sua extinc- 
ção, revertendo em seguida para a coroa; 
depois foi veDdido por uma bagatella a um 
particular, que o revendeu á família Ribeiro 
Vieira, em cuja posse ainda hoje se con- 
serva. 

A sua egreja foi sempre a matriz d'esta 
parochia e o mosteiro, sempre pequeno, está 
bem conservado, bem como a cerca, que tem 
sólidos muros, 

A torre foi n'este anno de 1884 reformada 
á custa do governo, sendo para lamentar 
que lhe pozessem uma cúpula de madeira e 
lousa, bavendo na localidade bom granito. 
Nos claustros e na egreja se conservam dif- 
ferentes sepulturas antigas, além das men- 
cionadas, com as suas respectivas inscri- 
pções, tal è a de Julio Geraldes fallecido na 
era de 1419, cuja familia é hoje represen- 
tada por Antonio Carneiro Geraldes de Fi- 
gueiroa, da Casa Nova, na freguezia limi- 
trophe de S. Paio de Favões,— e outra do D. 
prior Salvador Pires, fallecido em 1392. 

Também alli jaz Pedro Gonçalves Cabral, 
filho do commendatario D. Nicolau, casado 
com D. Brites Affonso Vieira de Mello, de 
quem descendem os Vieiras Lemos da casa 
do Ribeiro, em S. Lourenço, representados 
hoje pela viscondessa deNegrellos;— os Viei- 
ras de Mello, da casa do Pinheiro, também 
de S. Lourenço do Douro, representada por 
Luiz Carneiro de Vasconcellos, casado com 
D. Maria Thereza Nobre, de Penafiel, — e os 
Mellos das casas da Lage e Foz, de S. Tho- 
mé de Covellas, representadas por D. Maria 
de Mello e sua irmã D. Anna Amélia Pinto 
da Cunha; a 1.» casou com Joào da Silveira 
Pereira Bravo, da Quinta, de S. Thia^o de 
Piães;— a 2." que também succedeu na casa 
de Carrapatello, freguezia de Penhalonga *, 
casou com Duarte Huet Bacellar, de quem 
faremos menção em Villa Boa de Quires. 

Villa Boa do Bispo é uma das freguezias 



1 Vide Penha Longa no vol. 6.°d'este dic- 
cionario e no supplemenlo. 



mais importantes d'este concelho. As suas 
producções dominantes são fructas, vinho 
verde e cereaes, e tem muitas casas nobres, 
tal é a do Cosa/Junto da grande capella pu- 
blica do Pinheiro, que tomou o nome d'um 
monstruoso pinheiro, ha poncos annos der- 
rubado por urna tempestade. Deu taboas que 
mediam i m ,30 de largura, e ainda lá se vêem 
outros pinheiros de notável grandeza, per- 
tencentes á dieta quinta do Casal, do vis- 
conde de Alemtem, cavalheiro respeiíabilis- 
simo e o primeiro proprietário ao concelho 
de Lousada. Entre oh seus nobres ascenden- 
tes conta D. Christovam d'Almeida Soares, 

1. ° bispo de Pinhel (V. vol. VII pag. 64, col. 

2. » e seg.) 

Outra familia nobre é a d'Alvélo, dos Ge- 
raldes, da Casa Nova; — outra era a de Olei- 
ros (Pereiras Bravos) cuja casa passou aex- 
tranhos; — outra é a da Lavandeira, dos 
Britos Corte-Reaes, representada pelo dr. 
Antonio Pimentel Cone-Real e por seu ir- 
mão Carlos Corte-Real. 

São também dignas de menção as casas de 
Carcavellos, Eidinho, Cortes, Cavalhões, Ca- 
valhõ-sinhos e a do Barral, pertencente ao 
dr. Augusto Anthrro de Madureira, que foi 
commtssario geral da policia no Porto e é 
hoje official do governo civil d'este distri- 
cto, casado com D. Carlota de Lencastre, ir- 
mão do visconde d'Alemtem. 

No alto d'esta freguezia está o Monte 
Arado (mons aratvs) e na cumiada d'elle 
se vêem as ruinas d'um grande castello que 
se suppõe estar occupado p^los mouros 
quando D. Moninho o cercou e tomou, pelo 
que fez o voto de edificar o mosteiro. 

Foi tal a mortandade nos mouros fugiti- 
vos (diz a lenda) que a uma ponte próxima 
se deu o nome de ponte da Degola, nome 
que ainda hoje conserva. 

Este D. Moninho Viegas reedificou a ci- 
dade do Porto, depois de expulsar d'ella os 
mouros, e, unido á hoste de Mendes de Sousa 
e de Arnaldo de Baião, levou os mouros de 
vencida até Rezende, havepdo lhes tomado 
entre outros, os castellos de Villa Cova, de 
Vez d'Aviz e de Abragão, na margem direita 
do Tâmega, hoje concelho de Penafiel, no 



VIL 



VIL 



673 



ullimo dos quaes mataram o seu alcaide 
Agam e fizeram prisioneira Zaara, sua filha» 
a qual depois resgataram os mouros e era 
easada com o rei de Lamego Iben Alboacem, 
que v» iu com grandes forças vingar a morte 
do sogro, ficando por seu turno vencido na 
grande batalha do Mons Aratus. 

N'esta freguezia se vê ainda hoje em uma 
bouça, juoto da estrada publica, um arco de 
granito em ogiva, d-nominado Marmoiral 
(Memorial) sendo muito diversas as opiniões 
relativamente á sua fundação e significação. 

Para evrarmos repetições veja se no i.° 
vol. pag. 503 o artigo Bvgefa; no 5,° vol. pag- 
87, col. i. a o artigo Marmoiral— e no mesmo 
volume, pag. 67, col. 2 .■ o tópico Santa Ma- 
ria de Villa Boa do Bispo, no artigo Marco 
de Canaveses. 

O padre Carvalho na sua Chorographía 
Portugueza, tomo I pag. 399, diz que o Mar- 
moiral commemora o sitio onde esteve a Ca- 
pella em que foi martyrisado D. Sisnando. 
Tot capita, tot sententiae ! . /. 
Com relação ao mosteiro de Villa Boa do 
Bispo e ao martyrio de D. Sisnando, leia-se 
a Chorographía Portugueza, logar citado, e 
a Chronica dos Cónegos Regrantes por D. Ni- 
colau de Santa Maria, vol. I pag. 287 a 294. 

Ao ex. mo sr. Duarte Huet Bacellar agra- 
deço os apontamentos que se dignou forne- 
cer-me para este artigo. 

VILLA BOA DO CARCÃOZINHO— fregue- 
zia do coucrlho e bispado de Bragança, hoje 
extincta e annexa á de Serapieos do mesmo 
concelho. 

Villa Boa e Carcãozinho foram outr'ora 
freguezias independentes e pertenciam ao 
concelho de Izeda, extincto pelo decreto de 
24 doutubro de 1855. Hoje são duas peque- 
nas aldeias da mencionada freguezia de Se- 
rapieos ou Sarapicos, parochia (abbadia) in- 
dependente, mas que por seu turno ja foi 
curato aunexo á abbadia de S. Pedro de Car- 
ças, do mesmo concelho de Bragança. 

Vide Carcãozinho, vol. 2.° pag. 105, col. 
d. a — e Serapieos (a 1.", orago N. S. da As- 
sumpção) vol. 9.° pag. 150, col. l. a n'este 
diccionario e na Chorographía Moderna, vol. 
l.o pag. 320. 



VILLA BOA D'0UZILHÃ0— freguezia do 
concelho de Vinhaes em Traz-os-Montes. 

Já se tratou d'esta freguezia no artigo Mi- 
guel de Villa Boa de Ouzilhão (S.)— vol. 5.° 
pag. 220, col. 1." Vide. 

Esta parochia está hoje annexada civil- 
mente á de Ouzilhão. Vide, vol. 6.° pag. 363, 
col. 2. a 

VILLA BOA DE QUIRES — freguezia do 
concelho do Marco de Canaveses, districto e 
diocese do Porto, na província do Douro. 

Orago Santo André— fogos 430, habitan- 
tes 1:700. 

A Chorographía Portugueza deu-lhe 212 
fogos— o Port. Sacro eProf. 304,— Almeida 
383 — e o Almanach Ecclesiastico do Porto 
para o anno de 1857 deu-lhe os mesmos 383 
fogos e 1:317 almas. 

É hoje abbadia, mas já foi reitoria apre- 
sentada p^la casa de Bragança, rendendo 
apenas 90$000. 

O Almanach Eccles. diz que rende 250$000 
rs , sendo 50$000 rs. provenientes do passal, 
10411000 réis do pé d'altar e benesses e 
96$000 réis de derrama. 

Tem coadjutor com 671960 réis pagos 
pela freguezia,— residência e cemitério pa- 
rochial. 

Esta freguezia pertenceu ao concelho de 
Penafiel, mas por decreto de 31 de dezem- 
bro de 1853 passou para o de Canaveses. 

Em tempos anteriores foi commenda da 
ordem de Christo, pertencente á casa de 
Bragança e cabeça do couto de Villa Boa de 
Queires no antigo concelho de Porto Car- 
reiro, comarca ou provedoria do Porto, de 
onde dista 56 kilometros, pela linha férrea 
do Douro (estação de Villa Meã), — 5 ki- 
lometros d'esta estação — e approximada- 
mente 8 das estações do Marco de Canave- 
ses, Penafiel e Cahide, com as quaes se acha 
ligada pela estrada real n.° 34, que passa ao 
nascente d'esta freguezia. 

As suas parochias limitrophes são a leste 
Sancta Eulália de Constance, Canaveses e o 
Tâmega, — ao poente Villa Cova de Vez de 
Aviz, Rande e Croça, — ao sul Mourelles e 
Abragão — ao norte Castellões e S. Martinho 
de Recesinhos, no concelho de Penafiel. 



674 VIL 



VIL 



Teve foral dado por D. Manuel em Lis- 
boa, no dia 1 de setembro de 1513. Era o 
mesmo do antigo couto e villa extínctos de 
Porto Carreiro e comprehendia também a 
freguezia de Abragão. 

A egreja matriz é um templo muito anti- 
go, pequeno, mas de merecimento, estylo 
gothico, paredes revestidas d'azulejo, no ci- 
mo d'ellas varias figuras e sereias esculpi- 
das em granito, capella-mór abobadada com 
apainelados e boas pinturas a oleo represen- 
tando os Passos do Redemptor; altar-mór e 
4 lateraes, todos de entalha antiga dourada» 
e confrarias ou irmandades do Santíssimo 
Sacramento, Senhora do Rosario e Menino 
Deus, todas de remota fundação. 

Como a egreja fosse muito pequena para 
a população actual d'esta parochia, amplia- 
ram-n'a recentemente, accrescentando-lhe 
quasi o dobro em comprimento, prolon- 
gando-lhe as paredes lateraes até absorve- 
rem a galilé ou alpendrada que tinha na 
frente, e que era um pouco mais baixa do 
que a egreja, tapada pelo sul por uma pa- 
rede, — pelo norte e poente firme em colu- 
mnas de pedra— e pelo nascente presa ao 
frontispicio da egreja, .que olhava e olha 
para o poente. 

Também lhe addicionaram uma torre, pois 
só tinha um campanário de duas sineiras 
que rematava a frontaria do templo. 

Houve todo o cuidado em respeitar o seu 
estylo archiiectonieo, pelo que a 'sua fronta- 
ria actual é com pequena differença a mesma 
que tinha antes da ampliação. Apenas avan- 
çou alguns metros para a frente, conservan- 
do o seu elegante pórtico, hoje mais vistoso 
e desafrontado, com as suas quatro ordens 
de columnas e correspondentes arcadas fir- 
mes em capiteis muito ornamentados, re- 
presentando cabeças de boi e outros ani- 
maes, tudo de granito, e superiormente a 
fresta do velho templo, no mesmo estylo do 
pórtico. 

No acto da demolição e remoção da fron- 
taria, encontrou-se uma pedra com uma 
data que se julgou ser 1180. 

Em seguida á ampliação do templo foram 
restaurados e dourados de novo os altares, 



— e também se alargou o cemitério e se res- 
taurou e accrescentou a residência paro- 
chial. 

Todas estas obras foram levadas a effeito 
por espontânea generosidade d'alguns paro- 
chianos beneméritos, debaixo da activa e ze- 
losa inspecção do não menos benemérito pa- 
dre Vietorino José Alves, professor régio 
n'esta parochia, sendo muito efficazmente 
auxiliado pelo sr. Antonio de Vasconcellos, 
da nobre casa dos Chãos. 

As producçòes principaes d'esta parochia 
são fructas, cereaes e vinho verde— e os seus 
habitantes são muito trabalhadores e indus- 
triosos, pois n'ella abundam pedreiros, car- 
pinteiros, trolhas, ferreiros, serralheiros, al- 
faiates, soqueiros, chapelleiros de palha e 
tecedeiras. 

Também aqui ha uma boa banda de mu- 
sica, desde longa data. 

No Allo do Crasto, ao cimo e poente d'esta 
freguezia, houve em tempos remotos um Cas- 
tello, de que ainda hoje se vêem os alicer- 
ces, a 6 kilometros da margem direita do 
Tâmega, approximadamente;— e no logar da 
Torre ainda existe a casa da camará e ca- 
deia do antigo concelho e couto de Porto 
Carreiro, ha poucos annos vendida pelo es- 
tado a um particular que a modificou e 
apeou o velho pelourinho. 

A pequena distancia da dieta casa se vêem 
também ainda hoje as ruinas do antiquíssi- 
mo solar da Torre de Porto-Carreiro, divi- 
dido em emphyteuse por vários lavradores, 
alguns dos quaes ainda reconhecem por di- 
recto senhorio a nobre família Porto Carrei- 
ro, do palácio das Sereias ou da Bandeiri- 
nha, no Porto, hoje representada por João 
Pinto Pisarro da Cunha Porto Carreiro, ca- 
sado e com sueeessão, descendente de D. 
Reymão Garcia Porto Carreiro quii veiu para 
Portugal com o conde D. Henrique e foi o 
primeiro que usou d'este appellido, depois 
que o dicto conde D. Henrique lhe deu e 
cuutou a terra e concelho de Porto Carrei- 
ro n'esta freguezia, onde estabeleceu o seu 
solar, na celebre quinta e casa da Torre, 

D. Reymão Garcia Porto Carreiro era fi- 



VIL 

lho de D. Garcia Affonso, rico-homem do 
tempo de D. Ordonho III de Leão e descen- 
dente dos mesmos reis de Leão. 

D'esta família Porto-Carreiros descendem 
muitas famílias da primeira nobreza de Por- 
tugal e da Hespanba, taes são os Viscondes 
de Porto Carreiro, de Laborim e de Boviei- 
ro, os condes da Costa, os Vasconeellos da 
casa de Villa Boa de Quires, os Huets e Gue- 
des do Buibal, Padornello e Fojo, os Cyr- 
nes do Porto, os Guedes d'Avelêda, etc — e 
em Hespanha os condes de |eba e de Mon- 
tijo, Medelim, Puebla dei Maestro, Palma, 
Montalvim e Mondava, — os marquezes de 
Villa Nueva dei Fresno, Alcalá, Alameda e 
Barca-Bota e os duques de Ossuna, todos 
grandes de Hespanha, muitos dos quaes se 
appellidam ainda hoje Porto-Carreros. 

Os condes de Montijo são em Hespanha os 
representantes do ramo primogénito dos Por- 
to-Carreiros portuguezes, e por isso a ultima 
imperatriz dos francezes, D. Eugenia, viuva 
de Luiz Napoleão, se appelliJa Gusman de 
Porto Carrero, por ser filha dos menciona- 
dos condes. 

Para evitarmos repetições, veja-se o art. 
Porto, vol. 7.° pag. 519, col. l. a e seg. — e 
pag. 500, col. 2 a — e o art. Porto Carreiro, 
no mesmo vol. pag. 565, col. 1." 



Ha n'esta freguezia 4 capellas publicas: 
Senhora do Pilar, (em ruinas) S. Sebastião, 
Senhora do Penedo e Calvário, em substitui- 
ção da antiga capella de S Miguel— e 4 par- 
ticulares das casas de Villa Boa, Penidos, 
Buriz e Telha. Esta ultima foi da nobre fa- 
mília Camellos Leites e é hoje d'um lavra- 
dor, por compra. 

Tem aqui o conde de Bezende o Paço do 
Pombal, que foi também dos Porto Carrei- 
ros, mas venderam-no a Duarte Carneiro 
Bangel. Estava fóra do antigo concelho de 
Porto tarreiro, no antigo couto que houve 
na parte norte d'esta freguezia. 

É natural d'esta parochia, da nobre casa 
dos Chãos, o sr. Duarte Huet Bacellar, cava- 
lheiro respeitabilissimo, casado com a ex.™* 
Sr. a D. Anna Amélia Pinto da Cunha e Abreu, 
residentes no Porto. 



VIL 675 

No supplemento a este artigo darei uma 
nota genealógica de ss. ex." 

Foi muitos annos abbade d'esta freguezia, 
collado em 19 de junho de 1841, o rev. José 
Joaquim Duarte Pinto Bandeira e Castro, 
egresso franciscano da província da Sole- 
dade, prégador eleito em capitulo geral da 
sua ordem, no dia 15 de novembro de 1823. 

Veja-se no supplemento a este diccionario 
o artigo Villa Boa de Quires. 

VILLA BOA DA RODA— concelho extineto 
na antiga comarca de Guimarães; distava 
cerca de 2i kilometros de Braga para N. E. g 
e comprehendia somente a freguezia, de S-i$j 
Thiago de Guilhofreí, hoje pertencente ao'| 
concelho e comarca de Vieira.Y. Guilhofrei. 

Era da coroa; tinha juiz ordinário e de I 
órfãos, 2 vereadores e procurador do con- 
celho feitos por pelouro e eleição triennal do 
povo, a que presidia o corregedor de Gui- 
marães— 2 escrivães, distribuidor, inquiri- 
dor, contador, almotacé e meirinho, que ser- 
via de carcereiro. 

El- rei D. Manuel lhe deu foral em Lisboa 
no dia 8 d'agosto de 1514 ». 

Pela divisão judicial feita por decreto de 
7 d'agosto de 1835, ficou pertencendo ao 
julgado de primeira instancia de Cabeceiras 
de Basto e pelo recenseamento de 1820 con- 
tava 310 fogos; o Flaviense deu-lhe 1:108 
habitantes e o padre Carvalho 130 fogos. 

Agradeço estes apontamentos ao meu il- 
etrado collega o rev. José dos Santos Mou- 
ra, digníssimo abbade de Caires. 

VILLA BOIM — freguezia e villa extincta 
no concelho e comarca d'Elvas, hoje diocese 
d'Evora, districto de Portalegre, na província 
do Alemtejo. 

Até 1882, data da nova cireumscripção 
diocesana, pertenceu ao extineto bispado 
d'Elvas. 



i Livro de Foraes Novos de Traz-os-Mon- 
tes fl. 23, col. 2 a 

Também teve foral velho, dado por el-rei 
D Affonso III em Guimarães no dia 15 de 
fevereiro de 1261. Livro I de Doações do sr. 
Rei D. Affonso III, fl. 51. col. 2* 

Veja-se a Inquirição para o Foral Novo 
no Maço único de Inquirições, armário 17, 
n.° 15. 



676 



VIL 



Orago S. João Baptista,- fogos 120, almas 
1:697. 

Em 1708 contava 60 fogos — e 120 em 
1767. 

É priorado ; foi da apresentação da casa 
de Bragada e peio meiado do ultimo século 
rendia apenas 90:000 réis. 

Dista d'Elvas 10 kilometros para O. S. E. 
— 60 de Portalegre e 70 d'Evora, 12 da es- 
tação d'Elvas, no caminho de ferro de leste., 
e é atravessada pela estrada real a macadam 
d'Elvas para Extremoz, construída de 1848 
a 1857. 



Comprehende além da villa, séde da paro- 
chia, as hortas de Chamorra de Baixo e Cha- 
morra de Cima (que formam a herdade da 
Chamorra, pertencente á casa de Bragança) 
— Poute, Magdalena, Monte Velho, Azenha 
de Pariz — e os montes (casaes) Novo, Val- 
bom, Valverde, Cavalleira, T- ixugo, Serra e 
e um casal na travessa da Magdalena. 

A maior parte d'estes montes são herda- 
des; pertencem á casa de Bragança as de 
Atalaia, Valbom, Castello, Valverde, Caval- 
leira, Teixugo, Serra, Monte Novo e Bama- 
lha, hoje quasi todas divididas em courellas 
pelos habitantes d'esta freguezia, que>s cul- 
tivam e usufruem, mas pagam fòroá casa 
de Bragança. 

Também ha n'esta freguezia a herdade de 
Carnagem ou Canugem, pertencente a Joa 
quim Marques Pinto— e a do Baldio, grande 
parte da qual foi cedida para logradouro com- 
mum aos habitantes d'esta parochia, sendo 
também foreira á sereníssima casa de Bra- 
gança. 



VIL 

Ha também aqui a egreja da Misericór- 
dia e houve (não sei se ha ainda) n'esta 
freguezia, duas capellas mencionadas na 
Chorographia Portugueza,— uma de S. Bar- 
tholomeu, outra de Santa Maria Magda- 
lena. 

Tem feira annual importante nos dias 10, 
li e 12 de maio. 

Esta parochia foi villa e concelho, até 
1836, pertencentes á provedoria ou comarca 
de Villa Viçosa. Ainda existem os antigos 
paços do concelho, a cadeia e o pelourinho. 

As suas ruas principaes são a d' Elvas, a 
meio da qual tem um largo,— a de Burba e 
a de Villa Viçosa. 

Banham esta freguezia os ribeiros de Val- 
verde, do Teixugo, dos Chiqueiros e o de 
Todo o Anno que desaguam a 2 kilometros 
de distancia na ribeira de Moures — e esta 
na margem direita do Guadiana. 

Ha n'esta freguezia duas pontes de pedra 
e uma azenha, movida por agua. 



Freguezias limitrophes: S. Lourenço a E. 
— Santo Antonio da Terrugem a O. — Villa 
Fernando a N.— e Ciladas a S. 

A egreja parochial é um bom templo. Já 
se achava construída em 1446 e foi reedifi- 
cada em 1778 a 1785. Tem capella-mór e 
duas lateraes, uma dedicada a S. Miguel e 
Almas, outra á Seuhora dos Bemedios, to- 
das ires revestidas de mármore. 

A imagem da Senhora dos Bemedios é alvo 
de muita devoção e desde tempos remotos 
tem luzida festa e grande romagem. 



Producções dominantes — vinho, azeite, 
trigo, cevada e aveia, caça e lã, pois cria 
bastante gado lanígero. 

É saudável o clima d'esta parochia, mas 
fez aqui bastantes victimas o cholera em 
1855. 

Entram n'esta parochia as serras de Moi- 
ses (?)— do Maluco (?)— e o monte do Fer- 
reiro, que nada offerecem de notável. 

Tem uma escola publica d'instrucção pri- 
maria elementar para o sexo masculino e 
tres particulares para o sexo feminino,— 
uma casa de Misericórdia muito antiga, mas 
hoje decadente— e duas estalagens. 

Têem apparecido aqui, em differentes pon- 
tos d'esta parochia, moedas romanas e vasos 
de vidro e de louça, revelando muita anti- 
guidade. 

Os duques de Bragança tiveram aqui uma 
grande coutada para os seus entretenimen- 
tos venatorios. 

A povoação de Villa Boim, outr'ora Villa 
a" Aboim, está muito vantajosamente situada 
em alegre e vistosa planície; foi fundada por 
D. João Pires d'Aboim, de quem tomou o 



VIL 



VIL 677 



nome *, como consta da 5.* parte da Monar- 
chia Lusitana, liv. 16, cap. 53, fl. 124, e teve 
antigamente um bom castello, com hortas, 
casas e fontes dentro e fóra d'elle, mas foi 
arrasado pelos castelhanos, quando D. Luiz 
d'Haro sitiou a praça d'Elvas. A este castello 
fof el-rei D. Philippe I, quando estava em 
Elvas, visitar a duqueza de Bragança D. Ca- 
tharina, sua prima co irmã. 

Hoje (1884) apenas restam os alicerces 
d'alguns lanços do mencionado castello e al- 
gumas paredes servindo de muro aos quin 
taes de diversa* habitações. 

A pequena distancia d'este castello e á 
vista d'elle, se erguia uma atalaia na emi- 
nência da serra, occupando o ponto mais 
alto que ha de Lisboa alé Madrid (diz a Clio 
rographia Portugueza). D'ella se descobria 
um vastíssimo horisonte e tres reinos — Por- 
tugal, Castella e Leão, — 3 cidades episco- 
paes, Elvas, Portalegre e Badajoz— uma ar 
chiepiscopal, Merida, a antiga capital da 
Lusitânia, — e grande numero de villas nos 
tres mencionados reinos. 

Até 1836 teve esta villa juiz ordinário, 
feito por pelouro, na fórma da Ordenação, 
2 vereadores, 1 procurador do concelho, 1 
escrivão da camará e da almotaçaria e ou- 
tro dos órfãos, do judicial e notas. 

Têi j -m furai dado por D Manuel em Lisboa 
no dia 1 de julho de 1518. Livro de Foraes 
Novos do Alemtejo, fl. 111, v. col. l. a 

Em junho de 1876 Braz Leon Alvares sol- 
licitou do governo o diploma de descobridor 
legal de uma mina de cobre no sitio de Val- 
bom, desta freguezia. 

Falleceu no dia 6 d'abril de 1876 o abas- 
tado e honrado lavrador d'esta parochia, 
Luiz Marques Pinto, cavalheiro muito esti- 
mável e muito obsequiador. A sua casa e a 
sua mesa estavam sempre á disposição dos 
seus numerosos amigos e mesmo de quaes- 



1 Este D. João d'Aboim foi grande privado 
de D. Affotiso III e de D. Diniz e um dos ho- 
mens mrtis ricos de Portugal no seu tempo. 
É o mesmo de quem ja extensamente se fal 
lou nos artigos Aboim da Nóbrega, vol 1.° 
pag. 14, col 2 a — e Mosteiro (de Nóbrega) 
vol. 5.° pag. 557. Vide. 



quer pessoas extranhas que era passeio ou 
jornada por aqui fizessem caminho. 

Era um quartel general permanente a sua 
casa, pois n'ella recebeu innum^ras vezes 
officiaes de differentes corpos e os gen^raes, 
principalmente quando a séde da divi-ão do 
Alemtejo eslava em Extremoz. Seus paes fo« 
ram egualmente generosos e hospitaleiros e 
tiveram a honra de receber inclusivamente 
a rainha, a sr.» D. Maria II e seus augustos 
filhos, o príncipe D. Pedro, depois rei, D. 
Pedro V, e o infante D. Luiz, hoje imperante, 
quaudo em outubro de 1843 foram a Elvas, 
sendo ainda hoje proverbial a admiração 
que a Sua Magestade causou o lunch que 
os donos da casa lhe offereceram, lunch que 
podia abastecer um exercito 1 

É digno prior actual d'esta freguezia o 
rev. sr. Marcos da Cruz Serpa, a qu-ra agra- 
deço os apontamentos que se diguou en- 
viar-me. 

VILLA CÃ — freguezia do concelho e co- 
marca de Pombal, districto de Leiria, dio- 
cese de Coimbra, na Estremadura. 

Fogos 358, almas 1687, orago S. Bartho- 
lomeu. 

Em 1768 contava apenas 253 fogos, era 
vjgairaria da apresentação d'el-rei pela Mesa 
da Consciência — e rendia 401000 iéis para 
o pobre parodio. 

Foi commenda da ordem de Christo. 

Está situado o logar de Villa Cã (Villa 
Cãa ou Villa Cão) entre duas pequenas ri- 
beiras que formam a ribeira de Valmar, uma 
das nascentes do rio Nabão, 3 kilometros a 
0. S. O. da villa de Abiul e da estrada de 
Pombal para Thomar, 11 a E. da Estação de 
Vermoil, 9 a N. N. E. da estação d^ Alber- 
garia (C. de ferro do N.) e 10 a S. E. de Pom- 
bal. 

Comprehende mais esta fiegu^zia os luga- 
res ou aldeias de Tourilhe ou Touril, Gar- 
riapa, Castello, Carvalhal, Chão de Ulmeiro, 
Alçaria, Aroeiras, Valle, Outeiro da Galega, 
Casaes, Lameiros, Bailaria, Traz os Mattos 
Gonçalviuho, Outeiro, Vicentes, Fontainha, 
ViuveirQ, Val da Vinha, Souto, Pipa, Villa 
Pouca e os casaes de Tojeira, Mont'agudo, 
Cardeaes, Casal Novo, Matta, serôdia e Fonte 
Nova. 



678 VIL 



VIL 



Vem mencionados na Chorographia Por- 
tugueza os logares de Garriapa com uma 
capella de S. Juão Baptista, Chão d'Urmeiro 
com outra capella de Nossa Senhora da Con- 
ceição, Valle com outra de Nossa Senhora 
do Amparo e Traz os Mattos com outra de 
Nossa Senhora do Soccorro. 

As suas freguezias limitrophes são Litem, 
Abiul, Pousa Flores e S. Simão. 



Ha n'esta freguezia de Villa Cã um ribei- 
ro, em cujo leito, de tal a tal ponto apenas, 
apparece mui frequentemente ouro de apu- 
radissimo quilate, sendo certo que até os 
próprios pastores, sem terem conhecimento 
algum dos processos empregados para a pro- 
cura d'aquelle metal, o encontram sem gran- 
de difflculdade. 

Temos visto já por muitas vezes alguns 
boccados de ouro do tamanho de grãos de 
milho -e outros maiores ainda, que vão ser 
vendidos nas differentes feiras, e que, ape- 
nas vistos pelos ourives, são immediatamente 
comprados. Isto indica que a sua qualidade 
é exeellente. 

Parecia-nos que alguém, conhecedor de 
terrenos auríferos, não perderia o seu tem- 
po, vindo a estes sítios orientar-se e fazer 
as pesquizas convenientes. 

VILLA CAHIZ E PASSINHOS — freguezia 
do concelho e comarca d'Amaraute, dístricto 
e diocese do Porto na província do Douro. 

Orago S. Miguel e S. Julião, — fogos 250, 
almas 900, comprehendendo as duas fregue- 
zias, que hoje constituem uma só. É orago 
da i. a S. Miguel — e foi orago da 2." S. Ju- 
lião. 

A aldeia de Villa Cahiz, séde da parochia, 
dista 3 kilometros da margem direita do Tâ- 
mega para O.— 8 de Amarante para S. O. — 
cerca de 20 de Penafiel para E. N. E. — 30 
da foz do Tâmega — e 3 da linha férrea do 
Douro, (apeadeiro da Livração). 

Freguezias limitrophes— Louredo e S. Ju- 
lião de Passinhos l , annexa de Villa Cahiz, a 



1 Não se confunda esta freguezia com a de 
S. Miguel de Passinhos, annexa á de Boêlhe, 
no concelho de Penafiel. V. Boêlhe. 



E.— Santa Eulália de Constance a 0.— Ba- 
nho e Carvalhosa a N. — e Toutosa a S. 

E9ta parochia é abbadia; pertenceu ao ar- 
cebispado de Braga até 4882, data da nova 
circumscripção diocesana; — em 1768 era 
da apresentação da condessa d'Alva, — ren- 
dia 400$000 réis— e contava 130 fogos. 

Foi villa, couto e honra do antigo conce- 
lho de Santa Cruz de Biba-Tamega, extingo 
pelo decreto de 24 d'outubro de 1855, em 
virtude do qual passou para o concelho de 
Amarante. 

Em um alto, na próxima freguezia de Lou- 
redo e não de S. Martinho de Recezinhos, 
como por engano dissemos l , se vô ainda a 
antiga capella de Santa Cruz, que dava o ti- 
tulo ao concelho, e ao lado d'ella se notam 
claros vestígios d'uma velha fortaleza. 

Esta honra foi dos senhores de Unhão. 
Ayres Gomes da Silva a vendeu por 120$000 
réis a Gomes da Silveira, que casou com Isa- 
bel Pinheiro, dos Pinheiros de Barcellos, de 
quem teve entre outros filhos a Leonardo 
da Silveira que foi o 2.° senhor d'esta honra 
e casou com Isabel Teixeira da casa de Cer- 
gude, cuja successão pôde ver-se na Choro- 
graphia Portugueza, vol. l.° pag. 132 e seg- 
Vagando para a coroa em 1673 por falleci- 
mento do ultimo donatário Francisco da Sil- 
veira, que não deixou filhos, D. Pedro II a 
deu a Boque Monteiro Paim, do seu conselho 
e 9eu secretario, juiz presidente da junta da 
Inconfidência, commendador de Santa Maria 
de Campanhã na ordem de Christo, senhor 
dos concelhos da Maia e Befojos, etc. Pode 
ver se a sua nobilíssima ascendência e des- 
cendência na Chorographia Portugueza, lo- 
gar citado. 

Aqui tiveram os donatários d'esta honra 
um palacete, venerando solar, denominado 
da Pena, hoje pertencente a um capitalista 
que o obteve por compra modificando-o e 
destruindo com a restauração do edifício 
uma formosa capella, que tinha o privilegio 
de n'ella poder conservar-se o Santíssimo 
permanente 



1 V. Recezinhos, orago S. Miguel, vol. 8.° 
pag. 77, col. 2." 



VIL 



VIL 679 



Ha n'esta freguezia, em ura vistoso pín- 
caro, a linda capella de Nossa Senhora da 
Graça, luxuosamente reedificada nos últimos 
annos pelo benemérito e zeloso padre Anto- 
nio Augusto Pinto de Magalhães, distiuclo 
orador sagrado que, com o auxilio dos fieis 
e com o producto da predica, alli tem feito 
obras importantes. Não só transformou a ve- 
tusta e humilde capella em um esplendido 
sanctuario, mas fez um collegio onde vivem 
algumas piedosas mulheres, irmãs do Cora- 
ção de Maria, que se dedicam ao culto da 
Virgem e ao ensino de meninas, quasi todas 
pobres. 

Este virtuoso ecclesiastico, sendo ainda 
novo, tem arruinado a saúde com o seu tra- 
balho insano era pró de tão santa institui- 
ção, dando-se por bem pago das suas fadi- 
gas por vêl-a prospera e florescente. 

É hoje esta capella um dos mais formosos 
sanctuarios do Minho; — n'ella se fazem mui- 
tas festas com romagens, clamores e grande 
concorrência de fieis dos povos circumvisi- 
nhos. 

D'ali se descobre um largo horisonte e a 
linha férrea do Douro que lhe fica ao sul, 
distando apenas 3 kilometros o apeadeiro da 
Livração, que tomou o nome do santuário 
de Nossa Senhora da Livração, pertencente 
á freguezia de Toutosa 1 . 

O Santuário harianno (vol. 7.° pag. 442) 
publicado em 1721, fallando da capella de 
Nossa Senhora da Graça, diz que a imagem 
da Virgem estava em um retábulo de talha 
dourada; que era de pedra, mas muito lin- 
da, tendo tres palmos e meio d'altura e so • 
bre o braço esquerdo o Menino Jesus, am- 
parando-o com a mão direita. Que a egreja 
era bonita e tinha na porta travesssa uma 
galilé muito elegante sobre 6 columnas de 
pedra com 3 entradas e que a egreja mos- 
trava ter sido reconstruída. 

Que o dicto templo era muito concorrido 



1 V. Toutosa, vol. 9 ° pag. 705, col. l. a 
A pequena distancia do sanciuario da Li- 
vração ha um cruzeiro antiquíssimo, cha- 
mado do Paço. Diz a tradição que foi erguido 
em memoria d'um rei mouro (?) que alli fal- 
leceu. 



pelos fieis e a elle iam çom romarias e cla- 
mores em certos dias do anno varias paro- 
ehias, tal era a de Villa Boa de Queiris e 
outras, então do arcebispado de Draga, mas 
que a estas lhes fôra prohibido o irem in- 
corporadas. 

Que antigamente tivera ermitães que ve- 
lavam pelo sanctuario, mas que n'aquella 
data (1721) já os não tinha, porque lh'os não 
permitliram os prelados bracarenses. Final- 
mente que nada se sabia ao certo, nem mesmo 
pela tradição, relativamente á origem d'este 
sanctuario. 

O antigo concelho de Santa Cruz de Riba- 
Tamega teve foral, dado em Lisboa por D. 
Manuel a 1 de setembro de 1513. 

Livro de Foraes Novos do Minho, fi. 87, v. 
col. 2.» 

O dito foral comprehendia as terras se- 
guintes, pertencentes ao mencionado con- 
celho : 

Castellãos, Athayde de S. Pedro, Cahide 
de Rei, Constance,, Ermida, Figueiró de 
Santa Christina (sic), Louredo, Oliveira de 
Sampaio, Recezinhos, Rial, Sansinhos, Tra- 
vanca e Villa Cahiz. 

As producções dominantes d'esta parochia 
são — milho, trigo, centeio, azeite e vinho 
verde a" enforcado. 

Cahiz ou cafiz era antigamente o nome 
de uma medida dos sólidos ou grãos. 

Havia cahiz grande, ou maior, e cahiz pe- 
queno, ou menor; o 1.° constava de 16 al- 
queires, que formavam um quarteiro, quarta 
parte do moio ordinário ou geral, a que da- 
vam além dos" 15 um alqueire mais de ver- 
teduras; — o 2. a constava só de 8 alqueires. 

No anno de 1229 se deu uma sentença 
apostólica por um rescripto de Honorio III 
contra D. Durão de Corces e Domingos Mar- 
cos, o barba de porco, que haviam feito gra- 
ves damnos ao mosteiro de Santa Maria de 
Aguiar e lhe tinham furtado da granja de 
Turões 14 bois, 5 carneiros e seis cafizes e 
meio de trigo e centeio. D'esta medida ainda 
hoje se usa na Hespanha. 

Villa Cahiz quer pois dizer— a villa onde 
se pagavam os taes cahizes. 



680 VIL 



VIL 



Talvez que do mesmo cahiz provenha tam- 
bém o nome da freguezia de S. Pedro de 
Cahide de Rei, oulr'ora do mesmo concelho 
de Santa Cruz de RibaTamega e hoje do 
concelho de Lousada, posto que o meu an- 
tecessor opinou por outra etimologia bem 
difíV rente. 

Veja-se Caíde (ou Cahide) d' El- Rei, vol. 
2.° pag. 33, col. 2. a in-fine. 

O extineto concelho de Santa Cruz de Ri- 
ba-Tamega, pertenceu á provedoria ou co- 
marca de Guimarães até 1776, data em que 
por uma provisão d'el-rei D. José, de 5 de 
julho d'aquelle anno, passou para a comarca 
de Penafiel. 

«Houve por bem ordenar que da comarca 
de Guimarães se separassem o concelho de 
Unhão, o de Santa Cruz de Riba Tamaga, o 
de Govêa de Riba Tamaga, o de Gestacô, a 
Honra de Vila Gahiz e a villa de Canavezes 
e Tuhias, e se aggregassem á de Penafiel, 
ficando precípuos para a comarca do Porto 
os concelhos de Gondomar, Aguiar de Sousa, 
Maia e Refoios, que sempre constituíram o 
termo d'ella* — diz a citada provisão, que 
pôde ler-se na sua integra na Descripção 
histórica e topographica de Penafiel por An- 
tonio d'Almeida, publicada no tomo X, parte 
II da Historia e Memorias da Academia Real 
das Sciencias de Lisboa, pag. 167 a 168. 

Esta freguezia comprehende as aldeias se- 
guintes: Villa Cahiz, séde da parochia, Espo- 
rões, Carvalhal, Pena, Outeiro, Aldeia Nova, 
Villarinho, Coura e Passinhos, freguezia an- 
nexa e que hoje tem apenas 22 fogos. 

A egreja parochial de Villa Cahiz [é um 
bom templo, feito ern 1774, bem tractado e 
com uma torre moderna e elegante, man- 
dada fazer por João Pereira de Magalhães. 

As festas principaes que hoje aqui se ce- 
lebram são a do Menino Deus, no dia 6 de 
janeiro, e a do Santíssimo Sacramento a 15 
d'agosto. 

Ha n'esta freguezia uma capella de S. Pe- 
dro na aldeia de Coura. É particular, per- 
tencente a Victoriuo Ferreira de Magalhães, 
da freguezia de Santo Isidoro. 

Os edifícios principaes d'esta parochia são 



a casa de Cimo de Villa, onde viveu e mor- 
reu o capitão-mór do extineto concelho de 
Santa Cruz, Dento Corrêa,— a casa da Pena, 
antigo solar do conde d'Alva, marquez de 
Santa Iria, comprada pelo captalisia Fran- 
cisco José Cardoso, hoje restaurada e pos- 
suída por seu filho Joaquim Augusto Fer- 
reira Cardoso,— e a de José Augusto Moreira 
de Mattos, em Coura. 

Até 1835 teve casa de camará, cadeia, pe- 
lourinho, as auctoridades próprias do con- 
celho e um capitão-mór; extineto o conce- 
lho, foram supprimidas todas as auctorida- 
des, mas ainda existem o pelourinho e a casa 
da cadeia. 

Esta freguezia vai pelo nascente até o Tâ- 
mega onde tem 12 rodas de moinhos. 

Além da serra da Senhora da Graça ha 
u'esta freguezia o monte das Costeiras, so- 
branceiro ao Tâmega, — monte que tem de 
notável um penedo denominado Penedo da 
Moura com um lagar, uma lagareta e uma 
lagarinha (dizem os apontamentos que me 
enviou o rev. parocho) — tudo obra dos mou- 
ros, segundo reza a tradição. 

Tem finalmente esta freguezia uma aula 
d'mstrucção primaria elementar para o sexo 
masculino e uma archí-coufraria do Santís- 
simo Coração de Maria, erecta com grande 
pompa no santuário de Nossa Senhora da 
Graça, no dia 14 de maio de 1876. 

VILLA CHÃ — aldeia importante na fre- 
guezia da Penajoia, concelho, comarca e dio- 
cese de Lamego. 

V. Penajoia n'este diecionario e no sup- 
plemento. 

VILLA CHÃ — freguezia do concelho de 
Esposende, comarca de Darcellos, districto 
e diocese de Draga, na província do Mi- 
nho. 

Orago S. João Daptista,— fogos 166,— al- 
mas 694. 

Em 1708 contava 110 fogos, segundo se 
lê na Chorographia Portugueza, — e o Port. 
Sacro e Profano deu-lhe os mesmos 110 fo- 
gos em 1768. 

Foi sempre abbadia e da apresentação da 
casa de Dragança até 1836. 

Comprehende os logares da Egreja, Ou- 
teiro, Aldeia de Cima, Aldeia de Raixo, La- 



VIL 



VIL 681 



goeíra, Bicudo, Lages, Sovereira, Chouso, 
Casaes e Abelheira. 

Freguezias limitmphes — Antas, S. Paio, 
Marinhas, S. Bartholomeu do Mar, Forjães, 
Belinho, Curvos, Palme e Feitos. 

Dista de Esposende 5 kiiometros, 16 de 
Barcellos, 34 de Biaga e 41 da estação de 
Barroselas no C. de F. do Miuho. 

Nenhuma estrada a maçada m construída 
ou em via de construcção atravessa ou toca 
esta freguezia, mas passa a 2 kiiometros 
(Telia a eslrada real de Barcellos a Vianna. 

A egreja matriz é um templo regular e de- 
cente. Neila se fazem duas festas priucipaes 
— a do padroeiro, S. João Baptista, — eada 
Assumpção do Senhor. 

Ha n'esta freguezia uma capella com a in- 
vocação de S. Lourenço. É publica e tem 
festa e romagem no dia 10 d'agosto. 

Banha esta freguezia o ribeiro da Abe 
lheira, que desagua no oceeano a 3 kiiome- 
tros de distancia, na praia das Marinhas, 
freguezia limitrophe. Move uma fabrica de 
serrar madeira e 2 moinhos; não tem ponte 
alguma. 

Producções dominantes — cereaes, vinho 
verde e algum azeiíe. 

O termo dVsta freguezia comprehende 
parte da serra de S. Lourenço, que se ergue 
a poente, encimada pela vistosa capellinha 
d'aquelle, nome, de que já fizemos menção — 
e o monte de Figueiró ao nascente. É pouco 
elevado e bastante plano, sem píncaros nem 
morros e baldio ou logradouro commum. 

Ha nYsta parochia apenas uma aula de 
instrucção primaria elementar para o sexe 
masculino. 

Em uma escavação que se fez, haverá 10 
annos, na serra de S. Lourenço, appareceram 
algumas moedas romanas pequenas e de co- 
bre. 

Ha na dieta serra um pequeno penedo com 
uma cavidade, na qual por vezes se encon- 
tra agua, proveniente do influxo das marés 
(diz o puvo)— agua que julgam milagrosa e 
por i*so denominam aquelle penedo Fonte 
da Virtude. 

É certo que muitas pessoas das circumvi- 
sinhanças, até 15 e 18 kiiometros de distan- 



cia, costumam levar pequenas porções da di- 
eta agua para lavarem cora ella creanças 
que padecem certas moléstias, julgando-a 
remédio effieaz. 

VILLA CH× freguezia do concelho e co- 
marca da Ponte da Barca, dinricto de Vian- 
na do Castello, diocese de Braga, na provín- 
cia do Minho. 

Orago S. João Baptista,— fogos 227,— al- 
mas 663. 

Em 1708 contava 160 fogos e 192 em 
1768. 

Beitoria; foi da apresentação do arce- 
diago da Nóbrega e Neiva ; rendia para o 
vigário 1001000 réis e 3000000 réis para o 
arcediago. Foi outr'ora vigairaria. 

A egreja parochial dista 4 kiiometros da 
margem esquerda do Luna para S. S. E. — 8 
da Ponte da Barca para E' S. E. na estrada 
de Lindoso para Pico de Regalados — e 49 
de Vianna. 

Comprehende esta freguezia as aldeias de 
Portuzello, Paradella, Seixas, Golfeiro, Egre- 
ja, Santa Marinha, Quinteiro, Loureiro, Sa- 
borido, Barral e Cajaneiro. 

Producções dominantes — cereaes, vinho 
de enforcado e batatas. 

Limitam esta freguezia a E. o riacho de 
Germil, — a N. o rio Lima e a freguezia de 
Villa Chã (S. Thiago) — a O. a freguezia de 
Touvedo— e ao S. a de SibÕes, do concelho 
de Terras de Bouro. 

Banham-na vários ribeiros, que alimen- 
tam 14 moinhos, um lagar d'azeite e uma 
fabrica de burel. 

A quinta principal d'esta parochia per- 
tence a D. Carlota Amália de Paços, viuva 
do desembargador José de Vasconcellos 
Athaide e Menezes— e compr e-se das terras 
chamadas da Patriarchal e do Passal da 
Egreja. 

Ha n'esta freguezia o monte do Outeiri- 
nho, que lhe fornece matto para estrume e 
pastagens para os gados. Também fica pró- 
xima a serra do Galinheiro. 

Tnm finalmente esta parochia uma aula 
official de instrucção primaria para o sexo 
masculino. 

VILLA CH× freguezia do concelho e co- 
marca da Ponte da Barca, districto de Vian- 



682 VIL 



VJL 



na do Castello, diocese de Braga, na provín- 
cia do Minho, Reitoria. 

Orago S. Thiago,— fogos 107,— almas 436. 

Em 1708 contava 80 fogos, diz a Choro- 
graphia Portugueza; o Portugal Sacro e Pro- 
fano deu-lhe 74 em 1768. 

Foi vigairaria annexa á abbadia de S Mi- 
guel d'Entre os Rios, apresentada pelo abba- 
de d'aquella parochia e rendia em 1768 ape- 
nas 40$000 réis. Hoje é parochia indepen- 
dente. 

O logar de Villa Chã, séde d'esta fregue- 
zia, está na margem esquerda do' Lima, 3 
kilometros a S. S. E. — 10 a E. da Ponte da 
Barca, na estrada que d'esta villa vae para 
Lindoso, — 51 a N. E. de Vianna — e 36 a 
N. E. de Braga. 

Compreheude mais esta" freguezia as al- 
deias de Seixt-nha, Barreiro, Eido de Baixo, 
Eido de Cima e Lamellas. 

As suas producções dominantes são vinho 
de enforcado e cereaes. 

Limitam-na ao nascente a freguezia de 
S. Miguel d'Entre os Rios,— ao sul e poente 
a de S. João de Villa Chã,— e ao norte o rio 
Lima. 

Até 1859 teve feira mensal, no dia 26 de 
cada mez. 

Banham-na differentes regatos que des- 
aguam no Lima. 

V. Entre Ambos os Rios, vol. 3.° pag. 37, 
col. 2.» 

VILLA CH× ou Villa Chã da Montanha 
— freguezia do concelho e comarca de Alijó, 
districto de Villa Real, diocese de Lamego, 
província de Traz-os-Montes. 

Orago S. Thiago, — fogos 276, — almas 
1:019. 

Em 1706 contava 100 fogos, -e 153 em 
1768,— era vigairaria collada da apresenta- 
ção do reitor de Alijó e rendia 100$000 réis. 

Também já esteve annexa algum tempo á 
villa d'Alijó, mas hoje è reitoria indepen- 
dente. 

Foi do arcebispado de Braga até 1882, 
data da nova circumscripção diocesana. 

Comprehende as aldeias de Villa Chã, séde 
da parochia, Chã e Carvalho. 

As suas fregueziaslimitrophes são— Alijó, 
Villar de Maçada, Parada do Pinhão e Riba- 



Longa na margem direita do rio Tinhella» 
confluente do Tua,— e na margem esquerda 
Santa Eugenia e Carlão. 

Dista 3 kilometros da margem direita do 
rio Tinhella para poente, 6 d'Alijó para N.N.O. 
— 18 da estação de Pinhão na linha férrea 
do Douro, — 145 do Porto e 482 de Lisboa. 

Producções dominantes — vinho, azeite e 
cereaes. 

VILLA CHÃ — freguezia do concelho de 
Macieira de Cambra, comarca de Oliveira 
d'Azemeis, districto d'Aveiro, diocese do 
Porto, na província do Douro. 

Até 1882 pertenceu á extincta diocese de 
Aveiro e anteriormente pertenceu á comar- 
ca d' Arouca. 

Orago Nossa Senhora da Purificação, — 
fogos 230— almas 897. 

Em 1708 contava apenas 150 fogos, — per- 
tencia ao termo da extincta villa de Bem- 
posta, de que foi donatário o conde de Villa 
Verde, — e era um simples curato da apre- 
sentação das freiras benedictinas do Porto; 
— mas em 1768 já era priorado da apresen- 
tação do convento d' Arouca, — rendia réis 
4001000 e contava 201 fogos. 

Hoje é priorado e comprehende as aldeias 
seguintes: Villa Chã, séde da parochia (a 
egreja matriz está um pouco isolada) Bou- 
cinha, Cancella, Corredoura, Devesa, Gan- 
dra, Leiras, Lordello, Moradal ou Muradal, 
Moinho Vedro, Picão, Pedreira, Portella, Po- 
voa, Refoios ou Refojos, Relva, Regadas e 
Theamonde. 

O logar de Villa Chã dista 2 kilometros 
de Macieira de Cambra para oeste e (appro- 
ximadamente) 15 de Oliveira d'Azemeis para 
N. E— 20 d'Arouca para S. O— e 23 da es- 
tação d'Ovar, na linha férrea do norte. 

Passa n'esta freguezia a nova estrada a 
macadam, n.° 40, de Ovar para Entre os Rios 
e Arouca, por Oliveira d'Azemeis, servida 
por diligencias — e deve atravessar também 
esta freguezia a nova estrada districtal, de 
Vizeu ao Porto, em via de construcçáo. 

Freguezias limitrophes— Castellões a S. — 
Macieira de Cambra a E. — Carregosa e Villa 
Cova do Perrinho a N.— Ossella a O.— e Ce- 
dal a N. O. 



VIL 



VIL 683 



A egreja matriz é ura templo regular bas- 
tante antigo, demandando nova eapella-mór, 
e tem a freguezia 3 capellas publicas— uma 
de Santo Antonio, na Gandra,— outra da Se- 
nhora das Dores, em Lord-llo,— e outra da 
Senhora da Ribeira, em Theamonde, sendo 
esta meíeira com a freguezia de Carregosa. 
Tem mais 3 capellas particulares— uma em 
Refojos, outra na Cancella e outra no Mo- 
radal. 

Feiras— uma mensal, no logar da Gandra, 
no dia 9, — outra também mensal no dia 2, 
em Coelhosa, aldeia de CastellÕes, freguezia 
limitrophe. 

Banham e fertilizam esta parochia 2 rios 
—o Vigues, que corre de N. paraS. 0. — e 
o Trancoso, que corre de N. para S.— mais 
2 ribeiros, o dos Cães e o dos Pelames, que 
desaguam no rio Trancoso, bem como este 
no Vigues, no sitio da ponte da Gandra,— e 
o Vigues no Caima junto de Areias de Cas- 
tellÕes. 

Tem o Vigues duas pontes de pedra na 
estrada n.° 40, de Ovar a Entre os Rios, a 
da Berbolga e a da Gandra— e outra no Mo- 
radal, feita ha poucos annos. 

O rio Trancoso tem uma, prestes a con- 
cluir-se, no Souto, junto da egreja matriz, e 
no regato dos Pelames ha outra em via de 
construcção, já com o arco fechado. 

Esta parochia não tem fabricas, mas tem 
bastantes moinhos, todos movidos por agua. 

As suas producções dominantes são milho 
e vinho verde. 

É natural d'esta parochia o barão de Sal- 
gueiro, que vivendo em Leiria alli casou. 

Tocam n'esta freguezia os montes de Ario 
e Perrinho, que nada offerecem de notável. 

VILLA CH× freguezia do concelho e co- 
marca d'01iveira d'Azemeis, districto de 
Aveiro, diocese do Porto, na província do 
Douro. 

Orago S. Pedro, apostolo,^— fogos 225,— 
almas 1:030. Abbadia. 

Em 1708 contava apenas 120 fogos e já 
era abbadia apresentada pelo bispo do Por- 
to;— em 1768 contava 134 fogos, rendia réis 
320$000 e era apresentada pelo cabido e 
pelo bispo da mesma diocese do Porto. 



Até 1802 (approximadamente) pertenceu 
á grande comarca da Villa da Feira, pas- 
sando em seguida para o concelho e comarca 
d'01iveira d'Azemeis. 

Comprehende as povoações de Villa Chã, 
Costa-Má, Bustello, Gandra, Lomba, Samil e 
Travessas. 

O sr. J. M. Baptista menciona mais— Ou- 
teiro, Ramillos, Covada, Farrapa e Fonte- 
Chã. 

Está também nos limites d'esta parochia 
a grande quinta, casa e fabrica dos fidalgos, 
hoje condes, do Côvo. 

Freguezias limitrophes — Nogueira do 
Cravo, Pindello e Ossella a E. — Couto de 
Cucujães e S. Thiago de Riba d'UI a O. — 
S. João da Madeira e Macieira de Sarnes a 
N. — e Oliveira d' Azeméis a S. 



Dista 4 kilometros de Oliveira d' Azeméis, 

— 12 da estação d'Ovar, na linha férrea do 
norte,— 34 do Porto, pela estrada real a ma- 
cadam do Porlo a Lisboa, mas 48 pela linha 
férrea do norte (estação d'Ovar) — 40 de 
Aveiro— e 3l3 de Lisboa. 

Atravessam esta freguezia uma estrada 
districial a macadam, servida por diligen- 
cias, da estação d'0var, no caminho de ferro 
do norte, á villa d'Arouca, tocando em Oli- 
veira d'Azemeis e na casa e fabrica do Côvo 

— e outra estrada também a macadam de 
Oliveira d'Azemeis para a villa de Arouca e 
que toca no logar de Bustello. Esta ultima 
é municipal. 

Emquanto a templos, tem esta parochia, 
além da sua egreja matriz, 2 capellas publi- 
cas, muito decentes, — uma de SanfAnna, 
em Villa Chã, que data de u-mpo ímmemo- 
rial,— outra de Santo Antonio, em Bustello, 
edificada pela junta de parochia em 1882. 
Tem mais uma de Nossa Senhora da Con- 
ceição, particular, mas franca ao publico, 
pertencente á nobre casa do Côvo. Foi feita 
em 1862 pelo fallecido sr. S bastião de Cas- 
tro e Lemos, pae do actual sr. conde do 
Côvo. Está extremamente limpa e ricamente 
decorada e tem um mausoléu para sepultura 
da família, com as armas dos Castros Le- 
mos. 



684 VIL 



VIL 



O chão d'esta freguezia é bastante acci- 
dentado, mas fértil e muito abundante de 
agua potável e para irrigação e moagens, 
pois bauham-na 3 rios — o de Samil e o da 
Ribeira Verde que desaguam no rio Ul, a 2 
kilometros de distancia, e o rio Anluan que 
desagua no Vouga, junto de Aveiro, a 39 
kilometros dVsta parochia. 

Tem o Aniuan uma ponte de pedra no lo- 
cal da Fuzeira, dentro da grande quinta do 
Côvu, — tem outra a Ribeira Verde no local 
de Silvares, — e outra o Samil, todas 3 nos 
limites d'esta parochia. Movem também den- 
tro (1'ella o rio Antuan 8 moinhos de milho 
e centeio, 1 d'azeitona e a importante fabrica 
de vidros da nobre casa do Côvo, — o de Ri- 
beira Verde 2 moinhos de milho e centeio— 
e o de Samil 28 moinhos de milho, centeio 
e trigo, — total 39 moinhos, e 2 fabricas, a 
de vidros, no Côvo, e uma de cortumes de 
couros, na povoação de Bustello. 

Tem só esla freguezia mais agua perenne 
do que metade da província do Alemtejo! 

As suas producções dominantes são mi- 
lho, vinho verde, trigo, centeio, feijões, azeite 
e hervHgens. Também engorda muitos bois 
que vende pára Lisboa e para a Inglaterra. 

Posto que desde tempos remotos é S. Pe- 
dro o orago d'esta freguezia e seja ofíicial- 
mente denominada S. Pedro de Villa Chã, o 
povo a denominou sempre e a denomiua 
ainda hoje, S. Roque de Villa Chã ou Villa 
Chã de S. Roque!. . . 

Talvez qu^ S. Roque fosse o seu primeiro 
orago ou que houvesse aqui em outros tem- 
pos alguma capella dedicada a S. Roque. 

Em 1857 era abbade d'esta freguezia (col- 
lado em 12 de janeiro de 1846) um vene- 
rando sacerdote, D. João da Natividade, pré- 
gador e egresso da congregação dos cónegos 
regulares de Santo Agostinho (cruzios) e 
contava então esta parochia mais 6 presby 
teros, namraes d'ella — Domingos Luiz Va- 
lente e Manuel Marques de Pinho, de Costa- 
Má, — Jnào José Ferreira e Manuel Dias da 
Costa, de Samil, — José Luiz Ferreira, de 
Villa Chã—e Lourenço Luiz Dias da Costa, 
de Bustello. 



A casa e a quinta do Côvo são uma das 
mais importantes vivendas da província, 
verdadeira residência senhorial. 

O edifício para habitação è espaçoso, foi 
reedificado em 1850 — e com a fabrica de 
vidros e suas dependências fórma uma po- 
voação. 

A quinta é um condado! Tem de circum- 
ferencia 10 kilometros e comprehende gran- 
des tractos de terra lavradia, vinhedos, oli- 
vaes e um vastíssimo pinheiral que occupa 
a maior parte do grande prédio, não só mon- 
tes ásperos, mas valles fundos e férteis que, 
se fossem arroteados e convenientemente 
agricultados, podiam produzir milhares de 
alqueires de pão e muito azeite e vinho. 

Toma grande parte d'esta parochia e das 
ires parochias visinhas— Piodello, Ossella e 
Oliveira d'Azemeis, sendo cortada e servida 
pela estrada a macadam d Ovar para a villa 
d'Arouca e banhada por differentes rios e 
ribeiros. 

A dieta estrada corre a jusante do pala- 
cete e da fabrica, na distancia dalguns me- 
tros apenas. 

É hereditária e proverbial nos donos 
d'este grande prédio a nobreza do sangue e 
dos sentimentos, pelo que os povos circurn- 
visinhos, longe de se insurgirem contra tão 
opulentos senhorios, sempre os acataram e 
respeitaram. 

Como prova da magnanimidade e genero- 
sidade de ss. ex.** basta notar-se que desde 
tempos remotos, todas as semanas, em dias 
determinados, franqueiam ao publico a sua 
grande mata e permiltem que todos indis- 
tinctamente se abasteçam de lenha para o 
consumo domestico, o que para a pobreza é 
uma graade esmola, de que usa e abusa. 

Também são proverbiaes n'esta família o 
vigor e força hercúlea. 

De um ascendente do nobre conde se diz 
que em um momento de bom humor dobrára 
e partira com os dedos uma ferradura nova 
de grande espessura, bom ferro e bem for- 
jada!. . . 

A fabrica de vidros do Côvo foi a primei- 
ra fabrica de vidros que houve em Portugal. 



VIL 



VIL 685 



É anterior a 1484. A 2. a foi a de Coina, no 
Ribatejo— e a 3. a a da Marinha Grande, em 
substituição da de Coina. 

Entre os muitos privilégios que os nossos 
reis outr'ora concederam a esta fabrica do 
Côvo, um d'elles era o seguinte : — só ella 
poderia vender vidro em todo o norte do 
nosso paiz, até á margem direita do Mon- 
dego. 

Para evitarmos repetições, vejam -se os ar- 
tigos Côvo, tomo 2.» pag. 436 — e Marinha 
Grande, tomo V, pag. 79, col. 1." e 2.» 

Do ultimo inquérito industrial, ordenado 
pelo nõsso governo em 1880, exlractámos 
com relação a esta fabrica o seguinte: 

tProduz productos de vidro branco e de 
cores, copos, garrafas, frascos, chaminés para 
candieiros, etc. 

Não produz chapas de vidro. 

Possue um pisão com motor hydraulico 
para triturar os differentes materiaes, e qua- 
tro fornos aquecidos a lenha dos pinhaes, 
consumindo annualmente 6 a 7:000 steres, 
que reputa no valor de 400 réis cada stere. 

Emprega a argilla extrahida em terreno 
perto e pertencente á fabrica, ligada com a 
do Casal dos Ovos, do districto de Leiria; o 
manganez é das minas da Anadia; não usa 
areia, mas seixo moído, extraindo a 5 kilo- 
metros da fabrica, em Vermoil, onde possue 
jazigos inexgotaveis de quartzo, casco de vi- 
dro em pó, cal fina nacional, e soda, arse- 
• nico, e productos corantes de origem estran- 
geira, comprados no Porto. 

Occupa o seguinte pessoal : um director 
que tem interesse na producção, 4 officiaes 
ganhando 800 a 900 réis diários, 4 primei- 
ros ajudantes 400 réis diários, 4 segundos 
ajudantes 285 réis, 16 aprendizes menores 
100 réis diários, 2 atiçadores 200 réis diá- 
rios, 2 olheiros 400 réis, 1 fundidor 34o réis, 
2 lapidadores, que se empregam a tirar pon- 
teis, a 2$000 réis diários. Estes operários 
trâbalham 5 horas em cada dia. Emprega 
mais 6 rachadores de lenha a 300 réis diá- 
rios e 4 mulheres a 100 réis, que trabalham 
de sol a sol, com as horas de descanço do 
costume. 

Os potes refractários são fabricados com 

VOLUME X - 



argilla plástica do Côvo e da Bairrada, e bem 
assim os tijolos refractários. 

Declarou que julga ser sufBciente a pro- 
tecção concedida á sua industria, de 160 réis 
cada kilogramma, direito estabelecido na 
pauta aos productos similares da industria 
estrangeira, e entendia podia ser diminuído 
esse direito, se lhe fossem concedidas livres 
de direitos as matérias primas que precisa 
importar, e que muito lhe sobrecarregam os 
productos. 

Ensaiou em tempo a soda nacional pro- 
duzida por Deligny; teve de a abandonar 
por ser pouco graduada; tem assim de a im- 
portar do estrangeiro, pagando direito ele- 
vado ; o mesmo acontece nos productos co- 
rantes, que pagando muitos d'elles mais de 
20 por cento do respectivo valor, de direi- 
tos, lhe custam.preço elevado, e não se fa- 
bricam no paiz. 

Declarou mais terem os seus productos 
sahida, sendo vendidos no deposito da fa- 
frica, na rua de D. Pedro, no Porto, e não 
ter falta de capital.» 

A exploração é feita por conta do ex. m0 sr. 
Gaspar Maria Ce Castro e Lemos, hoje conde 
do Côvo, proprietário da dieta fabrica. 

Thereza Luiza Dias, casada com Manuel 
Alves da, Costa, do lugar da Farrapa, d'esta 
freguezia, deu á luz na noite de 9 para 10 
de julho de 1881, uma creança do sexo mas- 
culino com duas cabeças, quatro braços, 
quatro pernas, uma só barriga e duas par- 
tes genitaes; ao nascer ainda tinha vida uma 
das cabeças, roas logo morreu. 

O pae, quando viu tal aborto, começou a 
gritar, acudindo toda a visinhança,para ver 
aquelle triste espectáculo, e sem detença en- 
terraram o feto, perdendo^se um interessante 
exemplar para estudo. 

VILLA CH× freguezia do concelho e co- 
marca de Villa do Conde, districto e diocese 
do Porto na província do Douro. 

Orago S. Mamede, — fogos 150, — almas 
618. Abbadia. 

Em 1706 pertencia ao concelho da Maia; 
era da apresentação do collegio da Compa- 
nhia de Jesus, de Braga, e tinha apenas 46 fo- 
gos;— em 1768 era da apresentação do pa- 

44 



686 VIL 

droado real, — eontava 55 fogos e rendia 
70$000 réis. Também foi algum tempo apre- 
sentada pela universidade de Coimbra. 

Comprehende as aldeias de Villa Chã, 
séde da paroehia, Rio da Egreja, Outeiro, 
Lavandeira, Rio da Gandra, Figueiras, Cimo 
de Villa, Fundo de Villa e Poça. 

As suas freguezias limitrophes são Min- 
dello a N. 0. — Modivas a leste e Labruge 
a S. E. 

Ao poente é banhada pelo occeano, do 
qual a povoação de Villa Chã dista pouco 
mais de 1 kilometro,— 8 de Villa do Conde 
para S.S.E.— 3 da estação de Modivas na li- 
nha férrea do Porto á Povoa de Varzim e 
Famalicão,— 19 do Porto (pela linha férrea) 
— e 356 de Lisboa. 

Passa também ao nascente d'esta fregue- 
zia a estrada a macadam do Porto a Villa 
do Conde. 

As suas producções dominantes são ce- 
reaes e vinho de enforcado, muito rascante 
e muito verde. 

VILLA CH× freguezia do concelho e co- 
marca de Fornos d'Algodres, districto da 
Guarda, diocese de Vizeu, na província da 
Reira Baixa. 

Fogos 54,— almas 230,— orago Nossa Se- 
nhora das Boas Novas, ou da Assumpção. 

Em 1768 contava apenas 32 fogos; — era 
curato da apresentação do vigário d'Algo- 
dres, que recebia os dizimos e dava ao po- 
bre cura 151000 réis e o pé d'altar. 

Ainda é hoje um simples curato, — com- 
prehende uma única povoação, Villa Chã,— 
e tem por freguezias limitrophes Maceira, 
Figueiró da Granja, Cortiço d'Algodres, Mu- 
xagata e Sobral Pichorro. 

Dista 7 kilometros de Fornos d'Algodres 
e da estação d'este nome na linha da Beira 
Alta, — 69 da Guarda, — 30 de Vizeu,— 160 
da cidade da Figueira, — 216 do Porto — e 
340 de Lisboa. 

A estrada a macadam mais próxima é a 
districtal n.° 41-4— de Vizeu a Celorico da 
Reira e que toca em Fornos d'Algodres. 

A egreja matriz é um templo singelo e po- 
bre sem coisa alguma notável. 
O melhor edifício d'esta paroehia hoje é a 



VIL 

casa de Antonio Pedroso de Sousa Couti- 
nho, um dos 40 maiores contribuintes d'este 
concelho. É bastante antiga, mas foi ha pouco 
reedificada e bem mobilada. Tem uma linda 
capella conligua com porta franca ao pu- 
blico e boas decorações, — retábulo de talha 
dourada com a imagem da padroeira, Nossa 
Senhora do Carmo, — e tecto apainelado com 
bastante obra de talha, dourada também, for- 
mando vãos quadrados, todos com pinturas 
religiosas sobre madeira, antigas e bem con- 
servadas. 

Tem esta povoação duas ruas (?) princi- 
paes— a da Fonte e a da Egreja. 

Banham esta freguezia 3 ribeiros — o do 
Gallego, o do Valle de Gavinho e o do Preto, 
—passam a 2 kilometros as ribeiras da Mu- 
xagata e a de Cortieô— e o Mondego 4 kilo- 
metros ao sul. Producções dominantes— ce- 
reaes, vinho e azeite. 

Era natural d'esta freguezia o valente ma- 
jor Joaquim José Pedroso, que muito se dis- 
tinguiu no cerco do Porto em 1832 a 1833, 
merecendo a honra de ser condecorado pelo 
próprio imperador, o sr. D. Pedro IV, no 
campo da batalha. 

Está sobranceiro a esta freguezia o monte 
do Crasto, que pelo nome que ainda con- 
serva e pela sua posição, muito defensável 
para os tempos d'armas brancas, se suppõe 
ter sido fortificado em outras eras. 

Do alto d'elle se gosa um vasto e muito 
interessante panorama sobre a bacia hydro- 
graphica do Mondego. D'ali se descobre gran-' 
de parte dos concelhos de Celorico da Beira, 
Cêa e Gouvéa, Linhares, Folgosinho, Figuei- 
ró da Serra, Sampaio, Nabais, Nabainhos, 
Mello, a linha da Beira, a estrada de Vizeu 
á Guarda, o Mondego e grande extensão do 
antemural da Serra da Estrella, na parte que 
olha para o norte. 

Ha finalmente n'esta freguezia uma escola 
offlcial d'instrucção primaria elementar para 
o sexo masculino e uma sepultura aberta na 
rocha, ao poente da povoação, junto da quinta 
da família Pedrosos. 

VILLA CHÃ DE BACIOSA ou DA BAR- 
CIOSA— freguezia do concelho e comarca de 
Miranda do Douro, districto e diocese de 
Bragança, na província de Traz-os-Montes. 



VIL 

Abbadia, — orago S. Christovam, — fogos 
204,— almas 825 (comprehendendo as duas 
freguezias annexas). 

Em 1768 já era abbadia do padroado real, 
—contando apenas 93 fogos e rendendo réis 
500^000, somma importante n'aquelle tempo 
e n'aquelles sitios. 

Antes da creação da comarca de Miranda, 
pertenceu à do Mogadouro. 

Comprehende 3 povoações — Villa Chã, 
[séde da paroehia, — Fonte d' Aldeia e Frei- 
\ xiosa, que já foram freguezias independen- 
tes, mas ha muito se acham annexadas a 
; esta de Villa Chã da Barciosa. 

A de Fonte d'Aldeia também outr'ora es- 
| teve unida algum tempo á freguezia de Picote, 
: e por seu turno esta á de Sendim, todas 
d'este concelho. 
Freguezias limitrophes — Palaçoulo, Se- 
! nhora^do Monte das Duas Egrejas, Picote e 
Sendim. 

Dista 12 kilometros de Miranda, para S.O. 
—55 de Bragança para S. E. — 80 da linha 
férrea do Douro (estação da Barca d'Alva, 
que é a mais próxima)— e 2 da margem di- 
reita do Douro, que aqui corre fundo por en- 
tre medonha penedia escarpada, bem como 
desde o alto d'este concelho de Miranda, 
desde o ponto em que fórma a raia ou linha 

| divisória entre Portugal e Hespanha, até á 

: Barca d' Alva e, com pequenas excepções, até 
o Porto ; — são, porém, as suas margens le- 
vemente accidentadas do alto do concelho de 

| Miranda para cima, emquanto não toca em 

I Portugal. 

Atravessa esta freguezia a estrada real a 
macadam, n.° 9. de Miranda a Celorico da 
Beira, pelo Pocinho, Foscôa e Marialva, mas 
infelizmente a sua construcção ainda se acha 
muito atrazada na província de Traz-os-Mon- 
tes, onde tão precisa era. Apenas tem alguns 
' kilometros construídos a partir de Miranda ? 
i emquanto que na margem esquerda do Dou- 
1 ro, desde Celorieo da Beira até o Pocinho, 
se acha quasi concluída. Apenas lhe falta 
um pequeno lanço entre Marialva e Foscôa. 

As 3 melhores propriedades ou quintas 
d'esta paroehia hoje são — a dos herdeiros 
de Manuel Paulo, de Fonte d' Aldeia — a dos 



VIL 687 

herdeiros de Fructuoso Antão e a de Do- 
mingos Martins, do Prado de Gatão. 

Tem esta freguezia 3 egrejas, — uma em 
Villa Chã, outra em Fonte d'Aldeia, outra 
na Freixiosa 

A 1.% que é a matriz actual, tem 20 me- 
tros de comprimento, 10 de largura e 8 de 
altura, 5 altares, capella-mór de construcção 
mais moderna, boa sacristia e grande cam- 
panário com 2 sinos e 4 sineiras. A 2. a é 
mais pequena do que a 1." — tem 3 altares, 
pequena -sacristia e um pequeno campaná- 
rio com 2 sinos. A 3. a é ainda mais pequena 
do que a 2. a , mas de construcção igualmente 
antiga — e tem como ella 3 altares, sacristia 
e campanário com 2 sinos. Foram estas duas 
egrejas as matrizes das duas parochias ex- 
tinctas, annexadas a Villa Chã da Barciosa. 

Ha no limite da extincta paroehia de Fonte 
d' Aldeia uma capella da Santissima Trin- 
dade; é muito antiga,— tem de comprimento 
15 metros, 5 de largura e 6 d'altura— e to- 
dos os annos festa, romagem e grande feira, 
sempre policiada por um destacamento de 
tropa, vinda de Bragança, por ser uma das 
feiras mais importantes da província. 

A capella está em um pittoresco monte 
povoado de sovereiros, distante da Freixiosa 
cerca de 1 kilometro. 

O melhor edifício*' particular de toda esta 
freguezia é a casa, a que chamam das Fami- 
liares, bastante espaçosa, mas sem brazão. 
Foi da família Moraes e hoje é de Antonio 
Delgado. N'ella houve um sargento-mór, Ma- 
nuel Antonio de Moraes, que teve dois ir- 
mãos cónegos, José Francisco e Paulo Mi- 
guel. Este ultimo foi deão e governador do 
bispado de Bragança. 

Foi também natural d'esta freguezia um 
monteiro mór. 

Posto que esta paroehia tenha o nome de 
Villa, nunca foi villa. 

As ruas principaes de Villa Chã são a do 
Bairro daEgreja, Bairro do Carvalho e Bairro 
, de Baixo. 

Banha esta freguezia pelo lado norte um 
i ribeiro que desagua no Douro— e pelo lado 
i E. o mesmo Douro, movendo o dicto ribeiro 



688 



VIL 



20 moinhos de pão — e o Douro 3 azenhas, 
nos limites d'esta paroehia. Ha também um 
lagar d'azeite na Freixiosa. 

Tem esta freguezia cemitério e uma aula 
offleial d'instrucção primaria elementar para 
o sexo masculino. 

Producções dominantes— vinho bom para 
mesa, centeio, trigo, serôdio, batatas, azeite 
e lã, pois também cria algum gado lanígero. 
A industria principal d'esta paroehia — in- 
dustria muito importante — é a criação de 
gado vaccum da celebre raça mirandeza, por 
justos títulos muito estimada em toda esta 
provinda. 

Os bois d'esta raça são escuros, muito cor- 
polentos, muito valentes e dóceis, com ar- 
mação pequena e magnitícos para todo o 
trabalho. 

Por vezes se encontram nas feiras de Traz- 
os-Montes exemplares soberbos, chegando a 
vender-se a junta por 60 a 70 libras — ou 
270 a 315 mil réis da nossa moeda! - . . 

Ha n'esta freguezia lavrador que tem 30 
vacas para creaçãot. . . 

VILLA CHÃ DE CANGUEIROS-freguezia 
do concelho de Mondim da Beira, comarca 
d'Armamar, districto de Vizeu, diocese de 
Lamego, na província da Beira Alta. 

Curato— fogos 90,— almas 381,-orago S. 
Sebastião. 

O Portugal Sacro e Profano não menciona 
esta freguezia e mal pode suppor-se que ao 
tempo (1768). estivesse annexada a outra, 
porque todas as freguezias limitrophes de- 
moram a grande distancia, mettendo-se de 
permeio montes desertos e muito ásperos no 
inverno. Menos pôde suppor-se que ao tempo j 
ainda não existisse, pois é povoação muito • 
antiga e tanto que teve foral, dado pelo mos- 
teiro das Salzedas no armo de 1295, foral 
que Franklin não menciona. N'elle se diz, 
entre outras coisas, que os moradores desta 
povoação de Villa Chã não pagariam caimas, 
salvo aromem morto, e rouso, e lixo em boca. 

Doc v das Salzedas. 

A Historia Ecclesiastica da Cidade e Bis- 
pado de Lamego, escripta na 2. a melada do 
sec. XVIII, diz que este curato rendia com 
o pé d'altar 50$000 réis,— contava 85 fogos 



VIL 

e 221 habitantes — e era apresentado pek 
abbade do mosteiro das Salzedas, que pre 
tendia ter n'esta paroehia jurisdicção ordina 
ria, não sendo porém reconhecida pelo bispe 
de Lamego. 

Esta paroehia é formada por uma povoa- 
ção uniea de aspecto pobre e humilde, si- 
tuada em terreno alto, agreste e frio, mas 
pouco íngreme e com formosos campos e la- 
meiros, nas abas das serras de Santa Helena, 
e Almofala. 

As suas freguezias limitrophes são 
Granja Nova, Cimbres, Passô, Cever e Sar- 
zedo. 

Dista 6 kilometros de Mondim da Beira 
para E. N. E.— 11 d'Armamar para S. — 13 
de Lamego para S. E. — 35 de Vizeu e 27 
da^ estação da Regoa, na linha férrea do 
Douro. 

Passa a 5 kilometros d'esta freguezia a es- 
trada real a macadam da Regoa a Celorico* 
da Beira, por Lamego e Trancoso. 

A egreja matriz é bastante antiga e po- 
bre. Tem altar-mór e 3 lateraes, um de Nossa 
Senhora do Rosario, outro do Espirito Santo] 
e outro do Senhor da Misericórdia — e nanai 
povoação 3 capellas publicas— uma de Santa 
Antonio, que foi a primeira matriz, — outra! 
de S. Pedro — e outra de S. Mamede, todas! 
abertas ao culto e bem conservadas. 

Banha parte d'esta freguezia o rio Galhosa J 
que atravessa as freguezias da Granja Nova 
e Salzedas, — desagua no rio Barosa entre 
Salzedas e Gouviães, na distancia de 5 kilo- 
metros, e move em todo o seu pe*rcurso 7 
moinhos de cereaes e um dazeite. 

As producções principies d'èsta paroehia 
são milho, centeio, trigo, cevada, feijões, ba- 
tatas, hervagens e castanhas. 

Também cria algum gado lanígero e vac- 
cum. 

Tem uma escola offleial d'instrueção pri- 
maria elementar mixta para os dous sexos. 

No dia 5 de maio de 1861 pairou «ma me- 
donha trovoada sobre esta freguezia e, quan- 
do de manhã se tocavam os sinos, chamando ■ 
os fieis para a missa da Ascenção do Senhor, 
cahiu na torre da egreja matriz um raio que 
destroçou a cúpula, fendeu a abobada ema- 



VIL 



VIL 689 



ou instantaneamente tres rapazes que esta- 
cara tocando os sinos, deixando mais dous 
irá niisero estado e um incólume; — partiu 
jrande quantidade de telha no telhado da 
>greja, e, descendo ao interior desta, despe- 
iaçou a porta principal e a pia do Baptismo» 
lascou a porta travessa e, correndo ao longo 
da parede, deslocou muita cal, foi ao altar 
do Espirito Santo, onde deixou apenas leves 
vestígios da sua vertiginosa carreira e, che- 
gando ao arco cruzeiro, penetrou no chão e 
sumiu-se, deixando a egreja toda cheia de 
fumo e a povoação tranzida de susto e ba- 
nhada em lagrimas! 

Por fortuna a egreja se achava inda erma 
de povo, aliás seriam mais numerosas as vi- 
ctimas. 

VILLA. CHÃ e LARIM— titulo de dous con- 
celhos exlinctos que outr'ora pertenceram á 
f comarca de Barcellos,— depois á de Pico de 
Regalados — e por ultimo se fundiram no 
actual concelho e comarca de Villa Verde, 
districto e diocese de Braga, na província do 
Minho. 

Para evitarmos repetições veja-se Larim, 
vol. 4.° pag. §4, col. i. a — e Villa Verde — 
villa, freguezia e séde do concelho e da co- 
marca do seu nome. 

VILLA CHÃ DO MARÃO — freguezia do 
I concelho e comarca d' Amarante, districto e 
diocese do Porto, na província do Douro. 

Abbadia,— fogos 237,— almas 913— orago 
Santo Estevam. 

Em 1706 contava apenas 80 fogos — e 99 
em 1768, sendo o seu paroeho abbade da 
apresentação da mitra e tendo de rendimento 
700$G00 réisl. .. 

Foi do extincto concelho de Gestaçô, co- 
marca de Penafiel; — até 1882 pertencia ao 
arcebispado de Braga— e teve algum tempo 
como annexa a freguezia de S. Martinho de 
Carneiro, d'este mesmo concelho ^Ama- 
rante. 

Comprehende as aldeias seguintes:— Villa 
; Chã, séde da parochia, Barreiro, Paço, Egreja 
e Pedra, Rua Nova, Ribas, Ribeiro, Ribeira, 
Novios, Boa Vista, Real, Cadafaz e Motta;— 
os casaes do Outeiro, Real, Ribeiro da Aze- 
nha, Marãozinho (isolados) Uveira Branca, 
Regadinhas, Souto, Burgo, Casaria, Tapada 



dos Mouros, Val do Caez (isolado) — e, as 
quintas de Lama, pertencente a José Pessoa 
Alão de Moraes.— Sandrigo, de João Teixeira 
Mendes, — Paço, de D. Joaquina Emilia Pe- 
reira Peixoto, — Lage, de Antonio José Xa- 
vier Ferreira,— Santa Eutália, de Francisco 
José da Motta — Burgo, de Manuel Gomes 
Pereira Pinheiro — e a do Rio, que foi do 
conde de Villa Real. 

Freguezias limitrophes— Santo Isidoro de 
Sanche, a E— S. Salvador de Lufrei, a S. e 
O— e a N. os rios Ollo e Tâmega. 

O logar de Villa Chã de Marão demora na 
antiga estrada de Amarante para Ermello e 
dista 1 kilometro da margem esquerda do 
rio 01!o,— 5 d'Amarante para N. E. — 20 da 
estação de Villa Meã, no caminho de ferro 
do Douro— e 71 do Porto. 

Passa n'esta freguezia a estrada distric.al 
n.° 12, d'Amarante a Fridão e deve através- 
sal-a também a estrada municipal, em pro- 
jecto, d'Araarante ás pedreiras calcareas de 
Sobrido, na serra do Marão. 

A egreja matriz data de 1600;— é um tem- 
plo decente, mas simples— com altar-mór e 
4 lateraes. 

A freguezia não tem capellas publicas, nas 
somente duas particulares,— uma de S. Ben- 
to, na povoação de Ribas, — outra de Santo 
Antonio, na quinta do Rio. 

As producções principaes d'esta parochia 
são— milho, vinho verde e azeite. 

Banham-na os rios Tâmega e Ollo, que 
desagua no Tâmega (margem esquerda) no 
sitio de Varões, limite d'esta parochia. 

Tem uma escola official dMnstrucção pri- 
maria elementar para o sexo masculino. 

Esta parochia é muito antiga, nomeada- 
mente a aldeia da Motta, meieira com a fre- 
guezia de Lufrei. 

Na dieta povoação teve uma quinta im- 
portante Mem Gondar, nobre eavalleiro as- 
turiaoo que veiu para Portugal com o conde 
D. Henrique, pae do nosso primeiro rei, D. 
Affonso Henriques. Estabeleceu-se na fre- 
guezia de Gondar, d'este concelho d'Ama- 
rante, onde fundou o seu solar, que deu o 
nome áquella freguezia, e seus descendentes 



690 VIL 



VIL 



tomaram da mencionada quinta o appellido 
de Mottas. 

.0 primeiro que se acha com este appel- 
lido é Ruy Gomes de Gondar da Motta, no 
tempo de D. Affonso II, porque fixou a sua 
residência n'esta quinta da Motta e n'ella 
teve o seu solar. 

Para evitarmos repetições, veja-se o ar- 
tigo Mota ou Motta, vol. 5.° pag. 563, col. I a 
— e Gondar, vol. 3.° pag. 301, col. l. a e 2. a 

Entre as pessoas notáveis que esta paro- 
chia produziu nos tempos modernos, avul- 
tam quatro grandes patriotas, bem dignos 
de que os recommendemos á veneração da 
posteridade : 

Francisco Xavier Ferreira de Sousa Ga- 
vião Pessoa distinguiu-se pelas armas e pela 
dignidade com que exerceu diversos cargos 
públicos. 

Na segunda invasão franeeza elle com o 
seu filho José Ferreira de Sousa Gavião Pes- 
soa, mancebo ainda imberbe, de 16 ánnos de 
idade, não podendo conter a sua indignação 
contra os invasores, alarmou os povos d'este 
concelho d'Amarante e dos concelhos limi- 
trophes, foi o primeiro a levantar o brado 
da revolta contra os malditos corsos e a ac- 
clamar a soberania do príncipe regente, de- 
pois rei, D. João VI. — Á frente de milhares 
d'homens que acudiram ao chamamento, — 
dirigiu-se ao juiz de fóra e obrigou-o a to- 
mar o estandarte da villa d' Amarante e a 
incorporar-se na procissão cívico -religiosa 
que organisou no intuito de determinar o 
povo a tomar as armas em defeza da pátria, 
levantando-o do torpor em que jazia. 

Mais tarde, quando o paiz se determinou 
a sacudir o vergonhoso domínio estrangeiro., 
foi um poderoso auxiliar do valente general 
Silveira, marquez de Chaves e conde d'Ama- 
rante, na heróica defeza d'esta villa, como 
juiz de fóra e vereador mais velho, forne- 
cendo -lhe não só munições de guerra e de 
bocca para o seu exercito, mas também com- 
batentes, aliciando muitos á sua custa, col- 
locando-se denodadamente á frente d'elles e 
batendo-se como um heroe! 

Antonio Cerqueira de Moura Coutinho, ma- 
jor de cavallaria n.° 6 (Dragões de Chaves) 



e seu irmão, o padre Francisco Cerqueira 
Moniz Coelho de Magalhães, não menos ;se 
distinguiram por essa oceasião, nomeada- 
mente o ultimo, animando e alarmando os 
povos, espiando o inimigo, levando ordens a 
toda a parte, expondo a todo o momento a 
vida em defeza da pátria e dando repetidas' 
provas de grande coragem, illustração e ati- 
lamento em tão medonha conjunctural 

Terminarei consignando um facto muito 
honroso para esta freguezia. Tal foi a heroi- 
cidade dos seus habitantes, que os francezes 
não se atreveram a passar além dos limites! 
d'ella. 

Ainda hoje se denomina Valle dos Fran- 
cezes o ponto em que fizeram alto e foram 
obrigados a retroceder. 

VILLA CHÃ DA MONTANHA. V. Villa 
Chã, freguezia do concelho e comarca de 
Alijó. 

VILLA CHÃ DE POYARES — freguezia ex- 
tincta no bispado de Coimbra, orago S. Mi- 
guel. 

Em 1768, segundo se lê no Portugal Sa- 
cro e Profano, era curato da apresentação 
da Universidade— rendia 401000 réis— con- 
tava 112 fogos— e distava de Coimbra 3 lé- 
guas. 

O Flaviense também a menciona e lhe dá 
200 fogos, mas não a encontramos na Cho- 
rographia Portugueza, nem na Chorographia 
Moderna, nem no Diccionario d'Almeida, nem: 
na Chorographia de Lima, nem nos Censos 
de 1864 e 1878, nem no Mappa das Dioceses, 
nem no Districto de Coimbra pelo sr. dr. 
Secco. 

Suppomos que era a povoação de Villa 
Chã, que deu o nome á ribeira de Villa Chã 
no concelho de Poyares— aldeia mencionada 
na Chorographia Moderna, como pertencente 
ás duas freguezias de S. Miguel e Santo An- 
dré de Poyares, sendo esta ultima hoje a 
séde do concelho de Poyares, no districto e 
diocese de Coimbra; estranhamos porém que 
o sr. J. M. Baptista, mencionando na sua 
Chorographia Moderna a dieta povoação,^ 
não lhe addicionasse a nota de freguezia 
extincta e annexa, como addicionou a todas 
as povoações que fôram séde3 de parochia e 
perderam a sua autonomia. 



VIL 



VIL 



691 



Veja-se Poiares n'este diccionario, vol. 7.° 
pag. 114— e Villa Chã de Poyares no supple- 
mento. 

VILLA CHÃ DA RIBEIRA-freguezia ex- 

tincta na diocese de Bragança. O Portugal 
Sacro e Profano diz que em 1768 era curato 
da apresentação do abbade de Villar Secco 
(então concelho de Miranda e hoje de Vi- 
mioso) -que tinha como orago S. Lourenço 
—rendia 3o$000 réis, afora o pó d'altar— e 
contava 31 fogos. 

O Flaviense diz que era da comarca do 
Mogadouro e contava 98 fogos, no seu tem- 
po ; — a Chorographia Moderna menciona-a 
como simples povoação pertencente á fre- 
guezia de Uva, no concelho de jVimioso, 
actualmente — e a Chorographia Portugueza 
diz que em 1706 era parochia annexa á de 
S. Pedro da Silva!... 

V. Silva, freguezia de Traz-os-Montes, vol. 
9.° pag. 36o, col. l. a — e Uva n'este 10.° vol. 
pag. 23, col. 2. a 

VILLA CHÃ DE S A— freguezia do conce- 
lho, comarca, districto e diocese de Vizeu, 
na província da Beira Alta. 

Vigairaria,— orago S. João Baptista,— fo- 
gos 187,— almas 760. 

Em 1708 era curato da apresentação do 
bispo e do cabido da Sé de Vizeu — e em 
1768 era curato da apresentação do bispo, 
—contava apenas 94 fogos— e rendia para o 
cura a bagatella de 6:000 réis, afora o pé 
d'altar. 

Esta freguezia é formada por uma povoa 
ção única, tendo apenas fóra d'ella o casal 
de Soutulho e a quinta dos Lagares. 

É banhada por uma ribeira que desagua 
na margem esquerda do rio VAsnes, con 
fluente do Dão e este do Mondego. 

A povoação de Villa Chã é uma aldeia 
grande e bonita com bons edifícios, algumas 
casas nobres e uma elegante e vistosa egreja 
matriz, bem tractaaa e muito vantaj jsamen- 
te situada a cavalleiro da powação, domi- 
nando -a toda e os seus mimosos e férteis ar- 
rabaldes. Tem uma boa torre a meio da fron- 
taria, — um bom adro para o qual se sobe 
por amplas escadas de granito— e á entrada 
d'estafc um grande cruzeiro de pedra. 

As suas producções dominantes são— vi- 



nho em quantidade e do melhor da Beira, 
milho, feijões e castanhas. 

Ha também n'esta freguezia muitos pi- 
nheiros mansos, alguns de grande porte. 

Não tem serras nem baldios. Todo o seu 
chão é productivo e muito bem cultivado. 

Dista de Vizeu 8 kilometros para S. O.— 
e passa ao poente d esta freguezia a estrada 
real a macadam de Vizeu para Tondella e 
Mealhada. 

VILLA DO CONDE— freguezia, vi 11a e séde 
do concelho e da comarca do seu nome, dis- 
tricto do Porto, arcebispado de Braga, pro- 
víncia do Douro. 

Priorado -orago S. João Baptista— 4:963 
almas em 1:135 fogos (comprehendendo a 
sua annexa Formariz). 

Em 1706 era vigairaria da apresentação 
da abbadessa do mosteiro de Sanda Clara 
d'esta villa, quando o vigário não renuncias- 
se,— contava 900 fogos-e rendia 200*000 
réis para o parocho. 

Em 1768 era priorado da mesma apre- 
sentação, - contava 1:078 fogos - e rendia 
500*000 réis. 

Está muito vantajosamente situada na 
margem direita do rio Ave em terreno vis- 
toso, alegre e pittoresco, distando da beira- 
mar cerca de 500 metros para leste,— 3 ki- 
lometros da Povoa de Varzim para S. — 25 
do Porto para N. O. — e 54 de Braga para 
S. O. pela linha férrea do Porto à Povoa de 
Varzim e Famalicão, seguindo depois pela 
linha férrea do Minho até á estação de Nine 
e d'alli pelo ramal até Braga. 

Tem estação própria na linha férrea do 
Porto á Povoa e Famalicão, que passa a leste 
da villa, e boas estradas a macadam para o 
Porto, Povoa de Varzim, Bareellos, Espo- 
sende, e diversos pontos do concelho, quasi 
todas 'servidas por diligencias, e a de Villa 
do Conde á Povoa de Varzim por uma linha 
férrea americana, cuja exploração se inau- 
gurou no dia 22 de outubro de 1874 l . 



Villa do Conde é povoação muito antiga. 
Suppõe-se que os romanos aqui tiveram um 



i V. n'este 10.° vol. o art. Vias Férreas, 
pag. 484, col. l. a 



692 VIL 



VJL 



castro no sitio em que hoje se vê o convento 
de Santa Clara e que peios annos de 1093- 
1112 o conde D. Henrique a doara ao conde 
D. Mendo Paes Rofinho, ou Rufino, tomando 
esta povoação desde essa epocha o titulo de 
Villa do Conde. Alguém duvida da existên- 
cia de tal castro e da doação feita a D. Men- 
do, tronco dos Azevedos, mas todos concor- 
dam em que D. Sancho I aqui fez um palá- 
cio « o doou á sua favorita, D. Maria Paes 
Ribeira, a celebre Ribeirinha de quem tanto 
faliam as chronicas e lendas e que foi uma 
das mulheres mais formosas do seu tempo. 
O Padre Antonio Carvalho da Costa na sua 
Chorographia Porlugueza disse que D. Ma- 
ria Paes Ribeira foi amante não de D. San- 
cho I, mas de D. Diniz. O mesmo se lá no 
Diccionario Chorographico de J. A. d'Almei- 
da por haver copiado a Chorographia Portu- 
gueza—e o mesmo se encontra na Chorogra- 
phia Moderna do sr. J. M. Raptista p.or ha- 
ver copiado o Diccionario Chorographico de 
J. A. d'Almeida— e nas Villas e Cidades do 
sr. I. de Vilhena Rarbosa,— mas Alexandre 
Herculano, a nossa primeira auctoridade 
n'estes assumptos, fallando de D. Sancho I, 
diz*: «Era o concubinato vicio commum 
naquelle tempo, commum nos príncipes 
como entre os nobres e o clero; e a historia 
conservou o nome de duas amantes do rei 
de Portugal (D. Sancho I) D. Maria Ayres 
de Fornellos e D. Maria Paes Ribeira. Foi 
filho d'aquella Martim Sanches que tão im- 
portante papel fez no meio das ultimas dis- 
córdias de Affonso II com Leão: da outra 
teve cinco filhos, um dos quaes, Rodrigo San- 
ches, também pertence á historia. D'estes 
que mencionamos, e dos outros, cujos no 
mes deixamos na sua tranquilla obscurida- 
de, descende mais de uma nobre familia da 
Hespauha. » E em uma nota manda ver ácer- 
ca d'e*ie ponto a Mon. Lusit. L. 12 e. 21 2 e 
L. 14 c. 24,—o Testamento de D. Sancho I, 
ibid. App. escr. III, e os antigos Nobiliários.' 



1 Hist. de Portug. tomo 2." pag. 86, infine. 
Ah se diz que D. Maria Paes Ribeira 
teve de D. Sancho 6 filhos-D. Theresa San- 
ches, D. Constança Sanches, Gil Sanches Ro- 
drigo Sanches, íSuuo Sanches e Dona Maior 



É pois incontroversa a existência d'esta 
povoação no reinado de D. Sancho 1,-1185 
a 1211. 

Ha n'esta villa tres obras monumentaes, 
o convento de freiras de Santa Clara, — o 
aqueducto do mesmo convénio — e a egreja 
matriz. É também muito importante o caes, 
que se prolonga pela margem direita do Ave 
desde a ponte de madeira, proximidades do 
grande convento, até o mar, — e não menos 
importante e digna de menção era a ponte 
de granito sobre o Ave, mandada fazer pelo 
benemérito corregedor D. Francisco d'Al- 
mada, no ultimo século, mas que infeliz- 
mente desabou no dia li de janeiro de 1821. 

O grande convento foi fundado por D. Af- 
fonSo Sanches, filho natural d'el-rei D. Diniz, 
e por sua mulher D. Theresa Martius, filha 
de D. João Affonso Tello de Menezes, conde 
de Rarcellos, senhor d'Albuquerque e Villa 
do Conde. Lançou-lhe a primeira pedra no 
anno de 1318 e, depois de concluído, o en- 
tregou ás religiosas franciscanas de Santa 
Clara, doando-ihes ainda na sua vida mui- 
tos bens e por sua morte e de sua mulher 
deixou-lhes o senhorio d'esta villa e dou- 
tras terras, com avultadas rendas. 

Lograram as freiras este senhorio muito 
tempo, mas el rei D. Duarte começou a con- 
testar-lhes tão grandes privilégios e rega- 
lias;— D. João III as desempossou d'elles, 
em 1537, dando este senhorio ao infante D. 
Duarte, seu irmão,— e pelo casamento de D. 
Catharina, filha d'este infante, com D. João I, 
sexto duque de Rragança, passou este se- 
nhorio para a real casa de Rragança. 

O convento"de Santa Clara e o seu famoso 
aqueducto, diz o sr. Ignacio de Vilhena Rar- 
bosa 1 , são dous monumentos grandiosos, 
que avultando gigantescamente sobre todas 
as construccões da povoação, dão á Villa do 
Conde um aspecto nobre e particular. 

Ergue-se senhorilmente em sitio um pouco 
elevado e sobranceiro á villa. A primeira fa- 
brica de D. Affonso Sanches conservou-se 
com algumas leves modificações até o século 



1 Villas e Cidades... livro 3.° pag. 150. 



VIL 



VIL 693 



passado, mas, acbando-se então era minas, 
foi mister proceder-se a uma reedifieação 
complda. E tão avultadas eram ainda as 
suas rendas, apesar do muito que haviam 
diminuído com a perda dos direitos senho- 
riaes da viila, que a nova fabrica, verdadei- 
ramente sumptuosa, foi Jevantada á custa da 
ordem. Não chegou a concluir-se, mas ainda 
assim é um dos mais vastos mosteiros que ha 
no reino, e quanto á regularidade, bellesa e 
magestade da sua architectura (diz o sr. Vi- 
lhena Barbosa) é muito superior aos melho- 
res de Lisboa e a lodos os que conhecemos no 
paiz. 

A froataria principal está voltada para o 
sul e era digna de um palácio real. Com- 
põe- se de tres andares com dezesete gran- 
des janellas em cada um e divide-se em cinco 
corpos por duplicadas pilastras. O do centro 
é coroado por um frontão, ornado no tym- 
pano com um baixo relevo, e no vértice com 
uma estatua colossal representando uma mu- 
lher com uma cruz na mão, montada em um 
elephanle. Nos acroterios tem quatro gran- 
des, vasos ou pyras por decoração superior, 
— outros quatro vasos eguaes nas extremi- 
dades de cada um dos corpos— e a meio de 
todos os grupos de vasos um castello em 
baixo relevo. 

A egreja é boa, posto que pequena;— tem 
formosos tectos de madeira em cume, um 
bello púlpito de pau santo, um órgão com 
liada caixa, alfaias de muita riqueza e pri- 
mor e no corpo da egreja, do lado do evan- 
gelho, uma sumptuosa capella de archite- 
ctura manoelina, onde jazem os fundadores 
d'este convento em dous magníficos mauzo- 
leus, do lado da epistola, tendo em frente 
outros dous mauzoleus mais pequenos, onde 
jazem (segundo se suppõe) dous filhos seus. 

Com o corpo da egreja se prolongam os 
dous vastos e lindíssimos coros, alto e baixo, 
havendo n'este ultimo um outro mauzoleu, 
em que jaz D. Brites Pereira d'Alyim, filha 
do condestavel D. Nuno Alvares Pereira, pri- 
meira mulher do conde de Barcellos, D. Af- 
fonso, que foi também depois o primeiro du- 
' que de Bragança., 

Falleceu a dieta senhora em Chaves, onde 
foi sepultada, bem como o seu marido, no 



mosteiro de S. Francisco, mas depois a tras- 
ladaram para Villa do Conde. 

Este convento foi riquíssimo e chegou a 
ter 120 religiosas professas. Com a perda dos 
seus direitos senhoriaes e por ultimo com a 
extineção dos dízimos, em 1834, as suas ren- 
das baixaram lastimosamente, comtudo ain- 
da tem podido provêr á conservação da sua 
grande casa e da pequena eommunidade. 

Conta hoje apenas 5 religiosas professas, 
mas, comprehendendo as meninas do coro, 
as senhoras recolhidas e as creadas, ainda 
alberga um pessoal numeroso e sustenta e 
ampara muitas famílias pobres, que não ces- 
sam de pedir ao ceu a conservação d'este 
convento. 

São estes também os nossos ardentes vo- 
tos. 

Depois do grande aqueducto dos Arcos 
das Aguas Livres, em Lisboa, é o d'este con- 
vento o primeiro de Portugal muito supe- 
rior ao de Coimbra e mesmo aos d'Evora e 
Elvas, que já vimos. 

Tem de extensão mais de 5 kilometros e 
contava 999 arcos, todos de solido granito, 
quazi lodos symetricos, prolongando-se em 
columna cerrada e quasí em linha recta 
desde o convento até à raiz da montanha 
que fecha o horisonte ao norte. 

Alem d'este grande convento de freiras, 
teve a ordem de S. Francisco outro convento 
de frades n'esta villa. 

Era muito mais pequeno,— foi extincto em 
1834 — e n'elle se acha installado o Azylo 
da Ordem Terceira de S. Francisco, á qual 
pertence. 

Foi este hospício ou pequeno mosteiro 
fundado em 1522. 

O pequeno convento dos frades de S. Fran- 
cisco estava a leste do grande convento das 
freiras e contíguo á Ordem Terceira. 

Tiveram também os frades carmelitas um 
Hospicio a O. d'esta villa, com uma pequena 
egreja e uma cerca mimosa e muito fértil. 
Foi também extincto em 1834 e n'elle fune- 
cionam hoje diversas repartições publicas, 
— o tribunal judicial, a conservatória, admi- 



* Foi feito á custa das freiras sob a direc- 
ção do architecto italiano Filipe Terzio. 



694 VIL 



VIL 



nistração do concelho, escrivania da fazen- 
da, etc. A cerca é hoje um largo publico, de- 
nominado Largo da Alfandega, revestido de 
elegantes prédios. A egreja é administrada 
pela confraria de Nossa Senhora do Carmo. 
Tem urna só nave,— altar mór e 2 lateraes. 

A egreja matriz é um templo vasto de tres 
naves e um dos mais perfeitos exemplares 
d'architectura manoelina que se encontram 
ao norte do nosso paiz. 

Não custava hoje menos de 80 a 100 con- 
tos de reis, talvez. 

É toda de bella cantaria de granito, com 
uma soberba frontaria muito ornamentada, e 
coroam as paredes em toda a sua dimensão 
duas ordens d'ameias correspondentes ás pa- 
redes que formam as suas tres naves. 

Interiormente tem capella-mór, duas late- 
raes formando a cruz latina, — grande nu- 
mero d'altares com boas decorações de ta- 
lha dourada recentemente restaurados, — 
duas ordens de arcaria de granito em que 
assentam as tres naves,— e sobre o guarda- 
vento um bom côro com grandes cadeiras 
d'espaldar, pois também foi collegiada, ere- 
cta em 1518. 

Tem a villa outros muitos templos, taes 
são os seguintes : 

A capella de S. Thiago, a primeira matriz 
d'esta villa, veneranda pela sua remota an- 
tiguidade, ereeta no bairro velho com a 
mesma denominação de S. Thiago também. 

Foi e3ta capêllinha restaurada e accres- 
centada em 1857 a 1858 e com tão pouco 
critério que despedaçaram uma pedra, em 
que se achava gravada a inscripção seguinte: 

SAC ~T SACR T DIV T JAC ~ APP T MAI ~ 
EREC — OLIM "7 TEMP T" AZVREI ~ PRIM T 
EDIF — IN T AC . PART "7PT CASTR ~ 

— HODIE ~ RCUP T RBLIG — ZELO — 
DEV T PIE — ET T VOT ~ D T Mendo ~T 
BOFINHO T CONDECÍUS ~T ET T~ DOM. ~ 
HUI T~ TER ~7~ ANNO T KRIS ~~7 DOM . 

M. C. C G. XIV. 

iE$ta capella é consagrada a S. Thiago 
Apostolo Maior; erigida n' outro tempo pelos 
Templários d' Azurara, foi a primeira edifi- 
cada n'esta parte do povo de Castro. — Hoje 
restaurada pelo religiosíssimo zêlo, devoção, I 



piedade e voto de D. Mendo Bofinho, conde e 
senhor d'este território. No anno de Christo 
Nosso Senhor, de 1314. 

Foi esta inscripção copiada e traduzida 
pelo benemérito sr. padre Thiago Cesar de 
Figueiredo Mendes Antas e por elle oíTere- 
cida ao meu antecessor, de saudosa memo- 
ria, o sr. Pinho Leal, com a carta seguinte: 

Ex. me Snr. 

«Esta capella foi accrescentada em 1857 
a 1858, á custa d'alguns devotos, e, quando 
apeavam a frontaria, copiei essa inscripção 
da pedra em que se achava e que o* pedrei- 
ros partiram para metterem em outro logar, 
picando-a e despedaçando a coroa de conde 
que a encimava, em alto relevo. A minha 
curiosidade salvou o que remelto por copia; 
e pela leitura d'alguns livros tirei es^a in- 
terpretação, que subrqetto ao juizo de V. Ex. a 

«Villa do Conde 15 de janeiro de 1883. 

«Padre Thiago Cesar de Figueiredo Men- 
des Antas.» 

Bem haja o meu íllustrado collega,— bem 
haja! 

As outras capellas de Villa do Conde são 
a de Nossa Senhora da Guia ou de S. Ju- 
lião, na boca da Barra, lado norte, também 
muito antiga e muito interessante, cercada 
por uma plataforma e alguns casebres que 
foram a primeira obra de defesa da barxa, 
muito antes de se construir o pequeno forte 
contíguo e o Castello de que adiante fallare- 
mos. 

Tem esta capêllinha o tecto apainelado 
com pinturas a oleo, que alguém attribue a 
el-rei D. Duarte, e foi ella oratório dos fun- 
dadores do grande convento. 

Exteriormente tem um pequeno farol de- 
nominado da Senhora da Guia. 

Capella de S. Roque,— também muito an- 
tiga. Suppõe-se ter sido fundada por oeca- 
sião de uma grande peste que assolou esta 
villa no tempo em que se fez também o an- 
tigo cemitério que ainda hoje se nota junto 
da capella de S. Thiago. . 

Capella de Nossa Senhora do Soccorro, 
muito antiga também. 



VIL 



VIL 695 



Foi fundada por Gaspar Manuel, caval- 
leiro do habito de Christo e piloto-mór da 
carreira da índia. 

É de fórma quadrada, coberta por um 
zimbório liso redondo .e assenta em uma pla- 
taforma com vistas esplendidas, dominando 
o Ave que a banha pelo sul, todo o caes, o 
seu vasto campo e o estaleiro, a villa, o 
grande convento, Azurara, o Castello e grande 
extensão do occeano. 

É um dos. mais interessantes e concorri- 
dos miradouros de Villa do Conde. 

Capella de Santo Amaro, também antiga. 
Olha para o poente e se ergue na extremi- 
dade norte da pequena cordilheira que cinge 
a leste a villa. 

Tem festa e feira, hoje pouco importante, 
no dia do seu orago — 15 de janeiro,— mas 
ainda no século passado a feira durava 3 
dias e 8 em tempos anteriores. 

Capella de Santa Catharina—blha. para o 
poente, — ergue-se sobre uma rocha pouco 
elevada no extremo norte da villa, a oeste 
da estrada da Povoa de Varzim, na direcção 
do mar. Tem do lado sul uma porta lateral 
com galilé cercada de assentos e d'alli se go- 
zam amplas vistas sobre a terra e o mar. 

É administrada pelo povo e também muito 
antiga. 

Não tem festa nem irmandade própria. 

Capella de Santa Lusia. — É um dos tem- 
plos de mais regular construcção e dos mais 
modernos da villa, mas estando todos muito 
limpos e bem tractados, este infelizmente se 
acha em completo abandono 1 

É toda de bella cantaria com boa distri- 
buição de ornatos, tem um frontispício ele- 
gante e interiormente tres altares e um car- 
neiro, pois era cabeça de um morgado, in- 
stituído por Martim Vaz de Villas Boas. 

Capella de S. Bento— não é muito antiga 
e foi também cabeça de um morgado insti- 
tuído por Mandel Barbosa, natural de Villa 
do Conde. 

Capella do Espirito Santo— está em frente 
da egreja da Misericórdia e foi também ca- 
beça de um morgado, instituído pelo abbade 
de Ballasar. 

Não tem confraria e é zelada pelos visi- 
nhos. 



Capella de S. Sebastião. — Era bastante 
antiga e foi sempre administrada pela ca- 
mará, que a mandou demolir em 1859, para 
o alinhamento e construcção da nova estra- 
da a macadam d'esta villa á Povoa de Var- 
zim, mudando-a para o cemitério publico, 
onde se acha. 

Estava na boca da rua de S. Sebastião, 
que tomou o nome da vetusta capella e sup- 
põe-se que era tão antiga como a de S. Ro- 
que. 

Capella do Senhor da Agonia, — fronteira 
aos paços do concelho. 

É bastante antiga e foi cabeça d'um mor- 
gado instituído por um ascendente do dr. 
Eusébio da Novoa Sarmento, medico resi- 
dente no Porto pelos fins do século passado, 
e já então tinha confraria própria. 

Ha também n'esta villa mais tres egrejas 
— a da Misericórdia, a dos Terceiros de S. 
Francisco e a de Nossa Senhora da Lapa. 

A egreja da Misericórdia foi fundada, bem 
como a irmandade que a representa, em 
1525, no local onde existia desde tempos 
muito anteriores a capella do Anjo. 

É um templo espaçoso, singelo mas ele- 
gante, de uma só nave com as paredes in- 
teriormente forradas d'azulejo, coro sobre 
o guarda-vento, altar-mór e 4 lateraes, um 
de Nossa Senhora da Piedade, outro do Se- 
nhor dos Passos, outro do Senhor Ecce Homo 
e outro do Bom Pastor. 

Toda a esculptura dos retábulos é sim- 
ples, mas decente — e a egreja está muito 
limpa e bem conservada. 

Tem contigua a casa das sessões da mesa 
ou do despacho, coeva da egreja, concluida 
porém mais tarde. 

Na frente da egreja ha um pequeno adro 
com um grande cruzeiro de granito — e a 
poucos passos de distancia do lado N. O. se 
ergue, o hospital da Misericórdia, fundado 
em 1634 por Diogo Pereira e sua mulher 
Filippa Nunez, naturaes de Ponte Vedra, na 
Gallisa, e por elles dotado com "a somma de 
444$000 réis de juro. 

Da frente d'este hospital e da egreja da 
Misericórdia vai hoje em linha recta até á 
beiramar uma ampla rua, denominada de 



696 VIL 

Bento de Freitas, recentemente construída 
para serviço da nova praia de banhos, tendo 
a dieta "rua na sua extremidade oeste, junto 
da praia, dous bellos renques de casas pa- 
rallelas destinadas para os banhistas e fei- 
tas por uma Companhia Edificadora, for- 
mada ad iioc, esperando que a concorrência 
dos banhistas a indemnisaria de toda a des- 
peza, o que infelizmente não se deu até hoje; 
não obstante a companhia ainda não perdeu 
as esperanças de realizar o desideratum. 

A egreja dos Terceiros de S. Francisco — 
ergue se a poucos metros de distancia do 
grande convento de Santa Clara, para o nor- 
te, — é bastante antiga e pòuco espaçosa,— 
tem uma linda portada, estylo renascença— 
e d'este templo sae todos os annos a procis- 
são de einza com muitos andores, muitos 
anjos, e muitos irmãos terceiros. 

É absolutamente a primeira procissão da 
villa e do concelho, muito concorrida pelos 
fieis das circumvi^inhanças, nomeadamente 
da Povoa de Varzim e do Porto, depois que 
se fez a linha férrea do Porto á Povoa e Fa- 
malicão, estabelecendo sempre vários com- 
boyos a preços reduzidos e sempre regor- 
gitando de fieis e forasteiros n'aquelle dia 
para verem tão apparatosa procissão. 

Egreja de Nossa Senhora da Lapa— con- 
struída no próprio local onde esteve a an- 
tiquíssima capella de S. Bartholomeu, na 
extremidade N. E. da villa, ao lado norte da 
estrada municipal a macadam que da villa 
conduz á freguezia de Ferreiro, mas que 
deve proseguir até Villa Nova de Famalicão. 

E um templo espaçoso e elegante com 
duas torres na frenie, muito bem situado 
em alta e vistosa planície e com uma ampla 
e formosa avenida que lhe dá ingresso. Olha 
para o poente; — tem do lado norte casas 
para o sacristão e na retaguarda um pe- 
queno cemitério. 

Temos no nosso paiz centos de egrejas pa- 
roehiaes muito inferiores a esta. 

Foi sempre do povo e da administração 
publica e data a sua ultima reconstrucção 
do 3." quartel do século XVIII. 

A barra é estreita e só permitte entrada 
a navios de pequena lotação. Deíende-a um 



VIL 

forte, denominado Castello, com cinco ba- 
luartes, principiado no século XVI por or- 
dem de D. Duarte, duque de Guimarães, fi- 
lho do infante D. Duarte e neto d'el-rei D. 
Manuel. 

Fez o risco e dirigiu a obra Filippe Ter- 
zo, ar chi tecto italiano que esteve ao serviço 
de Filippe II de Hespanha, pelo que alguns 
escriptores attribuem a este soberano a edi- 
ficação d'aquelle forte. 

Pelos annos de 1624, pertencendo já en- 
tão o senhorio d'esta villa á casa de Bra- 
gança, mandou o duque D. Theodosio II 
continuar as obras da fortaleza que vieram 
a concluir-se durante as guerras da restau- 
ração do reino. 

Um operário que trabalhava nas dietas 
obras achou alli, no anno de 1636, uma bella 
saphira que vendeu ao cónego Belchior 
Maio. Este vendeu-a na cidade do Porto por 
vinte e cinco mil réis a um estrangeiro que 
a levou a Paris, onde dizem que a vendera 
por setenta mil crusados!.. . 

Na mesma occasião appareceram mais al- 
gumas saphiras, mas todas de menos valor. 

Antes da fundação d'este castello havia 
para defesa da barra apenas uma plataforma 
com 4 peças, junto da capella de Nossa Se- 
nhora da Guia, já por nós mencionada. 

Villa do Conde é povoação muito farta e 
saudável. Os seus habitantes pela maior parte 
se empregam no commercio e nas pescarias 
e, antes da lastimosa decadência da nossa 
marinha mercante, muitos se empregavam 
também na construcção do grande numero 
d'embarcações que pejavam o seu estaleiro, 
hoje quasi sempre nu! 

Também é muito importante ainda hoje 
n'esta villa a industria das formosas rendas 
de bilros, em que se empregam centenares 
de mulheres desde a idade de cinco annos, 
o que lhes dá uma certa delicadeza e dis- 
tineção de maneiras, mesmo ás filhas do 
povo. t 

Villa do Conde, Vianna do Castello e Pe- 
niche são as tres povoações do norte do 
nosso paiz em que se fabricara em maior 
escala as dietas rendas, sendo porém as de 
Peniche muito superiores absolutamente a 



VIL 



VIL 697 



todas as de Portugal era mimo, variedade e 
perfeição. 

Em Villa do Conde e Vianna apenas fa- 
zem fitas de renda, de 2 centímetros a 2 de- 
cimetros de largura e do preço de 100 a 
i$500 réis o metro, — emquanto que em Pe- 
niche fazem com bilros por vezes fitas de 
meio metro de largura até o preço de tres 
libras (13£50O réis) por metro corrente. E, 
além das fitas, fazem lambem lenços, pu'- 
nhos, golas, almofadas, travesseiriuhas ^co- 
bertas para guarda-soes de senhora, chailes 
de fio de seda no valor de 200 a 300$000 
réis cada um e toalhas para altares com as 
imagens dos santos a que se destinam, de- 
senhadas e executadas a bilros, — trabalho 
admirável e difflcillimo, que faz o espanto 
de nacionaes e estrangeiros 2 !. . . 

As producções principaes dos arredores 
d'esta villa são trigo, centeio, milho, cebo- 
las, vinho verde ou de enforcado, fructas e 
hortaliça. 

Tem uma feira annual, a de Santo Amaro, 
no dia 15 de janeiro, e 4 mensaes, nos dias 
3, 12, 20 e 27 de cada mez, — todas muito 
concorridas e muito abundantes, nomeada- 
mente de gado novino, cereaes, louça branca 
e amarella nacional, artigos de tenda, apres- 
tes de lavoura e peixe secco. 

N'ellas se ostenta o typo sympathico e vi- 
goroso das lavradeiras do Minho, carrega- 
das de saias, saiotes e cordões d'ouro cora 
pequenos chapéus de panno enfeitados com 
espelhos, fitas, pennas de cores e flores ar- 
tificiaes, — graudes lenços de seda e algodão 
com ramagem de cores vivas ou brancos de 
cambraia, bordados a retalho, e pequenas 
chinelas ponteagudas, de couro ou de ver- 
niz. 

Entre o castello e a capella de Nossa Se- 
nhora da Guia se vê na praia uma pyramide 
que commemora a chegada da esquadra do 



1 Tenho eu uma com as minhas inieiaes, 
toda feita com bilros e linha de Guimarães. 
E' muito linda, mas custou-me 13$500 
réis!. . . 

2 V. Peniche n'este diccionario e no sup- 
plemento. 



st. D. Pedro IV, duque de Bragança, no dia 
8 de julho de 1832, e o desembarque de 
Bernardo de Sá Nogueira, depois marquez 
de Sá da Bandeira, enviado pelo imperador, 
como parlamentario ao brigadeiro realista 
José Cardoso que se achava a pequena dis- 
tancia com a sua brigada, convidando o para 
se unir aos defensores da liberdade e do 
throno de D. Maria II,— convite que aquelle 
brigadeiro recusou altivamente, mas, em vir- 
tude de instrucções superiores, longe de se 
oppôr ao desembarque, marchou sobre o 
Porto, deixando a praia livre. 

O monumento ou obelisco é uma das duas 
pyramides que se erguiam á entrada da ave- 
nida da grande ponte de pedra, mandada 
fazer por D. Francisco d'Almada sobre o 
Ave e que desabou no dia 11 de janeiro de 
1821, como já dissémos. A outra pyramide 
lá se conservou até o mez de julho d'este 
corrente anno, data em que a camará man- 
dou apeal-a e demolir a avenida que se pro- 
longava do poente a nascente na margem 
direita do Ave, quando tractava da construc- 
ção e nivelamento da nova estrada que da 
villa conduz á estação da linha férrea. 

A pyramide ou monumento erguido á bei- 
ra-mar é de granito, tem quatro faces, e 
5. m ,50 d'a!tura, desde o chão até á cúspide, 
que era encimada por uma corôa real, tam- 
bém de granito, mas ha annos, uma faisca 
eléctrica despedaçou-a com a extremidade 
superior da pyramide, arrojando os frag- 
mentos a distancia. 

Assim se conserva o . pobre monumen- 
to! . . . 

Levantou-se este padrão por iniciativa de 
Antonio José d*Avila (depois duque d\Avila 
e Bolama) sendo governador civil do Porto, 
e por iniciativa sua se ergueu também ou- 
tro padrão análogo na praia de Pampelido 
ou do Mindello, onde desembarcou o exer- 
cito libertador, no mesmo dia 8 de julho de 
1832, um pouco ao sul de Villa do Conde K 

A passagem sobre o Ave, entre esta villa 
e a margem opposta é feita por uma ponte 



i V. Mindello, vol. 5 0 pag. 235, col. I. 1 
e Lavra, vol. 4.° pag. 59, col. 2. a 



698 VIL 



VIL 



de madeira que se construiu depois que des- 
abou a grande ponte de pedra. Anterior- 
mente á construccão da grande ponte era 
feita em uma barca que crusava entre o caes 
das lavandeiras, contíguo á velha capellinha 
de S. Thiago — e a entrada sul da ponte 
actual de madeira. 

Cortava o Ave em aDgulo obliquo, porque 
ainda ao tempo não existia o grande caes 
que formou o campo da feira, enxugando 
com o aterro um braço do Ave que se es- 
tendia para o norte, na direcção da estrada 
actual da Povoa de Varzim, até ás proximi- 
dades da Capella de Santo Amaro. 

Ainda em 1860 vivia na rua de S. Sebas- 
tião d'esta villa o mestre pedreiro que lan- 
çou a primeira pedra na obra do caes. Era 
appellidado o Mansinho e falleceu contando 
mais de noventa e tres annos de idade. 

Também ainda hoje existem n'esta villa 
mulheres appellidadas as barqueiras por 
descenderem da ultima familia que trouxe 
arrendada a velha barca da passagem mui- 
tos annos. 

Junto do caes das lavandeiras ou do lagedo 
onde abicava a dieta barca do lado da villa, 
estava um nicho com a imagem do|Redem- 
ptor, denominado nicho do Senhor das Pau- 
tas, porque nas costas d'aquelle nicho cos- 
tumavam afixar-se as pautas com os preços 
e regulamentos da passagem. 

Quando se fez a ponte actual de madeira 
transferiu se o mencionado nicho para a 
avenida ou entrada norte d'ella, e conserva 
ainda hoje (1884) bem vizivel a inscripção 
seguinte que prova o que levamos exposto: 

Taxa da 
passage 
• Cada p. a 
M.° Real 
Besta may 
or HO real 

BESTA MEN 
OR M.° REAL 
OS DONOS 
DELLAS NA 
DA NEM OS 
M. res DESTA 

VILLA 
SOB AS PE 
NAS DO FO" 
RAL 

1634 



Esta villa teve foral dado por D. Diniz em 
Lisboa a 10 de fevereiro de 1296. Liv. lide 
Doações do Sr. Rei D. Diniz f. 119, v. col. 
l. a — e D. Manuel lhe deu foral novo em Lis- 
boa também, no dia 10 de setembro de 1516. 

Liv. de Foraes Novos do Minho, f. 14, v. 
col. l. a 

Foi esta villa muito estimada e conside- 
rada por D. Manuel, como provam o foral 
que lhe deu, a soberba egreja matriz com 
que a ornou e os paços do concelho que 
ainda hoje existem e conservam a esphera 
armilar e a cruz da ordem de Christo, si- 
gnaes que se vêem em lodos os edifícios 
mandados fazer pelo rei venturoso. 

Esta villa teve sempre muita nobreza e 
desde remotas eras produziu muitas pessoas 
notáveis. 

Poderíamos citar uma extensa lista des- 
sas pessoas, mas, como este^artigo já vai 
longo, no supplemento a daremos, bem como 
outras noticias que prendem com ella e que 
agora omittimos. 

Por decreto de 23 de maio de 1867 foi an- 
nexada a esta villa a velha parochia de For- 
mam, cujo orago é S. Pedro Apostolo, 

Em 1768 era abbadia da apresentação do 
abbade de Touguinhó, contava 14 fogos e 
rendia 30$000 réis. 

V. Formariz, vol. 3.° pag. 215, col. l. a 



Tem este concelho : 

Superfície em hectares 12:775 

População — fogos 5:426 

t —almas 23:660 

Freguezias 31 

Prédios inscriptos na matriz 21:748 



Nas antigas cortes d'esta villa tinha as- 
sento no banco oitavo— e o seu brasão der- 
mas é uma nau á véla em mar azul. 

A freguezia de Formariz, hoje annexa á 
de Villa do Conde, está situada ao norte do 
rio Ave e ao norte da villa, distante d'esta 
cerca de 800 metros, 50 da margem direita 
do Ave, cerca de 1 kilometro da freguezia 
de Touguinha e 100 a 200 metros da fre- 
guezia da Retorta, mettendo se de permeio 
o Ave. 



VIL 



VIL 



699 



No chão de Formariz se edificou na mar- 
gem direita do Ave uma grande fabrica de 
fiação e tecidos pela companhia denominada 
—Industrial e agrícola portuense. 

Formou-se esta companhia em i de junho 
de 1875 e no mez de julho do mesmo armo 
deu principio ás obras, conservando as aze- 
nhas para moagem que alli existiam e exis- 
tem. 

O seu capital é de trezentos contos. 

A fabrica é movida pelo Ave. A dieta com- 
panhia comprou todo o passal da extincta 
parochia e destinou a casa da residência 
para habitação dos seus operários. 

Junto do convento de Santa Clara tinham 
as freiras um grande açude com um grupo 
d 'azenhas para moagem de cereaes, mas ha 
annos o dr. Faria, de Villa do Conde, com- 
prou as dietas azenhas e lhes addicionou, 
para servir no tempo da estiagem, uma ma- 
china a vapor e moinhos correspondentes. 

VILLA CORTEZ DA ESTRADA— ou Villa 
Cortez da Serra — freguezia do concelho e 
comarca de Gouvéa, districto e diocese da 
Guarda, província da Beira Baixa. 

Orago Nossa Senhora da Conceição,— fo- 
gos 160,— almas 674. É priorado. 

Em 1768 pertencia ao bispado de Coim- 
bra, — contava 91 fogos, — rendia 16Q$000 
réis — e era da apresentação dos condes de 
Mello. 

Para se distinguir da parochia de Villa 
Cortez do Mondego, d'esta mesma diocese, 
denomina-se Villa Cortez da Estrada^ por 
que demora na estrada real de Celorieo da 
Beira para Coimbra, pela ponte da Mwxella 
e Oliveira do Hospital,— ou Villa Cortez da 
Serra por estar a pequena distancia do pen- 
dente N. O. da serra da Estrella. 

Algumas chorographias, entre ellaso Dic- 
cionario abreviado de J. A. d'Almeida, dão- 
lhe como «orago Nossa Senhora da Expecta- 
ção, mas o Portugal Sacro e Profano, os Cen- 
sos de 1864 e de 1878 e o Mappa das Dio- 
ceses, publicado em 1882, dão-lhecomo orago 
Nossa Senhora da Conceição. 

A Chorographia Moderna diz que esta pa- 
rochia pertenceu ao concelho e termo de Li- 
nhares, mas que extincto este concelho por 



decreto de 24 d'outubro de 1855, passou 
para o de Gouvéa. 

Isto não é absolutamente exacto. 

A povoação de Villa Cortez, séde d'esta 
parochia e a única que a constitue, posto 
que é uma povoação compacta, dividia-se 
d'um modo curioso em differentes grupos ou 
bairros — um pertencente ao termo da ex- 
tincta villa de Linhares,— outro ao termo da 
extincta villa de Folgosinho — e outro ao 
termo da villa de Gouvéa. Ainda hoje (1884) 
rfesta povoação se distiguem aquelles 3 gru- 
pos de casas, bem como os seus habitantes, 
dizendo-se: — estes são do termo de Gouvéa, 

— aquelles são do termo de Folgosinho. No 
termo de Linhares já se não falia. 

As suas freguezias limitrophes são — Fi- 
gueiró da Serra, a 4 kilometros de distan- 
cia,— Fí/ia Ruiva, a 2:500, — Villa Franca 
da Serra, a 4,— a villa de Cabra, a 5, met- 
tendo-se de permeio o valle d'Arinte,— Na- 
baes, Nabainlws e Mello, a 4 kilometros, — 
Folgosinho a 6 — e Freixo da Serra a 4. 

Dista de Gouvéa 9 kilometros para N. E. 

— da estação de Gouvéa ou da de Fornos 
d' Algodres, na linha da Beira Alta, 7 kilo- 
metros,— 6 da margem esquerda do Monde- 
go,— 41 da Guarda para O. pela estrada a 
macadam.— 63 pela linha férrea (estação de 
Fornos d'Algodres) — 152 da cidade da Fi- 
gueira (pela linha férrea, estação de Gou- 
V êa)_207 do Porto— e 332 de Lisboa. 

Esta freguezia é pouco saudável por estar 
em planície funda, no sopé da serra da Es- 
trella e na margem direita de uma grande 
ribeira, formada pelas de Mello e do Freixo 
que fazem juneção na grande ponte de pe- 
dra da estrada a macadam de Celorico a 
Coimbra,— estrada que toca n'esta povoação, 
do lado sul, e a separa da sua egreja matriz, 
correndo de leste a oeste. 

As dietas ribeiras, por occasião das chu- 
vas e do desgêlo da grande serra próxima, 
avolumam d'um modo espantoso com a 
grande quantidade d'agua que se despenha 
da serra em torrentes e inundam parte da 
povoação e da campina marginal, causando 
por vezes prejuízos consideráveis e compro- ' 
mettendo a salubridade publica. 



700 VIL 



Tem havido aqui epidemias devastadoras, 
matando famílias iateiras e deixando casas 
deshabitadas! . . . 

A egreja parochial é um templo espaçoso 
e elegante, muito vantajosamente situado a 
cavalleiro da estrada a macadam e da po- 
voação, em sitio relativamente alto, alegre e 
vistoso. 

Foi mandada fazer nos fins do ultimo sé- 
culo ou princípios d'este pelos condes de 
Mello, donatários d'esta parochia e que apre- 
sentavam o seu prior. 

Tem altar-mór com um bello retábulo de 
talha dourada e tres lateraes, — côro sobre o 
tíuarda-vento, torre com 4 sineiras, muito 
elegante e bem acabada, cemitério em volta 
de toda a egreja, — ampla escadaria que dá 
entrada para o cemitério — e outra d'este 
para a porta principal da egreja. 

Circumdam o cemitério ciprestes e olivei- 
ras—e ha na egreja duas irmandades — uma 
do Santíssimo, que é a fabriqueira,— e outra 
do Senhor das Almas. 

No centro da povoação ha uma capella de 
S. Bartholomeu, que foi a velha matriz e teve 
festa própria e grande feira, em*outros tem- 
pos, no dia de S. Bartholomeu, 24 d'agosto. 

Ha n'esta parochia um edifício brasonado, 
antigo, pertencente á família Mendonças, de 
Freches, no concelho de Trancoso ; entre 
os não brasonados os que mais avultam hoje 
, são os seguintes:— um de Joaquim Tavares 
Ferreira, pae de 3 presbyteros, pendo dous 
formados em direito, — outro de Francisco 
Maria, de Sandornil,— e outro dos herdeiros 
de Ruy d'Almeida, que foi negociante e dei- 
xou boa fortuna. Este ultimo é o melhor e 
mais moderno. 

Além das ribeiras já mencionadas e que, 
depois de se fundirem em uma só, desaguam 
no Mondego, junto da povoação, antiga villa 
de Cábra, banha esta freguezia o ribeiro do 
Ollo, cerca do 500 metros ao norte e pouco 
importante. 

Na grande ribeira ha duas pontes de pe- 
dra,— urna mesmo na povoação de Villa Cor- 
tez, — outra akun3 metros a montante, feita 
pelas obras publicas na estrada real a ma- 
cadam — e dous pontões também na povoa- 



ção para serventia do pequeno bairro que 
foi e ainda hoje se chama termo de Folgo- 
sinho. 

Ha também na grande ribeira 3 moinhos 
de pão, i lagar d'azeíte, i fabrica de fiação 
de seda, que foi de Ruy d'Almeida, — e ou- 
tra de queimar vinho, pertencente a Joa- 
quim Tavares Ferreira. 

Houve também aqui n'outros tempos um 
bom estabelecimento de tinturaria, a que o 
povo chamava e chama o Tinte. D'elle res- 
tam hoje [apenas uns grandes casarões e 
grandes fornalhas, tudo. em ruínas. 

Esta parochia nunca foi villa, mas gosou 
de todos os privilégios das villas de Gouvêa, 
Folgosinho e Linhares a cujos termos per- 
tencia, como já dissémos. D'ellas se fallou 
já n'esle diccionario e se fallará mais deti- 
damente no sttpplemento. 

Ha no limite d'esta parochia um pequeno 
morro denominado Castelejo, que se suppõe 
ter sido atalaia em tempos remotos, — e 
nelle uma cavidade denominada capella dos 
moiros. 

Tem esta freguezia uma aula offieial de 
instrucção primaria elementar para o sexo 
masculino. 

As suas producções principaes são — mi- 
lho, feijões, balatas, vinho e azeite. Exporta 
todos estes artigos em quantidade. Também 
produz muita hortaliça, com que abastece 
os mercados de Gouvêa,— muito queijo que 
vende para o Porto e Lisboa, onde é bera 
conhecido por queijo da serra da Estrella, 
—centeio para consumo e lã, pois cria bas- 
tante gado lanígero. 

Como passava n'esta freguezia a antiga 
estrada militar, que é, com pequenas varian- 
tes, a mesma estrada' nova a macadam, sof- 
freu muito esta povoação com os Movimentos 
de tropa, principalmente na guerra penin- 
sular, quando o exercito francez, eomman- 
dado por Massena, retirava das linhas de 
Torres Vedras pela ponte da Murcella e Ce- 
lorico da Beira para a Hespanha. 

Occuparam litteralmente esta povoação 
durante a passagem de todo o exercito e aqui 
tiveram um hospital de sangue na casa dos 



VIL 



VIL 701 



Sequeiras Corte-Reaes, pagando-lhes gene- 
rosamente incendiando-a, bem como grande 
parte d'esta povoação, quando se retiraram. 

A tradição local ainda conserva muitas 
recordações d'aquelle tempo e entre ellas a 
lenda seguinte : 

Em certo recontro que os francezes tive- 
ram com o exercito aDglo-luso na Carrapi- 
chana, um soldado da cavallaria franceza 
recebeu tal golpe no pescoço que lh'o cor- 
tou, ficando a eabeça pendente sobre as cos- 
tas—e, partindo o cavallo á desfilada sem 
governo, só parou junto d'esta povoação, 
trazendo na sella o cavalleiro decapita- 
do!... 

A freguezia da Carrapichana está também 
na mesma estrada de Celorico, que atravessa 
Villa Cortez, mas distante cerca de 4 kilo- 
metros para leste. 

Diz também a tradição local que no sitio 
da Coutada, pequeno cabeço nos limites 
d'esta paroehia, houvera em tempos remo- 
tos um vulcão ou olho marinho, de tal or- 
dem que levou d'envolta um espaçoso tracto 
de terra com arvoredo, inclusivamente um 
castanheiro, indo parar tudo na ribeira pró- 
xima, a distancia de 200 a 300 metros. 

Assim o affirma a tradição local, mas quem 
não acreditar não pecca. 

Ao rev. sr. José Nunes Morgado, digno 
prior d'esta freguezia, agradeço os aponta- 
mentos que se dignou enviar-me. 

VILLA CORTEZ DO MONDEGO — fregue- 
zia do concelho, comarca, districto e diocese 
da Guarda, na província da Beira Baixa. 

Priorado. Orago S. Sebastião, — fogos 91, 
— almas 365. 

Em 1708 contava 67 fogos, segundo se lê 
na Chorographia Portuguesa; — o Portugal* 
Sacro e Profano em 1768 deu-lhe 62 fogos e 
100$000 réis de rendimento, — e J. A. d' Al- 
meida em 1866 deu-lhe 185 fogos, o quefoi 
erro typographico por certo. Suppomos que 
o benemérito auctor do Diccionario choro- 
graphico abreviado escreveu— 85. 

O seu prior era collado e da apresentação 
da coroa em 1768, mas até 1758 foi da apre- 
sentação dos marquezes de Gouvêa, condes 
de Portalegre e por ultimo, para sua des- 
graça, também duques d' Aveiro, tornando-se 
volume x 



os fidalgos mais ricos e poderosos que Por- 
tugal teve no ultimo século. 

Tudo perderam com a pró- 
pria vida— e não só os duques 
d'Aveiro, marquezes de Gou- 
vêa, mas os marquezes de Tá- 
vora, condes d'Athouguia e 
muitos dos seus familiares, no 
dia 13 de janeiro de 1759, em 
seguida ao attentado contra D. 
José I, na noute de 3 de setem- 
bro de 1758. 

V. Chão Salgado, vol. 2.° 
pag. 271, col. 1." e seg. 

Os marquezes de Gouvêa foram senhores 
e donatários das villas de Gouvêa, Vallezim, 
Villa Cova a Coelheira, Celorico, etc. etc. e 
por isso apresentavam o prior d'esta fregue- 
zia de Villa Cortez do Mondego; porque per- 
tencia ao termo de Celorico. 

V. Gouvêa n'este diccionario (vol. 3." pag. 
312, col. 2. a ) e no supplemento, onde am- 
pliarei consideravelmente aquelle artigo. 

O padre Carvalho diz que o orago d'esta 
paroehia de Villa Cortez era S. Domingos 
em 1708,— e o mesmo orago lhe deu D. Luiz 
Caetano de Lima em 1736, — mas o Port. 
Sacro e Prof. em 1768 e todas as ehorogra- 
phias e publicações officiaes posteriores lhe 
deram como orago S. Sebastião. 

Esta paroehia é formada por uma única 
povoação— Villa Cortez — situada a 1 kilo- 
metro da margem esquerda do Mondego, a 
11 da Guarda para N. N. O. — e a 8 de Ce- 
lorico para E, S. E. 

Comprehende as quintas da Banha e In- 
sua—e os moinhos da Videira, Lage, Entre 
Aguas e Lagarteira. 

As suas producções dominantes são vinho, 
azeite e cereaes. 

VILLA COVA— freguezia do concelho e co- 
marca de Fafe, districto e diocese de Braga, 
na província do Minho. 

Abbadia— orago S. Bartholomeu,— fogos 
110,— almas 481. 

Em 1706 já era abhadia do padroado real 
pertencente á grande comarca de Guima- 
rães, contava apenas 40 fogos e estava unida 

45 



702 VIL 



VIL 



ao arcediagado de Guimarães, que tinha o 
titulo de Villa Cova;— em 1736 pertencia á 
mesma comarca de Guimarães, — já contava 
89 fogos e e 225 habitantes, — em 1768 era 
também abbadia do padroado real, — contava 
94 fogos e rendia 450$000 réis;— nos prin- 
cípios d'este século pertenceu ao concelho e 
julgado de Celorico de Basto, comarca de 
Fafe;— em 1840 pertencia ao concelho e co- 
marca de Guimarães — e, por decreto de 31 
de dezembro de 1853, passou para o conce- 
lho e comarca de Fafe. 

Segundo se lê na Chorographia Moderna, 
o logar de Villa Cova, Assento ou Egreja 
está situado na margem direita do rio Vi- 
zella, do qual dista 1 kilometro para N. O. 
— e 7 de Fafe para o N.— 17 de Guimarães, 
73 do Porto e 410 de Lisboa. 

Comprehende mais esta freguezia os loga- 
res ou povoações de Vallado, Lameira, Pas- 
sos, Cotelhe, Outeiro, Toutiço, Casaes, Pa- 
dinho, Crujeira, Valdelhe, Lamas, Bairro, 
Moure, Castanheira, Sancha, Rio, Loureiro, 
Fornello, Portella, Boa Vista, Calçada, Car- 
valhal, Quinta Má, Portellinba, Aidro eLata. 

Atravessa esta freguezia a estrada distri- 
ctal a macadam de Guimarães para Celorico 
de Basto, passando a meio da villa de Fafe 
e da povoação da Lameira, que está em si- 
tio alto, alegre e vistoso, mas muito frio no 
inverno. 

As suas producções dominantes são— vi- 
nho verde, cereaes e lã, pois também cria 
gado lanígero. 

Nasceu n'esta freguezia, nos princípios 
d'este século, o famigerado salteador e as- 
sassino Manuel Joaquim Lopes Queijo, sa- 
pateiro, 'que fixou a sua residência na fre- 
guezia d'Arnoia, concelho de Celorico de 
Basto. 

Foi preso e julgado por arrombamento e 
roubo feito na casa e quinta de Manuel Joa- 
quim da Motta, — por assassinar o dito Ma- 
nuel Joaquim da Motta,— por ferir e roubar 
Manuel Matheus, — por assassinar Antonio 
Teixeira Tendeiro,— por usar d'armas defe- 
sas—e por extorquir dinheiro a differentes 
pessoas com armas e ameaças. 
Em audien.ia geral, de 6 de junho de 



1838, no julgado de Celorico de Basto, pre- 
sidida pelo juiz de direito da comarca de 
Fafe, foi condemnado á pena de morte na 
forca, que para isso deveria erguer-se na 
praça da villa de Freixieiro, sendo- lhe em 
seguida cortada a cabeça e suspensa alli 
mesmo em um poste. 

O reu appellou, e por accordão da Relação 
do Porto, com data de 15 de fevereiro de 

1839, foi confirmada a sentença da l. a iostan- 
cia. Interpoz ainda recurso de revista, que 
lhe foi negado por accordão do supremo tri- 
bunal de 18 de novembro do mesmo anno: 
— e por portaria de 11 de junho de 1840 se 
communieou ao presidente da relação do 
Porto que S. M. ouvido o conselho de minis- 
tros, houve por bem que a sentença se cum- 
prisse. 

Foi justiçado em 11 de julho de 1840 na 
villa de Freixieiro. 

(Cartório do escrivão Silva Pereira). 

No supplemento a este diceionario dare- 
mos no artigo Fvaixieiro circumstanciada 
noticia d'este infeliz, extrahida por nós dos 
próprios autos. 

Foi e^te o 4.° dos últimos (16) indivíduos 
justiçados por crimes communs ao norte do 
nosso paiz, depois de 1834. Yeja-se este vol. 
10.° pag. 604 e seg. 

VILLA COVA— freguezia do concelho, co- 
marca e distrieto de Villa Real, diocese de 
Braga, província de Traz-os-Montes. 

Reitoria. Orago S. Thiago Apostolo,— fo- 
gos 107,— almas 470. 

Em 1706 contava apenas 54 fogos e era 
da apresentação dos frades Jerónimos do 
convento de Belém, mas em 1768 já contava 
62 fogos e era vigairaria da mesma apresen- 
tação dos Jeronymos, que davam ao pobre 
parodio apenas 19$000 réis e o pé d'altar. 

Foi uma das muitas parochias que for- 
mavam o termo da antiga comarca de Villa 
Real. Em 1840 pertencia ao concelho de Er- 
mêllo, de que já se fallou no vol. 3.° pag. 45, 
coL 2 a — concelho extineto pelo decreto de 
31 de dezembro de 1853, passando em se- 
guida para o de Villa Real. 

É hoje parochia independente, mas já es- 
teve annexa á freguezia de Quinta, com a 
qual confina pelo sul,— com a de Bardelhas 



VIL 



VIL 703 



pelo norte,— com a de Villa Marim pelo nas- 
cente — e com a de Campanhã, do concelho 
de Mondim de Basto, pelo poente. 

Está situado o logar de Villa Cova, séde 
d'esta freguezia, ao norte da estrada real de 
Villa Real para Amarante, pela Campeã e 
Padornello,— estrada hoje ampla, suave, ma- 
cadàmisada e das mais bem traçadas que 
tem o nosso paiz, emquamo que a estrada 
velha foi uma das mais concorridas, mais, 
desabridas e medonhas! 

O antigo traçado seguia pelo alto da serra, 
desde a Campeã até Ovelha do Marão, atra- 
vessando muitos kilometros com tanta altura 
de neve, durante mezes, no inverno, que ali 
pereceram muitos viandantes, almocreves e 
correios, pois foi até o meiado d'este século 
a estrada principal e mais seguida do Porto 
e do Miuho para Traz-os-Montes. 

Suppõe-se até que a freguezia de Ovelha 
do Marão, em que tocava a velha estrada, 
principiou por uma espécie de albergaria 
para abrigo dos desgraçados viandantes e 
que pelos serviços, bemfeitorias ou benefa- 
ctorias que lhes prestava em tão ermas e 
desabridas paragens (recorda-nos o convento 
de S. Bernardo, nos Alpes) os nossos pri- 
meiros reis lhe deram o titulo e privilégios 
especiaes de beetria,— titulo e privilégios de 
que se ufanam apenas 10 povoações em todo 
o nosso paiz! . . - 1 / 

O novo traçado não entra, como o antigo, 
na povoação da Campeã; passa a cavalleiro 
d'ella, pelo sul, e desce logo em ziguezagues 
suavíssimos pelo primeiro valle abaixo, fu- 
gindo da serra do Marão, que atravessa ra- 
pidamente, deixando a grande distancia a 
humilde parochia e beetria da Ovelha. 

A antiga estrada era uma medonha se- 
quencia de barrancos e precipícios — em 
quanto que a nova estrada, feita approxima- 
damente em 1860 a 1870, é ampla e suave 
e foi servida por boas diligencias, que traba- 
lharam entre o Porto e Villa Real até que se 



1 V. Ovelha do Marão— vol. 6.° pag. 371, 
col. 2. a — Villa Marim, freguezia do concelho 
de Mezãofrio, n'este diccionano — e Beetria 
no supplemento. 



inaugurou a linha férrea do Douro, acabando 
com aquellas diligencias e com as que desde 
1857 trabalhavam (por vezes 3 ao mesmo 
tempo) entre o Porto e a Regoa, por Pena- 
fiel, Casaes, Amarante, Quintella, Mezãofrio 
e Rede K 

As diligencias, galeras e carros mattos 
acabaram com as liteiras, arrieiros e almo- 
creves;— os caminhos de ferro vão acabando 
com as diligencias— e, por seu turno, outro 
systema de viação aeabará com os caminhos 
de ferro. 
• Le monde marche !... 

Esta freguezia de Villa Cova dista de Villa 
Real 10 kilometros para O. N. 0. — 38 da 
linha férrea do Douro (estação da Regoa)— 
142 do Porto— e 479 de Lisboa. 

O seu clima é frio e áspero;— as suas pro- 
ducções dominantes são cereaes, batatas a 
lã, pois cria bastante gado lanígero. 

Em dezembro de 1881 foi concedida por 
tempo illimitado a Maximiliano Schereck a 
propriedade de uma mina de chumbo, si- 
tuada no Valle'de Cíeio (?) n'esta freguezia. 

VILLA COVA e BANHO— freguezia do con- 
celho e comarca de Barcelos, distrieto e dio- 
cese de Braga, na província do Minho. 

Reitoria;— oragos Santa Maria e o Salva- 
dor,— fogos 300, — almas 1:291, — compre- 
hende a freguezia de Villa Cova, propria- 
mente dieta, e a de Salvador do Banho, sua 
annexa desde antes de 1840, da qual já se 
fallou no vol. 1." pag. 316, col. 2. a (Vide). 

Esta freguezia de Villa Cova em 1706 con- 
tava 200 fogos;— tinha por orago Santa Ma- 
ria,— era commenda da ordem de Christo e 
reitoria da apresentação da mitra, rendendo 



1 Em todo o nosso paiz não ha nem houve 
caminho para diligencias peior do que era 
este! 

Desde Amarante até o alto de Quintella 
(15 kil.) — e desde a Rede até o dicto alto 
(outros 15 kil.) ha declives de 10 a 12 por 
cento, pelo que as diligencias na subida eram 
morosamente arrastadas por 2 juntas de bois 
— e na descida largavam os bois e fugiam 
sempre em carreira vertiginosa, desde Quin- 
tella até á Rede e Amarante, quando nao fi- 
cavam despedaçadas pelo caminho, o que 
succedeu muitas vezes! . . . 



704 VIL 



VIL 



para o parodio 140$000 réis — e 6001000 
réis para o commendador. 

O Portugal Sacro e Profano, publicado era 
1768, diz que esla paroehia tinha como orago 
Nossa Senhora da Expectação,— rendia réis 
150$000 e contava 173 fogos. 

Está situado o logar de Villa Cova 3 kilo- 
metros ao norte da estrada real de Espo- 
sende á villa de Barcellos, da qual dista 9 
kilometros para 0. N. O.— 4 da margem do 
Cavado para N.— 10 da beiramar (foz do Ca- 
vado) para E.— 28 de Braga (pela linha fér- 
rea) para 0.— 60 do Porto e 388 de Lisboa- 

Passa a N. E. a estrada rêal a macadam 
do Porto a Valença por Barcellos e Vianna 
do Castello, — bem como a linha férrea do 
Minho. 

As suas producções dominantes são— vi- 
nho de enforcado, cereaes, e madeiras, que 
exporta em quantidade. 

Além da povoação de Villa Cova, séde da 
egreja matriz, comprehende esta freguezia 
as povoações de Samo, Xale, Mereces, Ou- 
teiro, Portella e Banho. 

Nos montes de Mereces tem uma das suas 
nascentes o pequeno rio Agro do Banho e 
outra nos montes da freguezia deS. Cláudio. 
É pobre no verão, mas no inverno, com as 
chuvas, torna- se caudaloso, trasborda e inun- 
da os campos marginaes. Na sua maior ex- 
tensão é plácido, mas em alguns sitios, por 
ter margens fragosas e ásperas, a sua cor- 
rente ó muito precipitada. 

Cria trutas, escallos, eiroses e panchorcas 
— e desagua na margem direita do Cavado i, 
onde chamam o Riogrande da Barca do 
Lago, um pouco a jusante do vau do Rio 
Grandv, limite da freguezia, de Géneses. 



1 J. A. d'Almeida disse que desagua no 
Lima. Foi lapso. E, fallando*da freguezia do 
Banho, annexa hoje a esta de Villa Cova, 
disse que «tem uma ponte de pedra de dez 
arcos sobre o Vouga.* 

Confundiu a freguezia do Banho, na mar- 
gem direita do Cavado, com a extincta e an- 
tiquíssima villa do Banho, onde brotam as 
celebres aguas thermaes de S. Pedro do Sul, 
na margem esquerda do Vouga. 

Solatium est miseris sócios haberel. . . 



Esta freguezia de Villa Cova foi mosteiro 
de freiras benedictinas, em tempos muito 
remotos, e n'elle foi abbadessa no reinado 
de D. Diniz uma filha de Paio de Moles Cor- 
rêa, segundo se lê na Chorographia Portu- 
gueza, mas nem a Benedictina Lusitana, nem 
a Historia Ecclesiastica dos Arcebispos de 
Braga fazem menção de tal convento. 

Extincto o dicto convento passou esta fre 
guezia a ser comraenda da ordem de Christo 
e reitoria da mitra. 

Freguezias limitrophes — Perelhal, Gé- 
neses, Palme e Feitos, Palmeira do Faro e 
Villar do Monte. 

Templos— a egreja matriz actual,— a ma- 
triz velha em ruinas, — a capella publica de 
S. Braz — e as particulares, de S. João, no ca- 
sal dos Curvos, e a de Nossa Senhora, de 
Luiz dos Santos Portella. 

Em tempos remotos existiu também no 
monte de S. Mamede uma capella dedicada 
ao santo d'este nome. 

Edifícios brasonados — a casa nobre (em 
ruinas) na quinta da Espinheira, da viscon- 
dessa d' Azevedo. 

Industria local— azenhas para moagem de 
cereaes e uma fabrica de serrar madeira, 
movidas por agua. 

Escolas— uma ofíicial de instrueção pri- 
maria para o sexo masculino. 

VILLA COVA DE CARROS— freguezia do 
concelho e comarca de Paredes, districto e 
diocese do Porto, na província do Douro. 

Abbadia,— orago S. João Evangelista,— fo- 
gos 70— almas 295. 

Em 1706 já era abbadia da apresentação 
do mosteiro de Cêtte, com reserva, contava 
66 fogos, rendia 200$000 réis e pertencia á 
beetria de Louredo, julgado d'Aguiar de 
Sousa, na antiga comarca do Porto. 

Em 1768 era da apresentação alternativa 
do Papa, da mitra e do collegio dos eremi- 
tas de Santo Agostinho (gracianos) de Coim- 
bra. 

Pertenceu á comarca de Penafiel até 1875, 
data em que se creou a comarca de Pare- 
des. 

Comprehende as aldeias seguintes : — 
Egreja, Cruz, Outeiro, Cavada, Cimo de 
Villa, Villa Meã, Corujeira, Granja, Gran- 



VIL 



VIL 705 



jão, Seixo, Olho do Mouro, Cavadinha, Ri- 
beiro, Fermentões e as quintas ou casaes de 
Cima de Villa, de D. Custodia Maria de Je- 
sus, Ribeiro, de Luiz Coelho Leal, Granjão, 
de Antonio Guimarães, de Penafiel, e Fer- 
mentões, de D. Margarida Maria da Torre, 
de Braga. 

Freguezias limitrophes— Besteiros a E.— 
S. Romão de Mouriz a S. — Baltar a O. — e 
Vandoma a N. 

Dista de Paredes (séde do concelho e da 
comarca) 5 kilometros— 10 de Penafiel— 40 
do Porto e 377 de Lisboa. 

Actualmente não entra n'esta freguezia es- 
trada alguma a macadam; deve porém atra- 
vessal-a uma estrada districtal, já estudada, 
que partindo da de Paredes a Paços de Fer- 
reira (do sitio do Barro Branco) a deve li- 
gar com a que está em construcção de Cêtte 
(estação do caminho de ferro do Douro) a 
Mouriz. 

As estradas a macadam que mais se ap- 
proximam hoje d'esta paroehia são a real, 
n.° 33, do Porto á Regoa, que toca em Mou- 
riz, — e a districtal, de Paredes a Paços de 
Ferreira, que toca em uma das extremida- 
des d'esta freguezia. 

Passa também a 5 kilometros de distan- 
cia o caminho de ferro do Douro, que tem 
uma estação em Paredes. 

O templo único d'esta paroehia é a sua 
egreja matriz, templo muito antigo, muito 
pobre e singelo, mal decorado e qua_si em 
ruínas, principalmente a capella-mór, tanto 
que o parocho já não consente que se façam 
n'ella festividades, mesmo porque não tem 
throno para exposição do Santíssimo. Ac- 
cresce ainda a circumstaneia de que está 
em sitio fundo, (a cova de que tomou o no- 
me) abafado e muito húmido. Total — uma 
vergonha e vergonha flagrante, porque, se a 
freguezia é pequena, tem bons proprietários 
e nem um parochiano mendigo. 

Além d'isso esta abbadia ainda hoje, mesmo 
depois da extineção dos dízimos, é uma das 
primeiras e mais ricas do bispado do 
Porto. 

Rende cerca de 900$000 réis e pôde con- 
siderar-se um beneficio simples, sem encar- 



gos ou serviço algum, porque, attenta a sua 
diminuta população — apenas 70 fogos — é 
trivial decorrer um anno inteiro sem haver 
n'ella 1 óbito — e por vezes em 2 e 3 annos 
seguidos não ha n'ella 1 casamento?! . . . 

O pé d'altar é pobríssimo, mas tem bons 
passaes, em parte já vendidos em hasta pu- 
blica, por ordem do governo, mas averbado 
o seu producto em inscripções, na forma da 
lei, ao3 abbades, que recebem os juros cor- 
respondentes ás dietas inscripções, — tendo 
além d'isso casa de residência muito decente 
com uma boa horta coutigua, etc. 

Houve n'esta egreja uma confraria ou ir- 
mandade, cuja fundação ignoramos, mas que 
datava de séculos e deçahiu ou se dissolveu 
em 1850. Tinha por padroeira Nossa Senhora 
da Batalha e todos os annos lhe fazia-pom- 
posa festa cora grande romagem. Tudo aca- 
bou, excepto a romagem. 

N'esta paroehia não ha feiras nem mer- 
cados, pelo que es seus habitantes procuram 
as feiras de Paredes (dias 1 e 18 de cada mez) 
—a de Baltar (dia 16) também mensal, a— 
dos Chãos, freguezia de Bitarães (dia 8) — 
e as do Cô, Freamunde e Penafiel, todas 
muito próximas. 

Não tem edifícios brasonados ousem bra- 
sões, dignos de especial menção, nem vestí- 
gios d'algum convento, posto que o Diccio- 
nario Chorographico de J. A. d' Almeida diz 
que houve aqui um mosteiro de freiras be- 
nedictinas! Julgamos ser lapso, pois não o 
encontramos mencionado em ehorographia 
alguma, nem no Catalogo dos Bispos do Porto, 
nem no Âlmanach Ecclesiastice d'esta dio- 
cese, nem na Benedictina Lusitana. 

Também nunca foi villa, mas teve diver- 
sos foraes, que eram os mesmos do extincto 
concelho ^Aguiar de Sousa, nos quaes se 
fazia menção d'esta paroehia como uma das 
que formavam aquelle termo. 

Foram os dictos foraes concedidos — um 
por D. Affonso III, em 1269,— outro por D. 
João I, em 1411— e outro por D. Manuel, em 
1513. 

Provam os dictos foraes que esta pequena 
povoação data, pelo menos, dos principlos 
da nossa monarchia. 



706 VIL 



VIL 



Veja-se Aguiar de Sousa, tomo 1.° pag. 39, 
col. 2.* 

Nasce nos montes d'esta freguezia um re- 
gato que atravessa a de Mouriz e desagua a 6 
kilometros de distancia no rio Sousajunlo da 
estação de Cêtte, caminho de ferro do Douro- 

Produeções dominantes — milho, centeio' 
feijões, painço, linho e vinho verde enfor- 
cado e péssimo. 

Tem desde 1879 uma aula offieial de in- 
strucção primaria elementar para o sexo 
masculino. 

Nesta parochia não ha vestígios de forti- 
ficações, mas encontram-se, aliás muito im- 
portantes ainda, em um monte próximo, de- 
nominado Montanha do Muro, pertencente á 
freguezia de Vandoma, de que já se fallou 
n'este volume a pag. 199, col. l. a 

Alli se vêem ainda os alicerces d'um largo 
muro que cinge toda a explanada e cumiada 
do dicto monte e que defendeu e abrigou 
uma cidade ou povoação antiquissima. 

V. Vandoma, logar citado. 

VILLA COVA A COELHEIRA — freguezia 
do com-elho e comarca deCeia, districto e dio- 
cese da Guarda, na província da Beira Baixa. 

Curato, — fogos 119, — almas 520. Orago 
S. Mamede. 

Em 1708 era villa e sede de concelho da. 
provedoria e comarca da Guarda e do bis- 
pado de Coimbra; — tinha 2 juizes ordiná- 
rios, 3 vereadores, um procurador do con- 
celho, um escrivão da camará, um juiz dos 
orpbãos, um tabellião de notas, um alcaide 
e uma companhia de ordenanças, — contava 
ISO fogos, tinha 3 capellas publicas e era 
abundante de pão, vinho, frutas, gado e coe- 
lhos, d'onde tomou o appellido, segundo se 
lê na Çhorographia Portugueza. 

Foi dos marquezes de Gouveia, condes de 
Portalegre e por ultimo também duques de 
Aveiro, mas em seguida á medonha catas- 
trophe que. levou ao cadafalso no dia 13 de 
janeiro de 1759 aquelles duques, bem como 
os marquezes de Távora e os condes d'Athou- 
guia, sendo lhes sequestrados todos os seus 
bens, passou para a corôa 1 . 



1 Vide Chão Salgadj), vol. 2.° pag. 27 í, 
col. l. a e seg. 



Em 1768 era curato da apresentação do 
reitor de Ceia, — pertencia ao bispado de 
Coimbra — contava 97 fogos e rendia para o 
cura 6$000 réis, além do pé d'altar. 

Em 1840 pertencia ao concelho de San- 
domil, extincto pelos decretos de 10 de fe- 
vereiro de 1846 e 24 d'outubro de 1855, pe- 
los quaes passou para o concelho e comarca 
de Ceia, — e, em virtude da nova circum- 
scripção diocesana, realisada em 1882, pas- 
s ou da diocese de Coimbra para a da Guarda. 

Comprehende uma povoação única, Villa 
Cova, séde da freguezia, e os casaes de An- 
ciães, da Fraga, do Joguinho, dos Niombos, 
dos Valles, de Miguel Gil e do Val da Trave. 

As suas freguezias limitrophes são— Val- 
lezim,— S. Romão de Ceia,— Sandomil e Tor- 
rozello. 

Dista 6 kilometros de Ceia para S. 0., — 
45 da Guarda, — 20 da estação de Nellas, na 
linha da Beira Alta, — 138 da cidade da Fi- 
gueira,— 193 do Porto— e 318 de Lisboa. 

Teve foral dado por D. Manuel em Lisboa 
no dia 21 de julho de 1514, — diz a Çhoro- 
graphia Portugueza, ou no dia 12 do dicto 
mez e anno, segundo se lê em Franklim. 

Lin. de Foraes Novos da Beira,Q. 44, col. 2.» 

Veja-se na Gav. 6, Maço 1.° o n.° 239, 
onde se menciona este foral. 

A egreja matriz é ura templo venerando 
pela sua muita antiguidade. Tem a porta 
principal em ogiva, altar mór, 2 lateraes e 
baptistério em mau estado, apesar das re- 
parações que n'elle se fizeram em 1876, por 
oeeasião da visita do benemérito bispo-eonde 
de Coimbra, o ex. mo e rev. mo sr. D. Manuel 
Corrêa de Basto Pina, incansável em visitar 
a sua diocese. 

A egreja está fóra da povoação, 60 metros 
ao sul, e junto d'ella o cemitério da paro- 
chia, mandado construir em 1831, como se 
lê em uma inscripção gravada entre aporta 
lateral é a da sacristia da mesma egreja. 

Á entrada dò adro se ergue uma laia so- 
berba, de magestoso porte e grande altura. 
No seu género é um dos mais formosos exem- 
plares que se encontram em todo o nosso 
paiz. 



VIL 



VIL 707 



Tem 4 metros de circumferencia no tron- 
co?!... 

Na egreja matriz se celebram as missas 
conventuaes, no? dias sanctifieados; as ou- 
tras, nos dias de semana, eelebram-se em 
uma capella que ha no meio da povoação,— 
capella publica muito antiga, onde, para 
maior commodidade, se conserva o Santís- 
simo Sacramento. Foi reparada em 1862, 
mas apezar d'isso demanda obras urgente- 
mente, pois ameaça esboroar-se com o peso 
dos séculos. Tem um campanário com dous 
sinos e relógio, comprado em 1875 a expen- 
sas do povo. 

Ao norte e contigua á povoação, existe ou- 
tra capella; também publica e muito antiga, 
com a invocação de S. Pedro e também muito 
arruinada. Tem altar-mór, dous lateraes, 
uma irmandade com o titulo do orago e es- 
tatutos approvados ha mais de 400 annosl... 
Conta actualmente 50 confrades e celebra 
todos os annos um anniversario com jubileu 
e muitas indulgências pelas almas dos ir- 
mãos falleeidos. 

Ha também instituída n'esla capella a con- 
fraria do Santíssimo Sacramento, adminis- 
trada por tres mordomos, que todos os ân- 
uos, no 1.° domiogo dp mez de janeiro, man- 
dam celebrar uma festa, para a qual ajunta 
de parochia, desde tempo immemorial, dá 
6:000 réis e o povo varias esmolas em di- 
nheiro e em géneros. É denominada as ja- 
neiras. 

Os apontamentos que se dignou enviar-me 
o digno administrador d'este concelho não 
faltam da 3 ,a capella mencionada na Choro- 
graphia Portugueza. Provavelmente já não 
existe. 

No centro d'esta povoação se ergue um 
vasto e formoso edifício de architectura mo- 
derna, denominado as obras *. Foi mandado 
construir no 2.° quartel d'este século pelo 



1 Assim se denomina também o palácio 
da viscondessa de Vallongo, na villa de Geia, 
mandado fazer pelo 2.° bispo de Pinhel, D. 
José Pinto de Mendonça Arraes. V. Pinhel e 
Cê a. 



dr. José Pinto Fontes, lente de prima na 
nossa Universidade, e é hoje da ex. raa sr.» D. 
Maria Pinto Clementina de Mello, sobrinha 
do fundador. 

Possue também a mesma sr. a outra casa 
muito notável pelas suas tradições históri- 
cas e remotissima antiguidade— é o paço e 
a cadeia d'este extincto concelho. 

Em frente dos dictos paços se vê também 
ainda hoje o velho pelourinho que os habi- 
tantes d'esta povoação (honra lhes seja!) con- 
servam como padrão dos seus antigos foros. 

Esta povoação tem apenas uma rua e tres 
largos— o da Pr aça, onde se ergue o vetusto 
pelourinho,— o da Fonte— e o do Rocio. 

Cerca de 300 metros ao sul d'esta povoa- 
ção corre o Alva, que vem da serra da Es- 
trella e, depois de receber como tributarias 
as ribeiras da Caniça e de Vallezim, banha 
os férteis, campos d'esta povoação de Villa 
Cova, os de Sandomil e Penalva d' Alva, atra- 
vessa a histórica ponte da Murcella, onde as 
águias francezas foram bem feridas, e des- 
agua no Mondego, um pouco a jusante da 
Raiva, tendo nos limite?, d'esta parochia uma 
antiquissima ponte de granito com 2 arcos 
ogivaes, ligada a esta povoação por uma bella 
calçada, feita em 1872. 

Tem esta freguezia no Alva 10 rodas de 
moinhos de moer pão, que fornecem fari- 
nha para esta parochia e para as de Tor- 
rozello, S. Thiago de Ceia e outras muito 
mais distantes. 

Uma das coisas mais notáveis que ha n'esta 
freguezia e que muito depõe a favor da íl- 
lustração e bom critério dos seus habitantes 
é o grande açude ou levada que rega e fér- 
tilisa os seus montes e campos, duplicando 
ou triplicando o valor que tinham anterior- 
mente e que prova o grande partido que ou- 
tras muitas parochias do nosso paiz podiam 
e deviam tirar dos rios que o cruzam em 
differentes direcções. 

O dicto açude parte do Alva, do sitio dos 
Pisões Velhos, junto da ponte de Jogaes, — 
tem de percurso mais de 5 kilometros — foi 
construído em 1815 — e custou 3:2001000 
réis, summa importante n'aquelle tempo, no- 
meadamente para estes povos sertanejos. 



708 VIL 



VIL 



Tem um procurador, um conservador e 
um -repartidor, sendo este ultimo de eleição 
popular e encarregado da distribuição das 
aguas no verão, por todos os proprietários 
d'esta parochia, desde o dia de S. Pedro, data 
em que é sempre eleito, até o dia 8 de outu- 
bro de cada anno. 

Que lindíssima instituição! 

Que exemplo tão digno de imitar-se!. . 

As producções principaes d'esta parochia 
são — milho, feijões, centeio, batatas, casta- 
nhas, algum vinho, azeite, fructa abundante, 
variada e saborosa, lã e bom queijo da Serra 
da Estrella, pois também cria muito gado 
lanígero. 

Entre as pessoas notáveis que esta paro- 
chia produziu n este século, são dignos de 
menção — o dr. José Pinto Fontes, lente da 
Universidade, — seu irmão Joaquim Pinto 
Fontes, capitão de mar e guerra,— os ca- 
pitães de infanteria Antonio Joaquim Botto 
Machado e Manuel José Ferreira— e o cirur- 
gião-mór do regimento de Castello de Vide, 
Francisco de Brito Freire, — todos já falle- 
cidos. 

Cerca de 1:500 metros a N. O. da povoa- 
ção de Villa Cova ha jazigos de estanho» 
ainda por explorar. 

Esta freguezia está em um enorme covão, 
formado por elevadas montanhas, ante-mu- 
ral da grande serra da Estrella, que o cir- 
cumdam a leste e sul e das quaes muito na- 
turalmente lhe proveiu o nome de Cova, as- 
sim como lhe provém a amenidade relativa 
do seu clima e a fertilidade dos seus cam- 
pos. 

Junto da povoação, para N. E. ha um 
grande fojo, denominado barroca. Não se 
pôde atravessar com um tiro de pedra, — 
tem de profundidade cerca de 40 metros— e 



1 Na freguezia de Alvarenga, hoje do con- 
celho e comarca d Arouca, ha também um 
açude muito similhante e muito notável, mas 
não tem a organisação d'este. 

V. Alvarenga n'este diccionario e no sup- 
plemento, onde ampliaremos consideravel- 
mente aquelle artigo e daremos noticia do 
mencionado açude. 



faz eriçar os cabellos a quem d'elle se apro- 
ximai . . . 

Esta freguezia não tem aula alguma offi- 
cial, nem sequer d'instrucção primaria ele- 
mentar. O seu ultimo professor foi o vene- 
rando padre Antonio Lobo Pinto Monteiro, 
fallecido em 1860 com 73 annos de idade 
e 43 de serviçol . . . 

Cerca de 200 metros a N. E. da povoação 
appareeem claros vestígios d'antigas con- 
strucções, entre elles muitos tijolos de grande 
espessura. 

N'esta freguezia não ha, como em outras 
das abas da serra da Estrella, fabricas de 
lanifícios, regularmente montadas. Tem so- 
mente um pisão e alguns obr adores parti- 
culares para buréis e saragoças. 

VILLA COVA A COELHEIRA —freguezia 
do antigo concelho de Fragoas, hoje Villa 
Nova do Paiva, comarca de Castro d'Ayre, 
districto de Vizeu, bispado de Lamego, pro- 
víncia da Beira Alta. 

Abbadia,— orago S. João Baptista,— fogos 
418,— almas 1690— segundo rezam os apon- 
tamentos que se dignou enviar-me o seu 
rev. paroeho, mas o censo de 1878 deU-lhe 
352 fogos e 1:284 habitantes. 
A differença é considerável! . . . 
Em 1708 contava 300 fogos e eravigaira- 
ria da apresentação do commendador da or- 
dem de Malta, pois tinha aqui esta ordem 
uma commenda que comprehendia também 
a freguezia do Touro e era orçada em réis 
i : 200^000 de rendimento.— pagava deres- 
ponsão 88|800 réis— e de pensão magistral 
94$000 réis. 

Responsão, portuguez anti- 
go, significava contribuição, 
subsidio, cóta, fintã, tributo e 
toda a qualidade de desembol- 
so que se fazia por obrigação 
e com que o vassallo, emphi- 
teuta ou colono respondia ao 
soberano ou directo senhorio. 

E dem em cada amo 2:500 
libras de Responsom ao con- 
vento. Doe. de Thomar, de 
1321. 

A Historia Ecclesiastica da cidade e bis- 
pado de Lamego deu-lhe, pelos annos de 



VIL 



VIL 709 



1720, apenas 167 fogos e 634 habitantes— e 
o Portugal Sacro e Profano deu-lhe em 1768 
apenas 180 fogos e 300$000 réis de rendi- 
mento. Custa-nos pois a crer que em 1708, 
segundo diz a Chorographia Portugueza, ti- 
vesse 300 fogos t 

Comprehende 5 aldeias e quintas (—diz o 
seu rev. abbade nos apontamentos que so 
dignou enviar-me) e não as menciona. A 
Chorographia Moderna menciona apenas as 
quintas de Carvalha, Mieiras e Malhada. 

As suas freguezias limitrophes são — Pen- 
diihe, Touro, Fragoas, Villa Nova do Paiva 1 , 
e o próprio rio Paiva. 

Dista 10 kilometros da nova séde do con- 
celho (a tal freguezia das Barrellas, chris- 
mada em Villa Nova do Paiva) para N. O., 
—15 de Castro d'Ayre para E. S. E.,— 25 de 
Lamego e de Vizeu — 141 do Porto — e 478 
de Lisboa. 

Não tem estrada alguma a macadam; deve 
porém passar perto a districtal de Vizeu a 
Lamego, em via de construcção. 

A linha férrea mais próxima é a do Douro 
(estação da Regoa) da qual dista 37 kilome- 
tros. 

A egreja matriz é um templo pequeno e 
singelo, mas bem conservado. Tem altar- 
mór e 2 lateraes, — um de S. João Baptista, 
outro do Senhor do Calvário. ' 

Foi antigamente villa, pertencente á co- 
marca e provedoria de Lamego; nada porém 
resta da casa da camará, da cadeia e do pe- 
lourinho, por lerem sido vendidos — diz o meu 
informador. 

Banha esta freguezia um ribeiro que des- 
agua na margem direita do Paiva a 3 kilo- 
metros de distancia. Tem uma ponte e al- 
guns moinhos que moem pão. 

Producções dominantes — milho, trigo, 
centeio, batatas e lã, pois também cria al- 
gum gado lanígero e vaccum. 



1 Esta freguezia denominou-se sempre 
Barrellas, mas, quando em 1883 foi arvo- 
rada em séde do conceiho de Fragoas, foi - 
lhe dado ao mesmo tempo o nome de Villa 
Nova do Paiva, por ser mais bonito. 



Também produz algum vinho de enforca- 
do, muito verde e péssimo ! . . . 

Foi natural d'esta freguezia o barão de 
Villa Cova, Joãcr Antonio d'AImeida. 

Tem uma aula official de instrucção pri- 
maria elementar para o sexo masculino. 

Teve n'esta paroehia uma quinta o rege- 
dor das justiças, Ayres Pinto de Mendonça 
Coutinho, do qual passou a seu filho Manuel 
de Mendonça Cardoso Figueira d'A-zevedo 
— d'este a seu neto Ayres Pinto de Mendonça 
e d'este a uma sua bisneta, que a vendeu. 

A povoação de Villa Cova está em terreno 
alto;— o seu clima é áspero e frio; — as suas 
casas são de humilde aspecto e quasi todas 
cobertas de colmo e lageas. 

É cercada por altas serras, a que no verão 
lançam fogo para afugentarem os lobos e te- 
rem melhores pastagens para o gado no anno 
seguinte. 

No meio da villa ha um pequeno largo, 
onde está a egreja matriz com a sua galilé 
na frente e guardas de pedra que servem de 
assentos, tendo do lado da epistola um cam- 
panário com dous sinos. 

Passa n'esta povoação a antiga e escabrosa 
estrada de Vizeu para Lamego por Côtta 
(Sanguinhedo) Sobrado de Paiva, Villa Cova 
a Coelheira, Tarouca e Britiande. 

Ha n'esta freguezia bastantes sorveiras, 
que dão' sorvas, espécie de peras bravas, 
grande mimo para os pobres serranos, — e 
sovereiros, de que fazem muito carvão, bem 
como de urze, arbusto espontâneo e muito 
abundante nos montes d'este concelho. 

É o fabrico do carvão a principal indus- 
tria d'esta paroehia e costumam ir vendel-o 
á cidade de Lamego, distante 25 kilometros, 
em carros tirados por vaccas, — o de sobro 
para as brazeiras— e o de urze para os fer- 
reiros. 

N'esta freguezia e nas limitrophes, tanto 
os homens como as mulheres costumam ves- 
tir-se de burel muito áspero e grosseiro, de 
que fazem capotes que, pela sua singeleza e 
barateza, formam a antithese dos denomina- 
dos em Traz-os -Montes honras de Miranda. 

03 de Miranda, também de burel, mas 
muito mais grosso e mais caro, são uma es- 



710 VIL 



VIL 



pecie de gabões com bandas, bolsos e capuz 
luxuosamente bordados a retalho, custando 
por vezes muito mais o feitio do que a pró- 
pria peça — emquanto qu£ os capotes dos 
serranos d'esta freguezia de Villa Cova e 
das litnitrophes são do burel mais barato e 
singelos quanto possível, — sem bolsos, nem 
forro, nem ornato algum. Reduzem-se a uma 
espécie de pano de guarda-chuvasem arma- 
ção, terminando a parte superior em um pe- 
queno capuz collado na cabeça nua, d'onde 
muito desgraciosamente pendem, como de 
um cabide 1 

Os homens usam calças e calções do mesmo 
burel e no inverno costumam revestir a ex- 
tremidade inferior com polainas grosseiras 
do mesmo estofo ou de junco fendido e en- 
trançado como o das caroças ou palhoças, 
muito usadas também pela gente do campo 
na Beira, no Minho^ em Traz-os-montes 
para abrigo da chuva, sendo Penafiel a po- 
voação do nosso paiz em que mais aperfei- 
çoada se acha aquella industria. 

Dá- se com as palhoças o mesmo que se 
dá com os capotes de burel. 

Os de Miranda, sendo bem feitos, custam 
20 a 30 mil réis,— emquanto que os do con- 
celho de Fragoas custam 2 a 3 mil réis. As- 
sim as taes palhoças na Beira e em outros 
pontos do nosso paiz custam 2 a 3 tostões e 
em Penafiel chegam a custar 2 a 3 mil réis, 
— mas são verdadeiras obras cTarte, e to- 
das as outras singelíssimas. 

Voltando á freguezia de Villa Cova, — as 
mulheres usam também saias de burel e 
meias de lã sem pés sobre as tibias, para as 
não ferir a aspereza do burel das saias; — e 
tanto 03 homens como as mulheres calçam 
tamancos muito grossos, ferrados com enor- 
mes pregos forjados ad hoc e revestidos na 
frente com uma chapa (biqueira) de ferro, 
forjada ad hoc também. 

Formam igualmente os taes tamancos uma 
perfeita antithese com os de Penafiel,— 
aquelles grosseiros, lisos, pesados e ferra- 
dos como aríetes, — estes muitos leves, ele- 
gantes., bordados e ornamentados com todo 
o luxo, hoje imitados perfeitamente pelos 
artistas de Braga e do Porto, ondetêem lar- 
go consumo. 



VILLA COVA DO COVELLO— freguezia do 
concelho de Penalva do Castello, comarca de 
Fornos d'Algodres, districto e diocesse de 
Viseu, na província da Beira Alta. 

Curato — fogos ioO,— almas 612. 

Orago Nossa Senhora da Expectação ou 
da Esperança, como diz o seu rev. parocho. 

Em 1768 contava apenas 91 fogos,— era 
da apresentação do abbade do Castello de 
Penalva e rendia 40iS000 réis para o cura, 
incluindo o pé d'altar. 

Esta parochia é formada por uma povoa- 
ção única; apenas tem fóra d'ella o casal do 
Rio Carapito. 

Demora na margem esquerda do rio Dão, 
do qual dista 3 kilometros para S. E.— 10 
de Penalva, séde do concelho para leste, — 
outros 10 de Fornos d' Algodres, séde da co- 
marca, para N. -O.,— 13 da estação de For- 
nos, na linha da Beira Alia,— 40 de Viseu. 
—221 do Porto— e 3i6 de Lisboa. 

É banhada pelo rio Carapito que passa a 
distancia de 1 kilometro ao sul e desagua 
na margem esquerda do rio Dão, a distancia 
de 3, bem como este ná margem direita do 
Mondego. 

Em 1708 era do mesmo concelho de Pe- 
nalva do Castello, mas da comarca de Vi- 
seu, provedoria da Guarda — e antes da 
creação da comarca de Fornos d' Algodres 
pertenceu á comarca de Mangualde. 

As suas freguezias limitrophes são — Cas- 
tello de Penalva, Mareco e Antas. 

A egreja parochial é de modestas propor- 
ções, mas decente e bm\ conservada. 

Tem apenas uma capella publica da in- 
vocação de Santo Antonio. 

Producções dominantes— milho, centeio, 
batatas, vinho e castanhas. 

Tem uma escola de instiucção primaria 
elementar para o sexo masculino. 

Ha n'esta freguezia uma industria impor- 
tante, privativa d'ellá e única,— é o fabrico 
de variados artigos de fêno, barça 1 ou bar- 



1 No Grande Diccionario Portuguez, de 
Fr. Domingos Vieira se encontra o seguinte: 

'Barça, s. f. O mesmo que Brasa ou Bal- 
sa; espécie de palham com que se forram 



VIL 



VIL 



711 



cejo, a que dão o nome de. b racejo,— uma 
espécie d'herva com que fazem esteiras para 
forrar templos e salas,— capachos, ceiras 
para azenhas ou moinhos d'azeite, ceirões 
para cavalgaduras, capas ou cobertas para 
garrafões e garrafas, etc. 

Sào estes artigos exportados em grande 
quantidade para vários pontos d'esta provín- 
cia e da de Traz-os-Montes e mesmo para o 
Porto, Coimbra e Lisboa. 

Na dieta industria se oceupam quasi to- 
dos os habitantes d'esta parochia no inverno 
e mesmo no verão, em todo o tempo que lhes 
sobra dos trabalhos da agricultura. 

Representa a dieta industria muitos con- 
tos de réis e não ha nas circumvisinhanças 
outra povoação que a explore. 

VILLA COVA DA LIXA— freguezia do con- 
celho e comarca de Felgueiras, districto e 
diocese do Porto, na província do Douro. . 

Reitoria,— orago S. Salvador, — fogos 320 
—almas 1:303. 

Em 1706 pertencia ao concelho de Fel- 
gueiras e á comarca e provedoria de Gui- 
marães, arcebispado de Braga; — tinl\a 120 
fogos ;— era reitoria da apresentação dos ar- 
cebispos e commenda da ordem deChristo;— 
rendia para o parocho 120$000 réis e para 
o commendador 750$000 réis. 

Em 1768 contava 250 fogos e rendia réis 
150^000 para o parocho. 

Também foi algum ttmpo apresentada al- 
ternativamente pelo papa, pelo rei e pelos 
arcebispos. 

Em virtude da ultima cireumscripção 
diocesana passou para a diocese do Porto, 
desde 14 de setembro de 1882, — e, antes da 
creação da comarca de Felgueiras, pertencia 
ao concelho e comarca de Guimarães. 

Gomprehende as povoações ou aldeias se- 
guintes .-—Monte, Quebrada, Assento, Quin- 
tella, Souto, Boa Vista, Espenca, Tojal, Ca- 



os vasos de vidro. Capa de vimes, própria 
para louça. Citado por Fr. Marcos de Lis- 
boa, Fernão M. Pinto, Couto e Franco Bar- 
reto. 

tBarceiro, s. m. Que faz Barças ou cestos 
de vime que envolvem garrafões ou quaes- 
quer outros vasos de vidro, para que não 
quebrem. » 



sarias, Ferreira, Traz-Cova, Picoto, Campo, 
Campo da Presa, Barreiros, Passos, Costa, 
Campello, Arraido, Eira Vedra e Lixa, se- 
gundo se lê nos apontamentos que se dignou 
enviar-me o digno administrador do conce- 
lho, mas a Chorographia Moderna diz que 
pertence a esta parochia apenas metade da 
povoação da Lixa, quasi contigua á egreja. 

Compreheade também os casaes de La- 
mas, Gondariz, Assento, Ribeira, Padraços, 
Loureiro, e Sabariz— e as quintas ou habi- 
tações isoladas de Torre, Villa, Lordello, 
Padroucellos, Logarinho, Quinta, Estrada e 
Teixeira. 

As suas freguezias limilrophes são— Cara- 
mos, Borba de Godim, Refontoura, Macieira 
da Lixa, Santão, Figueiró, Freixo e Ayrães. 

Dista 7 kilometros de Margaride, séde do 
concelho,— 14 da estação de Cahide, na li- 
nha férrea do Douro,— 61 do Porto— e 398 
de Lisboa. 

Atravessam esta freguezia a estrada dis- 
trictal a macadam, n.° 27, de Ponte do Lima 
á Regoa, e a real d'Amarante ao Porto. 

A egreja matriz é um templo modesto, 
mas decente, edificado em 1719 e muito bem 
tractado. 

Ha n'esta freguezia tres capellas publicas 
—uma da Senhora do Desterro, outra de 
Santo Antonio e outra de S. Roque,— e uma 
particular, na Casa da Torre, — todas bem 
conservadas e. a matriz e a capella de Santo 
Antonio muito asseadas. 

As festas principaes que hoje se celebram 
n'esta parochia são a do Santíssimo Sacra- 
mento, na egreja matriz.— e a de Nossa Se- 
nhora do Desterro na capella da sua invoca- 
ção, na l. a segunda feira de setembro com 
arraial, romaria e grande feira, — a mais im- 
portante do concelho. 

Ha também n'esta freguezia 2 feiras men- 
saes na povoação da Lixa, uma na l. a se- 
gunda feira de cada mez, outra no dia 18— 
e todas as semanas dous mercados de ce- 
reaes, também muito importantes, nas ter- 
ças e sextas feiras, na mesma povoação da 
Lixa. 

Ha n 'esta freguezia um edifício brasona- 
do. É a Casa da Torre, pertencente ao ba- 



712 VIL 



VIL 



rão da Torre de Villa Cova da Lixa, Anto- 
nio de Magalhães Menezes e Lencastre. 

No supplemento a este artigo daremos a 
genealogia de s. ex. a 

A rua principal d'esta parochia é a estra- 
da-rua da Lixa. 

Tem mais de 500 metros de comprimento 
e um largo espaçoso. 

Produeções dominantes — milho, centeio* 
feijões, batatas e vinho verde. 

Em 3 d'abril de 1834 feriu-se aqui, no 
monte de Nossa Senhora da Victoria, uma 
batalha importante, entre as tropas liberaes 
sob o cominando do general Torres e as 
tropas realistas eommandadas pelo general 
José Cardoso, retirando estas com grandes 
perdas. 

Tem esta parochia uma eschola offlcial de 
instrueção primaria elementar para o sexo 
feminino— e uma casa de pasto, ou hospe- 
daria, na povoação da Lixa, denominada 
Hospedaria da Franqueira. 

Houve n'esta freguezia, em tempos muito 
remotos, um convento de freiras benedieti- 
nas, que passou a ser commenda da ordem 
de Christo; 1 ignora-se porem a data da sua 
fundação e extincção. 

A Benedictina Lusitana (Livro 2.° cap. 3.° 
pag. 90) apenas diz o seguinte : 

«Já que estamos nos contornos d'Ama- 
rante, não sayamos d'elles sem primeiro fa- 
zermos menção de dous Mosteyros de Mon- 
jas Bentas, que n'aquellas partes florecerão, 
dos quaes melhor sabemos o fim que tive- 
ram, do que o principio que a devoção dos 
fieis lhes deu. 

«O primeiro foi o do Salvador ou de Santo 
André de Villa Cova, posto perto do de To- 
lões, 2 de que temos tratado no capitulo an- 
tecedente. As religiosas d'elle viveram em 
grande observância, e santidade, e a prova 
d'isto é chamarem -se vulgarmente padri- 



1 D. João V a deu ao marquez de Penal- 
va em duas vidas. 

2 Santo André de Tellões, freguezia do 
concelho d'Amarante. 

Em todo o nosso paiz não ha freguezia al- 
guma denominada Tolões. 



nhãs da terra, porquanto os moradores, e 
visinhos d'ellas, nas preces e orações d'a- 
quellas religiosas achavão o remédio certo 
de seus trabalhos, e da necessidade que ti- 
nhão de sol ou chuva. 



«Que o dito mosteiro fosse de S. Bento, 
consta dos Registros antigos de Braga. De 
prezente he commenda, com suas annexas,» 

O convento de Tellões foi duplex (de fra- 
des e freiras)— primeiramente da ordem be- 
nedictina e depois de cónegos regrantes 
(cruzios). 

V. Tellões, vol. 9.° pag. 533, col. 1.» 

VILLA COVA DA MORREIRA — freguezia 
do concelho, comarca, distrieto e diocese de 
Braga. 

V. Morreíra, vol. 5.° pag. 550, col. l.« on- 
de se descreveu esta freguezia. 

VILLA COVA DO PERRINHO — fregue- 
zia do concelho de Macieira de Cambra, co- 
marca d'01iveira d' Azeméis, distrieto d'A- 
veiro, diocese do Porto, na província do 
Douro. 

Priorado. Orago S. João Baptista,— fogos 
51,— almas 212. 

Em 1708, segundo se lê na Chorographia 
Portugueza, pertencia ao termo da villa da 
Bemposta, comarca de Esgueira, tendo o ti- 
tulo de Villa Cova do Portinho, era curato 
annexo á freguezia de Macieira de Cambra 
e contava 200 fogos, o que nos parece erro 
de cifra. Talvez quizesse dizer 20 fogos, pois 
ainda hoje conta apenas 51 — e n'aquelle 
tempo era uma freguezia tão pouco impor- 
tante que estava annexada a outra. O Por- 
tugal Sacro e Profano nem a mencionai . . . 

Também já esteve annexada á freguezia 
de S. Salvador de Roge e pertenceu á comar- 
ca d' Arouca. 

Em 1882, data da nova cireumscripção 
diocesana, pertencia ao bispado d'Aveiro. 

Comprehende ires povoações, quasi jun- 
tas,— Fundo d'Altleia, Meio do Logar e Cimo 
do Logar. 

Fregueziaslimitrophes— Villa Chã, no nas- 
cente, — Macieira de Cambra, ao norte,— 
Chave e Carregosa, ao poente. 

Dista 5 kilometros de Macieira de Cam- 
bra, séde do concelho,— 18 de Oliveira d'Aze- 



VIL 

méis— 37 d'Aveiro— 39 do Porto— 310 de 
Lisboa— e 29 da estação d'Ovar, que é a mais 
próxima, na linha férrea do norte. 

As distancias com relação 
ao Porto e Aveiro são contadas 
pela estrada real de Oliveira 
d'Azemeis ao Porto e pela dis- 
trictal de Aveiro a Oliveira 
d'Azemeis. 

Emquanto a templos tem apenas a egreja 
paroehial, bastante antiga, mas pequena, sin- 
gela e pobre. 

Banha esta freguezia um ribeiro que corre 
de N. a S. e desagua no rio Trancoso, na 
freguezia de villa Chã, Não tem fabricas nem 
pontes, mas move alguns moinhos. 

Producções dominantes— cereaes e vinho 
verde. Também cria algum gado laginero nas 
serras ou montes denominados do Perrinho, 
que nada offerecem de notável. 

Ao sr. dr. José Gome3 d'Almeida, digno 
administrador do concelho de Cambra, agra- 
deço os apontamentos que se dignou enviar- 
me, por intermédio do sr. governador civil 
d'Aveiro, a pedido do sr. visconde de Gue- 
des Teixeira, digno governador civil d'este 
districto do Porto. 

VILLA COVA DE SUB-AVÓ— freguezia e 
villa extincta dò concelho e comarca d'Ar- 
ganil, districto e diocese de Coimbra, na pro- 
víncia do Douro. 

Priorado. 

Orago— Nossa Senhora da Natividade,— 
fogos 314,— almas 1380. 

Em 1708, segundo se lê na Chorographia 
Portugueza, era villa e concelho da comarca 
de Viseu, provedoria da Guarda e priorado 
cora 250 fogos, 1 pertencente á diocese de 
Coimbra, cujos bispos eram donatários d'es« 
te concelho, por ser parte integrante do con- 
dado d' Arganil. Veja-se esta palavra no vol. 
l.° pag. 238— M— col. 2. a 

Tinha esta villa 1 juiz ordinário, 2 verea- 



1 O Portugal Sacro e Profano, eseripto 60 
annos depois (1768) da-lhe apenas 195 fo- 
gos t .. . Diz mais— que era da apresentação 
da mitra e que rendia trezentos mil réis. 



VIL 713 

dores, 1 procurador do concelho, 1 escrivão 
da camará, 3 do judicial, notas e órfãos e 
urna companhia de ordenanças. 

Como recordação do tempo em que foi 
villa e séde de concelho, ainda conserva na 
praça o seu antigo pelourinho. A casa da 
camará e da cadeia foi vendida e é boje pro- 
priedade particular, pertencente a Antonio 
Maria Madeira. 

Esta parochia em 1840 pertencia ao con- 
celho de Coja, extincto pelo decreto de 31 de 
dezembro de 1853, pelo qual passou para o 
de Arganil. 

Está nas faldas da Serra da Estrella, na 
sua pendente N. O., a juzante da extincta e 
antiquíssima villa e cone"elhod'Avô, pelo que 
se denominou Villa Cova de Sub-Avô, para 
se distinguir das muitas freguezias que ha 
no nosso paiz, denominadas Villa Cova. 

Não sabemos se teve foral, posto que Fran- 
klin menciona um, dado por D. Manuel, em 
22 de setembro de 1544, a Villa Cova, da 
província da Beira. Tanto pode referir-se a 
esta como a outra qualquer das villas que 
ao tempo existiam na província da Beira com 
o mesmo nome de Villa Cova, e só pela lei- 
tura do dicto foral poderá resolver-se a ques- 
tão. 

Encontra-se elle na Torre do Tombo, no 
Liv. de Foraes Novos da Beira, fl. 44, col. 2. a 

Veja-se na Gav. 6, Maço t.° o n.° 239, on- 
de menciona o dicto foral. 

Esta freguezia comprehende as aldeias ou 
povoações seguintes:— Vinhó, Barril e Villa 
Cova, séde da egreja matriz;— os casaes de 
S. João e da Ladeira — e as quintas de — Fon- 
te Espinho, Candosa, Figueira do Ouriço, 
Casal, S. Miguel, Joaninho ou Dejouninho, e 
Ortigal. 

As suas freguezias limitrophes são— Avô 
a N. E.— Coja a S. O. Villa Pouca da Beira 
a N.— e Cerdeira a S. 

Está na margem esquerda do Alva, d'onde 
dista cerca de 200 metros,— 18 kilometros 
d'Arganil, 25 da linha férrea da Beira, 44 de 
Coimbra,— 163 do Porto— e 262 de Lisboa. 

É atravessada por uma estrada a maca- 
dam em via de construeção e passa a distan- 
cia de 7 kilometros a estrada real de Coim- 



714 VIL 

« 

bra á Guarda, pela ponte da Murcella, Gal- 
lises e Celorico da Beira. 

Tem dous magnificcs templos na villa— a 
egreja matriz e a do extincto convento dos 
capuchos, hoje da Misericórdia— 2 capellas 
publicas— a capella (antiga egreja) da Mise- 
ricórdia com a casa do despacho e a de S. 
Miguel. Fóra da villa tem as capella3 seguin- 
tes:— na povoação do Barril 3 publicas e 1 
particular, pertencente a José Freire de Car- 
valho,— i publica em Vinhó,— outra publica 
no casal de S. João, e outra, também publica 
no sitio de S* João d'Alqueidão. Total— 2 
egrejas, 8 capellas publicas e i particular, 
todas bem conservadas e bem tractadas. ' 

A capella d'Alqueidão foi em tempos re- 
motos a egreja matriz, como assevera una- 
nime a tradição local. Ainda hoje aprezenta 
vestígios de ter sido mais ampla. 

Ha n'esta parochia duas festas com grande 
romagem— a de S. João d'Alqueidão, no dia 
24 de junho— e a Santo Antão, em Vinhó, 
na segunda feira immediata ao domingo de 
Paschoa. 

Tem ires edifícios brasonados,- -um do 
conde da Guarda, residente em Lisboa— ou- 
tro do digno, par do reino Miguel Osorio Ca- 
bral, residente na Quinta das Lagrimas, em 
Coimbra, — e outro que foi de Francisco de 
Brito da Costa, hoje pertencente a Antonio 
Mendes Ferrão d'esta villa. 

Dos edifícios não brasonados os que mais 
avultam hoje n'esta parochia são os seguin- 
tes:— o convento, pertencente ao dr. Ale- 
xandre Cupertino Castello Branco,— a Casa 
da Praça, pertencente ao mesmo senhor, — 
a do rev. Esequiel de Moura Velloso,— a do 
rev. José Nunes d'01iveira— e a de José 
Freire de Carvalho Lopo d'Albuquerque, no 
Barril. 

Houve n'esta parochia um convento de 
frades antoninos (capuchos) com cerca e 
malta. Foi exlincto em 1834; — pertence, co- 
mo já dissemos, ao dr. Alexandre Cupertino 
— e está bem conservado. A egreja foi dada 
pelo governo á Misericórdia e está muito bem 
tractada e bem conservada também. 

Esta villa é atravessada por um ribeiro 
confluente do Alva, que vem da Serra da 



VIL 

Estrella e desagua no Mondego um pouco a 
jusante do porto da Raiva, tendo junlo d'es- 
ta villa uma soberba ponte de pedra (grani- 
to) com quatro arcos. 

Atravessa lambem a povoação de Vinhó 
e o casal de S. João, d'esla freguezia, uma 
ribeira que desagua lambem no Alva em 
Coja, a distancia de 5 kilometros. 

Ha n'esta freguezia dous lagares ou moi- 
nhos para moer azeitona e fabricar azeite, — 
e oito moinhos ou azenhas no Alva para 
moer cereaes. 

Producções dominantes — milho, trigo, 
centeio, feijões, vinho, castanhas, azeite, e 
fructas variadas, muito saborosas, nomeada- 
mente melões. 

Posto que está contigua ao Alva, não tem 
fabricas de lanifícios, sendo para lamentar 
que até hoje (1884) não seguisse o exemplo 
de tantas outras freguezias das abas da Ser- 
ra da Estrella, nomeadamente da Covilhã, 
Gouvêa e Cea. 

A sua única industria reduz-se ao fabrico 
de canastras, feitas de vergas, castanheiro, 
que exporta em grande quantidade para to- 
do o districto. 

Entre as pessoas notáveis que esta paro- 
chia tem produzido, avulta o desembarga- 
dor Luiz da Costa Faria que, depois de vol- 
tar da índia onde foi governador, mandou 
edificar á sua custa o convento d'esta yilla, 
—deu para a reedificação da egreja matriz, 
alem de muitas madeiras, seiscentos mil réis 
em dinheiro;— instituiu na matriz a irman- 
dade das Almas (hoje incorporada na da Mi- 
sericórdia)— dotando-a com um conto e seis- 
centos mil réis em dinheiro e com ricos pa- 
ramentos e damascos de seda da índia— e 
instituiu um morgado em Oliveira do Con- 
de, impondo ao seu administrador o ónus de 
dar á dieta irmandade a quantia de quarenta 
mil réis annualmente,— ónus que foi religio- 
samente cumprido até á extineção dos vín- 
culos. 

Falleeeu n'esta villa tão benemérito cida- 
dão, no dia 24 d'abril de 1730. D'elle se po- 
de dizer, sem lisonja : 

Semper honor, nomenque tuum laudesque 
manebunt / . . . 



VIL 



VIL 715 



Foi também natural (Testa freguezia o rev. 
bacharel formado em cânones, Silvestre 
Freire de Faria e Costa, vigário geral d'A- 
veiro e depois muitos annos advogado n'esta 
villa. 

Juntou grande fortuna em dinheiro, mas 
todo lhe foi roubado por differentes no ul- 
timo quartel da vida. 

Também cabe a esta parochia a honra de 
ser a terra natal do conselheiro José Cuper- 
tino da Fonseca e Brito, juiz de fóra, corre- 
gedor, desembargador honorário, secretario 
geral do governo civil de Coimbra e depu- 
tado ás cortes constituintes de 1826. 

Tem esta freguezia uma escola official do 
instrucção primaria elementar para o sexo 
masculino e uma irmandade de Misericórdia 
muito antiga que, apesar de haver perdido 
grande parte das suas rendas d'outrora, 
ainda presta relevantes serviços á pobreza. 

N'esta fregupzia, bem como em todo este 
concelho e nos limitrophes, praticaram mui; 
tas violências e extorsões, pelo meiado d'este 
século, os celebres assassinos e salteadores 
Caca, e Brandões, de Midões, que foram o 
terror d'estes povos, muitos annos. Incen- 
diaram muitas casas e roubaram e mataram 
muitas pessoas, mas íalis viía — finis Uai. . . 

O Caca foi queimado vivo com um bando 
dos seus em um lagar, pelo povo enfurecido 
e que tentava prendel os. Dos últimos Bran- 
dões,— Joãoe Antonio— o 1.° foi degredado 
perpetuamente para a Africa e ali assassi- 
nado,— o 2 o vive homisiado, ha muitos an- 
nos, coberto de vergonha e de remorsos e 
tremendo com a lembrança de que o espera 
a mesma sorte do irmão !. . 

VILLA COVA DE VEZ D'AVIZ— freguezia 
do concelho e comarea de Penafiel, districto 
e diocese do Porto, na província do Douro. 

Abbadía,— orago S. Romão,— fogos 135, — 
almas 542. 

Em 1706 pertencia ao termo da honra e 
beetria de Gallegos, comarca, provedoria e 
diocese do Porto,— era da apresentação da 



1 Veja-se n'este vol. 10.° o art. Vide, fre- 
guezia do concelho de Céa, pag. 652, col. 2." 
— e os artigos citados na respectiva nota. 



mitra tendo sido anteriormente da apresen- 
tação da casa da Calçada, (Peixotos) — ren- 
dia 2SOJ0OO réis e contava apenas 72 fogos. 

Em 1768 era outra vez da apresentação 
da casa dos Peixotos,— rendia 450$000 réis 
— e contava 82 fogos. 

Ern 1614 era da apresentação do collegio 
d'Evora,— depois passou para a Universida- 
de, — e em 1820 era alternativa da Universi- 
dade e dos Peixotos de Guimarães. 

Comprehende as aldeias ou povoações se- 
guintes:— Paço, Quintella, Cruzes, Senhora, 
Ribella, Roubins, Pinheiro, Riba Boa, Ven- 
tozella, Corcovido, Outeiro, Outeiral, Barral 
Campo o Áspero. Não tem quintas ou casaes 
que mereçam especial menção. 

Freguezias limitrophes— Perozello, Duas 
Egrejas, Villa Boa de Quires, Aragão e Lu- 
zim. 

A povoação de Villa Cova está na margem 
direita do Tâmega, do qual dista cerca de 4 
kilometros,— 9 de Penafiel,— 11 da linha fér- 
rea do Douro (estação de Penafiel)— 50 do 
Porto— e 387 de Lisboa. 

Atravessa esfa freguezia ma estrada mu- 
nicipal a macadam de Penafiel pela aldeia 
de Perafita, da parochia de Duas Egrejas, — 
Ribaçaes, aldeia da freguezia de Abragão, — 
Villa Boa do Bispo e Feira Nova, onde eu • 
tronca na estrada districtal de Basto a En- 
tre os Rios ou Santa Clara do Torrão, na 
margem direita do Douro, passando esta ul- 
tima estrada em Amarante e no Marco de 
Canavezes. 

Além da egreja matriz, que é um vasto 
templo e muito bem conservado, tem uma 
capella particular em Riba Boa, que foi ca- 
beça de um morgado dos Sou3as Lopes,— e 
uma capella publica, de Nossa Senhora do 
Rosario, anterior a 1500, mas por vezes re- 
edificada, conservando um precioso retábulo 
de talha dourada antiga. É administrada por 
uma irmandade própria,— tem lusida festa 
annual no mez d'agosto— e missa nos do- 
mingos e dias santos, em cumprimento d'um 
legado de José da Silva Leão, capitalista na- 
tural d'esta parochia, tendo emigrado para 
o império do Brasil, onde adquiriu boa for- 
tuna. 



716 VIL 



VIL 



Os edifícios principaes d'esta parochia são 
a casa de Villa Flor, brasonada e que per- 
tenceu á família Pereiras Meneses, de Ca- 
banellas,— e a casa do Áspero (antigamente 
Cadeade) onde viveu o abbade d'esta fregue- 
zia Domingos Borralho, por alma de quem 
ainda boje se resam no fim da missa con- 
ventual 5 Padre Nossos em cumprimento de 
uma verba testamentária, na qual assim o 
recommendou, deixando aos abbades 60 li- 
tros de cereaes para aquelle serviço. 

Esta freguezia tomou o nome do local on- 
de se acha a matriz, pois é uma grande co 
va, cercada a leste pelos montes do Porlêllo, 
— a oeste pelos montes da Lagoa e da Er- 
mida — e ao norte pelos montes de Perafita, 
e dos Castellos, tendo horisonte aberto e com 
largas vistas unicamente do lado sul, para 
alem do Tâmega e do Douro. 

Diz se que os franceses, por oecasião da 
guerra peninsular, estiveram em Abragão e 
marcharam para o norte por esta freguezia 
de Villa Cova, mas que, apenas defrontaram 
com a grande cova e se viram cercados de 
montes por todos os lados, mudaram imme- 
diatamente de rumo ! . . . 

No monte da Ermida se encontram restos 
de antiga povoação e de velhas fortificações, 
a que o vulgo chama horta dos mouros. 

Também no monte dos Castellos ha gros- 
sos muros e claros vestígios de antiquíssi- 
mas obras de defesa, as quaes deram o no- 
me ao dieto monte. 

Nasce n'esta freguezia o ribeiro dos moi- 
nhos ou dos pedreiros, que move muitos moi- 
nhos de cereaes, no inverno, e desagua na 
margem direita do Tâmega, a 4 kilometros 
de distancia, no sitio da Rainha. 

Producções principaes — milho grosso, 
azeite, centeio, feijões, vinho verde de infe- 
rior qualidade e fructa. Em outros tempos 
também produziu muitas castanhas. 

Tem uma eschola official de instrucção 
primaria elementar para o sexo feminino e 
outra para o sexo masculino na próxima po- 
voação de Ríbaçaes da freguezia d'Abragão. 

Entre as pessoas notáveis que esta paro- 
chia tem produzido merecem especial men- 



ção—o rev. Manuel Joaquim de Sousa Mo- 
reira, abbade de Britello, em Celorico de 
Basto, homem de grande valimento,— o pa- 
dre Francisco Paula Mendes, jornalista dis- 
tincto, — seu irmão José Anastácio Mendes, 
litterato e bom latinista— e José da Silva 
Leão, capitalista e muito esmoler l . 

É abbade actual d'esta freguezia o rev. 
João Pinto da Motta, da freguezia d'Avessa- 
das, concelho do Marco de Canavezes. To- 
mou posse em fevereiro do corrente anno de 
1884. 

Foi abbade anterior o rev. Joaquim da Cu- 
nha Coelho Barbosa Brandão, da casa da 
Maragoça, freguezia de Val Pedre, concelho 
de Penafiel, fallecido a 20 de janeiro de 1883 
— e que succedeu ao abbade Bento Pereira 
de Menezes Solto Maior, da casa de Caba- 
nellas. 

Ha n'esta freguezia um bom cemitério pa- 
rochial. Foi benzido e inaugurado com gran- 
de pompa nos princípios de outubro de 1883, 
assistindo ao acto religioso (durante o qual 
tocou a banda de Villa Boa do Bispo) alem 
de muitos ecclesiastieos e parochianos, os 
srs. drs. Soares de Moura, administrador do 
concelho e Adriano de Sequeira, sub-delega- 
do de saúde. 

Na mesma oecasião foi exumado o ca- 
dáver de Antonio Soares da Silva Mattos e 
trasladado para um jazigo de família, erecto 
no mesmo cemitério, sendo o cadáver do 
dito sr. Silva Mattos o primeiro que ali se 
sepultou. 

Esta parochia é muito antiga. 

D. Paio Petriz e sua mulher D. Godo ha- 
viam dado a oitava parte d'ella ao mosteiro 
de Paço de Sousa e tendo-se alienado, o prior 
D. Diogo a recuperou de Diogo Gratiz e 



1 Falleceu solteiro no Porto, em julho de 
1876 e, apesar de ter ainda viva a mãe, que 
herdou duas terças partes da sua grande for- 
tuna, deixou legados no valor de muitos 
contos de réis em favor d'esta parochia e de 
differentes ordens, amigos, parentes e indi- 
gentes. 

No supplemento a este artigo daremos um 
extracto do testamento de tão benemérito ci- 
dadão. 



VIL 



VIL 



717 



Diogo Furtuniz, a 28 de setembro da era de i 
1145, que corresponde ao anno de 1107, co- 
roo consta das cartas de cedência feitas por 
elles lio sobredicto mez e anno. 

Das mesmas cartas se vê também que 
n'aquelle tempo eram oragos d'esta fregue- 
zia o apostolo S. Filippe, S. Romão e S. Mar- 
cello, pois ali se diz : 

...de Ecclesia Sanctorum Martyrum Fi- 
lipi Apostoli, Romani, et Marselli, quorum 
aula sita est in Villa Cova, subtus monte Pe- 
trafixa, et monte Batial, discurrente ribulo 
Tamice território Portugalensis Ecclesiae.. . 

«Da egreja dos santos martyres S. Filipe 
apostolo, S. Romão e S. Marcello, cuja ma- 
triz está Da povoação de Villa Cova, na raiz 
do monte de Petrafixa (Perafita) e do monte 
Bacial (?) junto do rio Tâmega, na diocese 
do Porto.» 

Esta parochia nunca foi villa nem teve fo 
ral próprio, mas gosou de todos os privile 
gios, exempções e regalias da honra e beelria 
de Gallegos, em cujo termo se achava, bem 
como dos privilégios coneedidos a Penafiel 
no foral de D. Manuel, com data de 1 de ju 
nho de 1519, pois no dicto foral claramente 
se diz que comprebende esta freguezia de 
Villa Cova e todas as outras que ao tempo 
pertenciam ao termo de Penafiel. 

Veja-se o processo para este foral na Gav 
20, Maço 12, n.° 19. 

Penafiel teve também foral velho, dado 
pelo conde D. Henrique e confirmado por 
seu filho, o nosso primeiro rei, D. Affonso 
Henriques ». 

É o foral de D. Manuel dividido em 30 
títulos, pertencendo a esta freguezia o n 
18, no qual se diz que ao tempo compre 
hendia 17 casaes e pagaria para a coroa os 
direitos seguintes : 



Bragal— (varas) 

Cabritos 

Cacifos 



64 V 
3 
7 



i V. Descripção Histórica e Topographica 
de Penafiel por Antonio d' Almeida, pag. 20, 
publicada em 1830 na Historia e Memorias 
da Academia Real das Sciencias, tomo v 
parte II. 

volume x 



Capões ° 

Carne (costas) - 8 

Carneiros 2 */« 

Centeio (cacifos) • • • 4 Vs 

evada (cacifos) 10 

Espadoas 2 

Gallinhas • 16 

Maravidiz (moeda) */i 

Meado (milho e centeio) alqueires.. . . 56 7 2 

Miunça V* V 3 

Ovos 70 

Pão V* 

Pretos (moeda) • 86 

Reaes (moeda) • 51 

Vinho 13 V* 

Outras freguezias d'este reguengo paga- 
vam tombem mel, marrã, patos, trigo, linho, 
botinas, feijões, manteiga, calaças, peixotas, 
etc. 

Veja-se a Memoria citada, pag. 21 a 25— 
e no supplemento a este diccionario o artigo 
Penafiel. 
VILLA DIANTEIRA— aldeia. 
V. Dianteira n'este diccionario e Villa 
Dianteira no supplemento. / 

VILLA DA EGREJA— villa e freguezia, se- 
de do concelho e da comarca de Sattam, dis- 
tricto e diocese de Viseu, na província da 

Beira Alta. 

Vigairaria,— orago Nossa Senhora da Gra- 
ça—fogos 447,— almas 1:905. 

Em 1708 era vigairaria do padroado real 
e commenda da ordem de Christo— contava 
276 fogos e o vigário apresentava o curato 
de S. Pedro de Mioma, freguezia de 126 fo- 
gos, que com a de Villa da Egreja consti- 
tuíam o antiquíssimo concelho de Sattam, 
comarca de Viseu e provedoria da Guarda. 
Comprehendia o dicto concelho apenas 402 
fogos e tinha 2 juizes ordinários, 3 vereado- 
res, 1 procurador do concelho, 1 escrivão da 
camará, 1 juiz dos órfãos com seu escrivão, 
2 do judicial e notas, 1 alcaide, 2 compa- 
nhias de ordenanças e 1 capitão mór, a quem 
obedecia lambem o extincto concelho de 
Gulfar, onde havia outra companhia de or- 
denanças. 

Em 1736, segundo se lê na Chorographia 
de Lima, contava esta parochia 297 fogos e 

46 



718 VIL 



VIL 



972 habitantes— e o concelho de Sattam, 744 
fogos e 1:506 habitantes, pertencendo á fre- 
guezia de Mioma (D. Luiz Caetano de Lima 
dá-lhe o nome de Meimoa) 180 fogos e 534 
habitantes. 

Em 1768 contava esta freguezia de Villa 
da Egreja 312 fogos,— era vigairaria do pa- 
droado real— e rendia para o vigário réis 
1000000. 

Alem da povoação de Villa da Egreja, se- 
de da parochia e da matriz, comprehende as 
aldeias de Sarrazella, Cruz, Tojal, Samorim, 
Paço, Villa Cova, Pedrosas, Pedrosinha,Mu- 
xós, Contigem, Avellosa, Concão, Lameira, 
Cigarrai, Villa d'Alem— e as quintas e ca- 
saes da Granja, Pereiro, Lavandeira, Prado, 
Porto Largo, Val da Lebre, Pontào, Fonte 
Arcada, Gandra, Val da Zebra e Calha Bem, 
todos pouco importantes. 

As suas freguezias limitrophes são— Mio- 
ma, Barreiros, S. Miguel de Villa Boa, S. Pe- 
dro de France, Queiriga e Ferreira d'Aves. 

Esiá na margem esquerda do Vouga e na 
direita do Sattam, distando do Vouga cerca 
de 7 kilometros para S.— 8 do Sattam, con- 
fluente do rio Dão, para N. O.— 20 de Viseu 
para E. N. E. — 22 da estação de Mangualde, 
a mais próxima, na linha da Beira Alta— e, 
por esta linha e pela do Norte, 130 da Fi- 
gueira,— 206 do Porto— e 229 de Lisboa. 

Passa n'esta freguezia a estrada districtal 
a macadam de Viseu a Lamego. 

A egreja matriz que, se attendermos ao 
titulo d'esta parochia, Villa da Egreja, de- 
via ser uma obra monumental, é um templo 
singelo, pobre, maltratado e em ruinasl 

Tem mais os templos seguintes :— na po- 
voação do Tojal a capella do Espirito Santo, 
publica, e a egreja do extincto convento de 
Freiras dominicas,— em Muxós a capella de 
Santo Amaro,— a de S. Saturnino na aldeia 
de Pedrosas,— a de S. Sebastião na Villa da 
Egreja,— todas publicas,— e em Contigem 
uma capella particular, de Nossa Senhora do 
Desterro,— todas ordinárias, mas abertas ao 
culto. 

A do Espirito Santo está em local muito 
interessante e pittoresco e tem festa com ro- 
magem, bem como a de S. Sebastião. 



O único edifício brasonado d'esta paro- 
chia são os novos paços do concelho; mas o 
brasão não é o do concelho— é o da famí- 
lia a quem foi comprada a dieta casa, apro- 
ximadamente em 1876, pouco depois da 
creação d'esta comarca. 

Ali funeciona o tribunal e se acham ins- 
talladas quasi todas as repartições publicas 
do concelho e da comarca, vivendo ainda no 
mesmo prédio a familia do seu ultimo pos- 
suidor, -Antonio Miguel de Carvalho, na 
parte que reservou, quando o vendeu á ca- 
mará. 

Ainda existem os velhos paços e a cadeia 
do concelho,— edifício humilde, hoje habita- 
do pelo carcereiro. 
O pelourinho já desappareceu. 
A villa é uma povoação pequena. Reduz- 
se a um largo ou praça e tres ruas insigni- 
ficantes, mas datam de tempo immemorial, 
tanto esta povoação como esta villa e este 
concelho, pois já o conde D. Henrique e sua 
mulher D. Theresa, paes do nosso primeiro 
rei D. Affonso Henriques, lhe deram foral 
em 9 de maio de 1111, conflrmado em San- 
tarém por D. Affonso II, em 31 de janeiro 
de 1218. D. Sancho II lhe deu outro foral, 
estando na cidade da Guarda, em 10 de ju- 
lho, de 1240— e D. Manuel lhe deu foral no- 
vo em Lisboa, com data de 6 de maio de 
1514. 

Para evitarmos repetições, veja-se com re- 
lação á historia d'este antiquíssimo conce- 
lho o artigo Saíam, ou Sattam, vol, 9.° pag. 
64, col. 1.» 

Ali se mencionam as 12 freguezias que 
hoje constituem este concelho; note-se po- 
rem que d'aquellas 12 freguezias a de Aguas 
Boas e a de Forles estão hoje annexadas ci- 
vilmente á de Ferreira d'Aves,— e as de De- 
cermillo, Silva de Baixo e Villa Longa es- 
tão egualmente annexadas á de Romãs. 

Pelo ultimo recenseamento de 1878 com- 
prehendia este concelho : 

Fogos 2:958 

Almas 12:767 

Superfície em hectares 22:995 

Prédios inscriptos na matriz 10:917 



VIL 

Banham esta freguezia os rios Vouga e 
Sattam, confluente do rio Dão, no qual des- 
agua perto de Alcafache— e os ribeiros de 
Muxós, Tabolado, Pedrosas e da Villa, que 
desaguam no batiam. 

Producçoes dominantes— -centeio, trigo, 
milho, batatas, vinho de mesa, hervagens, 
hortaliça, gado e caça. 

Tem uma escola official de instrucção pri- 
maria elementar do sexo feminino e outra 
do sexo masculino, prestes a transformar- se 
em escola complementar. 

No sitio denominado Santos ídolos (?) ter- 
mo d'esta parochia, se encontram ruinas de 
velhas fortificações e de antiquíssimo po- 
voado, o que alguém attribue á occupação 
do povo — rei. 

Ali teem apparecido em differentes datas 
vários artigos de cerâmica e de ferro e cobre 
bem como algumas moedas romanas. 

No povo do Tojal houve minas e fornos de 
cal, hoje em abandono— e um convento de 
fre'iras dominicas, fundado em 1640, segun- 
do se lè no Mappa de Portugal, de- João Ba- 
ptista de Castro, ou em 1630, segundo se lê 
na Chorographia Portugue&a; mas a chroni- 
ca da ordem diz que este convento de Nossa 
Senhora da Oliva foi fundado pelo rev. dr. 
Feliciano de Oliva e Sousa, tendo alcançado 
licença do bispo de Viseu, D. Bernardino de 
Senna, em 7 de julho de 1632 — alvará de 
Filipe IV de Hespanha e III de Portugal, em 
15 de maio de 1638,— e breve apostólico da 
Santidade de Urbano VIII, em 27 de maio de 
1640 1. 

Inauguraram-se as obras com grande 
pompa no dia 6 d'abril de 1633 e com gran- 
de pompa n'elle deram entrada em 8 de se- 
tembro de 1640 as primeiras religiosas, que 
foram 11,— duas chamadas do convento de 
Corpus Chrkti, do Porto, (Villa Nova de 
Gaya) para fundadoras e directoras da nova 
communidade, uma com o titulo de Prio- 
resa e outra com o de subprioresa,— mais 3 



i Historia de S. Domingos por fr. Luiz de 
Sousa, continuada por fr. Lucas de Santa 
Catharina, Parte IV, vol. V, cap. 35, pag. 
< g.da 3.» edição. 



VIL 719 

irmãs e 6 sobrinhas do benemérito funda* 
dor, ainda noviças. 

Foi este convento do Tojal o 1.° que teve 
a ordem dominica na província da Beira, e 
por isso fr. Lucas de Santa Catharina, lhe 
prestou toda a attenção e lhe dedicou doua 
largos e muito interessantes capítulos, que 
extractaremos no supplemento a este diccio- 
nario. Vamos fechar este artigo consignando 
algumas noticias que o rev. vigário d'esta 
parochia se dignou enviar-nos com relação 
ao mencionado convento, relativas á sua ex- 
tincção e ao que d'elle resta na actualidade. 

.Este convento foi extincto por falta de 
meios e de pessoal, approximadamente em 
1830. Não chegou pois a completar 200 an- 
nos de existência. 

Na data da sua extincção contava apenas 
1 religiosa professa, já muito velhinha, e 5 
seculares. 

A pobre senhora professa foi recolhida no 
mosteiro benediclino de Ferreira d'Aves l , 
também d'este concelho, onde, passado pou- 
co tempo, falleceu. 

O edifício do convento nunca foi muito es- 
paçoso nem muito notável. 

O breve pontifício de Urbano VIII apenas 
auctorisava a reclusão de 33 religiosas; — 
outro breve posterior auctorisou a reclusão 
de mais 7, mas não ha memoria de que a 
communidade preenchesse em tempo algum 
o numero de 40 religiosas professas. 

Extincto o convento, passou para os pró- 
prios nacionaes, achando-se a egreja em per- 
feito estado de conservação e o edifício do 
convento muito velho e deteriorado, mas 
não em ruinas e ainda muito habitável. Pas- 
sado algum tempo o governo vendeu 03 ma- 
teriaes do edifício a differentes, que o de- 
moliram para aproveitarem a pedra e as 
madeiras;— depois vendeu ao grande pro- 
prietário José Antonio da Silva, de Aguiar 
da Beira, a cerca, o chão que havia sido oc- 
cupado pelo convento, o mirante e a casa da 
hospedaria, o que tudo hoje está em tercei- 



i V. Ferreira d' Aves, vol, 3.° pag. 171, col. 
2 a — e a Benedictina Lusitana, vol. 2.° pag. 
240, col. i.» e seg. 



720 



VIL 



VIL 



ro possuidor e é propriedade do sr. dr. João 
Paes d'Almeida Leitão, aqui residente. O mi- 
rante, de que apenas reslavam as paredes, 
foi restaurado e unido á casa de habitação 
do seu proprietário, que restaurou também 
a casa da hospedaria e tem a cerca perfei- 
tamente agricultada, constituindo o todo uma 
das primeiras vivendas d'esla parochia e 
d'este concelho. 



No mirante 



A egreja foi cedida pelo governo á povoa- 
ção do Tojal e ainda existe, mas muito de- 
teriorada, o que é para sentir, pois era um 
lindo templo. 

Ainda conserva o altar-mór e os dous la- 
teraes com' soberbos retábulos de preciosa 
talha dourada e as paredes todas lateral- 
mente revestidas de bom azulejo. 

Nos últimos tempos faziam aqui as reli- 
giosas tres grandes festividades— uma a 
Nos3a Senhora da Oliva, a padroeira do con- 
vento,— outra a S. Domingos, o patriarcha 
da ordem,— e as endoenças ou festas pró- 
prias da semana santa. 

A egreja não tem brasões d*armas; consta 
porém que existiram em difíerentes capellas 
no interior do convento, o que tudo foi des- 
truído pelos vândalos d'este século das lu- 
ses ! . . . 

Salvemos as inscripções que ainda restam: 
Na verga da porta que dá entrada para a 
veneranda egreja se lê a seguinte : 

Dedicado a Nossa Senhora da 
Oliva a 6 d Abril de 
1633. 

Na capella mór, em uma lapide sepul- 
chral : 

S. do Dotor Feliciano de 
Oliva e Sousa fundador 

DESTA CASA. Fal.° A 2 DE 

Fever. 0 de 1656. 
No forro da capella mór : 

Esta obra de trebuna e 
forros mandov fazer; 
o Abbade de Reris 
Feliciano de Oliva E: 
Souza Cabral. 
Annq 1744. 



Esta obra mandov 

FAZER A M. e M. a 
DE Xp.lO BAP.ta 
PRIORESSA DESTE MOS- 
TEIRO DE N N. 
SS. a da Oliva 
Ano de 1694. 



Note-se que muitas lettras das 4 inscri- 
pções supra estão incluídas umas nas outras 
como ao tempo se usava. 

Agradeço ao meu illustrado collega os 
apontamentos que se dignou enviar-me, la- 
mentando que a sua modéstia me não deixe 
consignar aqui o seu nome. 

VILLA FACAIA— freguezia do concelho e 
comarca de Pedrogam Grande, districto de 
Leiria, bispado de Coimbra, na província da 
Extremadura. 

Curato. Orago Santa Catharina d'Alexan- 
dria, Virgem e Martyr,— fogos 350,-aIma* 
1:565. 

O padre Carvalho deu-lhe o titulo de Villa 
Faquay, mencionando as freguezias que no 
seu tempo constituíam o concelho de Pedro- 
gam Grande, da comarca de Thomar, e sim- 
plesmente indicou em globo a população do 
concelho. 

D. Luiz Caetano de Lima nem sequer 
mencionou lai parochia! 

O Port. Sacro e Profano apenas diz que 
em Í768 era um curato da apresentação do 
cabido da sé de Coimbra, rendendo^ 24$000 
réis e contando 189 fogos." 

Em 1852 contava 295 fogos,— e o Diccio- 
nario d'Almeida deu-lhe 307 em 1866. 

O chão d'esta freguezia é bastante pedre- 
goso e muito accidentado, principalmente o 
de Villa Facaia, séde da parochia, pequena al- / 
deia de 40 fogos, aspecto triste e pouco sau- 
dável. 

Comprehende mais 16 aldeias,-6 a ju- 
sante da matriz: Pé da Lomba, Cume, La- 
meira Cimeira, Lameira Fundeira, Ramalho 
e Aldeia dos Freires ou das Freiras;— e 10> 
a montante: Gravito, Salaborda ou Sellabor- 
da Velha, Salaborda ou Sellaborda Nova, 
Campello, Rabilgordo, Valle de Nogueira 
Casal d'Alem, Pubraes, Alagôa, Várzea,— as 



VIL 



VIL 721 



^easaes de Moleiros e Pinheiro de Bollin— e 
a quinta ou habitação isolada, de Sabrosa. 

As suas freguesias limitrophes são— Gra- 
ça a S.— Campello e Castanheira de Pera a 
N.— Pedrogam Grande a S. E. — e Figueiró 
dos Vinhos a S. O. 

A povoação de Villa Facaia, séde da pa - 
rochia., está na margem direita da grande 
ribeira de Pera, da qual dista 4 kilometros, 
—8 de Pedrogam Grande,— 10 da margem 
direita do rio Zêzere, no qual desagua a ri- 
beira de Pêra,— 24 d'Alvaiazere, séde do ar- 
cyprestado,— 42 de Coimbra— e 60 de Lei- 
ria. , 

A egreja paroehial é um templo soffrível, 
forrado de madeira, aproximadamente em 
1880. Tem altar mór com retábulo e throno 
de talha e uma linda imagem da padroeira 
Santa Catharioa, imagem feita em Braga- 
Tem mais 2 altares lateraes com decorações 
modestas. 

Ha n'esta freguezia as capellas seguintes, 
todas publicas— Senhor do Calvário, em Villa 
Facaia, — Santo Antouio, em Sellaborda No- 
va,— Senhora do Resgate, em Aldeia dos 
Freires ou das Freiras — e Senhora da Pie- 
dade, na povoação do Ramalho. 

Tem esta parochia uma confraria maior, 
muito antiga e com bastante rendimento ain- 
da,— e 8 menores, ou simples devoções; a 
maior é a do Santíssimo, — as menores- são a 
de Santo Antonio de Sellaborda Nova, Santo 
Antonio da Egreja, Saota Catharina (pa- 
droeira) S. Caetano,— S. José,— Senhor do 
Calvário,— Senhora do Resgate— e Senhora 
da Piedade. 

As festas principaes que hoje aqui se ce- 
lebram são as do Santíssimo Sacramento 
Santo Antonio da Egreja, Santo Antonio de 
Sellaborda Nova, S. Sebastião, Senhora da 
Piedade e Santa Catharina, no dia 25 de no- 
vembro, com romaria e feira. 

Segundo se lê no Santuário Marianno 
(vol. 4.° pag. 667) a capellinha de Nossa Se- 
nhora da Piedade era em 1712 já bastante 
antiga e particular, pertencente a uma quin- 
ta do sargento mór Luiz da Vide de Andra- 
de, suppondo se ter sido feita pelos ascen- 
dentes do dicto sargento mor. A imagem da 



Senhora era de pedra, reprezentando-a com 
o seu amado filho morto nos braços, medin- 
do a imagem da Senhora 5 palmos e 6 a do 
Senhor. Era alvo de grande devoção, mas 
não tinha festa em dia determinado. 

Esta parochia não tem passal, mas a resi- 
dência é soffrivel. 

Recebe o parocho 801000 réis de derrama 
em dinheiro, mais cerca de tres moios de 
pão de ementas 1 e de cada fogo uma quarta 
pela missa dos sabbados. Tem alem d'isso de 
cada baptisado uma gallinha, dada pelos 
paes da creança, e 120 réis dados por cada 
um dos padrinhos que também, por costume 
antiquíssimo, lhe dão a competente bucha 
(diz o meu informador) servida no logar des- 
tinado junto da sacristia. 

D'aqui vem talvez a locução 
— do povo, usada mesmo nas pro- 

víncias do norte, — pagar a bu- 
cha. 

Também o parocho recebe dos casamen- 
tos 240 róis pela missa dos noivos, mais 120 
réis de cada um dos padrinhos e a compe- 
tente bucha, dada pelos padrinhos e convi- 
dados e servida também no local próprio, 
contíguo á sacristia. 

Por oeca3ião da dieta bucha costumam 
concorrer ao beberete os visinhos, compa- 
dres e amigos dos noivos (diz ainda o meu 
informador) caprichando em levar as deno- 
minadas amostras (grande variedade) de vi- 
nhos afazendo muitas vezes com que os con- 
vivas joguem o sôeo e apanhem a sua pi- 
teira.» 

Note-se que a producção do- 
minante d'esta parochia é vi- 
nho e que os seus habitantes são 
turbulentos e de génio capri- 
choso e irascivel, tanto os ho- 
mens, como as mulheres, algu- 
mas das quaes chegaram a 
conquistar uma' certa celebri- 
dade no crime, matando os fi- 
lhos, envenenando os maridos 
e batendo nas suas próprias 
mães? t. . . 

* V. Amenta, vol. l.° pag. 199, col. l- a 



722 VIL 



VIL 



«A sáde da comarca foi subtrahida ainda 
ha pouco tempo (diz o meu informador) de 
Figueiró dos Vinhos para Pedrogam por ar- 
tes de berliques e berloques, com bastante pre- 
juiso do publico.» 

Ha n'esta freguezia uma eschola ofíicial 
de instrucção primaria elementar, creada 
em 1870, mas foi provida apenas em 5 de 
abril de 1873, sendo regida, aliás muito di- 
gnamente, desde aquella data até 1879, pelo 
fev. Albino Simoes Cardoso Dias, então pa- 
rocho eneommendado aqui também x . 

Esta freguezia, a 'cm do vinho, sua pro- 
ducção dominante, produz também cereaes, 
fructas, batatas, azeite e lã, pois cria algum 
gado lanígero nos seus amplos montados, 
mas nada exporta (diz o meu informador) 
pelo que é pobre. 

Não tem nem d'ella se approxi ma estrada 
alguma a macadam e, quanto a linhas fér- 
reas, a mais próxima è a do norte, distando 
44 kilometros da estação de Coimbra e pouco 
menos da de Pombal. 

A confraria do Santíssimo acompanha e 
suffraga todos os irmãos que fallecem; mas, 
se o fallecido não fôr confrade e quizerem 
que ella o acompanhe, teem de dar-lhe uma 
gratificação,— ordinariamente 1 #200 réis ou 
uma oliveira. 

VILLA DA FEIRA. V. Feira, villa, n'este 
diccionario e no supplemento. 

VILLA FERNANDO— freguezia do conce- 
lho e comarca d'Elvas, districto de Portale- 
gre, arcebispado d'Evora, província do Alem- 
tejo. 

Priorado,— fogos 127,— almas 492,— orago 
Nossa Senhora da Conceição. 

Em 1708 era villa,— contava 80 fogos,— 
todos lavradores,— pertencia á casa de Bra- 
gança e á comarca e ouvidoria de Villa Vi- 
çosa—e tinha uma capella de S. Romão, da 
qual hoje nem vestígios restam. 

Em 1768 (segundo se lê no Port. S. e Pro- 
fano) contava apenas 30 fogos, —era priora- 



1 É natural a freguezia da Bemfeita, con- 
celho d'Arganil, e primo do illustrado pro- 
fessor e poeta, dr. José Simões Dias. 



do da apresentação da casa de Bragança— e 
rendia 200$000 réis. 

Atè 1882, data da nova circumscripção dio- 
cesana, pertenceu ao bispado d'Elvas, hoje 
extincto. 

Freguezias limitrophes— Santa Eulália a 
N.— Villa Boim a S.— S. Vicente de Fóra a 
E.— Terrugem e Santo Aleixo a O. 

Comprehende, alem da povoação de Villa 
Fernando, séde da parochia e villa extincta» 
os montes (casaes) seguintes:— S.Romão, Ca- 
sas velhas, Paço, Carrão, Chaminé, Alcara- 
pinha, Defesa, Serranos, Serranicos, Alco- 
baça, Velhinhos, Barrocal, Villa Fernando e 
Pegaxa, — a quinta das Casas Velhas e cinco 
hortas K 

A maior parte d'estes montes são herdades. 
Pertencem á sereníssima casa de Bragança 
as de Villa Fernando e Barrocal— e as de 
Serranos ou Serrões e Velhinhos ao digno 
par do reino Carlos Eugénio d'Almeida. 

Esta freguezia está situada ao norte da es- 
trada d'Elvas a Extremoz, pela freguezia da 
Orada, distando da dieta estrada 4 kilome- 
tros,— 15 d'Elvas para N. O..— 35 de Porta- 
legre para S.— 50 d'Evora para N. E— 15 
da estação de Santa Eulália, na linha fér- 
rea de leste, — 261 de Lisboa — e 384 do 
Porto. 

Em toda esta freguezia apenas ha 2 kilo- 
metros d'estrada a macadam, da estação de 
Santa Eulália até á herdade, hoje Colónia ou 
Eschola Agrícola de Villa Fernando. 

Este priorado está hoje ecclesiasticamente 
unido ao de Barbacena, por ser muito sen- 
sível a falta de presbyteros e não ter paro- 
cho próprio. 

O prior de Barbacena, em virtude de au- 
ctorisação especial do seu prelado, depois de 
dizer a missa conventual aos seus freguezes 
nos domingos e dias santos, vae celebrar 
2.* missa na egreja parochial de Villa Fer- 
nando. 



1 No supplemento a este diccionario, arti" 
go Aldeia, explicaremos o que ao sul do 
nosso paiz, nomeadamente na província do 
Alemtejo, se entende por montes, herdades, 
quintas e hortas. 



VIL 



VIL 723 



Por egual motivo se dá hoje 
também o mesmo facto nas 
dioceses ao norte do nosso 
paiz, nomeadamente na de La- 
mego. 

Alguns presby teros se acham 
ali encarregados de duas e por 
vezes tres parochias, celebran- 
do também dua3 e por vezes 
tres missas conventuaes nos 
domingos e dias santos, — uma 
em cada freguezia a seu cargo. 

Deus vele pela sua egreja e 
ponha cobro a semelhante ano - 
maiia. 

Em quanto a templos ha hoje n'esta paro- 
chia apenas a egreja matriz, que nada tem 
de notável e se acha em grande abandono, 
ameaçando eahir em ruinas. 

Também não tem edifícios que mereçam 
especial menção, exceptuando as novas con- 
strucções na Colónia Agrícola. 

Nada resta dos antigos paços do concelho 
nem da cadeia e do pelourinho d'esta villa. 

Suppõe-se que estiveram no chão hoje oc- 
cupado pelo monte de Villa Fernando. 

As festas principaes que hoje aqui se ce- 
lebram são as de S. Pedro, Senhora do Ro- 
sario e Senhora da Conceição, a padroeira, 
a 8 de dezembro. 

A povoação de Villa Fernando, séde da 
parochia, tem sete pequenas ruas, sendo a 
de Elvas a principal. 

Banham esta freguezia um regato e a ri- 
beira de Villa Fernando, que passa junto 
do monte assim denominado e d'elle tomou 
o nome. 

Tanto esta ribeira como aquelle regato 
são atravessados pela nova estrada a maca- 
dam da colónia agrícola para a estação de 
Santa Eulália, tendo uma bella ponte de pe- 
dra de 2 arcos sobre a dieta ribeira e ou- 
tra sobre o regato. Desaguam no rio Caia e 
este no Guadiana. 

Banham também esta freguezia outros ri- 
beiros e regatos menos importantes. 

Tem duas minas de cobre hoje abandona- 
das. 

Producções dominantes — trigo, centeio, 



cevada, aveia, favas, feijões e mel, pois cria 
bastantes colmeias. 

Tem algumas serras pouco importantes, 
sendo apenas digna de especial menção a da 
Atalaia dos Sapateiros, cujo nome ainda ho- 
je faz eriçar os cabellos, pois muito tempo 
foi povoada e dominada por salteadores e 
assassinos. 

N'este concelho fazia pendant com o pi- 
nheiral d'Azambuja e com a serra da Fal- 
perra ! . . • 

Tem esta freguezia uma escola offlcial 
mixta de instrueção primaria elementar— e 
a Colónia ou Escola agrícola de reforma, com 
uma estação telegraphica e um observatório. 

A casa de Bragança obteve o senhorio 
d'esta villa por compra que fez a sr. a D. Ca- 
tharina, mulher do duque D. João I, dando 
por ella o juro que tinha na alfandega das 
Almadravas, no Algarve. 

Ao digno prior de Barbacena, o rev. Joa- 
quim Francisco Celestino Mouquioho, agra- 
deço os apontamentos que se dignou enviar- 
me para a descrípção d'esta parochia. 

Esta Colónia ou Escola Agrícola de Refor- 
ma foi instituída pelo nosso governo para 
u"ella recolher e educar, nomeadamente nos 
misteres da agricultura, os vadios e presos 
por culpas leves. 

Na escolha do local deu-se a preferencia 
á provincia do Alemtejo, por ser entre todas 
as do nosso paiz aquella em que a agricul- 
tura se acha em maior abandono e mais ne- 
cessita de protecção e estimulo. 

A dieta Escola é um verdadeiro Seminá- 
rio d' Agricultores, que deve prestar muito 
relevantes serviços áquella provincia e a to- 
do o nosso paiz— e foi montada na grande 
herdade de Villa Fernando, por ser uma 
propriedade vastíssima e comprehender ter- 
reno que se presta a todas as culturas. 

Esta grande herdade pertence (como já 
dissemos) á sereníssima casa de Bragança 
e foi arrendada pelo governo por um praso 
suficientemente largo para n'ella se pode- 
rem fazer as muitas construcções e modi- 
ficações que demanda um estabelecimento 
d'aquella ordem,— construcções a que se 
deu principio em janeiro de 1884 e que vão 



724 VIL 



VIL 



já muito adiantadas, mas que por certo Dão 
se nltimarão tão cedo, pois são vastas, va- 
riadíssimas e uão devem custar meãos de 
200 a 300 contos de réis?!.. . 

N'esta data (janeiro de 1885) está cons- 
truído um lago de mil metros cúbicos, onde 
já corre a agua das nascentes do chafariz 
próximo á estrada de Barbacena, elevada 
por um moinho de vento americano— e está 
em construcção um chafariz para o publico, 
junto da aldeia da Conceição. 

Também já se fez a estrada a macadam 
com duas boas pontes de pedra, até á esta- 
ção de Sanla Eulália— preparou-se o terre- 
no, encheram-se todos os cavoucos e as al- 
venarias vão a 1 metro e mais de altura 
fora do chão para as cazernas dos colonos, 
edifícios escolares, armazéns, lavanderia, ct- 
zinhas, refeitórios, enfermaria, etc.,— e vae 
dar-se começo ás edificações para casa do 
director, secretaria, instrucção militar, egre- 
ja, rezidencia do capellão, mais casernas 
para os colonos, estação telegrapho-postal e 
observatório, pois estas duas ultimas repar- 
tições tstão provisoriamente montadas em 
casas de madeira. 

Também já se acham montados dois ob- 
servatórios agrícolas, um no ponto mais alto 
da Colónia, outro no viveiro das plantas, na 
baixa, junto do monte, onde estão actual- 
mente a secretaria das obras e casas dal- 
guns empregados. 

Também já se fez o desmonte para as edi- 
ficações da Granja, ao norte da estrada de 
Barbacena, fronteira á Colónia— e tem-se re- 
gularisado a directriz dos ribeiros que ba- 
nhara a grande herdade de Villa Fernando, 
aberto valias e feito outros melhoramentos 
n'aquella vasta propriedade. 

As grandes plantações d'arvoredo, princi- 
piadas em 1882, em volta das edificações e 
do monte da Colónia, estão esplendidas e, 
alem de aformosearem o local, teem benefi- 
ciado muito a athmosphéra e favorecido a 
salubridade publica. 

Finalmente a próxima aldeia da Concei- 
ção tem prosperado bastante com a vida que 
recebe da Colónia, já pela convivência com 
■os muitos empregados e operários que se 
ocupam n'ella, já pelo commercio de co- 

) ■ w^mm$m 



mestiveis e d'oulros géneros, já pelo traba- 
lho que os jornaleiros n'ella encontram e en- 
contrarão por muito tempo. 

VILLA FERNANDO— freguezia do conce- 
lho, comarca, districto e diocese da Guarda, 
na província da Beira Baixa. 

Vigairaria,— fogos 237— almas 1:020,— 
orago Nossa Senhora da Conceição. 

Em 1708 era da apresentação do thezou- 
reiro mór da sé da Guarda e tinha SOO fo- 
gos—segundo se lé na Chorographia Portu- 
gueza. 

O Portugal S. e Profano, em 1768, ou 60 
annos depois, deu-lhe 406 fogos e 150,8000 
réis de rendimento— o Flaviense, em 1852, 
deu-lhe apenas 71 fogos— A Estatística Pa- 
rochial, em 1862, ou passados apenas 10 an- 
nos, deu-lhe 234 fogos e 978 habitantes,— 
Almeida, em 1866, deu-lhe 228 fogos— e o 
ultimo censo deu-lhe 237 fogos, em 1878. 

É espantosa e parece incrível tão grande 
oscillação na população d'esta parochia e nós 
não podemos dar a razão d'ella, porque, in- 
felizmente, havendo estado por vezes na 
Guarda, nunca estivemos em Villa Fernando 
nem até hoje recebemos d'ali apontamentos 
alguns. Dá nos porém alguma luz a Ckoro- 
graphia Moderna do sr. José Maria Baptista, 
pois no vol. 3.° pag. 741, citando o Diccio- 
nario Geographico Manuscripto (collecção 
dos relatórios dos parochos existente no Ar- 
chivo Nacional, referida ao anno de 1758) 
diz que esta parochia n'aquelle tempo com- 
prehendia cinco (aliás seis) pequenos conce- 
lhos: — Villa Fernando (o principal) com as 
quintas do Monte Carreto, do Meio e de Ci- 
ma, — Albardo (hoje freguezia independente) 
com a quinta de João Dias, — Villa Mendo, 
hoje uma simples aldeia d'esta parochia de 
Villa Fernando,— Adão, hoje freguezia inde- 
pendente também, — Pousa Folies, hoje tal- 
vez a freguezia de Pousa- Folies do Bispo, no 
concelho do Sabugal, — e Roto, hoje outra 
simples aldeia d'esta parochia de Villa Fer- 
nando. 

É possível e até prova vel que a Ckorogra- 
phia Portugueza e o Portugal Sacro e Pro- 
fano conglobassem no titulo de Villa Fer- 
nando a população á'aquelles seis concelhos, 



VIL 



VJL 725 



dous dos quaes são hoje simples aldeias e os 
quatro restantes paroehias independentes, ; 
com a população total de 674 fogos e 2:764 ; 
habitantes, segundo o ultimo recenseamento. 

Sendo porem esta parochia séde de seis 
concelhos, parece que devia também ser villa, 
ter foral e senhorio próprio, mas nem Fran- 
klim nem chorographia alguma dizem tal!..- 

O padre Carvalho em 1708, indicando to- 
das as villas, paroehias e concelhos da co- 
marca da Guarda, apenas a menciona como 
simples parochia entre as do termo d'aquella 
cidade (vol. 2.° pag. 348)— e D. Luiz Caeta- 
no de Lima em 1736 (Geographia Histórica, 
tomo IF, pag. 128) fallando da comarca e 
correição da Guarda, diz que se compunha 
de uma cidade, um couto e trinta villas que. 
menciona, mas não encontramos entre ellas 
Villa Fernando nem algum dos outros cinco 
concelhos indicados em 1758 no Diccionario 
Geographico Manuscriplo. 

Valha-nos Deus ! 

A povoação de Villa Fernando está em 
planície, na estrada da Guarda para Villar 
Maior, 1 kilometro ao sul da margem direi- 
ta da ribeira de Noeime, confluente do rio 
Côa;— dista da Guarda 12 kilometros para 
E. S. E.— e 18 da margem esquerda do rio 
Côa, para oeste. 

Comprehende mais esta freguezia as al- 
deias de Villa Mendo, Roto, Vai de Carros, 
Pombaes e Cravella;— os easaes do Carreto 
e do Cimeiro— e as quintas do Meio, de Ci- 
ma, de João Dias, Corte e Moinho. 

As suas freguezias limitrophes são— Ca- 
sal da Cinza a N.— Adão a S.— Panoias a N. 
O.— e Albardo a N. E. 

ProducçÕes dominantes — cereaes e lã, 
pois cria bastante gado lanígero. 

D'esta freguezia tomou o nome de Villa 
Fernando uma das estações do caminho de 
ferro da Beira Alta. 

É a 24. a (apeadouro) partindo da Figuei- 
ra para Villar Formoso e Salamanca. Dista 
218 kilometros da cidade da Figueira e 35 
de Villar Formoso, ainda hoje, (15 de ja- 
neiro de 1885) a estação terminus da men- 
cionada linha, na fronteira de Portugal; bre- 



vemente porem se inaugurará a exploração 
até Salamanca, talvez antes de chegarmos ao 
artigo Villar Formoso. 

VILLA FLOR— palácio e quiuta extra- 
muros da cidade de Guimarães, na circum- 
scripção da freguezia de Urgeses, sub-urba- 
na e em contacto com a cidade. V. Urgeses 
vol. 10.° pag. 17, col. 2." 

Este palácio e quinta formam uma das 
roais pitforescas e interessantes vivendas de 
Guimarães e da formosa província do Mi- 
nho. 

Pertenceram a Thadeu Luiz Antonio Lo- 
pes de Carvalho Fonseca e Camões, fun- 
dador do palácio e da maior parte da quin- 
ta, 7.° senhor dos coutos d'Abbadim e Ne- 
grellos e dos morgados da Camoeira, em 
Aviz, Carvalhos, em Alemquer, Landim, 
Torneiros e Monte Longo, padroeiro das res- 
pectivas egrejas, cavalleiro professo da or- 
dem de Christo, familiar do Santo Officio, 
académico supra numerário da Academia 
real de Historia portugueza, da dos Infecun- 
dos e da Arcádia, em Roma, patrono da 
Academia Vimaranense e um dos homens 
mais illustrados do seu tempo. 

Na Academia Real tinha o 
nome de Tagomello Coriteo; 
—imprimiu e compoz em par- 
te o Guimarães Agradecido (2 
vol.) e deixou manuscriptas as 
Memorias e eclesiásticas, secu- 
lares e genealógicas da Villa de 
Guimarães. 

Nasceu em 21 de fevereiro 
de 1692. 

O palácio e quinta de Villa Flor, por 
morte de Thadeu Luiz, passaram a uma sua 
filha e depois a uma neta, a qual casou com 
Antonio José d'Almeida e Mello, 2.° viscon- 
i de de Villa Nova de Souto d'El-reÍ, cujos fi- 
lhos veaderam as dietas propriedades a sua 
, prima, D. Maria Leonor de Sousa Peixoto de 
[ Carvalho, senhora do morgado de Puusada 
I em S. Pedro d'Azurem;— esta as vendeu em 
. 1829 a Lourenço cVArcoehela, que por sua 
. morte as doou ao seu sobrinho Nicolau, con- 
. de d Arrochela. D'este passaram a sua filha 



726 VIL 

D. Leonor cTArrochela e d'esta a seu irmão 
Heitor d'Arroehe!a que em 1881 as vendeu 
por 39:800000 réis a Antonio de Moura Soa- 
res Velloso, capitalista, sócio, director e ge- 
rente da Companhia do caminho de ferro de 
Bougado a Guimarães, casado com uma filha 
do visconde de Godim. 

Tem a mencionada linha férrea a sua es- 
tação terminus derrtro da quinta de Villa 
Flor, a poucos metros de distancia do palá- 
cio, em terreno que o sr. Antonio de Moura 
Soares Velloso vendeu á companhia por 
19:000*000 de réis. 

O palácio, posto que ainda se acha incom- 
pleto, é um dos melhores de Guimarães. Oc- 
cupa um planalto vistoso, muito pittoresco e 
(segundo resa a tradição local) foi fundado 
por um vioe-rei da índia, deportado para 
aqui; mas o meu íllustrado collega, João Go- 
mes d'01iveira Guimarães, reitor de S. Vi- 
cente de Mascotellos, diz que vira um in-Jo- 
lio manuscripto, que foi da casa de Thadeu 
Luiz A. L. C. F. C— casa e manuscripto ho- 
je pertencentes ao dr. Motta Prego,— e que 
no dicto in-folio se lê que o fundador do pa- 
lácio em questão fôra, como já dissemos, o 
mencionado Thadeu Luiz. 

Tem este palácio hoje as armas dos Arro- 
chelas (Vieiras) seus últimos possuidores, 
em substituição das de Thadeu Luiz (Car- 
valhos) que ainda hoje lá se veem quebra- 
das e dispersas em fragmentos pelo3 recan- 
tos dos jardins! . . . 

Neste palácio se hospedou a familia real 
na sua vizita ás províncias do norte— em 
1852. 

SS. MM. a rainha, a sr." D. Maria II e el- 
rei o sr. D. Fernando, o príncipe D. Pedro 
(o santo e chorado rei sr. D. Pedro V)— e o 
infante D. Luiz (hoje S. M. el-rei o sr. D. 
Luiz I) entraram em Villa Flor no dia 15 de 
maio d'aquelle anno e ali se conservaram 
até ao dia 17, ás 4 6 meia horas da' manhã, 
dando SS. MM. e A A. beijamão no d:'a 16, 
para o que se improvisou um throno na sala 
nobre do palácio,— e foram convidados por 
SS. MM. para o jantar d'esse mesmo dia os 
titulares e as auctoridades de Guimarães. 

Neste palácio se realisaram também no I 



VIL 

ultimo anno (1884) duas festas memoráveis 
e esplendidas,— a abertura da exploração da 
linha férrea, no dia 14 d'abril,— e & Exposi- 
ção Industrial de Guimarães, pomposamente 
inaugurada no dia 15 de junho e encerrada 
no dia 26 de julho do mesmo anno. 

Com relação a esta linha férrea veja-se 
n'este volume 10.° o artigo Vias Férreas, 
pag. 473, col. 2.*— e com relação ás dietas 
festas vejam-se os jornaes do tempo, nomea- 
damente o Commercio Portuguez e o Com- 
mercio do Porto— e o Relatório da dieta Ex- 
posição, publicado no mesmo anno. 

Projectam-se no momento duas amplas 
avenidas,— com 24 a 30 metros de largura— 
da estação de Villa Flor ao centro da cida- 
de de Guimarães, — uma em direcção ao 
Campo da Feira, outra em direcção ao Tou- 
ral. 

No supplemenlo a este diccionario darei 
mais desenvolvimento aos differentes tópi- 
cos d'este artigo, aproveitando os interes- 
santes apontamentos que se dignou enviar- 
me o meu íllustrado collega, João Gomes de 
Oliveira Guimarães, pelo que mais uma vez 
lhe beijo as mãos agradecido. 

VILLA FLOR— villa e freguezia extincta, 
hoje simples povoação de 2o fogos e 84 ha- 
bitantes, pertencente á freguezia de S. Thia- 
go da Amieira, concelho de Gavião, comarca 
de Nisa, districto e bispado de Portalegre na 
província do Alemtejo *. 

Em 1708 era villa e freguezia da comarca 
de Portalegre,— contava 80 fogos— tinha por 
seu orago S. Bartholomeu Apostolo (como 
Villa Flor de Traz-os-Montes) egreja paro- 
chial e duas capellas publicas— e era com- 
menda da ordem de Christo e titulo de con- 
dado. 

Em 1768 era villa e freguezia do bispado 
de Portalegre e da apresentação d'el-rei pelo 
tribunal da Mesa da Consciência,— contava 



V. n'este diccionario Amieira, a penúl- 
tima, vol. 1.° pag. 200. 

Amieira foi villa fortificada e teve foral 
dado por D. MaDuel em 15 de novembro de 
1512, posto que Franklim o não menciona. 

No supplemenlo a este diccionario dare- 
mos mais desenvolvimento ao art. Amieira 
bem como a este de Villa Flor. 



VIL 

apenas 38 fogos-e rendia para o parocho 
96 alqueires de trigo, 6 almudes de vinho e 
20^000 réis em dinheiro, afora o pé d'altar. 

Dista i kilometro da villa da Amieira para 
E.— 2 da ribeira de Figueiró para S.— 3 da 
margem esquerda do Tejo,— 19 de Gavião, 
séde do concelho, para E. N. E.— 10 de Ni- 
sa para O— 25 da estação do Peso, na linha 
férrea de Caceres —229 de Lisboa— e 352 
do Porto. 

Tern diligencia diária entre Nisa e a esta- 
ção do Peso. 

Esta freguezia de Villa Flor acha-se an- 
nexa á de S. Thiago d' Amieira desde 1836 
para os effeitos civis— e desde 1856 para to- 
dos os effeitos. 

Em 1834 ainda era villa e séde de conce- 
lho. 

As suas producções dominantes são— tri- 
go, centeio, milho, vinho, gado e caça. 

Esta Villa Flor foi sempre uma povoação 
insignificante, mas muito notável por ser ti- 
tulo do condado instituído por D. Affonso VI 
em 23 de junho de 1661 na pessoa de D. 
Sancho Manuel, general das províncias da 
Beira e do Alemtejo e um dos maiores vul- 
tos na guerra da independência ou dos 27 
annos, em seguida á memorável revolução 
de 1 de dezembro de 1640. 

Foi D. Sancho Manuel o 1.° conde e 1.° 
donatário de Villa Flor, graça que D. Af- 
fonso Vf lhe conferiu como galardão da he- 
roicidade com que se portou na batalha e 
Victoria das Linhas VElvas (14 de janeiro 
de 1659) sendo governador d'aquella praça, 
quando D. Luiz d'Haro a sitiou com um po- 
deroso exercito castelhano, para ficar com- 
pletamente derrotado, sendo tido como pri- 
meiro general da Hespanha n'aquelle tem- 
po I . . • 

Para evitarmos repetições, veja-se no vol. 
3.° o art. Elvas, pag. 18, col. 2. 8 

Na batalha das Linhas d'Elvas o exercito 
portuguez foi commandado pelo conde de 
Cantanhede, D. Antonio Luiz de Menezes, 
feito marquez de Marialva em 11 de junho 
de 1661. 

D. Sancho Manuel, já conde e donatário de 
Villa Flor e general em chefe do nosso exer- 



VIL 727 

cito, derrotou os hespanhoes commandados 
por D. João d'Austria, na celebre batalha do 
Ameixial, no dia 8 de junho de 1663 l . 

Era D. Sancho Manuel de sangue nobilís- 
simo, descendente do iufante D. Manuel, de 
quem tomou o appellido, filho do rei de Cas- 
tella D. Fernando, o santo, e de sua mulher 
a rainha D. Brites; mas á nobreza do sangue 
soube juntar, como poucos, a nobresa do ca- 
racter e dos grandes feitos. 

Foi conde e donatário de Villa Flor, do 
concelho d'estado e da guerra, commenda- 
dor das commendas de S. Nicolau de Celo- 
rico de Basto, de Santo Adrião de Penafiel 
e de Santa Maria do Marmeleiro, governa- 
dor da cidade do Porto, da Torre de Belém 
e da praça d'Elvas e por ultimo nomeado 
vice-rei do Brazil. 

Falleceu coberto d'honras e de gloria no 
dia 3 de fevereiro de 1677. 

Foi 2. e conde de Villa Flor D. Chrystovam 
Manuel— 3.° conde D. Martim de Sousa e 
Menezes Manuel— 4.° D. Luiz Manuel de 
Sousa e Menezes— 5.° (me parece) D. Joa- 
quim Manuel de Sousa e Menezes —6.° D. 
Antonio do Populo Manuel de Sousa e Me- 
nezes Severim de Noronha— e 7.° e ultimo 
conde de Villa Flor, por successão na nobi- 
líssima casa dos Manoeis, como todos os ou- 
tros 6 condes d'este titulo,— D. Antonio José 
de Sousa Manuel e Menezes Severim de No- 
ronha—um dos vultos mais proeminentes 
da accidentada historia de Portugal, n'este 
século. 

Não nos sentimos com força para escre- 
ver a sua biographia, nem ella cabe nas es- 
treitas columnas d'este diccionario. Indica- 
remos apenas muito ligeiramente alguns tó- 
picos : 

Foi s. ex.» l.° marquez e 7.° conde de 
Villa Flor, 1.° duque da Terceira, 9.° copei- 
ro-mór e gentil-homem da camará de S. M., 
condestavel temporário, par do reino, con- 
selheiro, ministro e secretario d'estado ho- 
norário, grã cruz das ordens da Torre e És- 
pada, S. Bento d'Aviz e de Nossa Senhora 

i V. Ameixial, vol 1.° pag. 195, eol. 1." 



728 VIL 

da Coneeição de Villa Viçosa, das de S. Fer- 
nando era Hespanha, de Ernesto Pio, da Sa- 
xonia, e de Leopoldo, da Bélgica, commen- 
dador da de Christo, condecorado cora a 
cruz douro da guerra peninsular por 6 cam- 
panhas e com a medalha de cominando em 
batalha por S. M. Catholica,— com a da de 
Victoria— governador da Torre de S. Vi- 
cente de Belém, presidente do supremo con- 
celho de justiça militar, marechal do exer- 
cito, ete. 

Entrou no serviço militar em 1803, no re- 
gimento de cavallaria n.° 4 e, sendo alferes 
no mesmo corpo, passou a ajudante d'or- 
dens do general visconde de Souzel, em 
1808; foi em 1813 ajudante do marechal Be- 
resford com o posto de capitão; fez todas as 
campanhas da guerra peninsular e passou 
ao Brazil em 1816. Em 1817 voltou com uma 
expedição ao Brazil, commandando um regi- 
mento da divisão dos Voluntaiios Leaes e 
n'esse mesmo anno foi nomeado governador 
e capitão general do Pará. Estando nomeado 
em dezembro de 1820 governador e capitão 
general da Bahia, voltou com el-rei D. João 
VI para a Europa em 1821. 

Foi ajudante da pessoa do infante, com- 
mandante em chefe do exercito em 1823 e 
então enviado a Hespanha a comprimentar 
S. A. R. o duque d'ADgouleme;— foi gover- 
nador das armas do Alemtejo em 1826 e, 
pouco depois, commandaute de uma divisão' 
á frente da qual combateu os absolutistas 
n'aquella província e nas do norte, ganhan- 
do as victorias de Coruche da Beira, Ponte 
do Prado e Ponte da Barca, obrigando-os a 
refugiar-se em Hespanha, onde foram des- 
armados. 

Foi' governador das armas do Porto, des- 
de 25 de agosto de 1827 até fevereiro de 
1828. 

Tendo-se mostrado affecto ás idéas libe- 
raes, emigrou para o extrangeiro em março 
d'esse mesmo anno e voltou ao Porto em ju- 
nho do anno seguinte para auxiliar os mo- 
vimentos constitucionaes. 

A celebre alçada que levou ao patíbulo os 
10 marttjres da liberdade, o exautorou e pri- i 
vou de todas as honras, privilégios e digni- j 



VIL 

dades, por sentença de 21 d'agosto de 1829, 
e o condemnou a ser com baraço e pregão 
conduzido~pelas ruas publicas do Porto até 
á Praça Nova e a morrer abj, de morte na- 
tural de garrote, e depois de lhe ser dece- 
pada a cabeça, seria pregada em um poste 
na estrada de Mathosinhos (onde tinha des- 
embarcado) ficando exposta até que o tem- 
po a consumisse;— o corpo e o cadafalso se- 
riam reduzidos a cinzas e lançadas ao mar 
para que d'elle e da sua memoria não hou- 
vesse mais noticia. 

Accrescenta ainda a famosa sentença — 
confiscação e perdimento de todos os seus 
bens 1 . . . 

Valeu-lhe o ter emigrado e achar-se au- 
zente. 

Na mesma sentença e nas mesmas penas 
eram comprehendidos o marquez de Pal- 
mella, os condes de Sampaio e das Taipas, 
—João Carlos de Saldanha de Oliveira e Da- 
un, depois duque de Saldanha,— o barão de 
Rendufe,— o marechal de Campo Francisco 
de Paula d'Azeredo, depois 1.° conde de Sa- 
modães,— Thomaz Pinto Saavedra, tenente 
de cavallaria, tio paterno do meu bom am 
go José Augusto Pinto da Cunha Saavedra 
de Provezende, no alto -Douro, e outros mui- 
tos, que não foram justiçados, por haverem 
emigrado a tempo. 

Veja-se o art. Porto, vol. 7.» pag. 328, col. 
2.» até pag. 336. 

Sendo capitão general da Ilha Terceira, era 
1829, repeliu na Villa da Praia a expedição 
mandada de Lisboa pelo sr. D. Miguel con- 
tra ella. Em 1830 foi membro da regência e 
commandanie das tropas liberaes na mesma 
ilha; em 1831 reslaurou do poder absoluto 
as outras ilhas dos Açores;— em 8 de julho 
de 1832, sendo commandante em chefe do 
exercito libertador, desembarcou nas praias 
do Mindello com o sr. D. Pedro IV e ga- 
nhou nome e gloria no cerco do Porto. No 
fim d'aquelle anno foi dispensado do com- 
inando que o sr. D. Pedro tomou a si e, no- 
meado 1.° ajudante d'ordens do mesmo se- 
nhor, continuou na defesa do Porto até 21 
de junho de 1883, data em que partiu como 
general da expedição ao Algarve. Desem- 
barcou era Cacella e, atravessando o Algar- 



VIL 

ve e o Alemtejo cora uma marcha rápida e 
atrevida, chegou a Cacilhas, onde bateu e 
derrotou a 23 de julho de 188'i a divisão do 
feroz general Telles Jordão, quatro vezes 
maior do que a sua, deixando morto no cam- 
po o dicto Telles Jordão e entrando trium- 
phante em Lisboa no dia seguinte. 

Foi depois encarregado de diversos com- 
mandos na defesa das linhas de Lisboa; ca- 
pitaneou por vezes as tropas d'observação a 
Santarém — e, sendo finalmente escolhido por 
S. M. Imperial para commandante de uma 
divisão expedicionária ao norte, sahiu ão 
Porto a 5 d'abril de 1834. Depois de haver 
percorrido e libertado todo o Minho, Traz- 
os-Montes e B j ira, ganhou na Exlremadura, 
a 16 de maio do mesmo anno, a decisiva ba- 
talha da Asseiceira,— passou ao Alemtejo e 
concluiu a campanha no dia 27 do mesmo 
mez e anno com a completa submissão do 
inimigo, estipulada na convenção d'Evora 
Monte. 

Foi nomeado conselheiro de estado em 
1833,— ministro da guerra em 1835,— e pre- 
sidente do conselho de ministros em 1836. 

Nasceu a 18 de março de 1792 — succe- 
deu no titulo de conde de Villa Flor e na 
casa de seu pae no dia 6 de março de 1795 
— e falleceu no dia 26 cVabril de 1860, con- 
tando 68 annos de edade. 

Casou duas vezes, mas não deixou suc- 
ces-são. 

Para a sua genealogia e outras minuden- 
cias biographieas veja-se a Chorogruphia 
Porlugueza, tomo 2.° cap. 6.° pag. 566 e seg. 
— as Memorias Históricas e Genealógicas dos 
Grandes de Portugal, pag. 623 a 631,— a Re- 
zenha das Famílias Ululares do Reino de 
Portugal, (Lisboa, 1838), pag. 235 a 238,— 
o Diário Mercantil de 26 de abril de 1860— 
e o Universo Piltoresco. 

As armas dos condes de Villa Flor eram 
as seguinles : escudo esquartelado, no pri- 
meiro as dos Sousas, esquartelado das qui- 
nas de Portugal e armas de Leão,— no se- 
gundo as dos Manoeis, também esquartelado; 
no primeiro de vermelho um coto d'aguia 
com uma mão, segurando uma espada guar- 



VIL 729 

necida d'ouro,— no segundo um leão de pur- 
pura armado em campo de prata. No meia 
do brasão o escudo dos Menezes, tendo em 
campo d'ouro o annel. Tinha a principio a 
coroa de conde,— depois a de marquez— e 
por ultimo a de duque. 

A pobre villa de Villa Flor, titulo d'estes 
nobres condes-, nunca teve armas próprias 
nem foral. 

Esta pequena povoação é muito antiga, 
pois nas Memorias de Nisa se encontra o se- 
guinte: «Como os templários foram os que 
libertaram as margens do Tejo e n'ellas ar- 
voraram o pendão de D. AfTonso, também fo- 
ram d'estes as primícias que lhes deu. Se- 
gundo Manuel Severim de Faria, na3 suas 
Noticias de Portugal, as primeiras que elles 
houveram foram Thomar, Alpalhão, Nisa, 
Villa Flor e Montalvão. 

Passa no antigo termo d'esta parochia ex-~ 
tincta a . ribeira de Figueiró, que nasce entre 
Alpalhão e Castello d< j Vide,— atravessa os 
termos de Nisa e de Arez e desagua no Te-- 
jo, nas proximidades de Villa Flor, no sitio 
denominado as Oleiras. Tem diversas pon- 
tes de pedra, sendo uma das mais antigas a 
que se acha próxima de Villa Flor. Na 
margem esquerda da dieta ribeira, junto da 
mencionada ponte se vé gravada em uma 
pedra a inscripção que temos por copia, de- 
senhada pelo rev. parodio da Amieira. É 
muito curiosa, mas só em gravura pôde re- 
produzir-se, porque não tem semelhança al- 
guma com os caracteres conhecidos, usados 
na imprensa. 

Parece um anagramma árabe, espécie de 
jerogliphico. 

VILLA FLOR de Traz-os-Montes- villa, 
freguezia c sede de concelho, comarca de 
Mirandella, districto e diocese de Bragança. 

Reitoria, — orago S. Bartholomeu Apos- 
tolo,— fogos 432,-- almas 1850, — segundo os 
apontamentos que d'ali me enviaram e que- 
muito agradeço. 

O recenseamento de 1878 deu-lhe 427 fo- 
gos e 2:067 almas, no que acho grande des- 
proporção. 

Em 1706 (diz Carvalho) era abbaãia do 
padroado real,— contava 300 fogos, 12 ca- 



730 VIL 



VIL 



pellas e 10 fontes— e rendia para o parocho 
mais de 800$000 réis, somma importante 
n'aquelle tempo. 

Em 1768 (diz o Portugal Sacro e Profa- 
no) era reitoria do padroado real,— contava 
274 fogos — e rendia apenas cem mil réis ! 

Aqui houve grande lapso^ 
pois só para a capella real da- 
vam annualmenle os abbades 
ou reitores e deram até á *x- 
tincção dos dízimos duzentos 
mil réis I . . . 

Note-se lambem que os ab- 
bades ou reitores d'esta villa 
apresentavam os parochos de 
Roios e Nabo, freguezias limi- 
trophes *. 

Até 1834 pertenceu esta villa á grande 
comarca do Moncorvo, a maior das quatro 
em que se dividia toda a província de Traz- 
os-Montes. 

As outras 3 eram Bragança, 
Miranda e Villa Real. 

Foram donatários de Villa Flor ôs Sam- 
paios de Mello e Castro, depois condes e 
marquezes de Sampaio, 2 também senhores 
da villa e honra de S. Paio, onde tinham o 
seu solar, na freguezia do mesmo nome, ho- 
je d'este. concelho de Villa Flor. 

Os seus primeiros donatários foram os 



1 Em 1675 contava 400 fogos e rendia 
1:500 ducados, segundo se lé na Poblacion 
General de Espana de Rodrigo Mendes da 
Silva, pag. 144, v. 

Nenhum dos nossos chorographos foi mais 
lisongeiro para com Villa Flor do que Ro- 
drigo Mendes da Silva, no logar citado. 

As poucas linhas que lhe dedicou são um 
primor de estylo, um bouquet de mimozas 
flores. 

2 D'esta nobre família ha dous ramos em 
frente de Villa Flor, na margem esquerda 
do Douro, província da Beira Baixa,— um na 
freguezia do Rabaçal, concelho e comarca da 
Meda, hoje representado pela viuva e filhos 
de Antonio Homem da Silveira Sampaio e 
Mello,— outro na villa de Marialva, repre- 
sentado pelo rev. Dionísio Ignacio de Sam- 
paio e Mello e sobrinhos. 



Aguilares, cujo senhorio e outras muita 8 
terras e honras o nosso rei D. João I lhes ti" 
rou por seguirem o partido de D. João I*de 
Castella na guerra da successão, em seguida 
á morte do nosso rei D. Fernando, o formo- 
so e inconstante, filho de D- Pedro, o justi- 
ceiro. 

Para a genealogia e armas 
dos últimos donatários d'esta 
villa, veja-se Paio (S.) vol. 6.° 
pag. 415.°, col. l. a — e Moncor- 
vo, vol. 5.° pag. 386, col. i.» 
também. 

Villa Flor está situada em terreno alto, 
mas relativamente abrigado, mimoso e muito 
fértil entre Mirandella e o Douro, na linha 
N. S.— e entre a ribeira da Villariça e o Tua, 
na linha E. O.— em uma leve depressão de 
terreno, ao sul e nas faldas da serra de Val 
Frichoso, serra quasi toda arável e bem cul- 
tivada. 

Pela contagem antiga distava 3 legoas de 
Moncorvo, 3 de Mirandella, 3 da margem di- 
reita do Douro, foz do Sabor, e 3 da ponte 
d'Abreiro, sobre o Tua. 

Também contavam antiga- 
mente 3 legoas de Mirandella 
a Murça, a Val Passos, a Car- 
rasedo de Montenegro e a Ma- 
cedo de Gavalleiros— e outras 
3 léguas de Carrazedo de Mon- 
tenegro a Val Passos, a Murça 
e a Chaves, o que hoje causa 
riso. 

Parece que em Traz os-Mon- 
tes não havia para distancias 
outra craveira alem da de 3 
léguas 1 

Villa Flor dista hojo de Moncorvo, pela 
nova estrada a macadam, 27 fc 687, m 78 para 
N. O.— de Mirandella os mesmos 27 a 28 ki- 
lometros, para S.— 10 (approximadamente) 
da margem esquerda do Tua, para E.— 20 
da margem direita do Douro (Rego da Bar- 
ca ou foz do Sabor)— 23 da estação do Poci- 
nho, çommum a Villa Nova de Foscoa e 
Moncorvo, na linha férrea do Douro,— 30 da 



VIL 



VIL 731 



estação de Tua, Da mesma linha do Douro, 
—169 do Porto (pela estação de Tua)— e 
506 de Lisboa. 

Logo que se inaugure a linha férrea da 
estação de Tua a Mirandella, hoje (1885) em 
construcção e que deve dar estação a Villa 
Flor, todo o movimento entre esta villa e o 
Porto será feito pela mencionada linha e as 
distancias marcadas variarão um pouco. 

Freguezias limitrophes — Roios, Villas 
Boas, Freixial, Candoso, Nabo, Junqueira, 
S. Paio, Samões, Seixo de Manhoses e Mei- 
relles, freguezia hoje annexa á de Villas 
Boas. 

Villa Flor comprehende alem da Villa a 
povoação do Arco, 1 outr'ora pertencente á 
freguezia do Nabo,— e as quintas do Carras- 
cal, Athayde, Val d'Espinho, Val de Castel- 
lares e S. Domingos, segundo se lê na Cho- 
rographia Moderna. 

Os meus apontamentos fazem também 
menção da quinta de S. Gonçalo. 

As producções dominantes d'esta villa e 
d'este concelho são— vinho, trigo, centeio, 
azeite, castanhas, batatas, hortaliça, muita 
fructa, especialmente melões e melancias na 
ribeira da Villariça, 2 linho cânhamo e Ian, 
pois cria bastante gado ovino, caprino, bo- 
vino e suino. 

Também é abundante de caça miúda— le- 
bres, perdizes e coelhos. 

O vinho foi a sua producção principal. 
Ainda em 1880 produziu (a freguezia de 
Villa Flor)— 2.758:225 litros;-em 1881— 
2.697:894— e em 1882-apenas 1.796:000 li- 
tros de vinho,— 2.400:400 de trigo,— 3:600 
de centeio,— 940 de milho e 360 de cevada; 
,— mas hoje (1885) o oidium lukeri a phylo- 
ixera, a angnillula, a clorose, a antrechnose, 
o mildin, a termes ou formiga branca, a ma- 
- romba, a cicada atra, o vermelhão e outros 
muitos inimigos das videiras que já destruí- 
ram a maior parte dos vinhedos do Alto 
Douro e que ameaçam de morte os vinhe- 
dos de todo o nosso paiz, já reduziram tam- 
bém os d'esta parochia, d'este concelho e 



1 Em 1708 contava 20 fogos; hoje tem 46. 

2 V. Villança. 



d'esta província a um estado que inspira dó 
e faz recear o seu aniquilamento em praso 
breve 1 . . . 

No artigo Villarinho de Coi- 
tas volveremos ao assumpto e 
lhe daremos mais desenvolvi- 
mento. 

Não se sabe quando nem por quem foi 
fundada esta povoação, mas é com certeza 
muito antiga,— anterior mesmo talvez á oc- 
eupação romana, pois dos romanos aqui" se 
teem encontrado moedas e outros vestígios. 

Teve foral velho confirmado por outro de 
D. Diniz em Lisboa, no dia 24 de maio "de 
1286. 

Liv. do sr. Rei D. Diniz, fl. 166, v. e fl. 167. 
col. l. a e Monarchia Luzitana, parte 5. a liv. 
16, cap. 51, pag. 119, v. 

Este foral se conservava no archivo da 
camará, mas desappareceu ha pouco tempo. 

Teve também foral novo, dado por el-rei 
D. Manuel em Lisboa, a 4 de maio de 1512, 

Livro dos Foraes Novos de Traz-os- Montes 
fl. 17 col. l. a 

Este foral se conserva ainda hoje no ar- 
chivo da camará, — completo, bem tractado e 
bem conservado. É muito curioso e muito 
interessante. Já o tivemos em nosso poder e 
d'elle fizemos um longo extracto, que dare- 
mos no supplemento, para não alongarmos 
demasiadamente este artigo. 

Comprehende 14 folhas de pergaminho 
com o indice, escriptas em portuguez, mas 
em caracteres gothicos, tendo a primeira pa- " 
gina uma vistosa tarja com illuminuras a 
côres e grandes lettras a côres, também, no 
principio dos diversos tópicos. Tem mais 3 
folhas de pergaminho e 2 de papel commum 
com os vistos dos corregedores de Moncor- 
vo, desde 1538 até 1831, sendo este ultimo 
firmado pelo corregedor Oliveira Malafaia. 

Este foral julgou-se perdido, mas nós tan- 
to lidámos que o descobrimos em Vinhaese 
conseguimos fazel-o reentrar no archivo da 
camará, d'onde fôra levado por empréstimo. 

Foi D. Diniz o rei mais benemérito para 
esta villa, pois não só lhe confirmou e am- 
pliou o seu velho foral e a cingiu d*e mu ■ 



732 VIL 



VIL 



ros, 1 mas lhe mudou o antigo nome de Po- 
voa d' Alem do Sabor para o actual de Villa 
Flor,— e el-rei D. João 1 lhe deu por brasão 
uma flor de liz e o escudo das armas reaes 
com as quinas e 7 castellos, em substituição 
das armas dos Aguilares, seus primeiros do 
natarios e que eram 5 águias, como ainda 
hoje se vêem nos paços do concelho, que re- 
velam muita antiguidade. 

Até o fim do século xv foi terra impor- 
tante e rica. Era habitada entãu por grande 
numero de judeus que a tornavam flores- 
cente pela industria e tracto commercial de 
todo o género, incluindo a ourivesaria e joa- 
lharia, mas, pela barbara e mal entendida 
expulsão dos judeus, em virtude da condi- 
ção expressa no contracto matrimonial de 
el-rei D. Manuel com a princesa D. Isabel de 
Castelia, sua primeira mulher, começou a 
decadência de Villa Flor, porque não só per- 
deu a actividade e o génio mercantil e in- 
dustrioso que caracterisaram sempre os is- 
raelitas, mas lambem os capitães que ao tem- 
po eram apanágio quasl exclusivamente seu. 

Assim veiu a diminuir consideravelmente 
a população d'esta yilla e muitos dos seus 
edifícios cahiram em ruinas 2 . 

O mesmo succedeu em Bragança, Moncor- 
vo. Villa Nova de Foz Côa, Gouvéa da Beira 
Baixa, Covilhã e n'outras povoações em que 
abundavam os judeus. 

Sobre este assumpto, nomea- 
damente com relação á villa de 
Gouvêa, ó muito digno de ler. 
se o que Alexandre Herculano 
diz na sua interessante obra 
Do Estabelecimento da Inqui- 
sição em Portugal. 

V. Gouvêa— villa da Beira 
Baixa, no supplemento. 



1 Veja-se o artigo Moncorvo, vol. 5.°, pag. 
332, col. 1.» 

2 Só de 1675 até 1768. como já dissemos 
no principio d'este artigo, a sua população 
baixou de 400 fogos a 274. 

Em 93 annos perdeu pois 126 fogos e 500 
a 600 habitautes — e mais devia perder nos 
179 annos que decorreram desde 1496, data 
da expulsão dos judeus, até 1675. 



Os velhos muros d'el-rei D. Diniz tinhaml 
4 portas (alguém diz 5) das quaes hoje ape-j 
nas resta a denominada da Villa que olhai 
para o sul. 

É de arco e tem 3 m ) 50 de largura e 4 m ,0| 
d'altura. 

A camará demoliu em 1868 a do fíoc?o,J 
que dava para o largo d'este nome. Das ou-| 
tras não ha memoria. 

Junto da porta da Villa ainda hoje se vél 
um pequeno lanço dos velhos muros, tendòj 
contigua uma casa de dous andares, reforJ 
mada nos últimos aunos, e que denota gran-l 
de antiguidade. 

Parece ter sido uma torre ou fortim parai 
defesa da dieta porta. 

Também se veem ainda junto da mencioJ 
nada porta, intra muros, bastantes casas vel 
Ihissimas, formando bitesgas que a tradiçãJ 
aponta como resto da judiaria que houve 
n'csta povoação. 

No local que hoje oceupa a egreja matril 
e que é o ponto culminante do bairro mtíj 
rado, pequeno outeiro que se ergue a meil 
da villa, houve em tempos remotos um cas] 
tello ou torre de menagem. Tendo cahido eri 
ruinas e tornando-se inútil depois dainvenl 
ção da artilheria, não mais restaurara™ 
aquellas obras de defesa e com a sua pedrl 
construiram a egreja anterior á egrejl 
actual, no mesmo sitio do castello ou dl 
torre, como fizeram em Ceia e Mirandella i 
deviam fazer em Moncorvo *. 

A egreja matriz de Villa Flor, alem de ei 
tar muito vantajosamente situada, étambej 
vasta e sumptuosa, — talvez a 3.* da provim 
eia, depois da sé de Miranda e da egreja dl 



i A egreja matriz de Moncorvo éum temi 
pio monumental, o primeiro da província de 
Traz-os-Montes, depois da Sé de Miranda I 
sem contestação um dos primeiros do nossl 
paiz I Custou* 6 vezes mais do que a só actual 
de Bragança, vergonha de todas as Sés; mal 
brilharia em dobro se estivesse onde hoje es| 
tão os novos paços do concelho, no local do 
antigo castello. Infelizmente ficou abafada e 
sem horisonte em um dos pontos mais bai- 
xos cfaquella grande villa. 

V. Moncorvo, vol. 5.° pag. 383, col. 2.» 



VIL 



VIL 733 



Moncorvo, da qual parece imitação, pois tem 
como ella gigantes em toda a eircumferen- 
cia para ampararem as 3uas altíssimas pa- 
redes—mas tem interiormente uma só nave 
em quanto que a de Moncorvo tem duas,— 
e na frontaria duas torres, em quanto que a 
de Moncorvo tem só uma;— é porém muito 
mais elegante e mais ornamentada a fronta- 
ria da de Villa Flor. 

Tem de altura exteriormente 15 m ,20,— de 
largura 14 m ,0,— de comprimento 42 m ,20— 
2 torres com 24 m ,60 d'altura, cada uma, e 
do lado sul um bom relógio. 

Interiormente : — largura 9» 20,— altura 
14 m A— comprimento 39, re 20— e 6 altares, 
tendo os 4 lateraes retábulos de boa talha 
antiga dourada e o altar mór um espaçoso e 
elegante retábulo de talha dourada mais mo- 
derna, dos fins do século xvn (1787). 

Também tem interiormente uma capella 
que foi dos condes de Sampaio, donatário d'es- 
ta villa, conservando ainda os brasões d'elles. 

Este magestoso templo foi feito no ultimo 
século em substituição da egreja matriz, que 
esteve no mesmo local e desabou no dia 31 
de- janeiro de 1700. Tractaram logo da nova 
construcção, mas, como a obra fosse muito 
dispendiosa, durou annos e por vezes se in- 
terrompeu. 

A tradição ainda hoje repete uma cantiga 
popular feita a propósito;— é a seguinte : 

Villa Flor já não és villa, 
Nem villa te chamarão, 
Porque te cahiu a egreja 
E tarde a levantarão. 

Achando-se paradas as obras, um benemé- 
rito filho de Villa f lor apresentou-se á com- 
missão promotora com um chapéu cheio de 
luzentes peças d'oiro e lhes disse: continuem 
as obras emquanto durar este dinheiro 11. . 

E as obras proseguiram— e a egreja se 
ultimou. 

Sentimos que a tradição local, repetindo 
ainda hoje unanime o facto, não conservasse 
o nome de tãp benemérito cidadão. 

Também consta que a camará da villa 
vendêra alguns bens do concelho para au- 
xiliar a construcção da egreja— e que os ju- 
volume x 



deus ou christãos novos ao tempo domicilia- 
dos na villa, mediante certa somma que de- 
ram para as obras, se libertaram de irem á 
missa sob prisão, acorrentados por uma fi- 
ta, e de outros vexames, ta es como serem 
obrigados a commungar por um buraco aber- 
to na parede da egreja K 

Alem da sua magestosa egreja matriz tem 
Villa Flor a egreja da Misericórdia, hoje em 
reconstrucção, e as 5 capellas publicas se- 
guintes : 

1. a — De Santa Luzia, no cimo da Praça 
descendo, á esquerda. 

É pequena e muito singela, mas veneran- 
da pela sua antiguidade. 

Foi a primeira matriz de Villa Flor e 
mesquita dos mouros. Tem ainda bem vizi- 
vel a porta d'arco de volta inteira, apertan- 
do na parte inferior em forma de ferradura, 
no estylo árabe, posto que modernamente 
metteram dentro do arco em forma de fer- 
radura um pórtico rectangular. 

É também muito interessante interior- 
mente, mas como este artigo vai ja muito 
longo, no supplemento completaremos a des- 
cripção d'ella com as notas que tomamos 
quando ali estivemos em outubro de 1883. 

2. a — De S. Sebastião, a leste e já fora dá 
villa, junto da Fonte das Bestas. 

Foi reconstruida, ha poucos annos, em 
substituição d'outra muita antiga, também 
attribuida aos mouros. Teve também um 
pórtico em fórma de ferradura 2 e interior- 

1 Nas venerandas ruinas do antigo con- 
vento de S. Pedro das Águias, da ordem de 
Cister, denominado S. Pedro Velho, na fre- 
guezia de Távora, concelho de Taboaço, dio- 
cese de Lamego, ainda hoje (1885) lá se vô 
na parede da capella mór, do lado da epis- 
tola, o buraco por onde coromungavam os 
judeus ou christãos novos d'aquelles sítios. 

V. Távora da Beira Alta. n'este dicciona- 
rio, vol. 9.° pag. 516, col. l. a e no supple- 
mento. 

2 Conserva ainda hoje também a mesma 
fórma de ferradura a porta principal da so- 
berba egreja matriz da freguezia da Trinda- 
de, n'este concelho de Villa Flor — e cons- 
ta-me que no concelho de Lousada existe 
outra egreja matriz com um pórtico muito 
ornamentado e a mesma forma de ferradu- 
ra, na freguezia de Santa Maria de Meinedo. 

47 



734 



VIL 



VIL 



mente 3 altares, como a de Santa Luzia, e 
as mesmas dimensões. 

3. * — De Nossa Senhora da Lapa, também 
fóra da villa e a eavalleiro d'ella, dominan- 
do-a perfeitamente toda, com vastíssimo ho- 
risonte sobre esta província e sobre as da 
Beira Alta e Beira Baixa. 

O altar foi aberto a pico em uma rocha ou 
lapa de que tomou o nome. 

Está na pendente sul da serra de Val Fri- 
choso. 

4. a — De Nossa Senhora da Encarnação ou 
da Veiga, hoje dentro do cemitério paro- 
chial. 

5. a — Do Santo Christo, na Praça e a pe- 
quena distancia da de Santa Luzia. 

Todas estão bem tractadas e abertas ao 
culto, posto sejam muito antigas. Acham-se 
porem já em ruinas e prestes a desapparece- 
rem as seguintes: de S. Martinho, na rua do 
mesmo nome,— de Santo Antonio, fóra da 
villa, junto da estrada de Moncorvo,— de 
Santa Marinha, no alto da serra de Val Fri- 
choso, na estrada de Boios (apenas lá se 
veem as paredes)— mais uma do Espirito 
Santo e outra de S. José. 

Todas estas capellas eram publicas e sup- 
pomos serem as 10 indicadas pelo padre 
Carvalho na sua Chorographia Portugueza. 

Ha hoje também n'e»ta villa uma formosa 
capella particular, mas com porta franca ao 
publico, no palácio de Diogo Augusto Pinto 
de Lemos, sobrinho do visconde de Lemos, 
— e houve mais 3 capellas particulares, 
hoje todas tres em ruinas, na quinta de S. 
Gonçalo, uma de S. Gonçalo, outra de S. Je- 
ronymo e outra de Santa Barbara. 

Total dos templos d'esta villa— 2 egrejas 
e 14 capellas. 

Tem a villa cemitério parochial, mas infe- 
lizmente está em sitio fundo e húmido, no 
valle da Veiga, a jusante da povoação e dis- 
tante delia cerca de 500 metros. 

.CTlocal é bonito, mas impróprio para ce- 
mitério. 

Inauguraram-se n'elle os enterramentos 
no dia 18 de junho de 1876. 

Houve outr'ora n'esta villa fabricas de 
çortumes. Ainda existe no sitio dos Pelames 



I um pôço ou tanque, resto d'aquelles esta- 
belecimentos. 

Nem a guerra peninsular, nem as guerras 
civis posteriores causaram aqui grande da- 
mno. 

Dos excessos praticados por occasião das 
mencionadas guerras civis, apenas citarei 
um que é original e muito depõe a favor de 
uma illustre dama d'esta villa: Foi multada 
por excesso de caridade para com uma leva 
de presos ?! .. 

Tem esta villa casa de Misericórdia muito 
antiga. Data dos fins do século xv ou prin- 
cípios do século xvi e d'ella fallaremos mais 
d'espaço no supplemento. 

É seu actual provedor, aliás muito digno 
e zeloso, o sr. José Manuel Teixeira Malheiro, 
pharmaceutico e vogal da mesa gerente do 
santuário de Nossa Senhora da Assumpção, 
n'este concelho, hoje o 1.° santuário d'esta 
província. D'elle fallaremos no artigo Villas 
Boas, em cuja freguezia se acha. 

É também o mesmo sr. dono da quinta de 
Bemsaude * e das aguas alcalino -gnzosas, 
d'este nome, que brotam na mencionada 
quinta, a pequena distancia d'esta villa e 
dentro d'este concelho, na sua pendente so- 
bre a ribeira da Villariça,— aguas bem co- 
nhecidas em Portugal e no extrangeiro pelas 
suas propriedades medicinaes e que são con- 
géneres das de Vidago e das Pedras Salga- 
das, orgulho d'esta província. 

V. Villariça. 

A egreja da Misericórdia tinha ^"O de 
largura e 18 de comprimento; por ser muito 
antiga, desabou em 1882, mas em 11 de uo- 



* Bemsaude ou Bem-Saude é claramente 
o nome hebraico Bensaude. 

N'esta data vive em Lisboa o capitalista 
e banqueiro muito notável entre a colónia 
israelita Abraham Bensaude, um dos funda- 
dores e directores da grande Companhia do 
Zaire, recentemente ali formada com o ca- 
pital de 500:000 libras esterlinas ou réis 
2.250:000^000, para exploração das nossas 
possessões africanas. 

Suppomos, pois, que a mencionada quinta 
tomou o nome d'algum dos muitos israelitas 
que viveram n'esta villa, chamado ou appel- 
lidado Bensaude. 



VIL 



VIL 735 



vembro de 1883 se deu principio á sua re- 
construcção por iniciativa do seu actual pro- 
vedor J. M. T. Malheiro, coadjuvado por al- 
guns irmãos beneméritos, entre os quaes é 
digno de especial menção o rev. Fr. José da 
Santíssima Trindade, venerando egresso 
franciscano do convento ou seminário do 
Monte da Falperra, que deu para ajuda das 
primeiras obras 1001000 réis e para hospi- 
tal a própria casa em que vivia e vive /. . . 

No supplemento daremos a interessante 
biographia d'este venerando ancião que pe- 
las suas acrisoladas virtudes é geralmente 
estimado e respeitado como um santo, qual 
outro Fr. João de Neiva. 

Este concelho de Villa Flor confina ao N. 
com os de Mirandellá, Macedo de Cavallei- 
ros e Alfandega da Fé— a S. com o de Car- 
raseda d'Anciães,— a E. com a ribeira da 
Villariça— e a O. com o rio Tua. 

Comprehende hoje as 19 freguezias se- 
guintes : 

Assares, annexada civilmente á de Santa 
Comba,— Bemlhevae, annexada civilmente á 
de Valle Frichoso, — Candoso, — Carvalho 
tfEgas, annexada civilmente á de Valle de 
Torno, — Freixiel, — Lodões, annexada civil- 
mente á de Villa Flor, — Mourão, — Nabo, an- 
nexada civilmente á de Villa Flor também, 
— Roios, annexada civilmente á de Valle Fri- 
choso,— Samões, Santa Comba, S. Paio, an- 
nexada civilmente também á de Villa Flor, 
— Seixo de Manhoses, annexada civilmente á 
de Valle de Torno, — Trindade, annexada ci- 
vilmente á de Valle Frichoso, — Valle Fri- 
choso, — Villa Flor, — Villarinho das Azenhas, 
annexada civilmente á de Villas Boas— e 
Villas Boas. 

D'estas 19 freguezias as mais importantes 
são Villa Flor, Villas Beas, Santa Comba e 
Freixiel. 

Fogos (total) 2:510 

Almas 10:112 

Superfície em hectares 21:590 

Prédios ínscriptos na matriz 13:600 

Em 1798 este concelho de Villa Flor dif- 
teria bastante do concelho actual e, segundo 



se lé em um manuscripto existente na Bi- 
bliotheca Municipal do Porto, 1 tinha 864 fo- 
gos, 3:083 habitantes (1:495 mulheres, e 
1:588 homens) 6 barbeiros, 38 presbyteros 
seculares e 2 religiosos, 6 pessoas litterarias, 
53 sem occupação, 51 negociantes, 3 cirur- 
giões, 3 boticários, 232 lavradores, 222 jor- 
naleiros, 29 alfaiates, 30 sapateiros, 3 car- 
pinteiros, 5 ferreiros, 5 tosadores, 1 pintor, 
6 moleiros, 2 cerieiros, 50 criados e 35 cria- 
das. Pastores nem um, — em quanto que o 
concelho de Villas Boas, limitrophe, contan- 
do apenas 234 fogos, tinha 134 criados, 87 
criadas e 25 pastores. 

Conta hoje este concelho de Villa Flor 8 
bacharéis formados: — João Antonio Teixeira 
de Castro, pertencente á freguezia de Villas 
Boas,— Manuel Antonio de Azevedo, perten- 
cente á freguezia de S. Paio,— Antonio Ale- 
xandre Pinto Barroso e Pedro Gomes de Ma- 
galhães Pegado, pertencentes á freguesia de 
Roios,— Candido Augusto d'01iveira, perten- 
cente á freguezia de Santa Comba (delegado 
no Porto) — e 3 pertencentes á freguesia de 
Villa Flor, Alexandre Manuel Alvares Perei- 
ra d'Aragão, que já foi deputado ás cortes 
filho de Manuel Antonio Ferreira d'Aragão, 
marechal de Campo,— Bento Manuel da Cos- 
ta Vaz, delegado em Baião,— e Jorge Leite 
Pereira, sobrinho do visconde de Seabra. 
Também já foi deputado e é recebedor em 
Vinhaes. 

Conta hoje também este concelho 18 pres- 
byteros,— 4 na villa e 14 nas 18 freguezias 
restantes. 

Os 4 da villa são o seu digno reitor, Da- 
niel José de Moraes,— o santo fr. José da 
Santíssima Trindade, egresso do convento da 
Falperra,— Fr. Alberto de Maria Santíssima 
e o rev. Francisco da Conceição Pereira Ca- 
bral, que já foi professor no collegio de S. 
Luiz, em Braga^ depois no do Padre Rosei- 
ra, em Lamego, e actualmente é professor, 
aliás muito digno, no novo Seminário de 



1 Códice n.° 486, Descripção da provinda 
de Trals-os-Montes por Columbano Pinto Ri- 
beiro de Castro, juiz demarcante da dieta 
província. 



736 VIL 



VIL 



Nossa Senhora do Rosario, ou dos Carva- 
lhos, na diocese do Porto. 

Ainda no ultimo aDno (1884) 
falleceram em Villa Flor 2 
presbyteros,— o rev. arcypres- 
te, João Caetano Pereira, con- 
tando 84 annos de idade,— e 
o rev. Albino Jo§é de Moraes 
Ramos. 

Em 1854 só na matriz de Villa FJor cos- 
tumavam celebrar o incruento sacrifício da 
missa 10 presbyteros diariamente. Hoje ra- 
reiam d'um modo lastimoso em todo o nos- 
so paiz e tanto que já n'esta diocese de Bra- 
gança, na de Lamego e em outras, muitos 
parochos estão curando simultaneamente 2 
e por vezes 3 freguezias e com previa au- 
clorisação celebrando nos domingos e dias 
santificados 2 e por vezes 3 missas?! . . . 

Deus se condoa da sua egreja e pônha 
termo a tão anómalo estado de cousas! 

Dos 40 maiores contribuintes d'este con- 
celho couberam a Villa Flor no anno ultimo 
os 15 seguintes— dr. Alexandre Manuel Al- 
vares Pereira d'Aragão, Martinho José Pinto 
de Figueiredo, administrador do concelho *, 
Adrião Máximo da Silva Magalhães, Alexan- 
dre Cesar Lopes Pastor, Antonio Joaquim de 
Moraes Medeiros, Francisco Pinto de Lemos, 
Elias Ribeiro Commenda, Francisco Diogo 



1 Era casado com a ex. ma sr. a D. Maria 
Pinto de Figueiredo e apenas com o ínter- 
vallo d'alguns dias falleceram ambos em de- 
zembro de 1884. 

Bom esposo, bom pae, excellente cidadão, 
affavel no tracto, lhano para com todos, ten- 
do por norma do seu proceder a mais rígi- 
da probidade e o mais inquebrantável cava- 
lheirismo, soube o venerando ancião crear 
em volta de si um circulo de sympathias 
profundas, contando os amigos pelo numero 
das pessoas que tinham a ventura de o co- 
nhecer. 

Era lio segundo do sr. dr. Augusto dos 
Santos Pinto, de Carrazedo de Montenegro, 
distincto jurisconsulto e cavalheiro respei- 
tabilissimo também. 

Qui víget in foliis venit e radicibus hu- 
mor t. . . 



j Pereira Cabral, João Pedro Miller, João Tei- 
xeira de Figueiredo, Sebastião José Lopes 
(engenheiro civil) Paulo José Pinto,.(presi- 
dente da camará) Pedro José Ribeiro, Ma- 
nuel Joaquim Teixeira e Francisco de Mo- 
raes Leite Sotto Maior e Castro. 

Tem a villa estação telegrapho-postal, uma 
casa para escola feita com o subsidio do be- 
nemérito conde de Ferreira, 2 aulas officiaes 
de instrucção primaria elementar para os 
dous sexos, 1 casa de Misericórdia, 4 agen- 
cias bancarias, 1 boa philarmonica ou ban- 
da marcial, 3 machinas de queimar vinho, 
2 largos (o Rocio e. a Praça) 7 edifícios bra- 
sonados, muitas familias nobres e ricas, 1 
pharmacia, 2 hospedarias e vários estabele- 
cimentos commerciaes, contando entre el- 
les um a leste da Praça, que é dos melho- 
res da província, pertencente a Belmiro Be- 
nevenuto de Mattos e Sá, montado em uma 
elegante casa nova de dois pavimentos com 
portas d'arco em ogiva. 

Até 1834 esta villa teve um ouvidor, apre- 
sentado pelos condes de Sampaio, senhores 
d'ella, 2 juizes ordinários, 3 vereadores, i 
juiz dos órfãos, 1 capitão-mór, 1 sargento- 
mor, 4 companhias de ordenanças na villa e 
seu termo e mais 3 companhias com 3 ca- 
pitães nas villas de Frechas, S. Paio e Vil- 
las Boas. 

O corregedor de Moncorvo apenas aqui 
entrava em correição. 

Villa Flor nunca teve convento algum, 
mas houve aqui um hospicjo de Nossa Se- 
nhora da Assumpção, fundado em 1791, que 
em 1798 contava apenas 2 leigos e não ti- 
nha rendas algumas certas ou incertas, — 
diz o códice da Bibliolheca portuense, já ci- 
tado. 

Na rua do Paço ao nascente d'esta villa, 
um pouco a jusante da Casa do Paço que 
foi dos condes de Sampaio, appareceram ha 
annos, por occasião de um desaferro, varias 
moedas romanas. Muitas outras se teem en- 
contrado em differentes pontos da villa e 
arrabaldes. 

No valle da Veiga, por exemplo, se encon- 
trou junto do actual cemitério urna moeda 
d'ouro do tempo de Trajano e ruinas d'um 



VIL 



VIL 737 



aqueducto antiquíssimo, talvez romano tam- 
bém. 

Os paços do concelho são muito antigos, 
mas singelos. 

Para n'elles se accomodarem as diversas 
repartições publicas, a camará mandou ta- 
par 4 arcos sobre que assentava a fronta- 
ria. 

O velho pelourinho já não existe. 

Estava na praça, em frente dos paços do 
concelho, mas foi demolido ha annos, quan- 
do se regularisou e arborisou a dieta Praça, 
cujo ehão foi antigamente um souto de car- 
valhos, pertencente aos duques de Lafões, 
que tiveram muitas propriedades n'esta villa 
e n'este concelho e ainda hoje aqui teem 
bastantes foros. 

Diz a tradição que, em tempos remotos, 
veiu a Villa Flor um destacamento ex- 
pressamente para conduzir a importante 
somma de 720 réis para o castello d'Al- 
meida I. . . 

Tem esta villa feira mensal muito impor- 
tante e muito abundante de gado bovino, 
suino e caprino, cereaes, etc, no dia 15 de 
cada mez— e mercado todas as quintas fei- 
ras. 

O clima d'esta parochia é muito saudável 
e não ha n'ella memoria de grandes epide- 
mias. Apenas o typho appareceu aqui ha 
annos e fez 4 ou 5 victimas. 

Nos limites d'este concelho foi manifestada 
uma mina de varior, metaes, na serra de Val 
Frichoso, do lado de Roios ;— e na serra do 
Faro, em frente do píncaro onde se ergue o 
santuário de Nossa Senhora d'Assumpção, 
ha importantes jazigos de ferro, o que em 
parte revelam as nascentes d'agua ferrugi- 
nosa que brotam na pendente do dicto 
monte sobre o Tua. 

Houve era tempo» remotos n'esta villa 
uma mulher, chamada Anna Borges, que era 
obrigada a tocar uma charamella na egreja 
matriz, durante a elevação da hóstia 1 . . . 

Este concelho tem apenas uma estrada a 
maeadam, de Mirandella a Moncorvo, que 
atravessa Villa Flor de N. O. a S. E. e fórma 
a sua principal rua, sendo todas as outras 



tortas, estreitas e mal calçadas, o que não 
depõe muito em favor dos seus edis. 1 

Na estrada nova a maeadam, de Villa Flor 
a Moncorvo, ha duas grandes pontes de pe- 
dra, de máxima utilidade para o publieo, — 
uma sobre o jrio Sabor,— outra sobre a ri- 
beira da Villariça. A l. a era já muito antiga 
mas foi restaurada e alteada pelas obras pu- 
blicas, porque as cheias do Douro a cobriam, 
como sueeedeu em 1860;— a 2. a denominada 
da Junqueira, por ficar a pequena distancia 
da freguezia d'este nome, foi feita pelas obras 
publicas, quando se construiu a nova es- 
trada. 

É hoje a única ponte que ha sobre a gran- 
de ribeira da Villariça; todos os povos das 
duas margens a demandam no inverno, des- 
de a margem do Douro até cerca de 15 ki- 
lometros para o interior, quando necessitam 
de atravessar a grande ribeira. 

Demanda este concelho mais duas estra- 
das urgentemente,— uma da foz do Tua, por 
Carrazeda d' Anciães, a Villa Flor, entron- 
cando na de Mirandella a Moncorvo —outra 
da séde do concelho á estação de Villa Flor, 
na linha férrea do Tua. 

A 1.» já se acha estudada, approvada e 
construída desde a Foz do Tua, ou da esta- 
ção d'este nome na linha do Douro, até Car- 
razeda d' Anciães,— a 2. a ainda não passou 
de projecto, mas para desejar seria que se 
convertesse em realidade, antes de se con- 
cluir a linha férrea do Tua, em via de cons* 
trucção. 

Para evitarmos repetições veja-se com re- 
lação a esta linha o artigo Vias Férreas, 
n'este 10.° vol. pag. 478, col. i." 

Tem Villa Flor 6 fontes d'agua potável, 3 
de poço e 3 de bica. 

Os 3 poços são o da Praça, o do Rocio e 
o que está ao sul da villa, junto da estrada 



i Inaugurou-se a coustrucçâo da dieta es- 
trada n'esta villa em 1868— e em 1874 n'ella 
se estabeleceram as primeiras diligencias, 
entre esta villa e Mirandella. 

O cemitério data de 1875. 



738 VIL 



VIL 



nova, á esquerda indo para Moncorvo, sendo 
este ultimo notável pela sua fabrica, attri- 
buida aos mouros ou aos romanos! 1 

Tem 3 metros de profundidade e boa agua 
nativa, — é coberto por abobada de pedra com 
pórtico em ogiva,— tem superiormente um 
recinto quadrado, formando uma espécie de 
kiosque ou mirante com pavimento e guar- 
das de granito, coberto por uma cúpula em 
forma de pyramide, sustentada por 4 colu- 
mnas também de granito— e na cornija da 
cúpula tem vários emblemas, sobresahindo 
entre elles uma cara e duas cornetas par- 
tindo da boca da dieta cara, cada uma para 
seu lado,— tudo em baixo relevo. 

Do lado superior havia um tanque muito 
antigo também com duas bicas. Foi demo- 
lido quando se fez a estrada nova e substi- 
tuído por outro que a camará mandou fazer 
junto do exótico poço, para o lado da villa 
e também á esquerda da nova estrada, indo 
para Moncorvo. 

É um tanque espaçoso com 2 bicas e tem 
na parede, a meio d'ellas, um escudo com 
uma flor de liz,— superiormente um bouquet 
— e inferiormente a data da construcção, 
1859. 

Os outros 2 poços são redondos e muito 
singelos; teem cerca de 9 metros d'altura e 
4 de diâmetro cada um — e apenas uma 
guarda de pedra lisa no bocal. 

Sobre o do Rocio, que está junto da egreja 
da Misericórdia, houve até 1870 um cruzei- 
ro, onde se pregava um sermão nas festas de 
endoenças 2 ,— festas que foram sempre muito 
notáveis e são ainda hoje as primeiras da 
província, no seu género. 

Os outros 2 tanques são o do Toural, feito 
pela camará em 1864— e o das Bestas, junto 
da capella de S. Sebastião. 

Dos 7 edifícios brasonados que tem hoje 



1 Rodrigo Mendes da Silva o mencionou 
em 1675 sob o nome de Poço do Arco. 

2 Em Moncorvo ha também junio da Mi- 
zericordia e para o mesmo fim um púlpito de 
pedra, muito notável! tf Hvez o 1.° do rrnsao 
paiz, depois do de Santa Cruz em Coimbra. 

V. Moncorvo no supplemento. 



esta villa 2 são públicos,,— o novo tanque, já 
descripto, e os paços do concelho,— os ou- 
tros 5 são particulares,— 3 no Rocio:— a ca- 
sa que foi do visconde de Lemos, por elle 
edificada em 1846, e hoje pertencente a uma 
sua sobrinha,— o vistoso e elegante palacete, 
sem contestação o 1.° da villa, com uma lin- 
da capella, pertencente a Diogo Augusto de 
Lemos, sobrinho do dito visconde, — e o pala- 
cete que foi de Luiz Antonio de Moraes e 
Castro, ultimo capitão-mór d esta villa, hoje 
pertencente por compra (desde 1881) á fa- 
mília Pinto de Figueiredo e que ainda con- 
serva as armas dos seus fundadores. O 4.° 
edifieio particular brasonado é a Casa do 
Paço, que foi dos condes de S. Paio, hoje 
pertencente a João Pedro Miller, que a res- 
taurou e modificou, mas conservando o bra- 
são dos ditos condes, depois de a obter por 
compra, bem como todos os bens que aqui 
possuíam os mesmos condes, entre os quaes 
avulta a grande quinta do Carrascal, na Vil- 
lariça. 

O outro edifício brasonado é de humilde 
apparencia, mas muito notável pela sua an- 
tiguidade e tradições. As portas teem as 
quinas boleadas;— foi solar dos Cardosos de 
Menezes— e hoje pertence por successão a 
a monsenhor D. João Rebello Cardoso de 
Menezes, arcebispo titular de Myiilene 
e vigário geral do patriarchado de Lis- 
boa. 

Está em ruínas com o peso dos séculos e 
foi muito privilegiada. 

Todo o criminoso que fosse perseguido 
pela justiça e lançasse a mão a uma argola 
que havia na frente da dieta casa, não podia 
ser preso no momento. 

Manuel de Faria e Sousa no seu Epitome de 
las Historias Portuguezas, pag. 344, diz que 
esta Villa Flor ãé Traz-os- Montes foi titulo 
de condado. 

Aliquando dormitat Homerus t ... 

Villa Flor, titulo de condado, não foi es- 
ta, mas sim a do Alemtejo, como dissemos 
no logar próprio. Vide. 

Aqui nasceu em 1795 e aqui morreu o 
1.° visconde de Lemos, Antonio Pinto de 
Seixas Pereira de Lemos, do conselho de 



VIL 

S. Magestade e marechal de campo gra- 
duado í . 

Foi governador civil de Villa Real. 

Não se confunda este vis- 
conde de Lemos, general e ma- 
rechal, com o general José An- 
tonio de Lemos que foi o ulti- 
mo general em chefe das tro- 
pas do sr. D. Miguel e que ne- 
gociou e firmou a convenção 
d'Evora-Monte. Este general 
realista nasceu na freguezia de 
Santa Maria de Villar, conce- 
lho de Villa do Conde, em i de 
outubro de 1786 e falleceu no 
dia 16 de fevereiro de 1870, 
em Lisboa, onde jaz, no cemi- 
tério occidental. 

V. Villar (Santa Maria de). 

Foram também naturaes d'esta villa, entre 
outros escriptores, o poeta Paulo Montes de 
Madureira Roubão, auctor do poema heróico 
Progressos. Luzitanos, em louvor das acções 
do exercito portuguez na guerra da sueces- 
são de Hespanha ;— Manuel Antonio de Mei- 
relles, capitão d'engeuheiros, auctor de va- 
rias obras publicadas nos annos de 1746, 
1748, 1749 e 1750, com relação ás nossas 
conquistas da Índia— e Diogo Barrassa ou 
Barros Judeu portuguez, medico e astrólogo. 

Foi auctor do Prognostico e lunario dq anno 
de 1635. . . tirado do arábigo, que traduziu 
do syriaco de Jonalhas Abenizel Rabbi Israel 
de {//masia,— Sevilha, 1630, 4.°— obra hoje 
raríssima. 

Com rasão se orgulha esta villa de haver, 
desde tempos remotos, produzido muitas 



1 Nasceu em l de junho de 1795 n'esta 
villa e n'ella falleceu, solieiro esem succes- 
são, no dia 16 de janeiro de 1862, sendo se- 
pultado na egreja matriz, por não estar 
ainda feito o cemitério. 

Deixou os 7 irmãos seguintes: — Diogo de 
Lemus, que herdou o morgado,— D. Sophia, 
D. Emilia, D. Anua e D. Genoveva, todos 
ainda vivos e solteiros, — Padre Manuel e 
Dionysio, já fallecidos. 



VIL 739 

pessoas notáveis pelas armas, pelas virtudes 
e pelas lettras,— famílias de nobre linhagem, 
— cavalleiros ecommendadores de differentes 
ordens, prelados de muitos conventos, juris- 
consultos, desembargadores, deputados, ti- 
tulares, generaes, marechaes de campo, etc, 
Poderíamos dar uma extensa lista de mui- 
tas d'essas pessoas com as suas genealogias, 
mas este artigo vae já muito longo e não po- 
demos alargal-o mais. 

Foi nosso principal Cyreneu n'este artigo 
o sr. Antonio José de Moraes, uma creança 
na idade, pois conta apenas 21 annos, mas 
um cavalheiro de muito merecimento pela 
sua illustração e bom critério e que tem 
diante de si auspicioso futuro, se Deus lhe 
prolongar a vida. 

É s. ex.» filho de Alípio Corrêa de Mo- 
raes e de D. Josefa Pinheiro de Moraes; — 
nasceu na povoação e freguezia do Amêdo, 
concelho de Carrazeda d' Anciães, no dia 10 
de agosto de 1863— e, perdendo o pae aos 
7 annos, passou em seguida para a casa do 
seu bom tio paterno, o rev. Daniel José de 
Moraes, digno parocho de Villa Flor, onde 
tem vivido até hoje. 

Em outubro de 1878 foi admittido no se- 
minário de Braga, onde cursou com muito 
aproveitamento as aulas de preparatórios 
até ao mez de maio de 1880, data em que 
uma grave doença o obrigou a interromper 
os seus estudos. 

Em outubro de 1883 matriculou-se no 
1.° anno do curso theologico no seminário 
de Bragança, por haverem passado em 1882, 
os concelhos de Villa Flor e de Carrazeda 
d'Anciães, com outros da província de Traz- 
os-Montes, da diocese de Braga para a de 
Bragança. 

A todos os cavalheiros que se dignaram 
enviar-nos apontamentos para este artigo 
protestamos a nossa eterna gratidão,— no- 
meadamente ao sr. Antonio José de Moraes, 
a quem já devemos também apontamentos 
interessantíssimos com relação aos prelados 
de Miranda e Bragança e outras muitas fi- 
nesas, posto que não temos a honra de o 
conhecer pessoalmente. 

VILLA FONGHE— freguezia do concelho e 



740 VIL 



VIL 



comarca dos Arcos de Valle de Vez, distri- 
cto de Vianna do Castello, arcebispado de 
Braga, na província do Minho. 

Vigairaria. Orago Santa Comba, fogos 94, 
almas 361. 

Freguezias limitrophes. — Parada a N.— 
Rio Frio e Guilhadeses a O— e S. Salvador 
dos Arcos a S. E. 

Comprehende as aldeias seguintes— Egre- 
ja, Eira, Fijó, Quinta, Casal Soeiro, Fojo, Ar- 
rancado, Cepa, Facho, Pontilhão, Thomada, 
Outeiro de Cima, Outeiro de Baixo, Torim, 
Santa Barbara e duas quintas notáveis— a 
de Casal Soeiro, vendida pelos marquezes de 
Terena e Monfalim ao visconde de Rio Vez, 1 
— e a de Santa Barbara, com capella, per- 
tencente ao dr. Gaspar d'Azevedo Araujo e 
Gama, advindo-lhe por sua mulher e prima 
D. Philomena Pinto Pisarro Gil Vasques da 
Cunha Coutinho Porto-Carreiro, da casa da 
Bandeirinha ou Palacio das Sereias, no 
Porto. 

V. Vol. 5.° pag. 271, col. 2.» e pag. 296 
col. l.° infine—e vol. 7.° pag. 519 e 565, 
col. 1.* 

Passa junto d'esta freguezia a estrada real 
dos Arcos a Monsão— e o ribeiro Tourim que 
desagua no rio Vez a dois kilometros de dis- 
tancia. 

É povoação muito antiga. O seu primiti- 
vo nome foi Gilifonte — depois Guilhafonxo, 
Guilhafonce e Guilhafonso. 

Veja-se esta ultima palavra n'este diccio- 
nario, vol. 3.» pag. 349, col. l. a onde já se 
fallou d'esta freguezia, que foi da apresen- 
tação dos viscondes de Villa Nova da Cer- 
veira. 

Ao ex. m ° sr. dr. Luiz de Figueiredo da 
Guerra, illustrado filho de Vianna do Cas- 
tello, agradeço os apontamentos que se di- 
gnou enviar-me. 

VILLA FORMOSA— quinta da freguezia 
de Sacavém, no concelho dos Olivaes, dis- 
tricto de Lisboa. 

Foi esta uma das primeiras propriedades 



1 Esta quinta adveiu aos Terenas pelos 
Gomes d'Abreu. vulgo Trancas— e anterior- 
mente foi dos Britos Cações. 



em que se manifestou a maldicta phyloxera 
na província da Extremadura. 

Manifestou-se também, quasi ao mesmo 
tempo, nas quintas de S. João, Restaura- 
da, Francelha de Cima, Prior Velho e Mar- 
chante, todas da mesma ferguezia de Saca- 
vém. 

Comprehende mais esta importante paro- 
chia as quintas seguintes: Moxo, Ferro, Pre- 
tas, Cangalheiro, Penicheiros, Penamacor, 
Fonte, Archeiro, Couve, Pinheiro, St. 0 An- 
tonio da Serra, Várzea, Victoria, Torres Ve- 
dras, Mercador, Meirinho, Senhora da Saúde, 
Casquilhos, Manteiga, S. José, Nova, Nún- 
cio, Fonte Perra, Chouriço, Roldão, Calçada, 
Anjos, Rio, Aranha, Francelha de Baixo, Ser- 
ra, Cabeço, Areias, Malvasia, Condessa, Quei- 
mada, Sequeira, Alto, Quinta Velha e Horta 
do Meio. 

V. Sacavém, vol. 8.° pag. 310, co|. l. a 
VILLA FRADE— antigamente freguezia e 
hoje simples povoação da freguezia de Lama 
d' Arcos no concelho de Chaves, districto de 
Villa Real de Traz-os-Montes. V. Lama à" Ar- 
cos, vol. 4.° pag. 29, col. 1.» 

Na povoação de Villa Frade existiu em 
1738 e não sei se existirá ainda hoje um pa- 
drão redondo, junto da egreja, com a ins- 
cripção seguinte : 

IMP. CAES 
M AUR CA 

bino : : : : : 

P. F. AUG 

fr p : : : : : : 
PP. 

Quer dizer* Esta memoria se dedicou ao 
Imperador Cesar, Marco Aurelio, Carino. 
Pio, Felix, Augusto, do poder tribunicio, pae 
da pátria. 

VILLA DE FRADES— freguezia do conce- 
lho da Vidigueira, comarca de Cuba, distri- 
cto e bispado de Beja, na província do Alem- 
tejo. 

Fogos 470, almas 1915. 

Segundo se lé na Chorographia Portu- 
gueza, em 1708 pertencia á comarca de Beja 
e contava 800 fogos (?)— era da apresenta- 



VIL 



VIL 741 



Ção dos cónegos regrantes de S. Vicente de 
Fóra,— tinha casa de Mizeri<*.ordia,— uma Ca- 
pella do Espirito Santo —outra de Santo An- 
tonio dos Açôres— e a meia légua de distan- 
cia outra de S. Thiago, fundação dos mou- 
ros, toda cercada de vinhas;— eram senho" 
res d'esta villa os marquezes de Nisa — e 
tinha 2 juizes ordinários, vereadores, 1 pro- 
curador do concelho, i escrivão da camará, 
i tabèllião do judicial e notas e mais offi- 
ciaes. 

Em 1768— ou decorridos apenas 60 annos 
—esta villa e freguezia contava 326 fogos 
(diz o Port. S. e Profano)— pertencia ao ar- 
cebispado d'Evora-e rendia 200$000 réis. 

Priorado. Orago S. Cucufate. 

Foi villa e séde do concelho do seu nome 
até depois de 1840. 

Ainda conserva a antiga cadeia e os ve- 
lhos paços do concelho, onde actualmente 
funccionam duas aulas offlciaes d'instrucção 
primaria elementar,— uma para o sexo mas- 
culino, outra para o sexo feminino. Já des- 
appareceu o pelourinho. 

Comprehende os montes (casaes) de St. 0 
Antonio, Senhora de Guadalupe, Outeiro, 
Macabrão, Azeiteira— e as hortas d'Aparis- 
sa, Aroeira, Hortão, Malhada do Carneirinho, 
Ratoeiras, Corte do Judeu, Moia de Baixo, 
Moia de Cima e Motta. 

Freguezias limitrophes — Cuba, Selmes, 
Vidigueira, SanfAnna e Villalva. 

Dista 2 kilometros da Vidigueira, séde do 
concelho, para oeste,— 8 de Cuba, .séde da 
comarca e estação da linha férrea do sul, 
para N. E.— 25 de Beja,— 145 de Lisboa— 
482 do Porto— e 612 de Valença do Minho. 

Tem boas estradas a macadam para Cuba, 
Vidigueira e Portel, já construídas — e para 
Beja e Villalva, em via de construcção. 

Em quanto a templos tem hoje, alem da 
egreja matriz, a egreja da Misericórdia e 4 
capellas--S. Braz, dentro da villa, e St. 0 An- 
tonio dos Açores, assim denominada por ter 
sido feita por um conde da Vidigueira em 
cumprimento de um voto se achasse um açor 
que encontrou no monte onde erigiu e se vê 
a mencionada capella, fóra da villa e a pe- 
quena distancia —Tem mais a de S. Thiago 



que se suppõe ter sido mesquita dos mou- 
ros, 1 — e a de N. S." de Guadalupe, na ser- 
ra d'este nome,— todas 4 muito antigas e 
quasi em ruinas. 

Teve maistres capellas, que já desappare- 
ceram— a do Espirito Santo, mencionada 
pelo padre Carvalho, a de S. Bento — e a de 
S. Sebastião. 

A egreja matriz ê de abobada,— tem altar 
mór e 4 lateraes— e paredes com 11 palmos 
de espessura! — segundo se lô na Descripção 
da Vidigueira e seu concelho, pelo dr. Agos- 
tinho Albino Garcia Peres, de Setúbal, ainda 
manuscripta, e de que já fizemos menção no 
artigo Vidigueira. 

O altar mór e 2 lateraes teem boas deco- 
rações de emalha dourada. Os outros dous 
são de gesso ou estuque. 

Data este templo de 1707 e tem de com- 
primento (interiormente) 33, m 15— e de lar- 
gura 12, m 35. 

O movimento d'esta parochia em 1883 foi 
o seguinte— baptisados 44,— casamentos 17 
— óbitos 26. 

Nascem nesta freguezia dous ribeiros, 
um que parte para N. 0. e desagua na ri- 
beira de Odivellas, confluente do Sado, — 
outro que parte para S. 0. e desagua na ri- 
beira de Odiarse, confluente do Guadiana. 

É temperado e saudável o clima d'esta 
villa, que está na encosta da serra de Gua- 
dalupe no cimo da qual e distante da villa 
pouco mais de 2 kilometros para S. O. se vè 
uma pyramide geodésica marcando 317 me- 
tros d'altitude sobre o nivel do mar. 

Producções dominantes— vinho, azeite, ce- 
reaes, fructa, caça e lã, pois cria bastante 
gado lanígero. 

Pbsou sobre esta freguezia, em 21 de ju- 
nho de 1849, uma trovoada medonha que 
destruiu toda a propriedade, causando pre- 
juízos enormes I 

Foram donatários d'esta villa os marque- 
zes de Nisa— e antecedentemente os cónegos 



i Dista cerca de 2 kilometros de Villa de 
Frades. Diz a tradição que foi a 1." matriz 
d'esta parochia e das circumvisinhas, inclu- 
sivamente da de Cuba. 



742 VIL 



VIL 



regrantes de St. 0 Agostinho, que lhe deram 
o seu primeiro foral, não sabemos quando. 

D. Manuel o confirmou em Lisboa a 1 de 
junho de 1512. Liv. de Foraes Novos do 
Alemtejo, fl., 35, v. col. 2.» 

Veja-se o processo para este foral na Ga- 
veta 20, Maço 12, n.° 24. 

Houve aqui 2 conventos um de S. Co- 
vado ou Cucufate, de monges negros ou be- 
nedictinos,— outro de Nossa Senhora da As- 
sumpção, de frades capuchos, franciscanos 
da Província da Piedade. 

O primeiro foi um dos mais antigos e mais 
notáveis de Portugal e da península. O seu 
prelado se intitulava, como os de Gluni e do 
Monte- Cassino Abbade dos Abbades. 

Foi muito anterior á invasão do- mouros, 
— conservou-se aberto ao culto muito tempo 
durante a oceupação mussulmana— mas por 
fim os mouros o destruíram. 

Teve grandes rendas e fabrica sumptuosa 
— e já depois da completamente arrasado e 
deserto, foi dado com esta freguezia pelo 
nosso rei D. Sancho II, em 1225, aos cruzios 
de S. Vicente de Fóra, os quaes (segundo 
me parece) nunca o restauraram nem habi- 
taram, mas povoaram o sitio e crearam esta 
villa, dando-lhe o seu primeiro foral, pelo 
que a povoação se denominou Villa dos Fra- 
des ou de Frades. 

Estranhamos que a Chronica dos Cónegos 
Regrantes não mencione este convento , mas 
menciona-o a Benedictina Lusitana. L. l.° 
pag. 446 e 447, para onde remettemos os 
leitores. 

Veja-se também no Elucidário de Viterbo 
a palavra Abbade Magnate, pag. 17, col. 2.» 
mihi—e a Monarchia Lusitana, parte IV, fl. 
200, v. 

O segundo convento foi fundado em 1545 
pelo conde da Vidigueira D. Francisco da 
Gama (filho de D. Vasco da Gama) e por sua 
mulher D. Guiomar de Vilhena, no locàl onde 
existia uma antiquíssima capella da invoca- 
ção de S. Bento. 

Era guardiania de 13 a 14 frades e foi 
extincto em 1834, tendo apenas 6 ou 8 re- 
ligiosos. 



Do 1.° convento nada resta. O seu chão e 
a sua cerca passaram dos cruzios para os 
marquezes de Nisa,— está tudo plantado de 
vinha — e ali se teem encontrado alicer- 
ces das antigas fundações e muitos fragmen- 
tos de louça. 

Do -2.» apenas se conservam as ruinas do 
convento e da egreja. A cerca é hoje vinha e 
olival— e o seu bello aqueducto, de 2 kilo- 
metros d'extensão aproximadamente, está 
em completa ruina também !. . . 

Veja-se a Chronica da Provinda da Pie- 
dade, Liv. III, cap. 22. 

No supplemenlo a este diccionario com- 
pletaremos a historia do antiquíssimo e ve- 
nerando convento de S. Cucufate. 

Na noite de 24 de dezembro de 1882 com- 
metteu-se n'esta freguezia um desacato re- 
pellente ! Foi violado e roubado o tumulo 
do benemérito filho d'esta villa, par do reino 
e conselheiro, Justino Máximo de Baião Mat- 
toso, fallecido em junho d'aquelle mesmo 
anno. 

Os ladrões forçaram a grade da capella 
onde se acha o jazigo do finado e, na incer- 
teza do logar em que se eneontrava o cadá- 
ver, arrombaram mais tres sepulturas. 

Encontrando o que procuravam, abriram 
o caixão de madeira e o interior, que era de 
zinco, e despojaram o cadáver, do espadim» 
condecorações, botões e galões da farda de 
par do reino, que vestia. 

Pelo exame do local em que se praticou 
o delipto, conheceu-se que os malfeitores sa- 
crílegos operaram com todo o vagar a sua 
sinistra tarefa e que, não satisfeitos da inju- 
ria exercida sobre o morto, damnifiearam os 
ornatos interiores da capella. 

Não se commenta semelhante vandalismo I 

Aqui falleceu em 3 de novembro de 1789 
o poeta João Xavier de Mattos. Iguora-se a 
sua terra natal. Escreveu varias obras em 
prosa e em verso, indicadas por Innoeencio 
Francisco da Silva, uma das quaes foi man- 
dada á Exposição de Paris, em 1867. 

O seu amigo, dr. Joaquim Antonio Alho 
Mattoso, lhe fez o funeral com a maior de- 
cência, no dia 4 de novembro de 1789, na 
egreja parochial d'esta villa, e mandou gra- 



VIL 



VIL 743 



var sobre a sepultura do finado um soneto 
que anda impresso. 

Ao meu presado collega, o sr. Joaquim 
Freire de Carvalho, digno prior d'esta villa, 
agradeço os apontamentos que me enviou. 

VILLA FRANGA — freguezia do concelho, 
comarca e districto de Vianna do Castello, 
arcebispado de Braga, na província do Mi- 
nho. 

Reitoria. Orago, S. Miguel — fogos 140— 
habitantes 880. 

Em 1706 contava os mesmos 140 fogos — 
e 145 em 1768. 

Foi da apresentação da mitra e commen- 
da da ordem de Christo, do commendador 
de Lanheses (C. d'Almada) no termo de Bar- 
cellos. 

Comprehende as aldeias seguintes— Villa 
Franca, Gondufe (são estas as principaes), 
Egreja, Figueiredo, Bairrinho, Pereira, Con 
ceição, Estrada, Mosteiro, Pinheiro, Barro- 
sas, Monte, Santa Cruz, Vallada, Rua Cega, 
Lomba, Visos, Estivada e Afranco,— a quinta 
que foi dos Cunhas Sotto-Maiores, hoje da 
viuva de João da Silva S. Miguel, negociante 
de Vianna, — e a quinta da Barroca, proprie-* 
dade importante, que D. Maria do Carmo 
Pinto d' Almeida e Menezes, em 1877, deixou 
com suas pertenças e grandes capitães (cer- 
ca de 300 contos I...) a Antonio Ribeiro da 
Silva, que falleceu em 1884. Tem capella e 
boa casa de residência. 

Até 183i pertenceu esta fregueziá ao ter- 
mo de Barcellos. 

Está na pendente norte do monte de Ro- 
ques, onde apparecem, em volta da sua py- 
ramide geodésica, ruinas de uma grande po- 
voação que (dizem) era a cidade Armênia. 

Este monte de Roques é também denomi- 
nado monte do Santinho pelo povo que jul- 
ga ver era uma pedra do dito monte as pé- 
gadas de S. Silvestre. 

Freguezias limitrophes— Sub-Portella, ao 
nascente,— Mujães e Villa de Puuhe, ao sul, 
— Mazarefes e Darque, ao poente — e ao nor- 
te o rio Lima, defrontando com as fregue- 
zias de Santa Martha e Serraleis. 

Passa em Villa Franca a estrada districtal 



n.° 3, de Vianna a Ponte de Lima, pela mar- 
gem esquerda do rio d'este nome. 

Dista 3 kilometros da estação de Darque, 
na linha férrea do Minho, — 8 de Vianna do 
Castello — e 34 de Braga. 

Ao ex.™° sr. dr. Luiz de Figueiredo da 
Guerra, illustrado filho de Vianna, agradeço 
os apontamentos que se dignou enviar-me, 
pelo que mais uma vez lhe beijo as mãos 
reconhecido. 

Falleceu no dia 11 de março de 1884 no 
Rio de Janeiro, capital do Brazil, Manoel 
Antonio Ribeiro, natural d'esta freguezia» 
solteiro, capitalista e que foi ali negociante 
muitos annos. 

Não tendo herdeiros forçados, dispoz dos 
seus bens da maneira seguinte • 

Deixou 2:000#000 réis, a cada uma de suas 
irmã8, Rosa, Maria, Maria Thereza e Joanna, 
2:000$000 réis, a cada um de seus irmãos» 
João e Antonio, 2:000(2000 réis, para serem 
divididos entre seus cinco sobrinhos, filhos 
de seus finados irmãos Agostinho e José, rs. 
500$000 fortes, a seu sobrinho Manoel An- 
tonio, filho do seu finado irmão José, réis 
100$000 fortes á sua madrinha de baptismo» 
100#000 réis fortes, para a coadjuvação os 
reparos da egreja da freguezia oude nasceu» 
4:000#000 réis em moeda brasileira, a seu 
sobrinho e segundo testamenteiro, João Go- 
mes da Silva, 2:000$000 réis a seu sobrinho 
e terceiro testamenteiro Manoel Gomes da 
Silva, 300$000 réis a Manoel Gonçalves Pe- 
nedo, o usofructo de duas apólices da divida 
publiea do Brazil, do valor nominal de réis 
i:000$000 cada uma, a seu sobrinho José 
Affonso Fortes, 300$000 réis a seu afilhado 
Manoel, filho de seu compadre Manoel Fer- 
reira da Silva, 300$000 réis á sua afilhada, 
filha de seu compadre Victorino Joaquim de 
Carvalho, 300^000 réis a seu afilhado Fran- 
cisco Pereira d'Azevedo, 3001000 réis á sua 
afilhada, filha de seu compadre Clemente 
José Ferreira Guimarães, 300$000 réis à fi- 
lha do finado José Gonçalves Corrêa, o uso- 
fructo de uma apólice da divida publica do 
Brazil, do valor de 1:000$000 réis, a Mar- 
garida Ribeiro Guimarães, a parte que pos- 



744 VIL 



VIL 



suia em um terreno na rua de Avila a seu 
compadre Clemente José Ferreira Guimarães 
e a seu primeiro testamenteiro; 500$000 
réis á preta Manoella, 500$000 réis ao pa- 
trimónio da Ordem Terceira de Nossa Se- 
nhora do Carmo, 300$000 á menor filha de 
Manuel Antonio da Silva Cruz, além de 
outros muitos legados a diversas pes- 
soas. # 

Instituiu herdeiros universaes do rema- 
nescente de seus bens, em partes iguaes, 
as suas irmãs e irmãos Rosa, Maria, Maria 
Thereza, Joanna, João e Antonio e sua cu- 
nhada Rosa Ribeiro Machado. 

VILLA FRANCA— quinta na margem di- 
reita do Mondego a S. 0. de Coimbra, entre 
a Arregaça e a Portella. 

Foi até 1734 easa de recreio e de conva- 
lescença dos jesuitas e é local muito apra- 
zível pela sua luxuriante vegetação e pelo 
seu frondoso arvoredo. 

N'esta quinta residiu o famoso jesuita pa- 
dre Antonio Vieira e aqui escreveu algumas 
das suas obras. 

N'esta data (fevereiro de 1885) annuncia 
a Empresa Litteraria Fluminense, com suc- 
cursal em Lisboa, que vae fazer uma luxuo- 
sa edição de todas as obras d'aquelle afa- 
mado escriptor, comprehendendo as suas 
cartas, sermões, etc, precedida de um es- 
tudo critico sobre a vida do auctor e valor 
litterario das suas produeções. 

A edição será (Ilustrada e d'ella se fará 
uma tiragem de 5:000 exemplares— e a im- 
pressão em typo elzevir será feita pela Ty- 
pographia Elzeviriana de Lisboa. 

Vae o príncipe dos oradores portuguezes 
receber a consagração do seu extraordinário 
talento. 

Com relação á mencionada quinta de Villa 
Franca é muito digno de ler-se o curioso e 
consciencioso folhetim que o sr. Joaquim 
Martins de Carvalho, indefesso investigador 
das antiguidades pátrias, lhe dedicou no Co- 
nimbricense de 9 de janeiro de 1869. 

Esta quinta pertence hoje ao sr. D. Luiz 
de Carvalho Daun e Lorena,— e, em tempos 
remotos, pertenceu a Diogo Rodrigues e sua 



mulher D. Guiomar da Costa, de Coimbra, 
dos quaes se apoderou a inquisição, confis- 
cando-lhes todos os bens e a mencionada 
quinta. D. Sebastião— a mandou entregar á 
Companhia de Jesus, por carta de 27 de 
maio de 1571, pretendendo a Companhia 
compral-a, para ojme offerecia certas cou- 
sas. 

Os padres da Companhia deviam fazer vir 
de Roma a necessária licença do seu geral 
para essa transacção, dentro de 8 mezes. O 
mesmo D. Sebastião lhes prorogou por mais 
6 mezes aquelle praso, em provisão de 29 
de janeiro de 1572— e finalmente, em 9 de 
dezembro de 1573, fez doação da quinta á 
Companhia de Jesus, em attenção á cedên- 
cia de certas casas que eram da mesma Com- 
panhia e que haviam passado para a inqui- 
sição de Coimbra. 

Ao sr. Joaquim Martins de Carvalho, 
muito illustrado redactor e proprietário do 
Conimbricense, agradeço os apontamentos 
que se dignou enviar-me. 

VILLA FRANCA DA CARDOSA — hoje 
Castello Branco. 

Foi o 2.° nome que teve esta cidade, se é 
que primeiramente se donominou Castra- 
leucos. 

V. Castello Branco, vol. 2.° pag. 177, col. 
1.» e 2. a 

VILLA FRANCA DO DEÃO— freguezia do 
concelho, comarca, districto e diocese da 
Guarda na província da Beira Baixa. 

Vigairaria. Fogos 126, almas 461, orago 
S. Thiago Maior. 

Em 1708 contava 120 fogos e era da apre- 
sentação do chantre da sé da Guarda. 

Em 1768, segundo se lé no Port. S. e Pro- 
fano, contava 94 fogos, — era da mesma apre- 
sentação—e rendia 12$000 réis para o pobre 
vigário, além do pó d'altar. 

O Flaviense em 1852 deu-lhe apenas 83 
fogos. 

O logar de Villa Franca do Deão está na 
encosta de uma pequena serra, 5 kilometros 
a O. da margem esquerda da ribeira de Mas- 
sueime. 

Comprehende mais a povoação de Traji- 
nha — e as quintas de Almas, Picota e Mi- 
gueis. 



VIL 



VIL 745 



Freguezias limitrophes — ao nascente Co- 
deceiro e Avelans da Ribeira,— ao poente 
Vellosa,— ao norte Alverca — e ao sul Roca- 
monde e Avelans d'Ambom. 

Dista da Guarda 18 kiloraetros para N. 1 
—22 de Trancoso para S. E.— 6 da estação 
de Pinhel na linha da Beira Alta— e 13 de 
Villa Franca das Naves para S. pela mesma 
linha férrea. 

Esta freguezia de Villa Franca do Deão, 
não se vé no mappa do conselheiro Folque j 
mas somente Villa Franca das Naves, tam- 
bém ao norte da Guarda, porem mais dis- 
tante alguns kilometros. 

Não se confunda pois uma com a outra. 

Os seus templos reduzem-se á egreja ma- 
triz, bem conservada, mas sem coisa alguma 
notável, — e ha uma capella de S. Sebastião, 
muito simples e em mau estado. 

Tem 3 moinhos na ribeira de Massueime, 
confluente do Côa. 

Fazem-se os enterramentos no adro da 
egreja matriz, por falta de cemitério. 

Ha n'esta parochia uma escola official de 
instrucção primaria elementar, mixta. 

O seu clima é frio, mas salubre, — e as 
suas producções dominantes são batatas e 
centeio. 

Ao meu bom amigo e collega, o rev. José 
Abrantes Martins da Cunha, illustrado re- 
dactor do Districto da Guarda, agradeço os 
apontamentos que se dignou enviar-me. 

VILLA FRANCA DE LAMPAÇAS— fregue- 
zia extincta e annexada desde muito á fre- 
guezia de Quintella de Lampaças, sua limi- 
trophe, concelho, comarca, districto e dio- 
cese de Bragança, na província de Traz os 
Montes. 

Esta freguezia de Villa Franca teve por 
orago S. Bento— e foi villa da comarca, ou- 
vidoria e correição de Bragança, bispado e 
provedoria de Miranda. 

Ainda em 1768 era freguezia independen- 
te, mas o seu parocho (vigário) já era da 
apresentação do abbade de Quintella de 



1 A Chorographia Moderna diz 27:500 m 
(5 1 /» léguas) confundindo esta freguezia com 
a de Villa Franca das Naves. 



Lampaças,— rendia 8$000 réis de côngrua, 
afora o pê d'altar— e contava a extincta pa- 
rochia apenas 40 fogos. 

Nesta pequena, insignificante e extincta 
parochia de Villa Franca de Lampaças nas- 
ceu em 1543 D. Frei Gonçalo de Moraes, que 
foi monge benedictino, 4.° abbade triennal 
do convento de Tibães e geral da congrega- 
ção, eleito em 1590, e depois bispo do Porto, 
aliás muito virtuoso e benemérito. Foi elle 
quem mandou reconstruir a fundamentis a 
capella mór da sé portuense, onde jaz se- 
pultado, tendo fallecido no anno de 1617 
com 74 annos de idade. 

Também deu principio ao convento do 
Santo Milagre em Santarém, no qual viveu 
e foi prior alguns annos, edificando a todos 
com as suas extraordinárias virtudes. 

Também restaurou e decorou luxuosa- 
mente a sachristia da sé do Porto, — fez em 
toda a cathedral grandes obras e a dotou 
com alfaias riquíssimas,— visitou todas as 
egrejas da sua diocese repetidas vezes— e em 
esmolas e obras pias gastou todas as suas 
grandes rendas, fa 1 lece n do p o bre como Job ! . . . 

Foi o 56.° bispo do Porto e bispo modelo 
a todos os respeitos, durante 15 annos, sue- 
cedendo-lhe outro prelado também digníssi- 
mo— D. Rodrigo da Cunha, depois arcebispo 
de Lisboa. No seu Catalogo dos Bispos do 
Porto lhe dedicou paginas que ninguém lerá 
sem compunção e que todos os bispos devem 
ler e decorar. 

Veja-se o referido Catalogo, pag. 349 a 
363, mihi—e n'este diccionario os artigos 
Lampassas, vol. 4.° pag. 42, col. i. a — Quin- 
tella de Lampaças, vol. 8. 8 pag. 35, col. 2.» 
— e Bragadinha, vol. l.° pag. 480, col. 2. a 

Nasceu também n'esta parochia, hoje ex- 
tincta, e professou no convento da Graça de 
Lisboa em 1594, Fr. Diôgo de SanfAnna. 

Morreu em Gôa, a 6 d'outubro de 1646, 
e escreveu a Verdadeira relação do grande 
e portentoso milagre que aconteceu com o 
Santo Crucifixo do coro da Igreja das Frei- 
ras de Santa Mónica de Goa, em 8 de feve- 
reiro de 1636. Lisboa, por M. da Silva, 
1640, 4.° 



746 VIL 



VIL 



Esta obscura povoação de Villa Franca 
de Lampaças, freguezia extincta, foi, em tem- 
pos remotos, povoação importante com o 
nome de Bragadinha, mas os seus morado- 
res, um bello dia, apurando não sabemos que 
ódios e rivalidades, com inaudito furor se 
mataram todos uns aos outros em um só dia, 
sobrevivendo apenas alguma mulher que 
pôde esconder-se ? ! . . . 

Consta isto das Inquirições de D. Affonso 
III, de 1260- 

D. Diniz, achando-se em Thomar em 9 de 
dezembro de 1286, resolveu povoar de novo 
a dita aldeia e com esse fim lhe deu foral 
n'aquella. mesma data, mudando-lhe o nome 
de Bragadinha para o de Villa Franca. 

Liv. I de Doações do Sr. Rei D. Dinis, fl. 
187, col. 1.» 

No Corpo Chronologico, Parle II, Maço 11, 
documento 154, acha-se também a Inquiri- 
ção para o seu foral novo na reforma doi- 
rei D. Manoel. 

No dito foral velho se declara «que todo 
o homem, ou mulher, que for maninho, pos- 
sa vender o seu á sua morte, a quem muito 
quizer.» 

Maninho quer dizer— que não tivesse ou 
deixasse successão. 

Era de grande alcance aquella disposição 
do foral, porque os frades do riquíssimo 
convento de Castro d'Avelans (Vide) ao 
tempo senhores da tal Bragadinha e de ou- 
tras muitas terras em Traz-os-Montes, cos- 
tumavam, não sabemos bem com que jús, 
levar a terça parte dos bens de todos aquel- 
les que nos seus coutos e terras falleciam 
sem filhos, embora anteriormente os tives- 
sem. 

A' vista da isempção de que ficaram go- 
sando os habitantes de Villa Franca de Lam- 
paças, insurgiram-se os povos visinhos con- 
tra as extorsões de Avelans. Não foi surdo 
aos seus clamores o primeiro duque de Bra- 
gança e conde de Barcellos, D. Affonso, pois 
no anno de 1452 escreveu á camará de Bra- 
gança e aos seus termos e concelhos man- 
dando-lhes que não guardassem o deprava- 
do coslume que o Mosteiro de Castro de Ave- 
lans tinha introduzido de levar a terça par- 



te dos bens de qualquer defuncto contra a 
Ordenação do Remo, e toda a boa razão que 
ordena— fiquem as duas partes aos filhos do 
defuncto, e que do Terço disponha livremente 
a beneficio da sua alma. 

Apesar d'isto os frades d'Avelans não se 
deram por vencidos e continuaram a exigir 
a terça em questão, o que determinou os 
duques de Bragança a publicarem outras 
disposições mais explicitas. 

Chamava-se aquelle odioso tributo mani- 
nhado, manerta ou maninhadego. 

VILLA FRANCA DAS NAVES-freguezia 
do concelho e comarca de Trancoso, distri- 
cto e diocese da Guarda na província da 
Beira Baixa. 

Vigairaria. Orago, Nossa Senbora dos Pra- 
zeres, fogos 158, almas 640, seguudo os apon- 
tamentos que se dignou enviar-me o seu 
rev.° parocho, mas o censo de 1878 deu-lhe 
apenas 133 fogos e 519 habitantes. A diffe- 
rença é sensível, mas aceitável, attendendo 
á vida que lhe insufflou a linha da Beira 
Alta, primeiramente com as obras da cons- 
trucção em que se empregaram annos mui- 
tos homens, mulheres e creanças d'esta pa- 
rochia, auferindo interesses, — e depois com 
o movimento da estação que tem aqui a men- 
cionada linha, dectro dos limites d'esta pa- 
rochia,— estação muito bem situada e de bas- 
tante movimento, denominada Villa Franca. 

Dista apenas 1 kilometro da povoação, 
sede da egreja matriz, e está a juzante cVella, 
em ampla, vistosa e agradável planície, onde, 
antes da construcção da linha férrea, costu- 
mavam os amadores da caça correr as le- 
bres a cavallo e com galgos, por ser a cam- 
pina aberta e prestar-se admiravelmente 
para aquelles divertimentos venatorios. 

Como o terreno era lindíssimo e chão, 
mas deserto, teem pullulado as edificações 
junto da estação e ali se formará com o de- 
correr do tempo um povoado importante. 

Já hoje (1885) ali se vêem tres casas com 
tabernas, uma hospedaria rasoavel, differen- 
tes armazéns para depósitos de sal e dou- 
tros géneros, etc. 

• O terreno presta-se admiravelmente para 
toda a sorte de construcções. Além d'isso 
parte da estação uma estrada antiga, mas 



VIL 

quasi plana e muito viável que, atravessan- 
do esta parochia, segue para a Povoa do 
Concelho, freguezia muito populosa, e d'ali 
para Villa Garcia, Cotimos, Cogulla, etc, 
sendo a Cogulla hoje a freguezia mais rica 
e endinheirada de Trancoso, pois tem abas- 
tados proprietários, negociantes de vinho, 
aguardente e lã, e differentes [capitalistas 
que, ha muitos annos, não cessam de dar 
dinheiro a juro. 

Esta freguezia de Villa Franca das Naves 
em 1708 contava apenas 90 fogos— e 80 em 
1768. 

Foi curato da apresentação dos abbades 
de S. Thiago de Trancoso e pertencia ao 
bispado de Viseu, do qual passou para o de 
Pinhel e d'este para o da Guarda desde 1882, 
data da ultima circumscripção diocesana. 

Até 1834 pertenceu ao termo da villa de 
Trancoso e á provedoria e comarca de Pi- 
nhel. 

Denominou-se sempre e se denomina ain- 
da hoje Villa Franca das Naves e não das 
Neves, como se lé no Diccionario Chorogra- 
phico de Bettencourt, no censo de 1878, no 
Mappa das Novas Dioceses e em varias cho- 
rographias. 

Tomou o titulo das Naves para melhor se 
distinguir das outras parochias denomina- 
das Villa Franca— e o titulo é apropriado, 
por ter ao sopé e dominar grandes planícies 
fundas ou valles abertos, a que em alguns 
pontos d'esta província dão o nome de na- 
ves í . Dentro da serra da Estrella, por exem- 
plo, vimos nós a Nave da Argenteira, de 
Santo Antonio e outras, quando ali estivemos 
com a Expedição Scientifica, em 1881. 

Também na serra da Estrella denominam 
covões as depressões mais pequenas, fundas 
e abafadas. 

Lembramo-nos do Covão do Boi, Covão da 
Vacca, Covão do Homem e Covão da Mulher, 



1 No portuguez antigo navas, campos pla- 
nos, cercados de bosques. 

Em Hespanha tornaram-se celebres as 
Navas de Tolosa pela batalha que n'ellas deu 
e grande Victoria que alcançou contra os 
mouros D. Affonso VIU de Castella, em 
1212. 



VIL 747 

alguns pittorescos e muito interessantes, no- 
meadamente o Covão do Boi, a montan te dos 
celebres cântaros Raso e Magro e contíguo 
a elles. 

Esta freguezia não tem aldeias nem quin- 
tas. É formada por uma humilde povoação 
única e compacta, mettida entre arvoredo, 
um souto de carvalhos e oliveiras, em ter- 
reno levemente accidentado, nas faldas de 
uma encosta e na sua pendente sobre a na- 
ve, onde passa a linha férrea e se ergue a 
estação de Villa Franca das Naves, vendo- 
se perfeitamente da estação. 

08 seus templos reduzem-se á egreja ma- 
triz e a uma eapella publica, ambas muito 
antigas e decentes, mas sem coisa alguma 
notável. 

A festa principal que hoje aqui se celebra 
é a de Nossa Senhora da Boa Esperança. 

BaDham esta freguezia alguns pequenos 
ribeiros, que não têem pontes nem moinhes, 
e desaguam na ribeira de Macoeime, a 5 ki- 
lometros de distancia, bem como esta no rio 
Coa — e o Coa no Douro. 

Parochias limitrophes— Maçai da Ribeira, 
Villares e Feital. 

Produeções dominantes — milho, trigo, 
centeio, batatas, vinho e lã, pois também 
cria algum gado lanígero. 

Dista 1 kilomelro da sua estação no ca- 
minho de ferro da Beira Alta,— 3 da mar- 
gem esquerda da ribeira de Maçoeime,— 15 
de Trancoso— 33 da Guarda,— 72 de Villar 
Formoso,— 183 da Figueira,— 238 do Porto 
— e 326 de Lisboa. 

Fez aqui bastantes victimas o cholera, em 
1855, e nos últimos annos o typho, — não só 
n'esta parochia, mas nas limitrophes e em 
outras muitas d'este concelho e d'este dis- 
tricto, nomeadamente em Manteigas, Folgo- 
sinho e Gouveia, o que se deve attribuir á 
falta| de limpesa das ruas, das casas e do 
povo, pois n'esta província (exceptuando as 
vilias e cidades) as ruas são estrumeiras 
propriamente dietas;— as casas são quasi to- 
das velhas, immundas,esboracadase negras, 
lobrigando-se por excepção uma ou outra 
caiada; — o povo apenas de longe em longe 



T48 VIL 

lava unicamente as mãos e o rosto,— veste 
burel ou saragoça baixa, que nunca lavam, 
formando com o uso uma crusta de esterco, 
densa e asquerosa, — e vive em intimo con- 
tacto com bois, galliuhas, cavalgaduras, por- 
cos e gado lanígero!. . . 

Em toda esta provinda, bem como na da 
Beira Alta e na de Traz-os- Montes, apenas 
por excepção se lava uma casa ou outra nas 
villas e cidades, duas ou tres vezes por an- 
nofl... 

VILLA FRANCA DO ROSARIO— aldeia ou 
sitio no concelho e comarca de Torres Ve- 
dras, província da Extremadura. 

Denominou-se Villa Franca do Rosario 
uma das 14 estações do Caminlw de ferro 
Larmanjat, que em 6 de setembro de 1873 
se inaugurou entre Lisboa e Torres Vedras, 
para se suspender passado pouco tempo,, 
com prejuízo total dos accionistas. 

Eram tão frequentes os tombos e os des- 
carrilamentos, que os passageiros preferiam 
as diligencias— e a companhia falliu ! . . . 

As outras estações eram— Campo Peque- 
no, Campo Grande, Lumiar, Nova Cintra, 
Santo Adrião, Loures, Pinheiro de Loures, 
Lousa, Venda do Pinheiro, Malveira, Villa 
Franca do Rosario, Barras, Freixofreira, 
Turcifal e Torres Vedras, 

V. vol. 9.° pag. 656, col. 1 * 

VILLA FRANCA DA SERRA-freguezia do 
concelho de Gouveia, comarca de Fornos 
d'Algodres, districto e diocese da Guarda, 
na província da Beira Baixa. 

Priorado. Orago S. Vicente martyr,— fo- 
gos 152, — almas 630— segundo os aponta- 
mentos que recebi do seu digno prior. 

O recenseamento de 1878 deu-lhe 142 fo- 
gos e 563 habitantes. 

- Em 1708 era priorado do padroado real 
— e pertencia ao termo da villa e do conce- 
lho de Linhares, provedoria e comarca da 
Guarda. Em 1768 era priorado da diocese 
de Coimbra e da apresentação da Casa do 
Infantado,— contava apenas 70 fogos— e ren- 
dia 200$000 réis. 

Em £852 pertencia ao concelho de Linha- 
res e á comarca de Celorico da Beira; mas, 
desde 24 de outubro de 1865, data da ex- 
tincção do concelho de Linhares, passou I 



VIL 

para o concelho de Gouveia e para a co- 
marca de Fornos d'Algodres, além do Mon- 
dego !. . 

O Flaviense, publicado em 
1852. menciona outra fregue- 
zia de Villa Franca, perten- 
cente á comarca de Gouveia. 

Foi lapso, pois nunca per- 
tenceu á comarca de Gouveia 
freguezia alguma com o nome 
de Villa Franca. 

Esta freguezia está situada na pendente 
N. O. da Serra da Estrella, da qual tomou 
o titulo para melhor se distinguir das outras 
freguezias do mesmo nome de Villa Franca 
(ha 3 n'este districto da Guarda)— e fica na 
margem esquerda do Mondego, do qual dista 
3 kilometros para S. E.— 5 da linha férrea 
da Beira (estação de Fornos d'Algodres) — 7 
de Fornos d'Algodres, séde da comarca, — 13 
de Gouveia pelo ramal de S. Paio ou da sua 
estação na linha da Beira,— 45 da Guarda 
pela estrada a macadam e 69 pela linha fér- 
rea,— 158 da cidade da Figueira,— 209 do 
Porto— e 321 de Lisboa. 

É formada unicamente pela povoação de 
Villa Franca da Serra, erguendo-se do lado 
norte um pequeno outeiro que a esconde ás 
vistas da séde da comarca, Fornos d'Algo- 
dres, que demora na outra margem (direi- 
ta) do Mondego. 

Comprehende apenas duas quintas — Val 
das Casas e Ponte Nova, junto do Mondego, 
onde vivem hoje 4 familias. 

As suas freguezias limitrophes são — Ca- 
bra, Mesquitella, Juncaes, Villa Ruiva, Villa 
Cortez da Estrada— e Fornos d'Algodres 
além do Mondego. 

A egreja matriz está no centro da povoa- 
ção. É templo muito antigo, mas sjngelo e 
pouco elegante. O altar mor tem boas deco- 
rações de talha dourada de merecimento ; 



1 Bpllesas da nossa divisão administrativa 
e judicial, pois a villa de Gouveia é séde de 
concelho e de comarca também, comprehen- 
dendo o concelho do seu nome e o de Man- 
teigas. 



VIL 



VIL 749 



as decorações dos altares lateraes são muito 
simples e baratas. 

A tradição diz que esta egreja foi fundada 
em tempos remotos por dois fidalgos— D. 
Ozerão ou Ozores e sua mulher D Urraca— 
que para aqui vieram viver homisiados ou 
degradados— e que não só fundaram a egre- 
ja, mas por sua morte a dotaram com todos 
os bens que aqui possuíam, legando-os para 
património ou passal do parocho e alguns 
para património da confraria do Santíssimo. 

Constituíam elles um bello passal. Com o 
decorrer dos séculos perdeu-se uma parte 
d'aquelles bens, mas ainda ultimamente, 
quando o governo mandou inventariar e 
louvar os passaes, foran\ avaliados em nove 
contos de réis—e da parte que pela lei da 
desamortisação foi vendida em hasta publica 
e averbado o seu producto em inscripções 
a favor dos parochos, recebem estes hoje 
270$000 réis de juro, annualmente. 

Com os bens legados á Confraria do San- 
tíssimo, hoje representada pela junta de pa- 
rochia, imposeram>a condição de mandar 
dizer todos os annos, no dia da festa do pa- 
droeiro S. Vicente (22 de janeiro) oito mis- 
sas resadas com dois responsos no fim de 
cada uma,— e por ultimo uma missa canta- 
da pelas almas dos instituidores, o que a 
junta de parochia, como fabriqueira e pos- 
suidora dos dictos bens, ainda actualmente 
cumpre, dando mil réis de esmola por cada 
uma das missas resadas. 

As festas principaes que hoje aqui se ce- 
lebram são a do padroeiro S. Vicente e as 
do Sautissimo Sacramento e Santo Antonio. 

Alem da egreja matriz, ha n'esta parochia 
tres capellas particulares e uma publica. 

O edifício mais* notável d'esta parochia é 
a casa de Jeronymo Henriques da Cunha, 
posto não seja brasonada. 

Este senhor é grande proprietário e muito 
progressista— e, como o penúltimo parocho 
Eduardo Cabral, fosse muito regenerador, 
travou-se entre os dois tal desintelligencia, 
que durou annos! A freguezia divictíu-se 
em dois grupos de fanáticos e praticaram-se 
os maiores excessos, desordens e persegui- 
ções entre uns e outros. 

volume x 



Esta freguezia não tem estrada alguma a 
macadam. As que mais se approximam d'ella 
são a de Mangualde a Celorico, que passa 
na distancia de 4 kilometros ao norte, pela 
margem direita do Mondego— e a de Coim- 
bra pela ponte da Murcella a Celorico tam- 
bém, que passa ao sul, na distancia de seis 
kilometros. 

Ha n'esta freguezia um penhasco impo- 
nente, denominado mazorro,—e duas aulas 
officiaes deinstrucção primaria elementar — 
uma para o sexo masculino e outra para o 
sexo feminino. 

Producções dominantes — milho, trigo, 
centeio, vinho, batatas, frueta e Ian, pois 
também. cria gado lanígero. 

Ao rev. prior d'esta freguezia agradeço os 
apontamentos que se dignou enviar-me. 

VILLA FRANCA DE XIRA — villa e fre- 
guezia, sede do concelho e da comarca do 
seu nome, distrieto e diocese (patriareha- 
do) de Lisboa, na província da Extrema- 
dura 

Urago S. Vicente Martyr,— fogos 1:1 20, 
—almas 4:9C0. 
Priorado. 

Rodrigo Mendes da Silva deu-lhe 400 fo- 
gos, em 1675,— o padre Carvalho 900, em 
1712, — João Baptista de Castro 9o0,*cm 
1758 —Paulo Dias de Nisa 387, em 1768,— 
o Flaviense 1:017, em 1852,— J. A. d Almei- 
da 1:116, em 1866— e o censo de 1878 deu- 
lhe 1:041 fogos e 4:204 habitantes. 

Esta risonha e populosa villa, sem contes- 
tação hoje uma das mais importantes da 
Extremadura e de todo o nosso paiz, está 



1 Desde já peço desculpa dos lapsos e 
omissões, porque nunca visitei Villa Fran- 
ca de Xira. Apenas a tenho visto a vola^oi- 
sean da linha férrea muitas vezes, desde 
1858, data em que, vivendo em Lamego, fui 
pela primeira vez a Lisboa, achando-se ainda 
ao tempo aberta á circulação a linha férrea 
do norte apenas até o Carregado. 

Peço também desde já a todos quántos 
conheçam esta importante villa— nomeada- 
mente aos seus illustrados habitantes— me 
indiquem os lapsos e omissões para os re- 
parar no supplemenlo. 

48 



750 VIL 



VIL 



muito vantajosamente situada a 38 gr. e 57 
m. de longitude e 9 gr. e 20 m. de latitude *, 
em mimosa e fértil planície, no clássico Ri- 
ba-Tejo, na margem direita do rio d'este no- 
me, dominando as afamadas Lezírias, que 
se estendem desde a Ponte da Herva, junto 
de Alhandra, até á Bocca do Vau, defronte 
da Azambuja, sendo limitadas a S. e E. pelo 
rio de Samora Corrêa e a N. e O. pelo Te- 
jo, medindo ao todo cerca de 68 milhas 
quadradas e produzindo approximadamen* 
te milhão e meio de litros de cereaes, 
alem de crearem muito gado bovino e ca- 
vallar. 

Tem uma só freguezia, cujo prior é vigá- 
rio da vara. Pertenceu á comarca de Tor- 
res Vedras; foi do padroado real e commen- 
da da ordem de Christo, da casa dos mar- 
quezes d'Arronches; e em 1768 o seu paro- 
cho era vigário da apresentação^do padroa- 
do real e recebia quatro moios e meio de 
trigo, uma pipa de vinho, cinco cântaros 
d'azeite e oitenta e cinco mil réis em di- 
nheiro, afóra o pé d'altar. 

Dista de Alhandra 5 kilometros, 6 do car- 
regado, 16 da Azambuja, 31 de Lisboa, 44 
de Santarém, 306 do Porto, 351 de Braga e 
436 de Valença do Minho. 

Comprehende além da villa a povoação de 
A dos Bispos, — os casaes de Prilhão da 
Matta, Conde, Baposa, Carvalheira, Manuel 
Luiz, Fonte de Baixo, José de Pinho ou do 
Fidalgo, José da Casa, João Francisco, Ma- 
nuel Bamos, Manuel Alves ou do Tivoli, Pe- 
dra, Santo Amaro, Bemedios, Novo da Es- 
trada, Novo do Prilhão, Palyart, Prilhão da 
Estrada e Boa Vista ;--as quintas de Paraíso 
Sevadeiro, Torres, Santa Catharina, Borra- 
cho, Salgado, Fonte, Prilhão da Matta, Des- 
terro, Bom Betiro, Pinheiro ou do Palyart, 
Farrobo, Secta e Bairro;— as vinhas de José 
Maria Ogando, Cerquinha, Corrieiro, Torn- 
eada, Bolonha, Caracol de Cima, Baeta, Bar- 
reteira, Santa Sophia, Lameiros, Boa Vista, 
Corvo, Marromeiro, Bom Proveito, Bolhão, 
Leal, Torre, Torrinha, S. João, Fonseca, 



1 Mappa de Portugal de J. B. de Castro. 



Provella, Monte Gordo, Serralheira, Ginja, 
Baeello de Pontével, Barrada, Barrão, Con- 
feiteira, Pedra Furada— e os moinhos d' Al- 
berto Affonso e da Boa Vista? ! . . . 

Nole-se que além dos elegantes palacetes 
alvos de neve, que abundam na villa, cer- 
cados de formosos jardins, quasi todos os 
casaes, quintas e vinhas que mencionámos 
teem vastos edifícios para os caseiros e jor- 
naleiros, armazéns e mais dependências e 
alguns também casas nobres em que vivem 
temporária ou permanentemente os seus 
proprietários. 

Todo este magestoso e esplendido conjun- 
cto fórma o que se chama Villa Franca de 
Xira— ou Villa Franca dos mattos e silvedos 
—porque a palavra xira no portuguez an- 
tigo eira vem do arábico xara e significa 
mata, brenha, logar cheio de silvas e mata- 
gaes. 

«Á direita do Tejo, e cinco legpas de Lis- 
boa (diz\Fr. Joaquim de Santa Bosa de Vi- 
terbo no seu Elucidário) havia uma dilatada 
eira ou mata, que el rei D. Sancho I doou a 
D. Baulino, e outros flamengos no anno de 
1200 para ali se estabelecerem, e com as 
maiores franquia?. Parece não fizeram largos 
progressos, e que havendo roteado alguma 
pequena parte, a dimittiram á corôa, pois 
no de 1206 o mesmo rei fez doação da sua 
villa de Villa Franca de Cira (que hoje 
dizem Xira) a D. Fruilla, ou Froilhe Her- 
miges, pelos muitos serviços que lhe tinha 
feito.» 

No anno de 1228 a mesma sr." D. Froi- 
lhe doou esta sua Villa Franca de Cira, 
então simples quinta, quinta ou casal, e ou- 
tros muitos bens que ppssuia em Portugal, 
Leão e Castella aos templários, pelos ser- 
viços que tinha recebido e esperava re- 
ceber d'elles. (Doe. de Thomar) E nos 
Concílios de Hespanha por Aguirre (to- 
mo 3.° fl. 168) em uma escriptura do 
mosteiro d'el Pino se lê o seguinte, que 
prova claramente ser então eira synoni- 
mo de mata:— Et concluide per illa se- 
mita antiqua . . . usque Cira de Lupos — 
ou em vulgar: E vae pela estrada ve- 



VIL 



VIL 751 



lha... até á povoação de Cera ou Mata de 
Lobos i . 

Ignoramos quando e por quem foi primi- 
tivamente fundada esta povoação. O que sa- 
bemos é que, em virtude das guerras d'ex- 
terminio que assolaram e despovoaram a 
península, já na lucta entre os seus antigos 
habitantes e os phmicios. gregos, cartagi- 
nezes e romanos, ja entre estes e os bárba- 
ros do norte, já entre os godos e árabes e 
entre os árabes e portuguezes, ella se achava 
deserta e convertida em montes e silvedos, 
quando D. Alfonso Henriques tomou Lisboa 
aos mouros em H47, com o auxilio dos cru- 
sados de diversas nações. 

A prova está em que na distribuição que 
D. Alfonso Henriques fez das terras circum- 
visinhas de Lisboa pelos crusados que o 
ajudaram na conquista, dando esta villaaos 
soldados inglezes, a denominou Xira, Cira, 
Cera ou monte inculto, nome que os ingle- 
zes substituíram pelo de Cornwalia, por se- 
rem oriundos de Curnwall, na Inglaterra. 
Prevaleceu, porem, o de Xira, porque» os 
inglezes pouco tempo a oceuparam e mal 
arrotearam as suas brenhas, — e o de Villa 
Franca em rasão dos muitos privilégios e 
franquias qne os nossos reis lhe concede- 
ram. 

Foi-lhe dado o seu primeiro foral por D. 
Fruilla ou Froylhe Ermiges, em novembro 
de 1212. 

Maço 3 de Foraes antigos, n. 08 12 e 13; 
— Gaveta 7, Maço 11, n.° 7— e Livro de Mes- 
trados, fl. 70, v. col. 1." 

N'este foral, entre outras coisas, se lê : 
Huum petintal, e dous spetaleiros, e dous 
ploeiros, mando que hajam foro de Cava- 
leiro. 

Petintal era carpinteiro da Ribeira, cala- 



1 V. Cira no Elucidário de Viterbo. 

D. Froilhe H< j rmigey era viuva e familiar 
da ordem do Templo, -vivia no convento de 
Fontearcadn, bisp ido do Porto— e, por morte 
d'um seu filho único, ricou riquíssima ! 

Ainda no atino de 12:59 deu aos templá- 
rios muitas herdades e egrejas nos bispa- 
dos de Lamego, Braga e Coimbra. 



fate ou constructor de todo o género de em- 
barcações, segundo se lê no Elucidário de 
Viterbo, mas João Pedro Ribeiro diz que era 
official do mar. 

No mesmo foral se lê o seguinte : 

O Coelheiro, que fôr á soieira, e hi ficar, 
déé de foro huum coelho com a sua pelle. 

Isto prova que ao tempo esta, como ou- 
tras muitas terras do nosso paiz, se achava 
inculta, pelo que os seus habitantes costu- 
mavam exercer a profissão de caçadores por 
industria e negocio. 

Teve também esta villa foral novo, dado 
em Santarém por D. Manuel, com data de 
1 de junho de 1510, confirmando e amplian- 
do o foral velho. 

Livro de Foraes Novos da Extremadura, 
fl. 45, col. 1." 

Mas deixemos a velha Villa Franca de 
Cira, dos silvedos e coelheiros e fallemos da 
villa actual, que bem pôde denominar-se 
Jardins de Villa Franca. 

Entre as suas vastas e riquíssimas pro- 
priedades, muito summariamente indicadas 
supra, alem das afamadas Lezírias, cuja 
companhia só no celleiro d'esta villa cos- 
tuma recolher mais de 1.200:000 litros de 
cereaes, merecem especial menção as quin- 
tas seguintes : 

i*— Quinta do Paraíso, onde nasceu em 
1453 D. Affonso d' Albuquerque, o grande. 
É hoje de Antonio de Sousa e Mello. 

Para evitarmos repetições veja-se neste 
n'este diccionario o artigo Paraizo, vol. 6.° 
pag. 472, coi. 2. a — no artigo Lisboa o tópico 
em que se fallou da Casa dos Bicos, 4.° vol. 
pag. 140, col. l -a — e no supplemento a este 
artigo Villa Franca o tópico das pessoas no- 
táveis, onde daremos ao grande D. Affonso 
d'Albuquerque o logar d'honra, que bem 
merece. 

2. *— Quinta de Palyart, hoje de D. Ma- 
nuel Telles da Gama, descendente do gran- 
de Vasco da Gama, descobridor da índia. 

3. "— Quinta do Farrobo— com um palácio 
esplendido, mandado edificar pelo grande 
capitalista barão de Quintella. Deu o titulo 
de i.° conde de Farrobo ao mesmo barão è 
pertence ainda hoje aos seus herdeiros. 



752 



VIL 



VIL 



i. a Das Torres, com um soberbo palácio 
também. 

Foi do mesmo barão de Quintella e é 
hoje do conde da Torre de Novahes, hespa- 
nhol i. 

o. a — Desterro, pertencente á firma com- 
mercjal da Viuva Lima Sf Filhos, de Lisboa. 

ô. a — Casal do Linheiro, pertencente a D. 
Amália AÍTouso de Carvalho, de Villa Franca 
de Xira. 

Além d'estas, são também muito impor- 
tantes as quintas do Borrecho, Sevadeira, 
Seda e outras. 

Ha também nos limites d'esta parochia 
(ou d'este coocelho) uma propriedade deno- 
minada Quintinha, pertencente ao visconde 
de Coru.-he e n'ella uma nascente d'agua 
sulfúrea, muito própria para o tractamento 
de moléstias cutâneas e como tal reconhe- 
cida ha muito. 

D'aquellas aguas miraculosas costumam 
fazer uso em banhos muitas pessoas, por 
concessão especial do mesmo sr. visconde. 

Freguezias limitrophes— Povos, ao nas- 
cente,— Cachoeiras, ao norte,— S. João dos 
Montes e Alhandra, ao poente,— e rio de Sa- 
mora Correia, ao sul. 

Atravessam esta freguezia a linha férrea 
do norte —a estrada real a macadam de Lis- 
boa ao Porto— e outra d'esta villa, pelo Far- 
robo, a Santo Antonio da Castanheira. 
• A linha férrea tem aqui a sua 7. a estação, 
partindo de Lisboa. 

Poucas terras do nosso paiz teem tão boas 
vias de eommunicaçâo, pois alem das men- 
cionadas aceresce um esteiro ou caes que a 
liga ao Tejo, com bastante movimento de fa- 
luas e barcos de toda a ordem, que nave- 
gara entre uma e a outra margem do grande 
rio,- entre Lisboa e Alcantara, cerca de 40 
kilometros a montante de Villa Velha de 
Rodam 2 — e entre todas as povoações mar* 



1 Veja-se o art. Farrobo, vol. 3.° pag. 151, 
col. I a e reetifique-se o que ali se lé com ô 
que I vamos exposto, 

2 V. Tejo, vol. 9.» pag. 525, col. I a onde 
por lapso dissemos que este rio é hoje na- 
vegável até Villa Velha de Rodam somente. 



ginaes intermédias, sendo para lamentar a 
falta de policia e regulamentos com relação 
a esses barcos e falúas, o que tem dado lo- 
gar a muitos naufrágios e perdas de vidas 
e, mercadorias. 

Em 29 de junho de 1874, por exemplo, 
naufragou um barco nas aguas d'esta villa, 
perecendo Manuel de Mesquita, muito esti- 
mado por todos, e sete raparigas que eram 
a flor de Villa Franca;-poucos annos an- 
tes se haviam submergido também aqui 
dois barcos, um da Povoa e outro d'esta 
villa, morrendo varias pessoas;— mas, de to- 
dos os naufrágios que Villa Franca tem pre- 
senceado n'este século, o mais luctuoso foi 
o que teve logar no dia 26 de maio de 1875. 

Partia do Carregado uma falua com mer- 
cadorias para Lisboa, e, achando-se ali mui- 
tas pessoas que desejavam ir ver a procis- 
são do Corpo de Deus, o falueiro offereceu- 
Ihes passagem pela modicidade de 100 
réis ? ! . . . 

Entulhou-se immediatamente a falua, mas 
por infelicidade, indo á vela e soprando 
vento rijo, voltou-se com uma rajada e sos- 
sobrou entre esta villa e a da Castanheira. 

De cento e tantas pessoas que iam abor- 
do pereceram mais de sessenta ! 

Acudiram vários barcos e salvaram alguns 
dos passageiros, mas os que iam debaixo da 
coberta e que constituíam o maior numero, 
pereceram todos ! . . . 

Imagine-se a affliclíva situação d'aquelles 
desgraçados, sem ar, vendo a agua precipi- 
tar-se sobre elles pela escotilha, debatendo- 
se em vão_, soltando inutilmente dolorosos 
•| gritos, sem poderem respirar, sem poderem 
ser ouvidos, sem esperança de se salvarem, 
e fazer se- ha idéa da suprema agonia d'a- 
quèlles infelizes e do quadro horroroso de 
tão angustiosa scena ! . . . 

«Era um espectáculo verdadeiramente 
afflictivo (diz um correspondente do Diário 
Illuslrado) ver as innumeras pessoas que 



Vao ainda hoje (1885) muitos barcos até 
Alcantara, povoação hespanhola, donde cos- 
tumam conduzir para Lisboa grande quan- 
tidade de minério, alem d'outros artigos. 



VIL 



VIL 753 



corriam banhadas era lagrimas junto ao lo- 
gar do sinistro, procurando no meio de es- 
pantosos gritos um.is o marido, outras o pae, 
o irmão e os filhos, e poueo distantes, alguns 
dos naufrago?, debatendo-se com as ondas 1 

Uma rapariga de 15 annos, dos arredores 
de Alemquer, teve a rara coragem de se. 
agarrar ao mastro e de subir por elle á me- 
dida que o barco se ia afundando, esperan* 
do no topo que alguém a salvasse conjun- 
ctamente com tres ou quatro desgraçados 
que a ella se agarraram. 

Ao vér já perlo a lancha, que foi em seu 
auxilio, não esperou que ella se aproximas- 
se; lançou-se á agua e foi salva felizmente 
com aquelles que a acompanharam.» 

Esta villa, como pode vér-se na gravura 
que o Diário Illustrado de 13 de junho de 
1876 publicou, acompanhada de uma ligei- 
ra deseripção, e como nós temos visto da li- 
nha férrea muitas vezes, tem um aspecto se- 
nhoril e pittoresco, — bons largos, praças e 
ruas, — vistosos palacetes e formosos jardins. 

Alem da Praça, que fórma o coração da 
villa, são dignos de especial menção os lar- 
gos do Conde de Ferreira, do Espirito Santo, 
de S. Sebastião, do Sapal e do Campo da 
Feira. 

As suas ruas prineipaes hoje são — Di- 
reita, Ribeira, Alegrete, Corredoura, Nova, 
Ribeiro, de Baixo e das Pedras. 

Dos seus edifícios mencionaremos apenas 
os seguintes: 

Na Praça os paços do concelho e a cadeia, 
fundados em 1773 e conservando ainda em 
rente o vetusto pelourinho. 

Nas Cidades e Villas . . . que teem brasão 
d'armas, — interessantíssima publicação do 
meu bom amigo e mestre, o sr. Ignacio de 
Vilhena Barbosa, não se encontra o brasão 
d'armas d'esta villa, nem no archivo da 
Torre do Tombo, mas, segundo lemos algu- 
res, o seu brasão é o dos condes de Pom- 
beiro, antigos alcaides móres d'esta villa,— 
em campo branco um leão rompente de ouro. 

— Na rua Direita o palacete que foi do 
morgado Baracho Saccotto Encerrabodes e 
que é hoje de Antonio Franeisco de Jesus. 

— Na rua de S. Francisco o grande edi- 



fício da Ordem Terceira do Carmo, qu e per- 
tenceu aos abastados lavradores Apparicios. 

—Na rua da Barroca o grande prédio man- 
dado edificar pelo nobre eriço lavrador Basi- 
lio Lopes da Guerra Pertence actualmente 
a Joaquim Ambrósio da Fonseca Esguelha. 

— Na rua Nova o palacete que foi do ca- 
pitão mór José - Pereira de Sousa. Ê hoje da 
viuva Esguelha. 

—Na rua da Ribeira o palaceteondeaclual- 
mente se acham montados o tribunal judi- 
cial, a administração do concelho, a repar- 
tição de fazenda, etc. 

Foi rezideneia do capitão de ordenanças 
José Carlos de Sousa e é hoje de Antonio 
Pereira Caldas. 

—Na rua do Caes o palácio que foi da 
nobre família Garcez Palha e que depois per- 
tenceu a José Maria Pereira. 

É hoje de Luiz Antonio de Sousa. 

Em 1820 foi este palácio aposentadoria do 
supremo governo de Portugal, generaes, etc. 

—No largo de S. Sebastião o palácio do 
barão de Villa Franca, hoje do seu neto Mi- 
guel José de Sousa. 

N'este palácio residiu D. João VI em- 
quanto esteve n'esta villa, no anno de 1823, 
porjjoecasião da famosa campanha da poeira 
ou Villafrancada. 2 

1 N'esta província da Extremadura, bem 
como na do Alemtejo e no Alto Douro, de- 
nominam-se lavradores os proprietários, 
por vezes cavalheiros distinelissimos, fidal- 
gos da primeira linhagem. 

2 Depois de abolir a constituição que ju- 
rara, regressou a Lisboa, no dia 5 de junho 
do mesmo anno. Foi tal o enlhusiasmo dos 
absolutistas que alguns em Arroyos despren- 
deram os cavallos do coche real e tiles pró- 
prios o conduziram. Celebrou-se depois Te 
Deum pelo restabelecimento dos í/íVtófmwatí- 
feriveis e houve grandes demonstrações de 
regosijo publico. 

Mitigaram a sua dôr os liberaes d'aquelle 
tempo fazendo publicar na Gazeta de Lisboa, 
n.° 138 de 12 de junho do mesmo anno, o 
annuncio seguinte : 

tPara o dia 25 do corrente mez se hão de 
arrematar em hasta publica umas parelhas 
de bestas que puxaram o carrinho d'el-rei, 
quando mudou de bestas em Arroyos.» 

Prelúdios do drama que ensanguentou 
Portugal e terminou em Evora-Monle, no 
dia 27 d*abril de 1834. 



754 VIL 



VIL 



Além (Testes edifícios são ainda impor- 
tantes — os hospilaes da Misericórdia e da 
Caridade, a casa de Miguel Antonio de Sou- 
sa e Mello, na rua Direita,— a da viuva Pi- 
res, na rua do Caes,— a de Jeronymo José 
Monteiro, na Praça, — a de Antonio José 
Baeta, na rua do Alegrete — e o grande Ce- 
leiro da Companhia das Lezírias, onde cos- 
tuma ter em deposito um a dois milhões de 
litros de cereaes ? t 

Tudo isto somente na villa, não contando 
os palacetes disseminados pelo seu termo. 

Esta villa, por e^tar em planície, nunca 
foi murada ou fortificada. 

Também não teve conventos. Apenas hou- 
ve aqui um hospício de frades (ignoramos 
de que ordem) na quinta assim denominada. 

Pertence a Joaquim Ambrósio da Fonse- 
ca Esguelha e está bem conservado ainda. 

Os templos d'esta villa são— a sua egreja 
parochial, feita pela Ordem Terceira de S. 
Francisco, em 1677,— a egreja da Mizericor- 
dia, pertencente á irmandade d'este titulo, 
—a do Senhor Jezus dos Incuráveis, perten- 
cente á confraria do Hospital da Caridade, 
— a capella de S. Sebastião, pertencente ao 
município, — e os santuários da Ordem Ter- 
ceira do Carmo e da de S. Francisco. 

Todes estes templos se acham limpos, bem 
tratados e bem conservados. 

As festas principaes que hoje aqui se ce- 
lebram são as da Semana Santa e da Qua- 
resma e as das confrarias de Nossa Senhora 
da Purificação e Assumpção. 

Ha também no termo d'esta parochia dif- 
ferentes capellas publicas e particulares. A 
Chorographia Portugueza menciona ao todo 
as seguintes:— Nossa Senhora dos Remédios, 
Santa Sophia, Santo Amaro, Senhora das 
Mercês, S. Sebastião e Senhora do Desterro. 

Foram alcaides mores d'esta villa os con- 
des de Pombeiro, pela casa de Bellas— e até 
1834 tinha um juiz de fóra, 3 vereadores, 1 
procurador do concelho, 1 escrivão da ca- 
mará, 1 juiz dos órfãos com os seus officiaes, 
1 capitão mor, 1 inquiridor, 1 distribuidor, 
1 contador, 1 alcaide e 3 escrivães do judi- 
cial e notas. 



Tem uma feira annual, que dura 4 dias, 
principiando no 1.° domingo d'outubro. Em 
outros tempos foi franca, e tão privilegiada 
como as de Vizeu e de Trancoso. Data de 
tempos remotos, pois já Rodrigo Mendes da 
Silva a mencionou em 1675. 

J. A. d'Almeida no seu Diccionario abre- 
viado disse que havia aqui outra feira an- 
nual de tres dias, começando no 3. e domin- 
go de maio,— e o sr. João Maria Baptista na 
sua Chorographia Moderna, copiando J. A. 
d'Almeida, disse o mesmo; creio porem que 
ambos se enganaram, porque os apontamen- 
tos que recebi do próprio administrador 
à" este concelho, a quem beijo as mãos agra- 
decido, não mencionam tal fe?ra. 

Tem a villa estação telegrapho-postal; — 
diversas hospedarias muito decentes, sendo 
superior a todas a que se acha contigua á es- 
tação do caminho de ferro, pois tem sala com 
piano, bilhar e bons quartos;— uma Associa- 
ção fraternal de artistas Villafranquense; — 
dois hospitae*, um da Mizerkordia, outro da 
Caridade, e duas escolas officiaes de instruc- 
ção primaria elementar para os dois sexos. 
No anno ultimo estava prestes a crear-se 
(não sei se já se creou) outra escola official 
de ensino complementar,— e teve em 1876- 
1877 (não sabemos se tem ainda hoje) um 
Collegio de instrucção primaria e secundaria 
dirigido pelo rev. João Antonio Simões, em 
que se leccionava instrucção primaria, o 
curso completo de portuguez (3 annos) geo- 
graphia, chronologia e historia, introducção 
aos tres reinos, chimiea, physica, etc. 

Ha também n'esta villa um club com dois 
bilhares, — dois theatros de pequenas dimen- 
sões, mas muito elegantes, em que os ama- 
dores e artistas costumam dar frequentes 
recitas,— e uma boa praça de touros, em 
que òs afamados touros do Ribu-Tejo ou da 
borda d'agua, que são de raça pura, costu- 
mam fazer proesas e o encanto dos amado- 
res dos divertimentos tauromachicos. 

Ahi vae uma amostrinha do panno — e 
bem recente : 

Quando no dia 14 de setembro ultimo 
(1884) era conduzida para a praça d'esta 
villa uma manada de touros, tresmalhou-se 



VIL 

ura— e seguindo direito ao pelourinho, alli 
varou com as pontas dois homens. Ura d'el- 
les, de 82 annos, morreu poueo depois — e 
outro ficou em misero estado I . . . 

Digam os caturras o que muito bem qui- 
zerem,— não ha divertimento mais innocenle 
nem mais. civilisador ; mas as touradas em 
Portugal nunca valeram um caracol. Tou- 
radas brilhantes são as de Sevilha e de Ma- 
drid, onde o sangue e as tripas dos touros, 
dos cavallos e por vezes também dos capi- 
nhas e cavalleiros, enchem lateralmente as 
praças. 

Em outubro de 1880 assistimos nós em 
Madrid a uma, que nos deixou as mais gra- 
tas recordações. 

Em menos de 3 horas foram espatifados 
8 touros e 22 cavallos, ao som das ruidosas 
ovações de 19:000 espectadores i,— homens, 
muíheres e creanças*de todas a cathegorias, 
incluindo S. M. calholica o sr. D. Affonso, 
duas irmãs e varias damas e fidalgos da sua 
corte 2 . 

Hurrah pela Hespanha!. . . 

Esta freguezia no momento atravessa um 
período excepcional de prcsperidade, porque, 
alem do negocio importante que sempre fez 
com Lisboa, cria muito gado bovino, suino 
e cavallar — e produz muita fructa, muita 
uva d'embarque, muito azeite e sobre tudo— 
muitos cereaes e muito vinho, encontrando 
venda fácil e remuneradora para todas as 
suas producções. 

Em todo o nosso paiz é hoje esta a fre- 
guezia que produz maior quantidade de ce- 
reaes. 

Só a Companhia das Lezírias colhe an- 
nualmente cerca de milhão e meio de litros 



1 É de 19:000 logares a lotação da gran- 
de praça de touros— e estava litteralmente 

Nunca vi espectáculo tão estúpido, tão 
bárbaro, tão sangrento e revoltante. 

Uma vez a Cascaes, — uma vez e nao 
mais ! . . . 

2 Já estivemos em Badajoz também, na 
ante-vespera d'uma grande tourada e da 
execução de dois salteadores, achando se a 
forca já erguida no mesmo campo^ da praça 
de touros e a pequena distancia d'etla ?t... 



VIL 755 

de trigo, milho, cevada e centeio, sendo para 
lamentar os destroços e prejuízos que as en- 
chentes do Tejo causam nas suas afamadas 
Lezírias, alguns annos. Ainda em abril ulti- 
mo soffrcu prfjaizos avaliados em oitenta 
contos e não foram talvez menores os que 
soffreu com as inundações em dezembro de 
1876, pois não ha memoria de maiores inun- 
dações ao sul do nosso paiz, tanto nas mar- 
gens do Tejo, como nas do Guadiana. 

É pois muito importante a producção ce- 
realífera d'esta parochia, mas hoje é muito 
mais importante a sua producção vinícola. 

Depois que o maldito phyloxera aniqui- 
lou os vinhedos do Alto Douro, que eram a 
a riqueza e orgulho de Portugal e que pro- 
duziam o famoso Port Wine, inveja do mun- 
do inteiro, 1 a nossa primeira região vinícola 
é sem contestação a província da Extrema- 
dura, na qual se compreheudem e occupam 
logar distincto este concelho e esta parochia 
de Villa Franca. 

Exceptuando os seus terrenos alagadiços, 
hoje muito bem cultivados e aproveitados 
pela Companhia das Lezírias, todos os ou- 
tros,— valles, encostas e montes,— estão lit- 
teralmente cobertos ^ie luxuosos vinhedos 
que produzem milhares de pipas de vinho, 
sendo nos últimos annos quasi todo com- 
prado a bom preço pela França, para sup- 
prir cora elle a falta dos viuhos próprios» 
depois que o phylloxera invadiu e destroçou 
grande parte dos seus vinhedos —em quanto 
que, por fortuna, até hoje (1885) tem pou- 
pado os nossos vinhedos da Beira, Bairrada, 
Estremadura, Alemtejo e Algarve,— embora 
achem se infelizmente já todos manchados e 
ameaçados pela mesma epidemia!. . . 

Nunca a província da Estremadura pro- 
duziu tanto vinho nem o vendeu tão facil- 
mente e apurou tanto dinheiro como na 
actualidade! 

Tem muitoã proprietários que colhem uma 
a duas mil pipas por anno— e ura no conce- 
lho de Óbidos, o sr. Francisco Bomeiro da 
Fonseca, da aldeia do Sanguinhal— que è 



I i V. Villa Flor de Traz- os Montes, VMari- 
| nho de Cottas—e Villa Formosa. 



756 VIL 



VIL 



hoje absolutamente o maior colheiteiro de vi- 
nho em Portugal—e talvez na península!... 

Colhe seis a sete mil pipas por armo em 
propriedades suas e costuma comprar para 
negocio nove a dez mil e por vezes mais 
ainda!?. . . 1 

Tem esta freguezia grandes montes sendo 
o maior denominado Monte Gordo, enci- 
mado por 3 moinhos de vento. Ha n'elle 
grandes cavernas, muito dignas de serem vi- 
sitadas, e do seu cume se gosa um panora- 
ma encantador, largo horisonte e vistas es- 
plendidas sobre o Tejo, arredores de Villa 
Franca, Povos, Caehoeiras, Alhandra, etc. 

No alto d'este monte, antes da invenção 
dos telegraphos eléctricos, esteve uma esta- 
ção telegraphica do systema antigo (madei- 
ra), ^que foi incendiada em 1837 pelas for- 
ças do general, depois marechal e duque 
de Saldanha. 

Ha n'esta freguezia uma fabrica de cintas 
que produz grande quantidade d'estes arti- 
gos, muito usados na Extremadura, nomea 
damente no Riba-Tejo,—e uma outra de 
moagem a vapor, cujas machinas estão pa- 
radas, ha muito. 

Banham esta freguezia o Tejo e o ribeiro 
de Barbas de Bode, que tem tres pequenas 
pontes. 

Em 1807, mandando a camará concertar 
a estrada publica d'esta villa para a povoa- 
ção de A dos Bispos, ao cortar-se um cômoro 
no sitio denominado a Torre, encontrou-se 
um vaso de barro, tapado com um tijolo. 
Os trabalhadores partiram-n'o para verem 
o que continha e para que n;lo ficasse com 
elle um só. No. mesmo momento se espalha- 
ram pelo chão muitas moedas romanas, de 
differentes epochas, pertencendo a maioria 

baixo império. 



1 A pipa é de 27 almudes ou 486 litros. 

O grande proprietário e negociante Fran- 
cisco Romeiro da Fonseca mora na aldeia 
do Sanguinhal, freguezia do Senhor Jesus 
(outr'ora de S. Pedro) do Carvalhal, concelho 
d Óbidos, onde tem varias quintas, bem co- 
mo nos concelhos da Lourinhã, Caldas da 
Rainha, Cadaval e Torres Vedras. 



No mesmo vaso se encontrou também um 
annel d'ouro com um camafeu, tendo gra- 
vado um corço fugindo a um cão. Era qua- 
drilongo, medindo de comprimento uma po- 
legada e de largura 8 linhas. 

O rev. Luiz Duarte Villela foi o primeiro 
que observou „as medalhas; — escolheu as 
mais antigas— e comprou por 1#2Q0 réis o 
annel ao trabalhador que o possuia. 

O mesmo Villela examinou e classificou as 
dietas moedas e escreveu sobre o assumpto 
uma Memoria que enviou á Academia Real 
das Sciencias de Lisboa, pelo que esta o pre- 
miou com uma medalha especial. 

Offereceu o annel ao distiricto archeologo 
D. fr. Manuel do Senaculo, arcebispo devo- 
ra. Revista Universal Lisbonense, tomo 4.° 
n.° 15, pag. 175 a 177. 

Junto da capella de S. Sebastião, na ex- 
tremidade d'esta villa e sobre a estrada real, 
se vê uma lapide também bastante antiga. 

Pertence ao reinado de D. Sebastião (1557- 
1578). 

Esta formosa villa não é muito saudável 
por estar em planície baixa, poucos metros 
superior ao nivel do Tejo e em intimo con- 
tacto com as grandes Lezírias, que, apezar 
da sua belleza e riqueza, são pantanosas. 
^,São triviaes aqui no verão as febres inter- 
mittentes— e, desde abril até agosto de 1833, 
foi esta villa cruelmente açoutada pelo cho- 
lera, fazendo grande numero de victimas; 
comtudo não rareiam entre os seus habitan- 
tes pessoas de longa edade. Ainda ern setem- 
bro de 1883, por exemplo, aqui falleeeu Flo- 
rinda Rosa, contando a bagatellade 104 an- 
nos 1 . . . 

Quem hoje defrontar com esta villa, tão 
alegre e tão risonha, contemplando dèscui- 
dosa os encantos e a magestade do Tejo e 
dos seus vastos jardins das Lezírias, sauda- 
da a todo o instante pelos hurrahs do pro- 
gresso, o silvo das locomotoras, e por milha- 
res de viajantes e forasteiros, mal imagina 
o que ella tem soffrido! 

Sem remontarmos aos tempos em que as 
guerras a converteram em xira ou monte 
inculto, ainda na primeira metade d'este se 



VIL 



VIL 



757 



culo passou duras privações efoi cruelmente 
flagellada pela peste, fome e guerra, que- di- 
zimaram a sua população e, se a Deus não 
prouvera dar-nos a paz octaviana que feliz- 
mente gosamos desde 1848, esta gentil flor 
da Borda tfagua, princesa do Riba-Tejo, vol- 
veria a ser a ocira d'outras eras,— silvado, 
brenha, monte inculto. 

Soffreu muito,— roubos, incêndios/depre- 
dações, violações e mortes— com as tres in- 
vasões francezas, nomeadamente com a ul- 
tima, por estar em contacto com Lisboa e 
com as linhas de Torres Vedras 1 — e por ser 
atravessada pela primeira estrada militar do 
nosso paiz, o que n'.aquel!es tempos era y,ma 
verdadeira pragal . . . 

Suffreu também muito com as guerras ci- 
vis posteriores até 1847 e em 1833 com o 
flagello do cholera. 

Felizmente, desde o principio da 2. a me- 
tade d'e*te século volveu á vida com a paz 
e liberdade que temos gosado e com os as- 
sombrosos progressos que n'aquella data se 
iniciaram entre nós e que fizeram de Portu- 
gal um jardim á beira-mar plantado, sendo 
esta formosa villa uma das suas mais mimo- 
sas flores 2 . 

Comprehende este concelho as 9 fregue- 
zias seguintes : — Alhandra, Alverca, Ca- 
choeiras, Calhandriz, Castanheira, Povoa de 
Santa Iria,, Povos, S. João dos Montes e 
Villa Franca de Xira com a população to- 
tal de 3:178 fogo3 e 13:003 habitantes— se- 
gundo o ultimo censo, de 1878, mas a sua 
população tem augmentado consideravel- 
mente. 

Superfície, em hectares 19:481 

Prédios iuscriptos na matriz ♦ 6:402 

Com rasão se orgulha esta formosa villa 
de haver em todos os tempos produzido 
muitas pessoas notáveis pelas armas, virtu- 
des e lettras. 



1 V. vol. 9.° pag 631, col. 1.» e seg. 

2 Para se avaliar a sua riqueza, note-se 
que hoje o seu rendimento collectavel se 
approxima de 170.000^000 de réis !?. . . 



Podíamos e bem desejávamos dar aqui 
uma extensa lista d'essas pessoas, desde o 
grande D, Affonso d'Albuquerque, famoso 
vicerei da índia, até o nobre marechal de 
campo, actualmente provedor e' director da 
Asylo dos Inválidos de Runa; mas, para hão 
abusarmos da paciência dos leitores e dos 
editores, no supplemento daremos essa tão 
longa como interessante lista. 

VILLA FRESCA D'AZEITÀO — freguezla 
do concelho e comarca de Setúbal, districto 
e diocese de Lisboa na província da Extre- 
madura. 

Orago S. Simão,— fogos 286,— habitantes 
1:076, pelo ultimo recenseamento. 
Priorado. 

Temos em nosso poder interessantíssimos 
apontamentos, muito generosamente forae- 
cidos pelo sr. Antonio Maria de Oliveira 
Parreira, que nos habilitavam para darmos» 
como era intenção nossa, um longo e varia- 
do art go com relação a esta parochia e ou- 
tro com relação á de Villa Nogueira, sua 
limítrophe, tão cheias de palácios e de re- 
cordações históricas; somos, porem, forçados 
a aligeirar e resumir, para vermos se fecha- 
mos o diccionario com este 10.° volume, e 
por isso reservamos aquelles dois artigos 
para o supplemento, pedindo desculpa aos 
leitores e ao sr. Antonio Maria de Oliveira 
Parreira, a quem mais uma vez beijamos as 
mãos agradecido pela sua relevante finesa. 

EQtretanto remettemos os leitores para o 
art. Azeitão, onde, embora muito superficial- 
mente, já se fallou d'esta parochia. 

V. Azeitão ou Villa Fresca d' Azeitão, vol. 
l.° pag. 289, n'esle diccionario— e Azeitão 
no Diccionario Universal Portuguez, onde se 
encontra um excellente artigo, devido á 
mesma penna do meu illustrado informa- 
dor. 

VILLA FRES CAINHA (orago S. Martinho) 
— freguezia do concelho e comarca de Baf- 
cellos, districto e diocese de Braga, na pro- 
víncia do Minho. 

Reitoria. Fogos 105— almas 442. 

Em 1706 contava apenas 42 fogos — e 62 
annos depois, ou em 1768, contava 51 fogos, 
—era vicariato da apresentação do D. pricor 



758 VIL 



VIL 



da eollegiada de Barcellos — e rendia para o 
vigário 40$000 réis. 

Comprehende esta freguezia oslogaresou 
aldeias seguintes :— Capucha, Egreja, Or- 
dem, Outeiral, Adão, Areia], Peneda, Quei- 
mado, Carregal, Villa Meã, Bouça da Ponte, 
Barral, Gestido, Casal de Nique (ou Nil) 
Nique de Baixo, Senra, Paço Velho (parte) 
Bemfeito, Peneda— e as quintas de Nique, 
pertencente a Candido Augusto de Moraes 
Campello, — Paço Velho e Mattos, de Manuel 
José Gomes Graça, — e Berneque (ou Wer- 
nek) dos Mendanhas. 

Freguezias limitrophes — Barcellos a leste, 
— Mariz a oeste, — Santa Maria do Abbade de 
Neiva ao norte,— e S. Pedro de Villa Fres- 
cainha e o rio Cavado, ao sul. 

Está na margem direita do Cavado, do 
qual dista meio kilometro,— 2 de Barcellos 
e da estação de Barcellos, no caminho de 
ferro do Minho,— 16 de Braga pela estrada 
a macadam e 28 pela linha férrea, — 52 do 
Porto— e 389 de Lisboa. 

Passa n'esta freguezia uma estrada a ma- 
cadam de Barcellos para Esposende. 

Alem da egreja matriz, que é um templo 
regular, tem hoje as capellas seguintes — 
Santo André,— Senhora da Oliveira em Ca- 
sal de Nique ou Nil, e S. João Baptista, em 
Paço Velho, todas publicas e abertas ao 
culto, mas sem coisa alguma notável. 

Tem dous edifícios brasonados— um em 
Casal de Nil, que foi de Ayres Mendanha, 
— e outro em Paço Velho, que foi d'um ca- 
pitão mor de Barcellos. 

Banha esta freguezia um ribeiro'que nasce 
em Villar do Monte, — passa na aldeia de 
Casal de Nil— e desagua na margem direita 
do Cavado. 

Tem moinhos para moer cereaes e um en- 
genho de serrar madeira. 

Producções dominantes— cereaes e vinho 
verde rascante ou de enforcado. 

Comprehende esta freguezia parte do 
monte da Peneda, que é muito penhascoso. 

VILLA FRES CAINHA (orago S. Pedro 
Apostolo) — freguezia do concelho e comarca 
de Barcellos, districto e diocese de Braga, 
na província do Minho. 



Reitoria. Fogos 72 —almas 295. 

Em 1706 era vigairaria da apresentação 
do reitor de S. Salvador do Banho,— con- 
tava 30 fogos — e rendia apenas 2o$000 réis, 
— em 1768 era vigairaria da mesma apre- 
sentação,— contava 58 fogos — e rendia para 
o vigário 50$000 réis. 

Comprehende as aldeias seguintes:— Pa- 
ço Velho (parte; a outra parte é da paroehia 
de S. Martinho de Villa Frescainha)— Monte, 
Gestido, Egreja, Agueda— e as quintas de 
Paço Velho (parte) de Manuel José Gomes 
Graçar-e Agueda, de D. Emitia de Sá Vian- 
na Barbosa de Faria. 

Está na margem direita do Cavado, do 
qual dista' para o norte meio kilometro, — 5 
de Barcellos,— 20 de Braga pela estrada a 
macadam e 31 pela linha férrea do Minho, 
—55 do Porto— e 392 de Lisboa. 

Freguezias limitrophes— S. Maninho de 
Villa Frescainha e Santo Emilião de Mariz. 

Atravessa esta paroehia a estrada a ma- 
cadam de Barcellos para. Espozende — e pas- 
sa a leste a linha férrea do Minho, distando 
esta freguezia 6 kilometros da estação mais 
próxima (Barcellos). 

Templos — a egreja matriz— e acapella da 
Torre em estado lastimoso, na aldeia de Paço 
Velho. Foi edificada em 1735 por Antonio 
José Barbosa de Faria e D. Maria Bosa Leite. 

N'esté mesmo logar existiu a egreja de S. 
Simão, de que hoje apenas' restam vestígios. 

Esta paroehia é banhada ao sul pelo rio 
Cavado, onde tem uma pesqueira ou açude, 
pertencente a João José Gomes de Faria. 

Este e outros açudes e pesqueiras cireum- 
screveram muito a navegação do Cavado, 
que outr'ora foi navegável desde a sua foz 
até á villa de Barcellos. 

Comprehende esta freguezia parte do 
Monte Alto, em cujo cimo tem uma pyra- 
mide geodésica. 

O Flaviense deu como orago a esta fre- 
guezia S. Salvador. 

Foi lapso, porque os apontamentos que 
recebi, bem como todas as chorographias e 
publicações offieiaes, dizem que o seu orago 
é (e foi sempre) S. Pedro. 



VIL 



VIL 



759 



Também estranhamos que J. A. d' Almeida 
no seu Diccionario Abbreviado não fizesse 
menção «Testa parochia nem da de S. Mar- 
tinho de Villa Frescainha, sendo parochias 
independentes e autónomas e como taes 
mencionadas em todas as outras chorogra- 
phias e publicações officiaes. 

Produeções dominantes— milho, trigo, cen- 
teio, batatas e vinho verde. 

VILLA FRIA— orago Santa Maria— paro- 
chia do concelho e comarca de Felgueiras, 
districto e diocese do Porto, na província do 
Douro. 

Até setembro de 1882, data da ultima cir- 
cumscripção diocesana, pertenceu ao arce- 
bispado de Braga. 

Abbadia. Fogos 130— almas 652. 

Em 1706 pertencia ao concelho e á gran- 
de comarca de Guimarães, — era abbadia do 
padroado real— tinha ( 80 fogos— e rendia 
para o parocho 200$000 réis;— em 1768 era 
abbadia da mesma apresentação,— contava 
133 fogos-e rendia 400^000 réis;— pelo 
ultimo censo (1878) contava 122 fogos e 
465 habitantes. 

Comprehende as aldeias seguintes:— Villa 
Fria, séde da parochia —Rua, Sá, Assento, 
Arco, Bouça, Boucinhas, Tathoz, Telhado, 
Devesa, Barroco, Eiró, Eiriz, Rapozeira, 
Souto e Boa Vista; — os casaes de Lâmpada, 
Vinha e Baírrinho— e as quintas e habita- 
ções isoladas de Portas, Quintã e Outeiro. 

Freguezias limilrophes — S. Jorge de Vi- 
zella, Penacova, Lagares, Pombeiro deRiba- 
Vizella, Santa Maria de Gémeos e S. Lou- 
renço de Calvos, pertencendo estas ultimas 
duas freguezias ao concelho de Guimarães 
— e todas as outras ao de Felgueiras. 

Está na margem esquerda do rio Vizella 
do qual dista 1 kilometro,— 6 de Margaride, 
séde do concelho e da comarca, para,N. O. 
—6 da estação das Caldas de Vizella, no 
caminho de ferro de Guimarães á Trofa,— 
54 do Porto— e 391 de Lisboa. 

Os seus templos reduzem-se á egreja ma- 
triz que só tem de notável o ser muito an- 
tiga e estar muito arruinada com o peso dos 
séculos— e a uma capella particular, perten- 
cente á Casa das Portas. 



Não tem festas nem romarias— nem escola 
alguma, mesmo de instrucção primaria ele- 
mentar!... • , 

Banha esta freguezia o rio Vizella, que 
tem aqui uma solida ponte e alguns moi- 
nhos. 

Produeções dominantes — milho, feijões, 
batatas, centeio e vinho de enforcado, muito 
verde ou muito rascante. 

O Port. S. e Prof. deu como orago a esta 
parochia Nossa Senhora da Assumpção. 

VILLA FRIA — orago S. Martinho Bispo, 
—parochia do concelho, comarca e districto 
de Vianna do Castello, arcebispado de Bra- 
ga na província do Minho. 

Reitoria. Fogos 130,— habitantes 517, 

Em 1706 contava 80 fogos,— era vigaira- 
ria do convento de S. Romão de Neiva, — 
rendia para d convento 90$000 rs. e40|000 
réis^para o vigário — e pertencia ao conce- 
lho de Espozende, comarca de Barcellos. 

Em 1768 contava 115 fogos, — era vigai- 
raria da mesma aprezentação do convento 
benedictino de S. João de Neiva — e rendia 
para o vigário 50$000 réis. 

O censo de 1878 deu-lhe 121 fogos e 600 
(?) habitantes. 

Alem da povoação de Villa Fria, séde da 
parochia, comprehende as de Sabariz, Sou- 
to, Ribeiro, Coutos, Cabase (ou Cabaje) Bou- 
ça—Cova, Junqueiro, Monte Froi — e duas 
quintas históricas e muito notáveis — Paço 
e Sabariz. 

Parochias limitrophes — Mazarefes e Dar- 
que, ao norte,— Anha e S. Romão de Neiva, 
ao poente, — Alvarães, ao sul, — e Villa de 
Punhe, a leste. 

Passa n'esta freguezia a linha férrea do 
Minho, seDdo a sua estação mais próxima a 
de Darque, da qual dista 2 kilomelros, — 6 
de Vianna do Castello, — 55 de Valença do 
Minho e de Braga— 79 do Porto — e 416 de 
Lisboa. 

Também passa ao norte d'esta freguezia a 
estrada districtal n.° 4. Dentro d'esta paro- 
* chia cruza com a linha férrea do Minho, que 
a aeompanha em plano inferior com uma 
grande trincheira. 
O terreno d'esta parochia é plano, mas 



760 VIL 



VIL 



muito húmido e frio. As suas producções 
dominantes são milho e vinho muito verde, 
colhido em videiras suspensas em arvoras e 
em bardos e ramadas de esteira, formando 
talhões atravez dos campos, o que nào é tri- 
vial no Minho. 

Na interessante Noticia Biographica das 
cidades, villas e casas illustres do Minho, pu- 
blicada em 1873 pelo rev.° dr. AntoDio Lo- 
pes de Figueiredo, illustrado cónego de Bra- 
ga, se lê a pag. 138, com relação á quinta do 
Paço, d'esta parochia, o seguinte: *Paço de 
Villa Fria. Esta casa é a principal da famí- 
lia Alpoim, cuja nobresa é conhecida n'este 
reino desde a conquista de Santarém por el- 
rei D. Affonso Henriques, onde muito se dis- 
tinguiu o fundador d'esta notável geração. 
São os Alpoins d'esta casa senhores da de 
Merece, solar dos Regos, em S. Pedro de Cal- 
vello, no concelho de Penella (sic).» 

Isto não é absolutamente exacto, como 
provaremos no artigo Villa de Punhe, onde 
havemos de fallar da nubre família Alpoim; 
entretanto diremos que n'esta quinta do Pa- 
ço, solar dos Alpoins, se estabeleceu no prin- 
cipio do século XVI Juão Martins. d'Alpoim, 
natural da villa d'Atalaia e que em 1545 foi 
em soccorro de Tanger. 

O seu actual proprietário é o sr. Jeronymo 
d'Alpoim da Silva Menezes, 7.° neto d'aquelle 
heróe. 

A quinta de Sabariz, hoje da família Fer- 
raz Gouveia, de Barcdlos, foi também pri- 
mitivamente dos Alpoins, e n'ella (segundo 
consta) esteve escondido D. Antonio, prior 
do Crato, antes de embarcai para França, 
depois de se haver acclamado rei e de ser 
derrotado pelas tropas de Philippe II, de 
Hespanha, o Diabo do Meio Dia. 

D. Antonio era filho do infante D. Luiz, 
duque ds Beja, e da formosa Pelicano. 

Veja- se o artigo Crato, vol. 2.°, pag. 442, 
col. l. a e seg. 

Ao ex. mo sr. dr. Luiz de Figueiredo da 
Guerra, meu illustrado amigo e benemérito 
cyreneu, agradeço os apontamentos que se 
dignou enviar-me para a descripção d'esta 
parochia. 

VILLA FRIA — quinta muito antiga, ou- 



trora pertencente aos religiosos agostinhos 
do convento da Graça, d'Evora, e que elles 
haviam emprasado em 1716. 

Demorava a S. E. (margem esquerda) da 
ribeira Xarrarna, uma das nascentes do Sa- 
do, distando d'ella cerca de 4 kilometros, 
nos arrabaldes de Évora. 

Houve na mencionada quinta uma capella 
de Nossa Senhora da Esperança, tão antiga 
que em 1716 já não havia memoria da sua 
fundação I 

A dita capella era pequena; tinha cerca 
de 6 metros de comprimento e 3 de largu- 
ra,— tecto dabobada e capella-mór com o 
formato de meia laranja. A imagem da Se- 
nhora era de roca e muito linda, com cerca 
de 5 palmos d'altura;— estava em um nicho, 
tendo á direita a imagem de Santo Agosti- 
nho — e á esquerda a de S. Nicolau Tolen- 
tiuo. Era pomposamente festejada todos os 
annos pelos frades do convento da Graça, em 
um dos domingos entre a Pasehoa da Res- 
surreição e a de Pentecostes, com assistên- 
cia da communidade, que ali tinha perma- 
nentemente um religioso para receber as 
oblatas e velar pela decência do culto. 

Celebravam-se na dita capella outras mui- 
tas festividades em cumprimento de votos 
dos fieis — e missa nos domingos e dias san- 
tos pelos, religiosos agostinhos. 

VILLA GARCIA— antigo concelho da co- 
marca de Vianna da Foz do Lima e do ter- 
mo da villa de Pico de Regalados, na pro- 
víncia doJMinho. 

E^te concelho distava cerca de 30 kilome- 
tros de Braga, para o norte, e em 1706, se- 
gundo diz Carvalho, comprehendia as paro- 
chias do Espirito Santo de Villa Garcia (ou 
de Brvffe) annexa áda Carvalheira,— Santa 
Maria de Moz, — S. Mamede de Gondiães, 
—S. Cláudio de Geme—e S. Thomé de La- 
nhes. 

Também comprehendeu as 4 aldeias ou 
povoações seguintes— Cotello, Cabenco, Lo- 
gatinhos e Gil Barbedo ou Gilbarbedo, per- 
tencentes á freguezia de Cibões. 

Na aldeia de Cabenco ou Cacunco (segundo 
se lê na Chorographia Portugueza) pagava 
cada morador dous alqueires de pSo e uma 
gallinha á casa de Gil Barbedo, onde estava 



VIL 



VIL 761 



o foral 1 , casa que deu origem á povoação 
(Teste nome e que foi vivenda e solar dos fi- 
dalgos d'este appellido. Passou depois esta 
casa para os Abreus, senhores de Pico de Re- 
galados; mas por morte de Leonel d'Abreu 
coube ao seu filho Lopo Gomes d'Abreu, 
cuja filha e herdeira, D. Maria d'Abreu e No- 
ronha, a vendeu a Luiz de Sousa e Silva, seu 
sobrinho, então morador nas Goladas, em 
Braga. 

Até 1835 teve este concelho juiz ordinário 
e camará própria com 2 vereadores, pro- 
curador, meirinho, carcereiro, e quadrilhei- 
ro,— e vinha escrever aqui, por distribuição 
annual, um escrivão de Pico de Regalados, 
a cujo termo pertencia. 

O juiz era nomeado por seis homens — e 
estes pelo povo. 

Ainda hoje (188o) vivem alguns indiví- 
duos que exerceram aquelle cargo, — e di- 
zem elles que eram juizes do crime, eivei e 
órfãos. 

Um d'aquelles antigos juizes é Antonio Af- 
fonso, do logar de Bruffe, que mal sabe es- 
crever o seu nome. 

• N'aquelles tempos as cousas corriam as- 
sim, — e talvez melhor do que nos nossos 
dias?!. . . 

Foi este concelho exiincto em 1835, pas- 
sando então para . o julgado da primeira ins- 
tancia (comarca) de Pico de Regalados. Pela 
divisão judicial, feita em virtude do decreto 
de 28 de dezembro de 1840— e pela divisão 
administrativa, feita por decreto de 18 de 
março de 1842, ficou pertencendo ao conce- 
lho e julgado de Terras de Bouro, comarca 
do Pico de Regalados; — actualmente é do 
mesmo concelho de Terras de Bouro, mas 
da comarca de Villa Verde. 

A sóde d'este concelho extincto era (como 
diz Carvalho) na aldeia de Gilbarbedo. Ali se 
conservam ainda as casas da camará, do tri- 
bunal e da cadeia. Foram vendidas; são hoje 



1 Franklim não menciona este foral, mas 
apenas um dado a Villa Garcia, no termo de 
Celorico de Basto. 



de João Ferreiro — e estão bem traitadas e 
bem conservadas. 

No artigo Bruffe dissemos que esta paro- 
chia esteve muitos annos annexa áde Villa 
Garcia. 

Foi lapso. 

Esteve annexada— e somente um anno — 
á de Cibões. 

Comprehende, apenas duas aldeias — Bruf- 
fe e Cartinhas, com o total de 22 fogos e 126 
habitantes,— 61 do sexo masculino— e 165 
do sexo feminino. 

A egreja matriz de Bruffe está isolada das 
duas povoações e a meio d'ellas, distando 
cerca de 2 kilometros tanto de uma como 
da outra. 

Foi reconstruída nos annos de 1881 a 
1882 por iniciativa e esforços do seu digno 
parocho (encommendado) actual, filho da 
mesma parochia,— o melhor caçador d'estes 
sítios, — P. e Antonio José Francisco. 

Deu o estado 300$000 réis para-ajuda das 
obras— e o- cofre da bulias da Santa Cruza- 
da 30$U00 réis. 

A tradição local diz que antigamente o 
orago d'nsta parochia de Bruffe era S. Sil- 
vestre e que o parodio da freguezia da Car- 
valheira, a pedido do povo, o substituirá pelo 
Divino Espirito Santo, cuja imagem se ve- 
nerava em uma capella da mesma invoca- 
ção no logar de Freitas, da parochia de Co- 
vide, havendo pomposa festa no dia da tras- 
ladação. 

Nesta freguezia de Bruffe não ha capella 
alguma — e a povoação d'este nome conta 
apenas sete fogos, quatro dos quaes pos- 
suem e apascentam na serra Amarella mais 
de 500 cabeças de' cabras, sendo muitas de- 
voradas todos os annos pelos lobos, que no 
inverno abundam por estes silio?,— bem co- 
mo raposas, teixugos e tourões, fazendo es- 
tes últimos grande damno nas colmeias, pois 
gostam muito de mel. 

No cume da serra Amarella ha. um fojo 
para caçar os lobos. 

Faz se a montaria em todos os sabbado3 
da quaresma, sendo obrigados a concor rer 
os povos das freguezias de Lindoso Enmi- 



762 VIL 



VIL 



da, Cibões, Germil e Bruffe, bem como os 
habitantes de Loure, povoação da freguezia 
de Entre Ambos os Rios, e os de Villarinho 
da Furna, aldeia da freguezia de S. João do 
Campo. 

Ainda nos princípios do século actual os 
habitantes d'esta freguezia de Bruffe traja- 
vam d'um modo exótico. Os homens vestiam 
calção, colete, casacão e barrete, tudo de bu- 
rel; as mulheres por seu turno cortavam das 
teias do mesmo burel vara e meia depano, que 
enroscavam na cintura, prendendo-o apenas 
com um botão do mesmo pano ou de sola 
no cimo da abertura— e assim caminhavam 
por toda a parte!. . . 

Também por aquelle tempo não havia 
n'esta parochia estrada alguma para carros, 
— nem boa nem mál Todos os carretos eram, 
como nos sertões da Africa, feitos ás cosias 
dos seus habitantes. 

Um pouco a montante de Pontido ou Rio 
Secco (vol. 2.° pag. 298, col. i. a ) sae do rio 
Homem uma levada d'agua para o logar da 
Infesta, da freguezia da Carvalheira, forman- 
do a dieta levada ou açude um outro Pon- 
tido mais pequeno, mas que tristemente foi 
assignalado pelos dois factos seguintes : 

No dia 25 de julho de 1883 José Fortu- 
nato Martins, viuvo, de 87 annos de idade, 
lavrador natural da povoação de Ervideiros, 
freguezia da Carvalheira e ali residente, 
suicidou-se, afogando-se no dicto orco ou 
buraco ;— e no dia 14 de outubro do mes- 
mo anno fez o mesmo outro infeliz velho da 
mesma povoação, também viuvo e lavrador, 
— João Antonio Corrêa, de 77 annos de ida- 
de!... 

É tal o sorvedouro que não mais appare- 
ceram os cadáveres d'aquelles dois infelizes. 

V. Bruffe, vol. i.° pag. 497, col. 2.»— 
Carvalheira, vol. 2.° pag. 135, col. 2. a — Ci- 
bões no mesmo vol. pag. 298, col. 1.*— Ge- 
me, vol. 3.° pag. 264, col. 2.»— e Gondiães, 
no mesmo vol. pag. 303, col. l. a in fine. 

Ao meu illustrado eollega, o rev. sr. João 
dos Santos Moura, digno abbade de Caires, 
agradeço os apontamentos que se dignou 
enviar-me. 



VILLA GARCIA — freguezia do concelho 
e comarca d'Amarante, distrieto e diocese 
do Porto, na província do Douro. 

Reitoria. Orago o Salvador,— fogos 80,— 
almas 328. 

Em 1706 contava apenas 32. fogos e era 
vigairaria annexa ao prestimonio ou com- 
menda da freguezia de Santa Maria d' Alva- 
renga, era Lousada,— e em 1768 era da apre- 
sentação do reitor d'Alvarenga,— contava 98 
fogos— e rendia para o seu vigário apenas 
12:000 réis, além do pé d'altar. 

Comprehende as aldeias de Villa Garcia, 
séde da parochia, Massa Corte, Roussadas, 
ou Roçadas, Taleigos, Herdade, Fuudego, 
Tapada, Raposeira, Crasto, Rebolão, Presa 
Soutello, Ferreiro, Cobrada ou Quebrada, 
Estres, Alambique, Valles, Barral, Carreira 
e Bouças. 

Freguezias limitrophes — Gatão, Aboim, 
Chapa e Tellões. 

O logar do Assento de Villa Garcia dista 
d'Amarante 5 kilometros para o norte,— 20 
da estação de Villa Mean, na linha férrea do 
Douro,— 71 do Porto (pela linha férrea)— e 
408 de Lisboa. 

Pertenceu antigamente ao concelho de 
Celorico de Basto, da grande comarca de 
Guimarães, e ao arcebispado de Braga até 
1882, data da ultima circumscripção dioce- 
sana. 

Corta esta freguezia a estrada districtal 
a macadam de Amarante para Freixieiro, 
capital do concelho de Celorico de Basto, 
mas até hoje apenas tem concluídos 9 kilo- 
metros ou a parte que toca ao distrieto do 
Porto. 

Os seus templos reduzem-se á egreja ma- 
triz, muito pobre e muito simples,— e á pe- 
quena capella de Sapto Amaro, que tem 
festa annual em janeiro. 

No monte do Crasto d'esta freguezia hou- 
ve um castro romano de que apenas restam 
vestígios nas largas escavações feitas pelo 
povo para aproveitar e empregar em outras 
obras a pedra dos alicerces. 

Também se teera encontrado ali muitas 
moedas romanas. 

Demora esta freguezia na margem direita 



VIL 



VJL 763 



do Tâmega, do qual dista 3 kilometros e 
é banhada a N. O. pelo rio ou ribeiro de 
Santo Anatario (?. ..) que desagua no Tâ- 
mega. 

« Sobre este rio (dizem textualmente os 
méus apontamentos) ha uma ponte que liga 
esta freguezia com a de S. Pedro d' Aboim. 
É grande, de um só arco e de granito— e 
parece ser do tempo de D. João III, pelos 
restos de um escudo que se vê no meio da 
ponte.» 

Ha rteste rio (julgo que os apontamentos 
se referem ao tal rio de Santo Anatario, 
confluente do Tâmega) 16 rodas de moinhos 
para cereaes e alguns engenhos para descas- 
car linho no tempo próprio, na circumscri- 
pçào d'esta freguezia. 

Producções dominantes — vinho, cereaes, 
fructa e linho. 

Note-se que o vinho é verde, mas não 
rascanie. É vinho de pasto delicioso, do me- 
lhor entre os afamados vinhos de meza de 
Amarante e Basto, — vinhos que constituem 
uma especialidade distincta entre todos os 
do nosso paiz, muito estimados e muito pro- 
curados no Porto e fóra do Porto. 

A fructa d'esta freguezia é também deli- 
ciosa, nomeadamente os pecegos, variadíssi- 
mos e saborosíssimos, muito estimados e 
muito bem pagos no Porto como pecegos 
d' Amarante. Ali os temos visto vender a 100 
róis cada um?l. . . 

São os melhores de iodo o nosso paiz. 

Ha n'esta freguezia duas casas muito im- 
portantes e que absorvem a maior parte das 
propriedades d'ella, — são a Casa da Egreja, 
solar dos viscondes de Villa Garcia, alliados 
com os representantes do visconde de Mon- 
talegre,— e a Casa das Roçadas, que foi do 
dr. Joaquim Augusto Rodrigues Coimbra, 
hoje dos seus herdeiros. 

Foi 1.° visconde de Villa Garcia José Vaz 
Pereira Pinto Guedes, irmão do 2.° visconde 
de Montalegre, Luiz Vaz Pereira Pinto Gue- 
des, filhos segundos da Casa do Arco, de 
Villa Real. 

O i.° visconde de Villa Garcia teve um 
filho, seu herdeiro o successor, Miguel Vaz 
Pereira Pinto Guedes que, sendo capitão de 



cavallaria, foi morto na acção de Sant a Bar- 
bara * em 1823. 

Succedeu-lhe sua filha única e herdeira, 
D. Anna Carolina Augusta Vaz Guedes Pe- 
reira' Pinto, que ficou senhora da casa de 
Villa Garcia e da de Rio de Moinhos, no con- 
celho de Lousada. 

Casou com seu primo Manuel Pinto Vaz 
Guedes Bacellar, filho e herdeiro do 2.° vis- 
conde de Montalegre, senhor da Casa de 
Villar d'Ossos, em Vinhaes, — e d'este casa- 
mento houveram 17 filhos, entre tiles os se- 
guintes:— Luiz Vaz, 2.° visconde de Villa 
Garcia, casou com, uma filha de José Maria . 
Pereira de Vasconcellos, da casa de Val Me- 
lhorado, no concelho de Felgueiras;— Ma- 
nuel Pinto casou com uma filha de Sebas- 
tião Manuel de Sampaio, visconde da Bouça, 
freguezia d'este nome no concelho de Miran- 
della, onde rezide, sendo visconde do mesmo 
titulo ; 

—D. Ignez Cândida casou com Manuel de 
Mello Vaz de Sampaio, da freguezia da Es- 
pinhosa, junto de Trovões, na Beira Alta, e 
vivem hoje na casa de Villar d' Ossos, antigo 
solar dos viscondes de Montalegre, no con- 
celho de Vinhaes. 

Esta parochia de Villa Garcia teve foral 
dado por D. Manuel, a 29 de março de 1520. 
É o mesmo dado ao concelho de Celorico de 
Basto, de que já se fez menção no 2.° vol. 
pag. 233, col. i.*—Vide. 

VILLA GARCIA — freguezia do concelho, 
comarca, districto e diocese da Guarda na 
província da Beira Baixa. 

Orago — S. Thiago,— fogos 122, — almas 
470. 

Priorado. 

Em 1708 contava 100 fogos e era da apre- 
sentação dos Saraivas, da cidade da Guarda. 

Em 1768 ainda era da apresentação da 
mesma família Saraivas,— rendia 100$000 
réis — e contava 88 fogos. 

Comprehende as aldeias de Cume, Cairão, 
e Carapito, — os casaes de João Saraiva e de 
José de Pina, de Lobão,— e as quintas de 



1 V. Santa Barbara, vol. %.» pag. 403, col. 
I i. a e 405, col. 1.» também. 



764 



VIL 



VIL 



Villa Gareia, Ordonho, Naves e Carapilo da 
Legoa. 

A egreja parochial esteve na quinta de 
Villa Garcia, segundo se lê no Diccwnario 
Geographico manuscripto, existente na se- 
cretaria do Reino. 

Freguezias limitrophes— Guarda, Panoias, 
Arrifana e Casal da Cinza. 

O logar de Cume, séde actual d'esta pa- 
rochia (segundo supponho, pois não recebi 
apontamentos para a descripeão d'ella) está 
em planície, na margem esquerda da ribeira 
de Noeime, confluente do Côa, da qual dista 
muito pouco— e da Guarda 7 kilometros 
para E. S. E. 

Passa a pequena distancia d'esta fregue- 
zia a linha ferreá da Beira Alta. 

As suas estações mais próximas são a da 
Guarda e a de Villa Fernando. 

Em cumprimento d'antigos voto3 foram 
muitos annos os habitantes d'esta freguezia 
em romagem á capella de Nossa Senhora das 
Azenhas junto da villa e praça de Monsanto, 
distante d'esta parochia de Villa Garcia 
cerca de 70 kilometros para S. S. E.?l... 

Suppõe-se que fizeram aquelle voto á Se- 
nhora das Azenhas para se verem livres 
d'uma medonha praga de gafanhotos que 
infestava os campos e destruía as searas. 

O dia da romagem era o 3.° domingo de s 
maio e por essa occasião davam aos pobres 
um grande bôdo. 

Veja-se o artigo Monsanto, (villa da Beira 
Baixaj— vol. 5.° p:^g. 416, coj. 2. a in fme—e 
pag. 417, col. 1.» 

Foi 10.° e ultimo senhor do padroado 
d'esta freguezia o barão de Ruivoz, Fran- 
cisco Saraiva da Costa Refoyos, marechal de 
campo, ele 

V. Ruivos ou Ruivoz, freguezia da Beira 
Baixa, vol. 8.° pag. 260, col. 1." e seg. 

VILLA GARCIA E FREIXIAL — freguezia 
do concelho e comarca de Trancoso, distri- 
cto e diocese da Guarda, província da Beira 
Baixa.— Curato. 

É orago de Villa Garcia Nossa Senhora 
dos Prazeres— fogos (d'este curato sómen 
te) 90,— habitantes 315. 



Em 1708 contava 64 fogos e era curato 
annexo á reitoria de S. João Baptista intra- 
muros da villa de Trancoso. Estava no ter- 
mo desta villa, mas pertencia á comarca de 
Pinhel e ao bispado de Vizeu, do qual pas- 
sou para o de Pinhel e d'este para o da 
Guarda em 1882, data da ultima circumseri- 
pção diocesana. 

Em 1768 era ainda do bispado de Vizeu 
e da apresentação do reitor de S. João Ba- 
ptista de Trancoso,— rendia 25$000 réis - 
e contava 72 fogos. 

Esta parochia era formada por urna po- 
voação única (hoje comprehende também a 
do Freixial, sua annexa) — está na margem 
esquerda da ribeira de Massueime, con- 
fluente do Côa, da qual dista 2 kilome- 
tros para oeste, — e 12 de Trancoso para 
E. N. E. 

A egreja parochial é um templo pequeno 
muito antigo, mas bem tractado e bem con- 
servado. 

Cerca de 200 metros a O. está a capella 
de Santa Barbara, também muito bem tra- 
ctada e muito querida dos devotos, que lhe 
fazem todos os annos uma festa no 3.° do- 
mingo de dezembro. 

Ha também n'e*ta freguezia uma capella 
de Nossa Senhora das Necessidades, perten- 
cente a João Diogo de Andrade, hoje o pri- 
meiro proprietário d'esta parochia. 

Na matriz ha uma importante irmandade 
das Almas, instituída em 1694, com prévia 
auctorisação do rev. Manuel Cardoso Mon- 
teiro, reitor de S. João intra -mures de Tran- 
coso, por ser esta parochia da sua apresen- 
tação. 

Foi confirmada a dieta irmandade em 
1751 pelo dr. Caetano Velloso de Figueire- 
do Abranches, desembargador d'el-rei,— e 
ainda hoje conta mais de 500 irmãos! . . . 

Freixial é hoje uma pequena, pobre e 
triste aldeia de 40 fogos e 130 almas, an- 
nexa a Villa Garcia e distante d eila pouco 
mais de 1 kilometro para leste, mas já foi 
villa e muito considerada, pois teve foral da- 
do por D. Sancho Fernandes, prior da or- 
dem do Hospital, em abril de 1112,— e D. 



VIL 



VIL 765 



Manuel lhe deu novo foral em Lisboa, a 19 
de julho de 1515?!... 

Nós já ali passámos, indo da Cogullapara 
Figueira de Castello Rodrigo, Barca d' Alva, 
Escalhà>, Pinhel, Almeida, e ainda nos re- 
cordamos com dó da pobre villa 1 

O seu chão éde agradável aspecto e pres- 
tava-se admiravelmente para a cultura da 
vinha, de olival e cereaes, mas está qúasi 
todo inculto, porque é quasi todo foreiro á 
grande Mordomia de Trancoso, o que torna 
a propriedade immovel e converte os seus 
habitantes em simples colonos ou servos de 
gleba cujas habitações revelam a pobresa 
dos seus inquilinos. 

São todas muito humildes e estão todas 
muito negras e arruinadas. 

Ainda conserva a sua antiga egreja ma- 
triz aberta ao culto, mas pobre, pobríssima 
— euma capella, também muito antiga, muito 
humilde e prestes a desabar ! 

No termo d'esta pobre villa vimos boas 
oliveiras, plantadas em terreno baldio, mas 
pertencentes a extranh os,— -bem como uma 
bella quinta, recentemente plantada de vi- 
des e oliveiras, mas pertencente a um cava- 
lheiro de Trancoso. 

O parodio de Villa Garcia celebra nos 
domingos e dias sanctificados missa nas 
duas povoações alternadamente,— dous dias 
na de Villa Garcia e um na do Freixial, sua 
annexa. 

Teem as duas povoações apenas uma es- 
cola official dMnstrucção primaria elemen- 
tar para o sexo masculino, desde 1883. 

Producções dominantes— em Villa Gar- 
cia bom vinho de meza, cereaes, castanhas e 
azeite— no Freixial pouco vinho, pouco azei- 
te e cereaes que mal chegam para as rendas, 
foros e juros que os seus habitantes são 
obrigados a pagar. 

É uma das povoações mais pobres da pro- 
víncia ! 

V. Freixial, vol. 3.° pag. 231, col. l. a 
Freguezias limitrophes,— Povoa do Con- 
celho, Povoa d'El-rei, Falachos, Cotimos e 
Cogulla, sendo esta ultima freguezia hoje a 
mais rica e mais endinheirada de todo o con- 
celho de Trancoso. 
Ao meu bom amigo, o sr. Miguel Antonio 

volume x 



d'Almeida Crespo, cavalheiro respeitabilis- 
simo e um dos primeiros proprietários da 
Cogulla, agradeço os apontamentos que se 
dignou enviar-me. 

VILLA GATEIRA ou VIL GATEIRA— al- 
deia da freguezia de Várzea de Santarém. 
V. vol. 10.° pag. 233, col. 2. a e seg. 

Dista 8:200 metros de Santarém, para o 
norte— está em uma pequena elevação, — 
conta 51 fogos com 220 almas— e tem, como 
já dissemos, uma capella de Santo Antonio. 

Suppõe-se que esta capella foi edificada 
em 1623, pois tinha esta data gravada sobre 
a porta. Como ameaçasse ruína, foi restau- 
rada a expensas dos habitantes d'esta paro- 
chia, por iniciativa do seu prior encommen- 
dado, o rev. e benemérito padre Antonio de 
■ Carvalho. 

Ficou lindíssima e um pouco mais ampla 
do que a capella antiga. 

Tem hoje 10, m 8 de comprimento, 4, m 5 de 
largura— e eôro assente sobre duas colura- 
nas de pedra, contíguo á porta de entrada. 

Principiaram as obras nos fins d'abril de 
1880, sendo no dia 25 d'aquelle mez remo- 
vida em procissão a imagem do padroeiro 
para a egreja matriz, onde se conservou atè 
o dia 14 d'agosto do mesmo anno, data em 
que a nova capella se concluiu' e foi solemne- 
mente benzida e de novo aberta ao culto, do 
que tudo se lavrou auto do theor seguinte : 

iAos 14 dias do mez d'agosto do anno do 
nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo 
de 1880, pelas seis horas da tarde, o rev. 0 
padre Antonio de Carvalho, prior encom- 
mendado da freguezia de N. S, da Concei- 
ção da Várzea, concelho de Santarém, ben- 
zeu solemnemente, por se achar com a de- 
cência devida, a capella de Santo Antonio de 
Villa Gateira, conforme o ritual romano, com 
auctorisação do Eminentíssimo Patriarcha, 
na presença da junta de parochia e da ir- 
mandade do SantissimojjSacramento da mes- 
ma freguezia.» 

D'este auto se mandou uma copia para a 
camará eeclesiastica. 

Concluída a cerémonia, se trasladou pro- 
cessionalmente a imagem de Santo Antonio 
da egreja matriz para o seu altar;— em se- 

49 



766 VIL 



VIL 



guida subiu ao púlpito o rev. Manuel de Car- 
valho, que em uma breve mas commovente 
pratica, avivou a devoção dos fieis para com 
o padroeiro da nova capella e agradeceu a 
efficaz cooperação de todos para a rápida 
conclusão das obras. 

O tridue continuou nos dias 15 e 16 com 
missas cantadas e sermões, — musica de 
egreja e d'arraial pela banda de Rio Maior, 
— e na tarde dos dois últimos dias as celebres 
cavalhadas, enlevo dos povos d'estes sitios. 

N'esta aldeia houve ouira capdla dedica- 
da a S. Francisco. Foi profanada pelas hor- 
das francezas do general Massena, em 1810, 
e assim se conserva ainda. 

Na distancia de 50 metros d'esta aldeia 
para o nascente demora a quinta do Freixo, 
de José Augusto Galaxe, onde actualmente 
vive seu irmão Antonio Galaxe, afamado Ca- 
valleiro. 

Tinha também esta quinta outra capella, 
que foi igualmente profanada pelos france- 
zes em 1810, e assim se conserva também 
ainda. 

Cerca de 100 metros ao norte d'esta al- 
deia está a quinta da Narciso, pertencente 
á viuva de Antonio da Costa Rebello, que foi 
um dos maiores proprietários de Santa- 
rém,— e cerca de 1:200 melros ao sul d'esta 
mesma povoação demora a quinta da Laran- 
jeira, confinando com a mimosa e formosa 
quinta de S. Martinho, encantadora vivenda 
e habitação de sr. Paulo Maria da Costa Bar- 
ros, cavalheiro estimabilissimo e dono des- 
tas uhimas'duas importantes propriedades. 

Na quinta de S. Martinho ha lambem uma 
eapella de Nossa Senhora do Amparo, que 
os francezes profanaram em 1810. 

Banha esta quinta o rio de Perofilho que 
move alguns moinhos e rega formosas vár- 
zeas. Junto de uma d'estas esteve a velha 
egreja matriz, que tomou d'ella o home, bem 
como esta freguezia da Várzea. 

Houve aqui um devoto do deus Bacho 
(diz. a tradição) que costumava embriagar- 
se com agua-pé, pelo que o denominavam 
Vil-Gateira, ou vil bebedeira,— e d'elle to- 
xnou asta povoação o nome de Villa Goteira. 



Pôde ser, pois com agua-pé costumavam 
embriagar-se também os trabalhadores nas 
quintas do Alto-Douro, antes do phyloxera 
as aniquilar; mas suppomos que esta povoa- 
ção tomaria o nome de Gateira dos galos 
montezes ou teixugos que em outros tem- 
pos talvez abundassem n'estes sitios, como 
dos mesmos gatos provieram os nomes de 
muitas freguezias, aldeias e casaes do nosso 
paiz. 

Com o próprio nome de Gato temos nós 
2 aldeias, 4 casaes, 3 quintas e um monte; 
—com o nome de Gata—i aldeia, 2 herda- 
des e 2 sitios"; — com o nome de Gatos 1 al- 
deia, 1 casal, 1 quinta e 1 sitio;— como 
nome de Gatas 1 casal ;— com o nome de 
Gatão 1 fre # gúezia, 6 aldeias e 2 casaes;— 
com o nome de Gatões 1 freguezia e 2 al- 
deias;— com o nome de Gateira 11 aldeias 
e 1 quinta;— com o nome de Gateiras 1 al- 
deia, 1 casal e 1 sitio— e com o mesmo nome 
de Villa Gateira 1 sitio na parochia de Li- 
tem, concelho de Leiria. 

Julgamos, pois, que o nome de Gateira 
provem dos gatos, corno dos coelhos provie- 
ram os nomes das terras do nosso paiz de- 
nominadas Coelho, Coelha, Coelhal,Coelheiro, 
Coelheiros, Coelheirinha, Coelhoso, Coelhosa r 
ctc. 

Lembramo-uoe ainda de duas parochias 
denominadas Villa Cova a Coelheira, — uma 
no concelho de Fragoas e outra no concelho 
de Ceia. 

Deseulpem-nos a diversão. 

VILLA DA IGREJA— V. Villa da Egreja, 
freguezia do concelho de Sattam. 

VILLA JUS× freguezia do concelho de 
Mezãofrio, comarca da Regoa, districto de 
Villa Beal, diocese de Lamego, província de 
Traz-os-Montes. 

Reitoria. Orago S. Martinho Bispo, — fogos 
127 —almas 410. 

Em 1623, segundo se lê no Catalogo dos 
Bispos do Porto, contava 115 habitantes, — 
em 1687, segundo se lê nas Constituições ào 
bispo D. João de Sousa, contava 27 fogos 
com 116 habitantes, e em 1768, segundo se 
lê no Portug. S. e Profano, contava 50 fogos 
e rendia 12$000 réis, afora o pé d'altar. 

Até 1836 foi curato annexo á abbadia de 



VIL 



VIL 767 



S. Pedro da Teixeira— e já era 1623 era da | 
mesma apresentação. 

Administrativamente pertenceu ao antigo 
concelho de Santa Marília de Penaguião, co- 
marca de Lamego— e até 1882, data da ultima 
circumscripção diocesana, pertenceu ecele- 
siastieamente ao bispado do Porto. * 

A população d'esta freguezia está disse- 
minada pelas aldeias seguintes -.—Villa Jusã, 
S. Martinho, séde da parochia, Mattos, Cima 
do Douro, Bernardo de Cima, Registro, 
Monie, S. Fr. Gil, Ponte Henrique e Fundo 
de Villa. 

Comprehende também as quintas do Ber- 
nardo de Cima, da familia Rangeis, do Porto, 
Quelhas, da familia Mesquitas, de Mezãofrio, 
Quarlehões, da familia do barão Fornellos, 
—Souto Maior, que foi do fallecido Antonio 
Augusto d'Almeida e Castro e é hoje do seu 
herdeiro Carlos Negrão, a de Antonio Ma- 
nuel Pinto d'Abreu, e á da Ferreira, da fa- 
milia Xavier. 

Fundo de Villa não é povoação ou aldeia 
independente e autónoma como as outras; 
— é parte integrante da villa de Mezãofrio; 
comprehendendo as casas da sua extremida- 
de sul e que ficam em plano mais bajxo, na 
pendente sobre o Douro, formando o fundo 
da villa, seguindo-se a pequena distancia e 
na mesma pendente a aldeia de Villa Jusã, 
assim denominada por estar a jusante de 
Mezãofrio. 2 

Comprehende, pois, Mezãofrio uma parte 
d'esta parochia de Villa Jusã, além das duas 



Pela nova circumscripção diocesana o 
bispado de Lamego ficou limitado a leste 
pela ribeira de Maçoeime e rio Côa — e a 
oeste pelo rio Paiva, passando para o bispa- 
do do Porto as freguezias que. o de Lamego 
tinha na margem esquerda d'este rio, nos 
concelhos d'Arouca e Castello de Paiva, mas 
em compensação recebeu na margem direita 
do Douro, onde nada tinha, os concelhos de 
Mezãofrio, Regoa, Santa Martha de Pena- 
guião, Alijó e Murça, com o total de 71 fre- 
guezias, comprehendendo também 2 no con- 
elho de Villa Real. 

2 V. Jussã, vol. 3.° pag. 430, — Pereira 
Jusã, vol. 6.° pag. 685 — e Vicente de Perei- 
ra (S.) vol. 10. pag. 562. 



parochias de S. Nicolau e Santa Christina 
formando um amalgama insupportavel ! 

As 3 freguezias deviam formar uma só — 
e os concelhos de Baião e de Mezãofrio uma 
comarca, tendo por séde esta villa. 

No supplemento trataremos a questão. 

Freguezias limitrophes— Barqueiros, S. Ni- 
colau, Santa. Christina e o rio Douro, ao sul. 

A povoação de S. Martinho, * séde d'esta 
parochia de Villa Jusã, dista de Mesãofrio 1 
kilometro, para S.— i í / 2 da margem direita 
do Douro, para N.— 3 da estação da Rede, 
na linha férrea do Douro, para N. O., — 12 
da Regoa pela estação da Rede, 94 do Porto 
peia estação do Bernardo— e 490 de Lisboa. 

Esta povoação é antiquíssima, pois com- 
prehende a aldeia da Ponte Henrique sobre 
o rio Teixeira, que a banha a N. O.— ponte 
de que hoje só resta o nome, mas que, se- 
gundo se suppoe, foi mandada fazer por D. 
Affonso Henriques, htm como se attribuem 
ao mesmo rei e a sua mulher a rainha D. 
Mafalda, a egreja matriz da parochia de S. 
Nicolau e a celebre Ponte do Piar sobre o 
Douro, na parochia de Barqueiros, junto 
d'esta de Villa Jusã. 

Foi esta parochia também sempre parte 
integrante de Mesãofrio e por consequência 
da behetria d'este nome, uma das poucas 
que houve em Portugal e que era cabeça 
das behetrias de Villa Marim, parochia sua 
limitrophe, — e da de Cidadelhe, limitrophe 
de Villa Marim. 

Veja-se Mesãofrio, vol. 5.° pag. 196,— Ci- 
dadelhe, (a 2. a ) vol. 2.° pag. 399— Villa Ma- 
rim n'este diccionario e Behetria no supple- 
mento. Entretanto, quem quizer estudar a 
a questão das nossas behetrias leia no tomo 
l. a das Memorias de Litteratura Portugueza, 
pag. 98 a 257, a excellente Memoria de José 
Anastácio de Figueiredo, que é o trabalho 
mais completo que possuímos sobre o as- 
sumpto. 



i Não se confunda a povoação de S. Mar- 
tinho com a de Villa Jusã. São duas povoa- 
ções distinctas. 

A egreja matriz e a casa da residência 
parochial estão na primeira. 



768 



VIL 



VIL 



Falia repetidas vezes (Testas 3 behetrias, 
citando documentos muito interessantes. 

As behetrias, povoações excepcionalmente 
honradas e privilegiadas, principiaram em 
tempos muito remotos por simples estala- 
gens, montadas em sitios ermos sobre as es- 
tradas publicas e, por serem muito úteis aos 
transeuntes, os nossos reis lhes concederam 
privilégios extraordinários. 

Esta de Mezàofrio e Villa Jusã estava en- 
tão em sitio ermo, também na importantíssi- 
ma estrada de Entre o Douro e Miuho para 
a Beira, por Penafiel, Canaveses e Bayão — 
e por Amarante, Quintella e Padrões 1 da 
Teixeira até Mezàofrio e Villa Jusã, seguindo 
depois para as antiquíssimas cidades deCi- 
dadelhe e Panoias, em Traz os Montes, pela 
ponte Cavalar, sobre o rio Sermanha, — e 
para Lamego, Caria, etc, na Beira, atraves- 
sando o Douro na barca do Molledo, depois 
barca do Por Deus. 

Destruidas Cidadelhe e Panoias e as vias 
militares romanas, a estrada mais seguida 
da província d'Entre o Douro e Miuho para 
a Beira era por Canaveses e Bayão até Me- 
zãofrio ; atravessando depois o* Douro na 
barca do Molledo, seguia pelas encostas da 
freguezia da Penajoia até Santiaguinho, nas 
abas do monte do Poio—e d'ali por Acues 
para Lamego, etc. 

Também se suppõe que nos princípios da 
nossa monarchia a dieta estrada passava o 
Douro na celebre ponte do Piar, de que já 
se fallou nos arligos Barrô, Barqueiros, e 
Mezãofrio, e que estava entre a freguezia de 
Barqueiros, junto d'esla de Villa Jusã, e a 
freguezia fronteira— Barrô,— na margem es- 
querda do Douro. 

Ainda ali se veem restos authenticos dos 
grandes pilares da dita ponte, que foi a pri- 
meira que houve sobre o rio Douro. 

Alem dos logares citados, veja-se o que 



1 Este sitio tomou o nome de Padrões dos 
marcos milliarios que se erguiam na estra- 
da romana que por alli passava para Cida- 
delhe, Panoias, Lamego, Caria, etc. Vide Ci- 
dadelhe, a 2. a 



d'esta ponte disse Buy Fernandes em 1532 
na Descrrpção do terreno em volta de Lame- 
go duas legoas, descripção que se acha nos 
Inéditos de Historia Poríugueza, tomo 5.° 
pag. 546 a 613— e n'ella, a pag. 563 e 564, 
os interessantíssimos tópicos relativos á pon- 
te, sob os títulos Piares do Douro, e Menja 
frio. 

Bem quizeramos dal-os na sua integra, 
mas a necessidade de aligeirar e resumir 
nos força a passar adiante. 

Esta freguezia desce até ao Douro e acom- 
panha-o pela margem direita desde a quinta 
de Villa Verde a leste, pertencente á paro- 
chia de Santa Christina, até á casa do Re. 
gistro, a oeste, limite d'esta parochia de Villa 
Jusã e da 'de Barqueiros, comprehendendo 
cerca de 1 kilometro da linha férrea. 

Toca também n'esta freguezia a estrada a 
macadam da Begoa ao Porto, que é plana 
desde a Begoa até á Bede, mas muito Íngreme 
desde a Bede até o alto de Quintella, na ex- 
tensão approximada de 15 kilometros, bem 
como desde Amarante até o mesmo alto, na 
extensão de 10 a 12 kilometros, pelo que as 
diligencias eram arrastadas desde Amarante 
e da Bede até Quintella por duas juntas de 
bois, — a passo de lesma e com muda a meio 
caminho— ficando os pobres bois sempre co- 
bertos de suor, porque a estrada tem decli- 
ves de 12 a 15 por cento ! 

Na descida de Quintella até Amarante e 
até á Bede as diligencias largavam os bois, 
atrelavam os cavallos e fugiam em carreira 
vertiginosa por aquellas medonhas ladeiras 
abaixo, vencendo em uma hora o espaço que 
na subida consumia 4 a 5 e a paciência dos 
passageiros I. . . 

Nunca se viu em Portugal caminho peor 
para diligencias e tão concorrido até á inau- 
guração da linha férrea do Douro. 

Muito tempo trabalharam na dieta estrada 
simultaneamente tres diligencias diárias— e 
muitos foram os- tombos, contusões e feri* 
mentos, mas não nos consta que alguém pe- 
recesse, emquanto que nas viagens pelo 
Douro, antes de se montarem as diligencias, 
pereceram milhares de pessoas I . . . 

Só em um naufrágio do barco da carreira 



VIL 



VIL 769 



junto das Caldas de Aregos, approximada- 
mente em i85'0, morreram afogadas 30 a 40 
pessoas— e muito posteriormente mais de 30 
no naufrágio d'outro barco de carreira en- 
tre Pinhão e a Regoa, em uma véspera de 
natal*! !..• 

Aquella medonha estrada foi feita nos fins 
do ultimo século pela Companhia dos Vinhos 
—não para diligencias, mas para liteiras, 
que eram o melhor transporte n'aquelle tem- 
po. E para que os nobres 1 empregados da 
Companhia tivessem onde pousar commoda- 
mente entre Penafiel e a Regoa, desviou a 
estrada para Amarante, abandonando o tra- 
çado seguido alé aquella data— e muito mais 
suave _por Canaveses e Baião,— traçado que 
os nossos engenheiros indicaram como pre- 
ferível a todos os respeitos para a estrada a 
roacadam; mas, como a estrada feita pela 
Companhia já tivesse bastante largura 2 , o 
governo provisoriamente a mandou reparar 
e inacadamisar, emquanto não construía a 
estrada por Canaveses e Baião,— obra muito 
mais morosa e muito mais dispendiosa. 

É a estrada real, n.° 34, de Penafiel á 
Barca d'Alva. 

Ainda hoje (188o) vae nafaltura da esta- 
ção de Mosteiro; tem de atravessar a parte 
restante do concelho de Baião e depois esta 
freguezia de Villa Jusã e a de Santa Chris- 
tina até á povoação da Rede, onde entronca 
na parte já construída da mesma estrada n.° 
34, da Rede até á Pesqueira. 

Principiava então a febre das diligencias 
ao norte do nosso paiz, pelo que, apenas vi- 
ram a estrada da Companhia macadamiza- 
da, logo se organisou, approximadamente em 
1858, uma em preza de diligencias para a 
explorar— e pouco depois outra e outra I 



1 O alto e numeroso pessoal da poderosa 
Companhia, desde o seu provedor até os pro- 
vadores, era quasi todo consiituido por fi- 
lhos d' algo ! . . . 

Era assombrosa a série de banquetes de 
centos de talheres que dava na sua grande 
easa da Regoa a todos os lavradores do 
Douro indistinctamenle, nos dias destinados 
para a compra dos vinhos. 

2 Com relação ás nossas estradas antigas 
era uma estrada esplendida ! . . 



Muitas vezes fiz a viagem entre a Regoa e 
o Porto nas taes diligencias e em barcos, 
pelo Douro, vendo a morte a cada instante. 

Horresco referens ! . . . 

Atravessava e atravessa ainda hoje esta 
freguezia a velha estrada do Porto e Mezão- 
frio ao fundo da povoação da Rede e que 
seguia para Lamego e Beira pela barca do 
Por Deus. 

Na Regoa, hoje a villa mais formosa do 
Douro, nem se fallava antes da Companhia 
dos Vinhos ali estabelecer a sua grande casa 
e os seus grandes armazéns, nem havia da 
Rede para ella estrada alguma alem da de 
Sirga, que foi sempre um medonho carreiro 
de cabras no verão, pois no inverno a cada 
passo o Douro a cobre e desapparece ! . . . 

Os templos d'esta parochia reduzem-se á 
egreja matriz e a 3 capellas. 

A egreja é muito pequena, muito velha 
e pobre, e foi construída com a pedra dou- 
tra egreja antiquíssima, ou do mosteiro ou 
hospício que (segundo resa a tradição lo- 
cal) existiu n'esta parochia, cerca Ce 150 
metros ao nascente da matriz, no chão (hoje 
campo e vinhas; onde esteve a eira da quinta 
que foi do reitor de S. Nicolau, da fimilia 
Tovar— bens que passaram para a familia 
Fornellos e d'esta para estranhos,— mesmo 
em frente e no mesmo nível do convento de 
freiras franciscanas (hoje collegio de meni- 
nas) que estava na margem opposta do Dou- 
ro, na freguezia de Barrô. 

No dicto local teem apparecido e conti- 
nuam a appareeer muitas pedras em esqua- 
dria. _ 

Ao passo que a pobre egreja matriz, com 
o abandono em que jaz, vae perdendo o re- 
boco, vé-se entre a alvenaria das paredes 
pedras em esquadria e fragmentos de colu- 
mnas, claros vestígios de construcção mais 
antiga e mais importante. 

Interiormente tem altar mór e dois late- 
raes com retábulos de talha muito antiga, 
formando painéis com pinturas a oleo sobre- 
madeira, mas nota-se também que os tre& 
retábulos pertenceram a outro templo mais 
espaçoso e que foram cereeados e violenta- 



770 VIL 



VIL 



mente adaptados ao pequeno e mesquinho 
templo em que se acham. 

O retábulo do altar mór é formado por 
tres painéis, representando o do centro 
Nossa Senhora,— o do lado do Evangelho 
S. Martinho, o padroeiro— e o do lado da 
Epistola um frade a cavallo, com a cruz em 
uma mão e uma espada na outra, partindo 
a capa para dar a um pobre. 

As capellas são— uma de S. José, de An- 
tonio Manuel Pinto dAbreu e outra de S. 
Vicente Ferreira, na quinta da Ferreira, de 
Antonio Xavier Pinto, ambas particulares e 
em mau estado— e uma de S. Silvestre, pu- 
blica, no monte de S. Silvestre. 

Houve também n'esta freguezia mais 
tres capellas,— uma de S. Fr. Gil, publica, 
na povoação d'este nome,— outra, de Nossa 
Senhora da Conceição, na quinta da Quelha, 
da família Mesquitas,— e outra, da invocação 
de S. Bernardo, na quinta do Bernardo de 
Cima, que foi cortada pela linha férrea, fi- 
cando a dieta capella ao sul e junto da dieta 
linha, do lado do Douro. Ambas eram parti- 
culares;— a l. a já desappareceu e a 2.* está 
em ruinas 1 . 

Esta parochia não tem cemitério. Os enter- 
ramentos fazem-se no adro da egreja matriz. 

Tem tres edifícios brasonados,— a casa de 
Antonio Manuel Pinto dAbreu, sobre o largo 
onde se suppoe que esteve antigamente o 
pelourinho, na aldeia de Villa Jusã— a de 
Carlos Negrão, em Fundo de Villa— e a do 
Registro, que foi da extincta Companhia dos 
Viuhos, tendo esta, ultima casa por brasão 
as armas reaes portuguezas. 

Pela organisação despótica da Companhia 
dos vinhos, creada pelo marquez de Pombal 
em 1756, 2 , foi a região vinícola do Alto- 



* A capella de S. Vicente Ferrer ou Fer* 
reira deu o nome á quinta da Ferreira — 
assim como as quintas, o sitio e a barca do 
Bernardo tomaram o nome da antiquíssima 
capella de S. Bernardo — e a capella de S. 
Frei Gil deu o nome á povoação assim de- 
nominada. 

2 Veja-ãe o art. Victoria, vol. 10.° pae. 

597 a (50 i. 



Douro (Cima-Corgo e Baixo Corgo) dividida 
em dois lotes,— um de vinhos de feitoria, ou 
de embarque (os superiores) destinados 
para exportação, — outro de vinhos de ramo, 
destinados para queima e consumo no Porto 
e seus arrabaldes, onde a Companhia tiaha 
também o exclusivo das tavernas. 

O 1.° lote acompanhava as margens do 
Douro e dos seus affluentes desde esta fre- 
guezia de Villa Jusã e da de Barqueiros até 
os confins do concelho d' Alijó, na margem 
direita— e desde as freguezias de Barro e da 
Penajoia até os confins do concelho da Pes- 
queira, na margem esquerda. 

O 2.° lote acompanhava o 1.°, comprehen- 
dendo uma certa faxa de terreno immedia- 
tamente superior, sendo ambos divididos 
por grandes marcos de pedra, muitos dos 
quaes ainda hoje existem, o que deu causa 
a -sérios desgostos, porque por vezes ficaram 
divididas propriedades compactas do mesmo 
dono e era crime horrendo í , fulminado com 
graves penas, o passar uvas ou vinho de 
um lote para outro. 

Os dois mencionados lotes comprehen- 
diam— no todo ou em parte— 48 freguezias 
na margem direita do Douro, sendo as pri- 
meiras, para quem vae do Porto, esta de\ 
Villa Jusã, Barqueiros, S. Nicolau e Santa 
Christioa. Todas 4 formavam a raia ou ex- 
tremidade O. d'aquella região priveligiada, 
ao norte do Douro. 

Na margem sul, ou esquerda, eram aquel- 
las freguezias em numero de 22, formando 
a extremidade oeste as de Barro e Penajoia, 
fronteiras a Villa Jusã, pois a barca do Ber- 
nardo, que atravessa aqui o Douro, toca na 
margem direita nas extremidades S. O. de 
Villa Jusã e S. E. de Barqueiros, — e na 
margem esquerda nas extremidades N. O. 
da Penajoia e N. E. de Barrô. 

Villa Jusã olha para o sul. O seu clima é 
saudável e temperado,— as suas producções 
dominantes são vinho maduro, bem conhe- 
cido por vinho do Porto, milho e fructas va- 
riadas e muito saborosas, como todas as do 



1 Logar citado, vol. 10.° pag. 598, col. 2.» 



VIL 



VIL 771 



Douro,— e o seu chão é mimoso e muito fér- 
til. Basta dizer-se que faz parte da aben- 
çoada região por justos títulos denominada 
coração do Douro, eomprehendida no vasto 
triangulo formado por Lamego, Villa Real e 
Mezãofrio, tendo por coroa e centro a for. 
mosa villa da Regoa. 

Não se encontra em todo o nosso paiz— e 
difjicilmente se encontrará nos panes extran- 
geiros—um tracto de terreno de eguaes di- 
mensões tão fértil, tão mimoso, tão povoado 
tão lindo e de tanto valor como é este 1 

Queremos-lhe muito e conhecemol-o de 
perto, porque tivemos a ventura de nascer 
n'elle, mas não nos cega o amor da terra 
natal. 

Appellamos francamente para o teste- 
munho de quem saiba o que é o coração do 
Douro e já o visitasse desde abril até no- 
vembro. 

Jaz na egreja matriz d'esta parochia João 
Pereira Soares d'Albergaría, filho bastardo 
de Manuel Soares d'Albergaria, fidalgo dis- 
tincto, mas muito excêntrico e algo mas. . . 
que viveu nas suas casas da Ribeira da Re- 
de, tendo vínculos e outras casas importan- 
tes em Aveiro, Oliveira do* Conde, Sinfães, 
Midões, Resende e Villa da Feira. 

O tal sr. João Pereira foi muito tempo o 
açoute e terror d'eates sitio3. 

Valente, desordeiro e chefe de uma qua- 
drilha de malfeitores, praticou muitos ex- 
cessos e crimes de toda a ordem, mas talis 
vita, finis ita I. . . 

Foi preso e fuzilado no Fundo de Villa, 
povoação d'esta parochia, por uma força de 
caçadores n.° 3, mandada para esse fim ex- 
pressamente de Villa Real, no 2.° quartel 
d'este século. 

Esta parochia de Villa Jusã e as outras 
duas que com ella formam a villa de Me- 
zãofrio, pelo facto de estarem na importante 
estrada militar do Minho e do Porto para 
a Regoa e para as províncias da Beira e 
Traz-os-Montes, e por formarem a maior 
povoação que se encontrava no espaço de 
trinta e tantos kilometros desde Amarante 
até a Regoa, soffreram sempre muito em 



tempos de guerra e mesmo de paz com o»s 
repetidos movimentos de tropa e coraduie- 
ções de presos, desde as epochas mais remo- 
tas até á inauguração da linha férrea do 
Douro. 

Ainda n'este século foram cruamente 
açoutadas durante a guerra da península e 
as guerras civis posteriores. 

Em junho de 1808, por exemplo, chegou 
aqui p sanguinário Loison com a sua divi- 
são, em marcha de Almeida sobre o Porto, 
que ao tempo já se havia sublevado contra 
os invasores, bem como Amarante e as pro- 
víncias do Minho e Traz-os-Montes. Tentan- 
do seguir para o Porto, foi surprehendido 
por grande numero de populares armados 
que lhe interceptaram á passagem nos Pa- 
drões da Teixeira e pelos que, descendo de 
Villa Real, se dispunham a mettel-o entre 
dois fogos. Retirou precipitadamente sobre 
Lamego, talando e saqueando as terras que 
deixava apoz de si, matando muitas pes- 
soas indefesas e incendiando varias casas, a 
principiar por esta parochia e pelas de Me- 
zãofrio, onde reduziu a cinzas a egreja dos 
franciscanos, o hospital da Misericórdia, etc. 

Batido pelos valentes transmontanos, pas- 
sou o Douro na Regoa e chegou a Lamego 
na tarde do dia 21 do dito mez de junho, 
marchando na manhã do dia immediato para 
Vizeu com tal precipitação que deixou no 
paço episcopal de Lamego parte da sua ba- 
gagem e dos roubos feitos n'esta freguezia 
de Villa Jusã e em outras d'este concelho de 
Mezãofrio e do da Regoa. 

Entre a dita bagagem se encontraram as 
peças de prata seguintes :— 13 castiçaes, 2 
serpentinas grandes, 2 escrivaninhas, 3 ba- 
cias de mãos e 2 jarros, 6 dúzias de garfos, 
facas e colheres, 4 clarins, 2 grandes cru- 
zes processionaes, 1 imagem de Christo, 2 
vasos sagrados, uma rica banqueta d'altar 
com SI peças, 6 grandes salvas, 7 púcaros 
e 13 bacios *, sendo 6 de cadeira, grandes, 
— tudo de prata e com o peso totai de 462 



i Extracto fiel do inventario, feito por or- 
I dem do nosso governo, em fevereiro» de 
I 1809. 



772 VIL 



VIL 



marcos e 6 onças,— além de uma caixa for- 
rada de marroquim, contendo 13 peças de 
louça da índia. 
Vejam que salteador?!. . . 

Esta parochia tem na villa de Mezãofrio, 
de que é parte integrante, muitos mercados 
e feiras, escolas officiaes para ambos os se- 
xos, um theatro, casa de Mizerieordia com 
hospital, muitos estabelecimentos commer- 
cia.es, etc. 

É também mimosa de peixe do Douro e 
do mar, principalmente depois da inaugu- 
ração da liaha férrea. 

Foi baptisado n'esta freguezia o sr. José 
Caetano de Carvalho, residente no Porto, 
cavalheiro estimabilissimo, dono das quintas 
da Gafaria e de Villa Nova, na freguezia de 
Santa Christina— e da de Freixieiro, na de 
Barqueiros, todas d'este concelho de Mezao-- 
frio. 

É s. ex. a irmão do sr. Antonio Caetano de 
Carvalho, nosso viee-consul em Angra dos 
Reis, província do Rio de Janeiro, no Bra- 
zil. 

A Chorographia Portugueza não menciona 
esta parochia, nem as de S. Nicolau e Santa 
Christina de Mezãofrio, nem a de Villa Ma- 
rim, todas d'este concelho, sendo aliás muito 
importantes 'e muito antigas. Foi lapso da 
impressão, talvez. Consta porem que esta 
parochia de Villa JusãM antigamente villa 
e n'ella ha ainda memoria do seu ultimo pe- 
lourinho. Dizem que estava no pequeno lar- 
go que ainda hoje se vê na aldeia de Villa 
Jusã, cerca de 1 kilomelro a oeste daegreja 
matriz. 

Dizem mais- que era de madeira, e que 
foi roubado uma noite pdas auc.toridades e 
pelo povo de Santa Manha de Penaguião!... 

O facto hoje não é muito fácil de explicar, 
pois Santa Martha de Penaguião dista d'esta 
freguezia cerca de 20 kilometros para N. E ; 
mas é possível que o facto se désse, porque 
outr'ora chegava até aqui o concelho de Pe- 
naguião e comprehendia, como já dissémos, 
esta parochia de Villa Jusã. 

Da cade ; 5 e dos paços do concelho não ha 
memoria alguma nem nos consta que tivesse 



foral próprio, alem dos da villa dè Mezão- 
frio, de que é parte interessante. 

Foi natural d'esta paroimia Fr. Antonio da 
Annunciação, agostinho descalço (grillo) re- 
ligioso de muita illustração e virtudes. 

Professou no seu convento do Porto (hoje 
seminário diocesano) no dia 26 de janeiro 
de 1804. 

Foi também natural d'esta parochia Fr. 
José da Ave Maria, religioso da mesma or- 
dem e que professou no convento do Monte 
Olivete ou do Grillo, em Lisboa, no dia 9 de 
abril de 18C4. 

Foi dr. de capello em theologia pela Uni- 
versidade de Coimbra, e padre mestre na 
sua religião, muito considerado pelos seus 
vastos conhecimentos. 

Por alvará da rainha D. Maria 1, com data 
de IS de fevereiro de 1791, se mandou con- 
cluir a ponte d' Alvarenga, sobre o rio Pai- 
va, no concelho d'Arouca, principiada pelo 
benemérito bispo de Lamego. 

Importaram as obras em 3: 300^000 réis 
que, em virtude do mesmo alvará, foram 
derramadas pelas comarcas da Villa da Feira 
e de Lamego. Pagou a l. a 1:000#000 réis— 
e a 2. a 1:300^000 réis, que foram divididos 
por todos os concelhos d'aquella vasta, pro- 
vedoria, pertencendo a este de Mezãofrio 
46$000 réis, dos quaes esta parochia de 
Villa Jusã pagou também a sua quota. 

Mal imaginarão hoje os munícipes de Me- 
zãofrio que também contribuíram para a 
construcção do celebre ponte ^Alvaren- 
ga? !... 

VILLA DE LEDRA— parochia extincta no 
concelho e comarca de Mirandella, província 
de Traz-os-Montes. 

V. Fornos de Ledra, vol. 3.° pag 219, col. 

1. a — e Guide, no mesmo vol. pag. 346, col. 

2. ". 

VILLA LONGA— freguezia do concelho e 
comarca de Saltam, districto e diocese de 
Vizeu, na Beira Alta. 

Curato. Fogos 68, — almas 296, — orago 
Nossa Senhora da Graça. 

Em 1768 já era curato da apresentação 
do vigário da freguezia das Romans, á qual 



VIL 

hoje está civilmente annexa,— rendia para o 
pobre cura 6$000 réis, além do pé d'altar, 
e contava 38 fogos. 

Além da povoação de Villa Longa, séde da 
parochia, situada em um valle, que é um 
souto de castanheiros por onde corre a ri- 
beira de Coja, uma das nascentes do rio 
Dão, comprehende esta freguezia as quintas 
do Seixo, Pégo d'Urso, Buraco e Malcata. 

Freguezias limitrophes— Dornellas, Corti- 
çada, Romans, Cesures e Silvã. 

Segundo se lê no Diccionario Geographico 
Manuscripto (collecção dos relatórios dos 
: parochos, existente no Archivo Nacional, re- 
ferida ao anno de 1758) esta freguezia es- 
tava no termo da villa de Douro Calvo, hoje 
; simples aldeia da freguezia de Romans. 

Produeções dominantes— vinho, cereaes, 
batatas e castanhas. 

Dista de Villa da Egreja, séde do conce- 
lho, 15 kilometros para E. N. E.— 32 de Vi- 
zeu,— e 28 da estação de Mangualde, que ó 
a mais próxima, na linha férrea da Beira 
Alta. 

Tem uma ponte e duas estradas a maca- 
; dam, todas estas obras em via de construc- 
ção;-a ponte é sobre o rio Coja, que desa- 
gua no Dão a 18 kilometros de distancia, e 
dá movimento a 2 pisões e uma azetíha nos 
limites d'esta parochia das estradas a ma- 
j cadam uma parle de Castendo e deve pas- 
i sar a 2 kilometros de Villa Longa,— a outra 
j deve passar a egual distaneia e parte de Vi- 
; zeu. 

Os seus templos reduzem-se á egreja ma- 
triz e a uma capella de S. Thiago,— templos 
: muito singelos, sem coisa alguma que me- 
reça especial menção. 

V. Romans, vol. 8.° pag. 224 col. 2. a 

VILLA MAIOR — freguezia do concelho e 
comarca da Feira, dislricto d'Aveiro, dio- 
[ cese do Porto, na província do Douro. 

Abbadia. Orago S. Mamede,— fogos 170> 
— almas 695. 

Em 1708 era reitoria da apresentação da 
Companhia de Jesus— e contava 100 fogos. 

Em 1768 era do padroado real,— contava 
113 fogos— e rendia para o seu reitor réis 
2000000. 



VIL 773 

Também foi algum tempo da apresenta- 
ção da Universidade. 

Freguezias limitrophes — Canedo a E. — 
Gião e Lobão a S.— Sanguedo e rio Vima, 
que as divide, a O.— e Sandim, a N.— todas 
do concelho da Feira, exceptuando a ultima 
que pertence ao de Villa Nova de Gaya. 

Comprehende as aldeias seguintes: Lobel, 
Cedofeita, Boa Vista, Padrão, Serrão, Tojal, 
Quintão, Gaeta, Redondo, Estrada, Pombal, 
Passaes, Moinho, Lavandeira, Rubina, Car- 
valho, Valle, Salgueiro, Moliceiro, Cal, Bar- 
reiro e Cimo d'Aldeía. 

Ha n'esta parochia três quintas importan- 
tes :— uma no logar de Quintão, pertencente 
aos condes d'Alcaçovas, senhores de grande 
parte d'esta parochia e d'algumas limitro- 
phes;— a do Serrão, que é pequena, mas 
muito embellesada e muito bem traetada, 
pertencente ao negociante e capitalista do 
Pará, benemérito filho d'esta parochia, Ber- 
nardo Ferreira d'01iveira,—e ade Gaeta, que 
a oeste confina com o rio Uima. É grande e 
importante;— n'ella ha muitos moinhos de 
cereaes e uma excellente ponte de granito 
feita em 1884. 

Pertence ao abastado proprietário d'eáta 
freguezia, Joaquim de Fontes. 

Demora esta freguezia na margem es- 
querda do Douro, do qual dista 6 kilome- 
tros para S. O— 15 de Villa da Feira para 
N. N. E.-e 16 do Porto para S. E. 

Passam nas freguezias de Lobão é Gião, 
ao sul d'esta e suas limitrophes, a estrada 
districtal d'Ovar a Carvoeiro e a municipal 
d'Arouf*a á praia de Espinho, ambas em 
construcção e que devem crusar na aldeia 
da 'Corga, freguezia de Lobão ;— e ha em 
projecto outra estrada municipal de Milhei- 
ros a entroncar na de Avintes a Sandim e 
que deve atravessar de sul a norte esta fre- 
guezia de Villa Maior. 

A egreja matriz é pequena, mas bem tra- 
etada e bem conservada. 

Tem cinco altares e tres d'estes boas de- 
corações de talha antiga dourada. N'ella se 
fazem varias festas, sobresaindo a do Espi- 
rito Santo, que é a mais pomposa e attrahe 



774 VIL 



VIL 



muitos habitantes dos povos circumvisi- 
nhos. 

Nesta freguezia não ha feiras, mas tem 
uma muito importante e mensal no dia 7, 
na povoação do Mosteiro, da freguezia de 
Canedo, sua limitrophe. Neila se fazem va- 
liosas transacções em pannos de lã e de li- 
nho, leDços, bois, etc. 

Ha n'esta parochia dous edifícios notáveis, 
—um antiquíssimo brasonado e em ruínas, 
pertencente aos nobres condes d'Alcaçovas> 
que ali passavam parte dó anno. Teve lam- 
bem contigua boa e grande capella, da qual 
já nem restam vestígios! 

Esta casa e a quinta que a rodeia eram 
priviligiadas e o couto dos mancebos apura- 
dos para o serviço militar, pois ali não en- 
travam as justiças nem os podiam ir pren- 
der. 

O outro edifício demora no largo da al- 
deia do Serrão;— foi feito pelo commenda- 
dor José Pinto de Fontes— e pertence hoje 
ao abastado capitalista Bernardo Ferreira 
d'Oliveira, que o restaurou e embellesou. 

É uma linda vivenda. 

Em frente d'esta casa, no dicto largo do 
Serrão, se faz um bom mercado nos domin- 
gos e dias santos— e outro na aldeia do Pa- 
drão, das 7 ás li horas da manhã. 

Banham §sta parochia o rio Vima, a oeste, 
que corre de sul a norte e desagua na mar- 
gem esquerda do Douro, em Crestuma, a 7 
kilometros de distancia,— e um ribeiro que 
desagua no rio Uima, na aldeia de Gaçamor, 
freguezia de Sandim. 

Producções dorniuantes — cereaes e madei- 
ras de pinho, que exporta em grande quan- 
tidade. Também produz alguma cortiça.e al- 
gum vinho, muito verde, e cria bastante ga- 
do bovino para serviço da lavonra e para 
embarque, depois de gordo. 

Comprehende esta freguezia grande parte 
do monte de Gaeta, com vastos pinheiraes 
e pastagens para o gado lanígero e vaccum, 
sendo também abuudanto em óptimo gra- 
nito. 

Ha também n'esta parochia uma aula of- 
ticial de instrucção primaria elementar para 
o sexo masculino, desde tempos remotos, e 



uma hospedaria no logar do Padrão, cuja es- 
pecialidade são caldos de gallinha e frangos 
guisados. 

Foi presa no Porto, no dia 25 de abril de 
1884, Maria Moreira, de 56 annos de edade, 
natural d'esta parochia e moradora na rua 
das Eirinha^, por exercer a profissão de 
bruxa ou feiticeira, deitando cartas, prepa- 
rando certas drogas e usando d'oulras artes 
ejusdem fusfuris, para extorquir dinheiro 
aos papalvos, que, mesmo no Porto, ainda 
acreditam em bruxas! . . . 

A policia aprehendeu na casa da dieta 
intrujona uma pequena porção de terra 
embrulhada em um papel, que (segundo 
ella disse) era do cemitério do Prado do Re- 
pouso, — uma bolsa com diversas sementes 
—um vidro com oleo, etc. 

Eram os ingredientes das nigromancias 
que a levaram á cadeia. 

A pequena distancia da egreja matriz 
d'esta parochia ha uma nascente d'aguas 
férreas medicinaes, de que muitos doentes 
fazem uso. 

VILLA MAIOR— freguezia do concelho de 
S. Pedro do Sul, comarca dó Vouzella, dis- 
tricto e diocese de Vizeu, na província da 
Beira Alta. 

Abbadia. Orago Nossa Senhora da Purifi- 
cação,— fogos 264— habitantes 1:156. 

Em 1768 era abbadia do padroado real, 
—contava 168 fogos— e rendia 205$000 réis 

Estava no antigo termo de Lafões, mas 
não conseguimos lobrigal-a na Çhorographia 
Portugueza, nem nos nossos mappas. 

Freguezias limitrophes— S. Pedro do Sul» 
séde do concelho,— Sul,— Pinho,— S. Felix— 
e Figueiredo d'Alva. 

Dista 5 kilometros de S. Pedro do Sul,- - 
13 de Vouzella,— 15 de Castro d'Ayre— 26 
de Vizeu— 73 da estação de Estarreja, na li- 
nha férrea do norte,— 122 do Porto— e 361 
de Lisboa. 

Comprehende as aldeias seguintes : — 
Cobertinha, Goja, Peso, Valle, Sendas, Joa- 
zim, Outeiro, Estercada, Castello— e as quin- 
tas ou casaes de Salgueiroso, Amarante, Pe- 
draes, Ribeira, Dardão, Estrada, Fontainhas 



VIL 



VIL 775 



Pousadouros, Ucharia, Agua Fria, e Mal 
Pensa. 

Os templos (Testa freguezia reduzem-se á 
sua egreja parochial e a duas capellas. 

Producrões dominantes — cereaes e vinho. 

Tem uma aula offieial de instrucção pri- 
maria elementar. 

A isto se circunscrevera os apontamen- 
tos que se digpou enviar- me o seu rev. pa- 
rocho, terminando por dizer que esta fre- 
guezia nada cfferece de notável e que nunca 
foi villa. Não sabemos pois se o foral dado 
a Villa Maior por D. Affonso III, em Lisboa, 
a 7 d'abril de 1257 e mencionado por Fran- 
klin, se refere a está ou a outra freguezia 
ou povoação do mesmo nome. 

Veja-se o L. I de Doações do Sr. Rei D. 
Affonso III fl. 20, col. 2* in médio. 

Nós nunca visitámos esta parochia, mas 
passámos por ella muitas vezes, desde 1851 
até 1856, quando frequentávamos a Univer 
sidade, porque de Lamego para Coimbra o 
camiuho então mais curto e mais seguido 
era por Castro d'Ayre, S. Pedro do Sul, Vou- 
zella e Sardão,— total 21 léguas de caminho 
diabólico (segundo a craveira d'aquelles tem- 
pos) principalmente desde Lamego até Cas- 
tro d'Ayre, atravez da serra do Mezio— e 
desde Vouzella até o Sardão, atravez da serra 
das Talhadas e da de Rompe Cilhas ! . . • 

De Castro d'Ayre a S. Pedro do Sul con- 
tavam-se 3 léguas,— duas muito rasoaveis, 
de Castro d'Ayre á villa d'Alva e de Cober- 
tinha (aldeia d'esta parochia de Villa Maior) 
a S. Pedro do Sul; mas a intermédia— d'Alva 
a Cobertinha— era rival da celebre legoa da 
Povoa, — uma legoa interminável, insuppor- 
tavel, immensal E poucos tiveram occasião 
de a medir e saborear, como eu e o meu 
bom patrício e sempre amigo, dr. Antonio 
Rodrigues Pinto, actualmente juiz de direito 
em Siufães, e n'aquelle tempo (1854) meu 
contemporâneo na Universidade. 

Em seguida á grande desordem que houve 
em Coimbra no carnaval de 1854, a 28 de 
fevereiro, 1 depois da marcha da Academia 



1 V Lamego no supplemento—e os Apon- 



até Thomar, recolhemos a Coimbra e, como 
o governo (entre outras muitas coisas) nos 
concedesse férias de 30 dias, — ferias que de- 
pois prolongou até o flm das de Paschoa, — 
resolvemos ir ver as nossas famílias. 

Fieis ao programma da celebre thomara- 
da t 1 partimos a pè de Coimbra para os For- 
nos; alugámos ali gericos até á Mealhada e 
proseguimos a pé para Avelans do Caminho, 
onde pernoiíámos. De Avelans fomos em ge- 
ricos para o Sardão e alugámos ali dois gar- 
ranos para S. Pedro do Sul, onde chegámos 
pelas 11 horas da manhã, tendo percorrido 
bons 60 kilometros, porque o meu garrano 
não tinha outra andadura além do passo or- 
dinário, muito moroso e galope bravio. Atra- 
vessei, pois, a galupe (?!...)■ a serra de 
Rompe Cilhas e a das Talhadas. 

Quizemos alugar cavalgaduras em S. Pe- 
dro do Sul, mas não as encontrámos e por 
isso resolvemos ir a pê para Cobertinha, es- 
perando encontral as ali, roas debalde as 
procurámos também. 

Como ainda o sol fosse alto e ali não hou- 
vesse hospedarias, fomos a pé para Alva, 
povoação já nossa conhecida e muito mais 
importante. 

Surprehendeu-nos a noite a meio da mal- 
dita legoa, sobreviodo chuva glacial e uma 
escuridão medonha! 

Levávamos percorridos talvez 70 kilome- 
tros desde Avelans,— iamos já moído* como 
salada e não podíamos dar um passo; mas 
o terreno era completamente deserto e só 
em Alva poderíamos encootrar abrigo. Fa- 
zendo pois ex tripis coraçonem, esforçámo- 
nos por transpor aquelle húmido, escabroso 
e negro deserto, mas succumbimos muitas 
vezes e— só depois de esgotadas as ultimas 
forças— chegámos a Alva moidissimos, sua- 
dos e encharcados em agua e lama! 

Batemos a muitas portas, mar, nenhuma 



lamentos para a Historia Contemporânea 
pelo sr. Joaquim Martins de Carvalho, pag. 
241 a 248. 

i Note se que não me Aliei na Liga Aca- 
démica, associação secreta, muito similhante 
a Carbonária, formada pelos estudantes 
meus contemporâneos, em seguida a grande 
! desordem. 



776 VIL 



VIL 



se nos abriu; apenas nos indicaram a casa 
do regedor, como a única em que podería- 
mos pernoitar. 

Depois de muitos tombos, chegamos á di- 
eta casa, nossa ultima esperança; fallou-nos 
uma mulher dizendo que não nos podia re- 
ceber, porque estava o seu marido auzente- 

E fechou immediatamente a porta. 

Não se imagina o nosso desapontamento e 
a tristesa que de nós se apoderou, vendo- 
nos sem esperanças de encontrarmos abrigo 
— post tot tantosque labores?! . . . 

Si j ntámo-nos nos degraus do pateo, ex- 
postos á chuva e ao vento, tiritando com 
frio, silenciosos e chorando a nossa desgraça, 
convencidos de que, antes de amanhecer, ali 
morreríamos, porque a noite estava chuvosa 
e glacial e nos era absolutamente impossível 
transpormos a grande légua que ainda nos 
separava de Castro d'Ayre. 

N'aquella tristíssima e angustiosa situação 
passámos uma hora talvez, chorando encos- 
tados um ao outro, até que de repente su- 
biu as eseadas um homem com um varapau 
na mão. Defrontando com os dois vultos, 
disse em voz de Estentor : 

— Qmrn está ahi? 

— Somos dois pobres estudantes que vão 
de Coimbra para Lamego (respondemos nós 
com as lagrimas nos olhos). Vimos já hoje 
de Avelans do Caminho e pedíamos por es- 
mola abrigo para esta noite 1 . . . 

Recebeu-nos o santo homem prompta- 
mente. Exposemos-lhe a nossa desgraça; — 
pedimos-lhe que nos mandasse matar uma 
gallinha e nos désse agua quente para ba- 
nharmos os pés, que nós tudo pagaríamos. 

Annuiu a tudo o bom do homem;— appa- 
receram logo muitas raparigas da terra que 
vinham (na fórma do costume) fazer serão 
para a mesma sala onde estávamos; canta- 
ram e palestraram— e nós comemos, pales- 
trámos e cantámos também; passámos o 
resto da noite em um palheiro enxuto— e de 
manhã seguimos a pè para Castro d'Ayre, 
onde alugámos cavalgaduras que nos leva- 
ram até ás nossas casas, nos arrabaldes de 
Lamego. 

Que viagem a nossa— e que extensa nos I 



pareceu a maldita légua d' Alba a Coberti- 
nhatt... 
Horresco referens ! 1 

Desculpem-nos o desabafo e a digressão. 

Passa hoje n'esta freguezia de Vitta Maior 
e nas mesmas povoações d 'Alva e Cobertinha 
uma estrada districtal a macadam, servida 
por boas diligencias, de Lamego a Vizeu— 
e anda em constrrn-ção outra, mnito mais 
curta, de Lamego a Vizeu também, por Mon- 
dim da Beira, Barreias 2 e Fragoas. 

Muito temos progredido desde aquella da- 
ta, no artigo viação ! 

Ainda eu frequentava a Universidade 
quando em Coimbra se estabeleceu i i." es- 
tação telegraphica e ali chegou pela 1." vez 
a mala-posta, vinda do Carregado, em 1855 
ou 1856. 

VILLA MAIOR — quinta pertencente á fre- 
guezia de Cabeça Roa, concelho e comarca 
de Moncorvo, em Traz os-Montes. 

Comprehende também a dieta parochia as 
aldeias de Cabanas de Baixo e Foz do Sabor 
ou Torrão de Murça, na margem direita da 
Foz do Sabor e da ribeira da Villariça, na 
sua confluência com o Douro, — ficando-lhe 
em frente, na margem esquerda da foz do 
Sabor e da mesma ribeira da Villariça, na 
sua confluência com o Douro também, a po- 
voação do Rego da Barca. 

O sr. João Maria Baptista, na sua Choro- 
graphia Moderna, foliando d'esta parochia 
diz que deveria denominar se Cabeçj e não 
Cabeça, por estar pei to de um grande pe- 
nhasco, na serra que vae do Sabor 10 Tua, 
atravez do concelho de Carrazeda d'Anciães, 
formando a região denominada Tem Fria, 
em contraposição á Terra Quente, sua limi- 
trophe a N. O. comprehendendo o concelho 



1 Os roteiros daquelle tempo mareavam 
de Avelans do Caminho até Alva 12 léguas, 
que correspondiam seguramente a 18d'hoje 
— ou a 90 kilometros, dos quaes no memo- 
rável dia transposemos talvez 15 a pé, 20 
em gericos e 55 nos garra nos, em marcha 
bravial . . . 

Contava eu então 21 annos e frequentava 
o 4.° theologico. 
Bom tempo era esse ! . . . 

2 Hoje Villa Nova do Paiva. 



VIL 



VJL 



77? 



de Murça e parte dos de Alijó e Mirandella, 
na margem direita do Tua. Diz mais que 
por antithese lhe deram o titulo de Bôa, 
«pois eu (continua s. ex. a ) que por ali an- 
dei mais do que me convinha (acompanhan- 
do o marechal duque de Terceira em 1837) 
nunca vi nada peior !.. . 

Em verdade a pendente d'esta parochia 
para leste, sobre a ribeira da Villariça, é 
muito escabrosa — e mais ainda a pendente 
sul, sobre a margem direita do Douro, como 
tivemos occasião de notar em outubro de 
1883, quando visitámos a província de Traz- 
os-Montes, subindo pela Regoa até Verim } 
regressando a Chaves,— passando d'ali para 
Bragança por Carrazedo de Montenegro, 
Franco e Mirandella, — volvendo a Mirandel- 
la e seguindo por Villa Flor para Moncorvo^ 
d'onde descemos á Foz do Sabor e seguimos 
em um barco pelo Douro até á estação de 
Tua, deixando á nossa direita as medonhas 
e Íngremes ladeiras de Cabeça Boa e atra- 
vessando todas as cachoeiras do Douro desde 
o Sabor até o Tua, nomeadamente a escura 
e medonha garganta do Cachão da Valleira, 
onde perdeu a vida o barão de Forster 

Sensi in fronte meo se arripiare cabei- 
los 1 ^'.... 

Na dieta parochia de Cabeça Boa está, 
como dissemos, a quinta de Villa Maior, da 
qual tomou o titulo o 1.° visconde de Villa 
Maior, Luiz Cláudio d'01iveira Pimentel, pae 
do 2.° visconde do mesmo titulo— Julio Má- 
ximo d'01iveira Pimentel, que foi um dos 
homens mais illustrados e mais notáveis 
d'este século— sócio da Academia Real das 
Sciencias, commendador da ordem de Nossa 
Senhora da Conceição de Villa Viçosa, ca- 
valleiro da Torre Espada e da Legião de 
Honra, condecorado com o habito d'Aviz, 
lente da Eschola Polytechnica de Lisboa, di- 
rector do nosso Instituto Agrícola, fundador 
e director da fabrica de productos chimicos 
da Povoa, fidalgo da casa real, bacharel for- 
mado em mathemalhica pela Universidade 



1 Veja-se n'este 10.° vol. e no art. Vias 
Férreas a pag. 488, col. i. a e seg. 



de Coimbra, major graduado de infanteria» 
deputado ás cones em varias legislaturas, 
vereador e presidente da Camara Municipal 
de Lisboa, membro de varias associações 
seientificas e por ultimo reitor da Universi- 
dade de Coimbra, onde falleceu no dia 20 
de outubro de 1884, tendo nascido em Mon- 
corvo, no dia 11 de outubro de 1809. 

Foi s. ex.° um caracter nobilíssimo e uma 
das maiores íllusirações contemporâneas 
auctor do Douro Illustrado e d'outras mui- 
tas obras, das quaes Innocencio Francisco 
da Silva no seu Diccionario Bibliographico 
registrou em 18(50 a bagatella de 33 1 . . . 

Era s. ex. a neio paterno de João Carlos 
d'01iveira Pimentel, capitão-mór de Mon- 
corvo que, por alvará de 1 de setembro de 
1807, foi auctorisado a formar, como for- 
mou, uma companhia por acções para tor- 
nar o rio Douro navtgavel desde o Cachão 
da Valleira até á Barca d 1 Alva, obra de 
grande utilidade e que em 1811 já se achava 
concluída, apesar das contrariedades pro- 
venientes da guerra da península l . 

Foi seu tio paterno o general Claudino, 
que desempenhou um papel notável nas lu- 
ctas entre os constitucionaes e realistas no 
2.° quartel d'este século, fallecendo nas ca- 
deias da Relação do Porto, depois de preso 
pelos realistas junto da actual estação do 
Molledo, quando em um barco descia pelo 
Douro, de Moncorvo para o Porto. 

Julio Máximo d'Oliveira Pimentel, 2.° vis- 
conde de Villa Maior, casou em 18 de julho 
de 1839 com a ex. ma sr. a D. Sophia de Roure 
Auffdiener, senhora muito illustrada e au- 
ctora de varias publicações também, hoje 
(1885) viuva, da qual teve filhos que vivem 
com sua mãe em Lisboa. 

Teve também muitos irmãos, todos já 
fallecidos, exceptuando um, rezidente em 
Braga. 

Não podemos ser mais extensos; mas 
quem desejar mais amplas noticias de Julio 
Máximo d'Oliveira Pimentel, 2.° visconde de 
Villa Maior, leia as duasinteressantes biogra- 
phias de s. ex. a — uma publicada pelo sr. 



1 Douro Illustrado, pag. 104. 



778 VIL 



VIL 



Latino Coelho na Revista Contemporânea de 
Portugal e Brazil (tomo 2.° pag. 439 a 455 
— e 559 a 570-e vol. 3.° pag. 11 a 17)— a 
outra publicada pelo sr. dr. Antonio Candi- 
do no ultimo Annuario da nossa Universi- 
dade, relativo ao anno de 1884-1885. 

Para as suas obras consulte-se o Diccio- 
nario Bibliographico de Innocencio Fran- 
cisco da Silva. 

VILLA MARIM— freguezia do concelho de 
Mezãofrio, comarea da Regoa, districto de 
Villa Real, diocese de Lamego, província de 
Traz-os-Montes. 

Abbadiâ. Orago S. Mamede, — fogos 469, 
habitantes 1:749, segundo o ultimo recen- 
seamento. 

Etn 1532 contava apenas"80 fogos e era 
da apresentação da ordem de Christo ». 

Em 1768 era reitoria da apresentação do 
prelado do Porto, contava 220 fogos e ren- 
dia para o parocho 200£000 réis. 

Também foi algum tempo da apresentação 
do Papa. 

Esta freguezia (bem como todas as d'e.«te 
concelho e parte das do concelho da Regoa) 
pertenceu ao bispado do Porto até 1882, 
data da ultima circumscripção diocesana. 

Comprehende as aldeias ou povoações se- 
guintes: — Ventozellas, Miradouro, Egreja, 
Donsemil ou D. Somil, Paço, Venda Nova, 
Pereira, Martyr, Villa Cova, Ladoeiro, ou 
Lodoeiro, Reimonde de Cima, Reimonde de 
Baixo, Outeiro de Cima, Outeiro de Baixo, 
Reduida, Santiago, Rede, (parte, sendo a 
outra parte de Santa Christina), Villa Pou- 
ca, Ponte Cavallar 2 ,, Pousafolles, Gran- 
jão de Baixo, Salgueiro, Salgueiral, Moi- 



1 Na mesma data Cidadelhe, freguezia li- 
mitrophe, contava 20 fogos, Santa Maria 
d' Oliveira outros 20, Fontes 25, o Peso da 
Regoa 60 e Mezãofrio 200, comprehendendo 
as 3 freguezias de S. Mieolau, i-anta Christina 
e Villa Jusã— e talvez as de Barqueiros, Tre- 
zouras, Frende e Loivos da Ribeira. 

V. Inéditos de Hist. Portugueza, tomo 5.° 
pag. 550 e 583. 

2 Esta aldeia está junto da Ponte "Caval- 
lar, a N. E. de Cidadelhe e tem casas per- 
tencentes a 3 parochias— Cidadelhe, Cediel- 
los e Villa Marimll.. . 



nhos, Serradouro, Val de Ferreiros, Fonte» 
Ribeiro, Mosteiro, Boa Vista e Corredou- 
ra; — os sítios de Fonte Condessa, Cama- 
tonga, Morganhos, S. Lourenço, Azenha, 
Valcovo, Serro, Paredes, Vigaria, Moledo, 
Fraguinhas, S. Thiago (sitio e azenhas), 
Barea, Lombo, Sermanha, Reimonde de 
Baixo, Ermeiro, Guarita, Casal, Capelleda, 
Barreiro e Santo Antonio; — as quintas do 
Paço, hoje de Mauuel de Queiroz e Vascon- 
cellos, — S." Lourenço, de João Baptista de 
Figueiredo, negociante, natural d'esta paro- 
chia, mas residente em Lisboa, — Reimonde 
de Cima, que foi da família Sequeiras e é hoje 
da família Victorinos, d'esta paroehia,— Rei- 
monde de Baixo, da família Alpoim,— Molledo, 
que foi do general miguelista José Cardoso, 
d'Armamar, — Bebereira, assim denominada 
por ter junto das casas nobres e da estrada 
real, que da Regoa conduz ao Porto, uma 
bebereira gigantesca, magestosa, — Casal 
que foi de Miguel Peixoto e é hoje de seus 
filhos e herdeiros, — Salgueiral, da família 
Azevedos,— Villa Cova, Mochinhos, etc. 

Freguezias limitrophes — Santa Christina 
de Mezãjfrio a S. O.— Santa Maria d'Oliveira 
e Cidadelhe a N. E.— Sediellos a N.— rio 
Douro a S. — e Penajoia além do Douro. 

A séde da paroehia dista 3 kilometros da 
estação (apeadeiro) da Rede, na linha fér- 
rea do Douro,— 4 de Mezãofrio,— 13 da Re- 
goa— 24 de Lamego, pela estação da Regoa, 
—51 de Villa Real de Traz-os-Montes, peia 
mesma estação,— 98 do Porto— e 435 de Lis- 
boa. 

Tem esta freguezia uma estrada munici- 
pal a macadam para a villa de Mezãofrio, 
séde do concelho,— estrada que deve seguir 
até Santa Martha de Penaguião, a N. E. 

Passam também n'esta freguezia, pela sua 
extremidade sul, a estrada real a macadam 
do Porto á Regoa, da qual já se faltou em 
Villa Jihã, e a linha férrea do Douro, desde 
a povoação da Rede, a S. O., até a do Gran- 
jão de Baixo, a S. E.— tendo na Rede um 
apeadeiro d'este nome, o apeadeiro de mais 
movimento nas linhas do Mmho e Douro 
e que por isso ha muito devera ter sido ele- 
vado á cathegoria de estação, com tarifa pro- 



VIL 

pria. Serve todo o concelho de Mezãofrio e 
grande parte da populosa freguezia da Pena- 
joia, na margem esquerda do Douro. 

Tem esta parochia os templos seguintes : 
—a egreja matriz, muito antiga e bastante 
arruinada, com uma capella e uma confra- 
ria das Almas, 4 altares e boas decorações 
de talha antiga.— e a egreja de S Caetano, 
mais moderna, mais solida, mais central e 
já aberta ao culto, mas incompleta ainda ; 
—as capellas de S. Sebastião, Santo Anto- 
nio e Senhora do Rosario, todas publicas— 
e 6 particulares, a de S. João Baptista, com 
um bom retábulo de talha dourada e lindas 
imagens, pertencente á quinta e casa do 
Salgueiral, da família Azevedos,— a de Nossa 
Senhora da Ajuda, pertencente á família 
Queiroz— a da quinta de Reimonde, da fa- 
mília Victorino», — a de S. Lourenço, na 
quinta d'este nome,— outra na quinta da 
Bebereira,—e a de Santa Luzia, que esteve 
na povoação de Villa Pouca e hoje está con- 
tigua ao palacete do visconde do Granjão, 
na aldeia d'este nome, e tem festa annual 
com romagem, no dia sanctificado mais pró- 
ximo ao dia da padroeira. 

Teve mais na povoação do Outeiro a ca- 
pella de S. Francisco, publica, já demolida e 
transformada em casa de habitação,— e na 
quinta do Molledo uma capella particular, 
que foi demolida para passagem da linha 
férrea do Douro. 

Ha n'esta freguezia duas famílias muito 
nobres e muito antigas— a dos Azevedos, do 
Salgueiral, e a dos Peixotos Pinto Coelhos. 

A i.» conta entre os seus ascendentes aqui 
naseidos o dr. João Alberto da Silva Azeve- 
do, que foi juiz de fóra em Lamego, ouvi- 
dor em Barcellos e uma das victimas do 
marquez de Pombal, e D. Fr. Alberto da 
Silva Vasconcellos, arcebispo de Goa, onde 
falleceu em 1675. 

Da nobre familia Peixotos, da quinta do 
Casal, é hoje represeniaote D. Francisco 
Peixoto Pinto Coelho Pereira da Silva de 
Sousa e Mello da Veiga Cabral, um dos 
muitos descendentes e representantes de 
Egas Moniz, aio de D. Affonso Henriques. 



VIL 779 

Entre os seus nobres ascendentes conta 
s. ex. a os senhores de Felgueiras e Vieira, 
Travanca, Fermedo, Cabeceiras de Basto^ 
ete. 

É o sr. D. Francisco Peixoto primo do sr. 
D. Antouio Peixoto Pinto Coelho Padilha 
Seixas Harcourt, entre os quaes se pleilêa 
uma grande demanda, iniciada por seus 
avós ha quarenta e tantos annas (?(...) e 
que versa sobre um certo lote de bens, com- 
prehendendo a quinta do Cedro, a mais mi- 
mosa e mais fértil da encantadora bacia de 
Jogueiros, na Regoa— e a quinta de Caloi- 
lhe, outro prédio soberbo também, nos ar- 
rabaldes de Lamego. 

Pouco mais hoje resta da grande casa dos 
Peixotos Pinto Coelhos, — tão grande que 
chegou a ter um desembargador privativo 
com um escrivão e ura cartório privativos 
também ? ! . . . 

Para evitarmos repetições, veja-se Fel- 
gueiras, vol. 3.° pag. 162, col. I.»— Fermedo, 
no mesmo vol. pag. 164, col. Travanca, 
voi. 9.° pag. 731, col. í,« e seg. — Vieira 
n'este vol. 10.° e no supplemento—e Lamego 
no supplemento também. 

Aproveitando o ensejo de fallarmos d'esta 
nobilíssima familia, faremos uma rectifica- 
ção : 

O sr. D. Antonio Peixoto Pinto Coelho Pa- 
dilha tem (do seu consorcio com a 9r." D. 
Bertha) dois filhos e uma filha, e não duas 
filhas e um filho, como se disse por lápsb no 
artigo Travanca. 

A mencionada filha, por nome D. Bertha, 
não se acha em estabelecimento algum de 
caridade, como no mesmo artigo se lê, mas 
na companhia de sua tia paterna, a ex."» 
sr. a D. Maria da Madre de Deus Peixoto 
Coelho Padilha, rezidente em Lisboa. 

Em nome do meu antecessor, peço des- 
culpa dos lapsos. 

Hoje os edifícios mais notáveis d'esta pa- 
rochia são os seguintes:— a casa do Paço, 
com brasão d'armas, outr'ora da familia AI- 
poins e hoje propriedade de Manuel de 
Queiroz e Vasconcellos,— a do Miradouro, 
também brasonada, que foi da familia Miran- 
das e é hoje de Antonio Victorino de Quei- 



780 VIL 



VIL 



roz,— a de Reimonde de Baixo também bra- 
sonada, pertencente a D. Liarolina d' Azevedo 
Alpoim,— a do visconde do Granjão, na al- 
deia d'este nome, com as armas da família, 
—a da Egreja, de Manuel d'Almeida Couti- 
nho—e a da Pereira, de José Victorino de 
Queiroz, bons edifícios, mas sem brasões. 
Também é digna de especial menção a casa 
de S. Thiago, na Rede, que foi de Manuel 
Soares d'Albergaria e é hoje do barão de 
Fornellos. 

Banha esta freguezia o Douro, desde a al- 
deia do Granjão de Baixo, a S. E. perten- 
cente a esta parochia, até á povoação da Re- 
de, a S. O., pertencente á parochia de Santa 
Christhia de Mezãofrio e a esta de Villa Ma- 
rim, como logo explicaremos. 

Banham também esta parochia o ribeiro 
da Réde, o de Reimonde e outros e o rio 
Sermanha, que nasce nas abas da serra do 
Marão, corre de norte a sul por entre as 
freguezias de Cidadelhe e de Villa Marim, á 
direita, e as de Moura Morta, Santa Maria 
de Oliveira e parte da de Villa Marim, á es- 
querda,— e desagua na margem direita do 
Douro, precisamente no ponto da Sermanha 
formado por elle, (V. no art. Pontos do Dou- 
ro o n.° 24)— passando por baixo do grande 
viaducto da Sermanha, na linha do Douro e 
dividindo na sua confluência á aldeia do 
Granjão de Baixo, na margem esquerda, da 
de Villa Pouca, na sua margem direita,— 
ambas pertencentes a Villa Marim. 

Veja-se o art. Sermanha, vol. 9.° pag. 155 ? 
e note- se que este rio não nasce nem toca 
na serra de Santa Christina nem na fregue- 
zia de Fontellas, como Adisse por lapso o 
meu antecessor. 

A circumscripção d'esta parochia é uma 
das mais curiosas que se encontram no nos- 
so paiz. 

Achande-se Villa Marim entre Mezãofrio 
e Cidadelhe, quasi na mesma altitude e a 
igual distancia da margem direita do Douro 
(cerca de3kilomelros) emumalarga zona de 
terreno, cortado a leste pelo rio Sermanha, 
a oeste pelo rio Teixeira e ao sul pelo Dou- 
ro, nas faldas da serra do Marão que se er- 



gue ao norte, podiam e deviam dividir pro 
porcionalmente entre si aquella zona, res- 
peitando como linhas divisórias os tres rios 
— dando'a Cidadelhe, que é a freguezia mais 
próxima do Sermanha.. a margem direita do 
rio d'este nome, e a Mezãofrio a esquerda do 
Teixeira, — dividindo proporcionalmente en- 
tre si a margem direita do Douro; mas que 
suecede ? 

A villa de Mezãofrio foi caprichosamente 
dividida pelas suas tres paroehias. 

Descendo pela estrada-rua central, deram 
as casas e o terreno do lado direito (aliás 
muito limitado) á freguezia de S. Nicolau 
até á margem esquerda do rio Teixeira ;— 
as casas e o terreno do lado esquerdo á pa- 
rochia de Santa Christina, prolongando-a 
escandalosamente para E. S. e 0., na exten- 
são de bons 3 kilometros, até á margem do 
Douro, comprehendendo a maior parte da 
aldeia da Rêde, que está a jusante de Villa 
Marim e que devia pertencer toda a esta pa- 
rochia. 1 

Deram o fundo da Villa de Mezãofrio á 
parochia de Villa Jusã, prolongando-a até o 
Douro— e suspenderam Cidadelhe a meia 
encosta, não a deixando tocar no Douro, mas 
somente no Sermanha. 

Villa Marim, partindo da sua extremidade 
O., desce para o sul sobre a caprichosa faxa 
de terreno pertencente á parochia de Santa 
Christina, até á povoação da Réde, — ali toca 
na margem do Douro e segue para leste, 
acompanhando-o com uma estreita faxa de 
terreno até á margem direita do Sermanha 
comprehendendo a povoação de Villa Pou- 



1 É formada a separação pelo ribeiro que 
vem de Fonte-Condessa e desagua no Douro, 
cortando de N. a S. a povoação da Rêde. 

Ficaram pois pertencendo a Santa Chris- 
tina as terras e casas da margem direita do 
dicto ribeiro, e a Villa Marim as da margem 
esquerda, taes são as casas e azenhas de S. 
Thiago, a casa que foi de Bernardo Teixei- 
ra, hoje de José Pinto Leite— e a estação da 
Rêde, na linha do Douro. 

Fica assim em parte rectificado o que se 
disse no art. Rêde, vol. 8.° pag. 78, col. 1.» 



VIL 



VIL 781 



ca, 1 a jusante e próxima de Cidadelhe, não 
permittindo a esta freguezia tocar no Dou- 
ro. Para maior escândalo Villa Marim passa 

0 Sermanha e vae buscar á margem esquer- 
da d'este rio a pequena aldeia do Granjão 
de Baixo, somente, 2 — aldeia que devia per- 
tencer á freguezia d'01iveira, na qual está 
encravada, pois (exceptuando a dieta povoa- 
rão) pertence á freguezia d'01iveira todo o 
terreno da margem esquerda do rio Serma- 
nha, desde Moura Morta, a N., até á margem 
direita do Douro, a S.^ acompanhando este 
rio para teste, na extensão approximada de 

1 kilometro, até um pequeno ribeiro que ha 
na povoação das Caldas do Molledo e que 
divide o concelho de Mezãofrio do da Begoa 
e a parochia de Fontellas da de Oliveira, 
pertencendo a esta ultima todo o estabeleci- 
mento dos banhos e os quartéis da margem 
direita do dito ribeiro— e á de Fontellas to- 
das as casas da margem esquerda do ribei- 
rinho 3 . 



1 A casa e quinta do Jayme, n'esta povoa- 
ção, pertenceu á freguezia de Cidadelhe, 
cuja matriz está cerca de 1 kilometro a mon,- 
tante, emquanto que a de Villa Marim dista 
mais de 3 ? ! . . 

2 O Granjão de Cima comprehende ape- 
nas uma casa, cerca de 1 kilometro a mon- 
tante do Granjão de Baixo, e pertence á fre- 
guezia de Oliveira I . . . 

3 Chamamos a attenção dos-leitores para 
o .que levamos exposto, que não se encontra 
em chorograplua alguma e que serve para 
rectificar muitos lapsos em que teem cahido 
outros auctores, faltando das Caldas do Mo- 
ledo, incluzivamente o rheu benemérito an- 
tecessor, por não as conhecerem tão bem, 
como nós, pois nascemos quasi em frente 
d'ellas, na pequena povoação da Curvaceira, 
freguezia da Penajoia, á qual pertence tam- 
bém a povoação do Molledo, que deu o no- 
me a estas Caldas. 

Não se confundam, pois, as Caldas do Mol- 
ledo, que estão na freguezia de Oliveira, con- 
celho de Mezãofrio, e na de Fontellas, con- 
celho e comarca da Begoa, na margem di- 
reita do Douro, província de Traz os-Montes. 
— com a povoação do Molledo, de que toma- 
ram o nome e que está cerca de 2 kilome- 
tros a O. na margem esquerda do Douro, 
freguezia da Penajoia, concelho e comarca 
de Lamego, província da Beira Alta. 

Vejam-se os artigos— Corvaceira, Fontel- 
las, Molledo (aldeia) Penajoia e Rede, n'este 
dicciouario e no supplemento. 

volume x 



* Note-se também que passa pelo meio do 
Granjão de Baixo, freguezia de Villa Marim, 
a estrada publica e única de Oliveira á foz 
do Sermanha e ás Caldas do Molledo, cujos 
banhos e parte dos quartéis são da dieta pa- 
rochia de Oliveira, como já dissemos. 

Só quem ali tenha estado muitas vezes, 
como nós, poderá comprehender semelhante 
amalgama ! 

O rio Sermanha devia ser a linha divisó- 
ria dos concelhos da Begoa e de Mezãofrio 
— e não o pequeno e microscópico ribeiro 
das Caldas,— passando para o concelho da 
Begoa a freguezia de Oliveira;— e o mesmo 
Sermanha devia dividir a parochia de Oli- 
veira da de Cidadelhe, com exclusão da de 
Villa Marim, pois a de Cidadelhe deveria 
descer até o Douro e comprehender na mar- 
gem d'este rio um espaço approximadamente 
egual ao que tem a O. da sua matriz, até á 
fronteira da parochia de Villa Marim. 

Esta freguezia tem a fórma d'um ~j 

prolongando disparatadamente a sua haste 
inferior e horizontal pela margem direita do 
Douro até além do Sermanha, servindo-lhe 
de remate a leste a pequena aldeia do Gran- 
jão, escandalosamente roubada á freguezia 
de Oliveira, suspendendo na mesma haste a 
freguezia de Cidadelhe, para que não toque 
no Douro. 

Esta parochia pela sua extensão e popu- 
lação, pela amenidade e salubridade do seu 
clima, pela fertilidade do seu terreno, todo 
comprehendido no coração do Douro, 1 e pela 
variedade e quantidade das suas producções, 
é sem contestação uma das parochias mais 
importantes do nosso paiz. 

Produz muitos eereaes, batatas, azeite e 
fructa variadíssima da mais saborosa do 
Douro, nomeadamente laranjas, pois com- 
prehende parte da fertilissima e mimosíssi- 
ma Ribeira da Rede, que faz pendant com a 
Ribeira dos Fornos, outro chão extrema- 



1 Vide Villa Jusã. 

80 



782 VIL 



VIL 



mente mimoso e fértil na margem opposta 
(esquerda) do Douro, pertencente á grande 
freguezia da Penajoia,— e com as ribeiras de 
Jogueiros, na Regoa, e da Villariça, junto de 
Moncorvo,— todas formadas e adubadas pe- 
los gordos nateiros que as cheias do Douro 
n'ellas depositam, sendo as producções do- 
minantes d'esta da Rede— vinho de feitoria 
e laranjas. 

As laranjas da Rede constituem uma es- 
pecialidade distincta. Foram sempre das 
mais afamadas do Douro, rivaes das de S. 
Mamede de Riba-Tua, que são talvez as me- 
lhores de todo o nosso paiz; mas a produc- 
ção dominante d'esta parochia é o vinho de 
ramo ou de consumo, Da parte alta,— e de 
feitoria, na parte baixa, 1 pois comprehende 
cerca de 3 kilometros ao longo da margem 
direita do Douro, desde a Rede até o Gran- 
jão, produzindo ao todo talvez mais de £:500 
pipas de vinho, ainda hoje, o que no Douro 
é muito. 

Para se formar idéa da importância d'esta 
freguezia, note-se que já em 1532,— contan- 
do apecas 60 fogos, como já dissemos,— pro- 
duzia 900 almudes d'azeite,— 12:000 alquei- 
res de pão,— 15 000 alqueires de castanhas, 
— e 15:000 almudes de vinho,— segundo se 
lé na conscienciosa Descripção do terreno em 
volta de Lamego duas léguas, escripta pelo 
cónego terceuario Ruy Fernandez e publi- 
cada pela Academia Real das Seiencias no 
tomo V dos Inéditos da Historia Portugue- 
za, pag. 546 a 613. 

Imagine-se a riqueza d'aquelles 60 fogos!... 

E note-se que aquella avaliação foi feita 
pela dizimaria, sempre inferior ao rendi- 
mento das propriedades. 

Os dízimos d'esta parochia pertenciam en- 
tão á ordem de Christo. 

Além de ser sempre esta parochia muito 



1 V. Villa Jusã. 

Os terrenos mais próximos das margens 
do Douro são os mais abrigados, mais mi- 
mosos e que. produzem os vinhos superio- 
res. D'aqui vem o dizer-se— e com rasão— 
que o melhor vinho do Douyo é o que ouve 
ranger a espadella. 

V. Douro Illustrado, pag. 45. 



considerada pela sua riqueza, mais conside- 
rada era ainda pelos seus extraordinários 
privilégios, pois não só foi villa, honra e con- 
celho com justiças próprias, comprehendida 
nos foraes de Mezãofrio, mas lambem behe- 
tria— povoação excepcionalmente honrada e 
privilegiada. 

Tivemos em Portugal muitos coutos, vil- 
las e honras com grandes privilégios, mas 
behelrias muito pou<-as;— apenas as 16 se- 
guintes:— esta parochia e as de Mezãofrio e 
Cidadelhe, suas limitrophes, — Britiande, 
Várzea da Serra, Mezio, Campo Bem Feito, 
na Beira Alta, juuto de Lamego,— Amarante 
e Ovelha, a S. O. do Marão,— e Canaveses, 
Thuías, Gallegos, Louredo, Goutigem, Paços 
de Gaiolo e Santo Isidoro, nas comarcas de 
Penafiel e Canaveses. 

Para não alongarmos demasiadamente es- 
te artigo, veja-se o que sobre o assumpto já 
dissemos no artigo Villa Jusã — e Behetria 
no supplemento. 

Datam de eras remotas as behetrias em 
Portugal e na Hespanha. Principiaram por 
simples estalagens montadas nas estradas 
publicas e, pela sua grande utilidade para 
os viandantes, os reis as cercaram de gran- 
des privilégios. 

Esta de Villa Marim, bem eomo as de 
Mezãofrio e Cidad lhe, estavam na estrada, 
aliás importantíssima desde o tempo da oc- 
cupação romana, de Entre o Douro e Minho 
para Penaguião e Panoias, pela ponte Caval- 
lar—e para Lamego, Caria, Trancoso, Ala- 
fões, Vizeu, etc, na Beira Alta (V. Cidade- 
lhe, a 2. 8 )— aíravessando o Douro na barca 
do Molledo ou do Por Deus —ou na do Car- 
valho,— ou na da Regoa,— ou na celebre 
ponte do Piar, de que já se fallou em Villa 
Jusã,— se é que chegou a concluir-se. 

Segundo sé lê nas Memorias sobre os fo- 
raes, por Franklim, o foral novo de Mezão- 
frio, dado por D. M;muel em 27 de novem- 
bro de 1513, confirmando e ampliando o de 
D. Alfonso Henriques, comprehende também 
esta parochia de Villa Marim. Nós acres- 
centaremos— í a de Cidadelhe, pois temos 



VIL 



VIL 783 



sobre a nossa banca de estudo o dicto foral, 
que a fl. 6 diz : 

— «Cidadelha pagua os foros que antigua- 
mente pagou, sem nisso haver mais emno- 
vação.. . e na homrra de Villa Marim se 
recadará por direito real o gaado do vento 
segundo nossa ordenaçam. 

«Outrosim ba hi uma quinta no limite da 
dita homrra e Julgado, a que chamam Mi- 
radouro, com certos easaes decrarados no 
tombo do dito Julgado de Villa Marim, a 
qual é própria do senhor que fôr da dita 
terra e recebe delia os direitos e foros, a que 
são obrigados os caseiros, em virtude dos 
prasos ou aforamentos. . . » 

Entre os vistos do dicto foral se encon- 
tram 4 muito curiosos relativos á mencio- 
nada quinta. 

No 1.°, com data de 21 d'agost» de 1743 > 
disse o corregedor Proença :— «Acho mais 
que El Rei tem.huma Quinta, chamada do 
Miradouro, na Honra de Villa Marim, de 
que havia Tombo e vários prasos, de que 
colhe alguma renda o Almoxarife de Villa 
Rial, mas não consta o que he. Também acho 
que tem huns foros em Cidadelhe, mas não 
se me dá noticia d'isto, para o que ordeno 
aos Juises e Vereadores façam dilg. a por tu- 
do, p. a na pr." Corr ,m se arrecadarem. . . » 

No seu visto de 1744 mandou o mesmo 
corregedor Proença que os juizes e vereado- 
res satisfizessem áquelle provimento, sob 
pena de 6$000, etc, etc. 

No de '1745 disse o mesmo corregedor:— 
«Não se me deu cumprimento aos provimen- 
tos supra, por tanto hey aos Juizes do aimo 
passado por incursos na pena dos 6$000 
réis, e mando que o Escrivão os torne a in- 
timar aos Juises d'este anno na fórma refe- 
rida, tudo debaixo das mesmas penas.» 

Trovejava o olympo, mas rapidamente se- 
renou, pois logo em seguida, com data de 
14 de novembro do mesmo anno, disse o 
mesmo corregedor Proença : — «Visto os jui- 
zes estarem auzentes e não lhe ser intimado 
o provimento senão em novembro, por on- 
de não podem dar comprimento ao 1.° e 2.° 
provimento, os absolvo da condemnação im- 
posta, etc.» 



E não mais fallou em semelhante coi- 
sa?!... 

Lembramo-nos da phrase attribuida aos 
corregedores, quando viam escacear os pre- 
zentes e queriam encher o estômago, as co- 
pas, capoeiras e algibeiras — Toca a mover a 
vara! — pois apenas se annunciava correi- 
ção, ferviam os prezentes e brindes de toda 
a ordem. 

Vem isto a propósito dos aprumos e do 
zêlo do tal sr. Proença com relação ao des- 
caminho dos fóros e direitos reaes, para de 
prompto em um dado momento reconside- 
rar e indultar os juizes, e vereadores, com o 
fútil pretexto de que estiveram auzentes*! \... 

Como pôde crer-se que estivessem auzen- 
tes desde 21 de agosto de 1743, data do 1.° 
despacho, até novembro de 1745? 

Valha-nos a Senhora do Monte do Car- 
mo! 

Era pois reguengo a tal quinta do Mira- 
douro, que ainda hoje existe com o mesmo 
nome e, — graças ao zêlo e dignidade dos cor- 
regedores Proença e quejandos— ficou livre 
e allodial 1 . . . 

Temos encontrado em differentes foraes 
centos de vistos dos taes corregedores ape- 
nas com o titulo, dala e assignatura, o que 
prova que aquelles magistrados nada viam 
alem da colheita e da comezaina, pois tam- 
bém nos consta que as aposentadorias eram 
uma verdadeira praga para os povos! E, 
quando iam alem do sacramental visto, a 
desconsideração era certa. 

No mesmo foral d'esta villa e da de Me- 
zãofrio, por exemplo, mandou em 1819 o 
corregedor Pimentel que se traduzisse mme- 
diatamente para boa lettra o foral, para que 
podesse ser de todos lido; 1 mas em 1828 
ainda se não havia copiado, pelo que no 
visto do corregedor Tavares, em correição 
d'aquella data, se lê : «Deve ser copiado em 
boa letra este Foral. Cuide disso os Srs. Ve- 

1 É escripto em portuguez, mas em cara- 
cteres góticos, com illuminuras, e compre- 
hende 10 folhas de pergaminho, mais 2 com 
o indice no principio e 2 no fim com os vis- 
tos dos corregedores, desde 1583 até 1831. 



784 VIL 



VIL 



readores alé á fulura correição, sub pena de 
se mandar copiar á sua custa (sic). » 

Agora a nota cómica : 

Em 1829 o corregedor, vendo ainda o fo- 
ral por traduzir, com manifesto desprezo das 
terminantes ordens dos seus collegas, desde 
1819, lavrou o chistoso visto seguinte : Não 
se copie este Foral para que não se escarne- 
cão mais os Provimentos das Correições. Zu- 
zarte. 

Obedeceram os illustres vereadores, pois 
só em 1866— ou 47 annos depois do 1.° pro- 
vimento — foi o dicto foral traduzido pelo sr. 
Kerubino Lagoa, cartorário da Santa Casa 
da Misericórdia do Porto. 

Banham esta freguezia o Douro a S. e o 
Sermanha a S> E. 

O Douro tem nos limites d'esta parochia 
os pontos (rápidos, galeiras ou cachoeiras) 
do Conde e da Sermanha. 

V. Pontos do Douro, n. os 23 e 24. 

O do Conde tomou o nome dos condes de 
Marialva, antigos alcaides móres de Lamego» 
porque no dicto ponto cobravam certos di- 
reitos;— o da Sermanha tomou o nome d'este 
rio, em cuja embocadura se acha e que o 
formou com a grande quantidade de pedras 
que tem despejado sobre o Douro, bem como 
o ribeiro da Curvaceira e o rio Corgo for. 
maram os pontos, a que deram os seus no- 
mes. 

O ponto da Sermanha também podia de- 
nominar-se Ponto do Frade, porque muitos 
annos, até 1834, foi uma das quintas mais 
rendosas de um frade da Penajóia, bem co- 
nhecido por Fr. Bernardo do Molledo,— um 
dos homens mais valentes e mais temidos 
n'aquella grande freguezia e em todo o con- 
celho de Lamego, no 2.° quartel d'este século. 

Não sabemos bem porque bulias todos os 
barcos que subiam o dito ponto eram obri- 
gados a dar-lhe 480 réis por cada sirga que 
lançassem a terra, pois só com os bois do 
dito frade podiam ser guindados n'aquelle 
ponto. E, sendo os marinheiros rabellos de 
pelle diabi, nomeadamente os afamados va- 
lentões de Barqueiros e de Porto Manso, to- 
dos se curvavam á despótica imposição do 
fradinho e pagavam pontualmente!. . . 



Morava elle na povoação do Codorneiro 
(uma das muitas da Penajóia) junto da do 
Molledo e do dicto ponto, e deixou boa for- 
tuna, hoje de um seu 2.° sobrinho, Antonio 
Rodrigues França, que habita a mesma casa 
do tio, a melhor d'aquella povoação e que 
avulta a meio dVHa, distinguindo-se perfei- 
tamente do Douro, d'es!a parochia de "Villa 
Marim e do mencionado ponto, por ter um 
espaçoso mirante envidraçado. 

Tem esta parochia uma fabrica de quei- 
mar vinho e duas azenhas na Rede, movidas 
por agua, — outras duas mais distantes, mo- 
vidas por gado — e no Sermanha um bom 
estabelecimento de moagem de pão. 

Tem na foz do ( Sern?anha também uma 
grande ponte de pedra de um só arco, na 
estrada real da Regoa ao Porto i-eo gran- 
de viaducto da Sermanha, uma das primei- 
ras obras d'arte na linha férrea do Douro. 
V. Sermanha. 

A jusante do ponto da Sermanha e a mon- 
tante do do Conde crusa entre esta freguezia e 
a da Penajóia a celebre barca do Molledo ou 
do Por Deus, que tomou o nome da antiga 
povoação do Molledo, na margem sul, — po- 
voação que deu o nome ás Caldas do Molle- 
do e á quinta do Molledo, uma das muitas 
d'esta parochia, por estar em frente d'a- 
quella povoação, na margem norte (direita) 
do Douro. 

Ha n'esta parochia, na vinha e montes da 
Capelleda, junto da egreja de S. Caetano 
(lado norte) uma mina de estanho, registra- 
da e principiada a explorar na segunda me- 
tade d'este século por Miguel Peixoto, de so- 
ciedade com alguns capitalistas de Lisboa. 

O minério era de excellente qualidade, 



1 Esta ponte foi mandada fazer pela Com- 
panhia dos Vinhos, quando fez a estrada do 
Porto á Regoa. V. Villa Jusã. 

Anteriormente havia, um pouco a mon- 
tante d'esta, outra ponte para communica- 
ção entre os povos das duas margens d'este 
rio Era também de pedra e ainda lá se vê, 
sendo denominada ponte velha. 



VIL 



VIL 785 



mas os filões descobertos muito frouxos, 
pelo que suspenderam a lavra. 

N'ella se encontraram vestígios de remota 
exploração— galerias, pratos de estanho, pi- 
caretas, etc. 

Entre esta parochia e a de Cidadelhe, sua 
limitrophe, ha um morro, denominado Cas- 
tello dos Mouros, onde se vêem ainda hoje 
ruinas consideráveis de um castello anti- 
quíssimo, cuja fundação se attribue aos ro- 
manos. 

Ali se teem encontrado muitas medalhas 
romanas, de cobre, prata e ouro. Uma de 
ouro, de Cesar Augusto, encontrada depois 
do meiado d'este seçulo, tinha de valor réis 
4$ 100, avaliada pelo preço corrente do nosso 
ouro. Outra, encontrada também pelo mesmo 
tempo, e também de ouro, tinha no anverso 
a efígie de uma mulher e no reverso a efí- 
gie d'outra mulher,, e pelo preço corrente 
do nosso ouro em barra valia 800 réis. 

Alguém diz que n'este morro esteve no 
templo dos romanos uma cidade ou povoa- 
ção muito importante, com os restos da qual 
se formou a freguezia e povoação de Cida- 
delhe, muito próxima. 

V. Cidadelhe, a segunda. 

Ao norte d'esta freguezia se ergue impo- 
nente a serra do Marão, notável pela sua al- 
titude, tendo sobranceiras a esta parochia e 
á de Cediellos as medonhas Fragas da Er- 
mida—um dos maiores despenhadeiros que 
se encontram era Portugal I 

D'ali se gosa um panorama vastíssimo so- 
bre a baeia hydrographica do Douro e so- 
bre as províncias da Beira e Traz-os-Mon- 
tes, ficando aos pés do observador desenha- 
do o abysmo com as mais vivas cores do 
bello horrível. 

Deslumbra o assistir do alto d'aquelle pe- 
nhasco ao nascer do sol. 

Existe ali, no ponto mais elevado,— Cabe- 
ço da Lousa,— um pequeno poço, aberto pela 
natureza na rocha, com alguns litros d'ex- 
cellente agua potável, que não trasborda 
nem secca. «Mais de uma vez a saboreámos 
pela aba do nosso chapéu»— diz o meu in- 
formador. 



A serra do Marão, ao norte, e a do Monte 
do Muro, ao sul, abrigam e defendem das 
intempéries o Alto Douro e contribuem para 
a excellencia das suas producções, nomea- 
damente do vinho, como se lê no Douro II- 
lustrado, pag. 28 e 29. 

A povoação da Rêde foi na primeira me- 
tade d'este século a vergonha e o açoute 
d'esta freguezia e de todo este concelho. 

Era um covil d'assassinos e salteadores 
que tinham por valhacouto a casa de Ma- 
nuel Soares d'Albergaria, mas com a morte 
d'este e do seu filho bastardo João Pereira, 
fuzilado em Mezãofrio, aquelles meliantes 
mudaram de rumo. 

V. Villa Jusã n'este diccionario— e Rede 
no'supplemento. 

Na aldeia do Granjão ha duas pessoas no- 
táveis— o visconde d'aquelle titulo e o vene- 
rando e benemérito cirurgião Joaquim José 
de Sousa. 

Antonio Botelho Teixeira, 1.° barão do 
Granjão por mercê de 7 de maio de 1867, e 
1.° visconde do mesmo titulo por mercê de 
28 d'abril de 1879, nasceu no Granjão de 
Cima, parochia de Santa Maria d'01iveira, 
nos princípios d'este século, e foi capitão do 
exercito realista do sr.D. Miguel, que o con- 
decorou com a sua real efflgie. 

Depois da convenção d'Evora Monte, re- 
colheu-se a sua casa, abraçou o partido li- 
beral—e ha bons trinta annos é presidente 
da camará de Mezãofrio, sem interrupçãofl..- 

Casou em Fornos d'Algodres com a ex. n,a 
sr. a D. Carlota d'Albuquerque Pimentel e 
Vasconeellos, já fallecida, senhora muito vir- 
tuosa. D'este consorcio houveram uma filha 
única, D. Amélia Teixeira Botelho d'Albu- 
querque, senhora virtuosíssima também? 
hoje casada com o dr. José Abranches Ho- 
mem da Costa Brandão, antigo deputado ás 
cortes e cavalheiro de muito merecimento» 
natural do concelho de Ceia, districto da 
Guarda. 

O sr. visconde do Granjão ainda vive 
n'esta data e teve um irmão, que falleceu ha 
poucos annos, dr. José Botelho Teixeira, ex- 
cellente pessoa, advogado distincto e muitos 



786 VIL 

tos annos juiz de direito substituto na Be- 
goa. 

Joaquim José de Sousa, filho natural de 
uma mulher de Villa Pouca, povoação d'esta 
freguezia de Villa Marim, nasceu na villa de 
Moimenta da Beira, em agosto de 1804. 

Protegido por um abbade de Cidadelhe, 
formou-se em cirurgia na Escola do Porto, 
matriculando-se em 1825 e terminando com 
distincção a formatura em 1830. 

Passou em viagem de instrucção pelo 
nosso paiz o anno de 1831, que foi um vul- 
cão de revoluções I . . . 

Em princípios de 1832 foi nomeado pelo 
sr. D. Miguel cirurgião ajudante do regi- 
mento de infanteria n.° 19, de Cascaes. 

Sitiado o Porto pelas tropas do sr. D. Mi- 
guel, prestou Joaquim de Sousa relevantes 
serviços nos hospitaes de sangue que se im- 
provisaram em volta d'aquella cidade para 
os sitiantes e sitiados prisioneiros, nomea- 
damente no hospital que se creou no con- 
vento da Formiga, no qual só no dia de S. 
Miguel de 1832 entraram cerca de 1:000 sol- 
dados feridos. 

Desgraçados tempos ! . . . 

Em 1833 foi despachado cirurgião mór 
para o regimento d'artilheria de Faro;— em. 
abril de 1834 passou com a mesma patente 
para cavallaria n>° 8— e, em seguida á con- 
venção d'Evora Monte (27 de maio d'aquelle 
mesmo auno) deixou a carreira militar, que 
tão auspiciosa lhe sorria, e recolheu-se a 
sua casa. 

Becebeu convite para servir no exercito 
liberal com a mesma patente de cirurgião 
mór (contava elle então 30 annosl . . .) mas 
não acceitou, sustentando inabalável até hoje 
as suas crenças realistas,— sempre respeita- 
do e muito considerado por todos, incluindo 
os próprios liberaes,— porque foi sempre um 
cavalheiro a toda a prova e exerceu sempre 
a clinica particular com grande proficiência 
muito zelo e muito desinteresse nos conce- 
lhos de Mezãofrio, Begoa e Lamego, nomea- 
damente na freguezia da Penajoia. 

Fixou a sua rezidencia no Granjão de 
Baixo, onde lem vivido e vive ainda, mas já 



VIL 

completamente inutilisado com o peso dos 
seus 81 annos! 

Poucos cirurgiões ruraes terão trabalhado 
tanto e deixarão de si tão abençoada memo- 
ria !.. . 

Falleceu no dia 9 de abril de 1882 na sua 
quinta do Casal, n'esta freguezia, o sr. Mi- 
guel Peixoto Pinto Coelho de Sá Carneiro, 
pae do sr. D. Francisco Peixoto Pinto Coe- 
lho Pereira da Silva de Sousa e Mello da 
Veiga Cabral. 

Chamava-se Miguel, por ser afilhado do 
sr. D. Miguel I, que no baptismo se fez re- 
prezentar pelo marquez de Bellas. 

O finado era filho de Anselmo de Andrade 
de Sá Carneiro e de sua esposa D. Maria Hen- 
riqueta Peixoto Pinto Coelho Pereira da Silva 
de Sousa e Mello,— neto pela parte paterna 
do general Antonio José Baptista Sotto-Maior 
de Sá Carneiro e Castro, e pela parte materna 
de Francisco Peixoto Pinto Coelho Pereira 
da Silva, ultimo senhor donatário de Felguei- 
ras, Vieira e Fremedo, legitimo descendente 
e representante do famoso Egas Moniz. 

Nascera Miguel Peixoto em Lisboa, no dia 
19 de julho de 1831. 

Em volta de Lamego ha muitas povoações 
cujos nomes terminam em im, taes são La- 
lim, Lazarim, Ferreirim, Magustim, Mondim, 
Gojim, Goujoim, Sendim, Sedavim, Cantim, 
Contim, Gondim, Penim, Almeirim, etc. 

Todas estas povoações foram restauradas 
pelo benemérito emir ou rei mouro de La- 
mego, Zadam-lben-Huim, de quem por gra- 
tidão tomaram e ainda hoje conservam o 
appellido. 

Talvez que do mesmo regulo tomassem 
também a desinência im esta parochia de 
Villa Marim, a de S. José de Godim, junto da 
Begoa, e a povoação de Nostim da fregue- 
zia de Moura Morta, visinha de Villa Marim, 
pois todas estas povoações estão a pequena 
distancia de Lamego, embora na margem 
direita do Douro, e é possível que no tempo 
da occupação árabe pertencessem ao reino 
de Lamego, assim como posteriormente per- 
tenceram á provedoria da mesma cidade e 
agora pertencem áquella diocese. 



VIL 



VIL 787 



Esta parochia soffreu muito em 1808 com 
os excessos de toda a ordem, praticados pelo 
sanguinário general francez Loison, n'este 
concelho de Mezãofrio e no da Regoa. V. 
Villa Jusã. 

Tem duas aulas officiaes dt instrucção 
primaria elementar para os dois sexos— e na 
villa de Mezãofrio, séde do concelho e sua 
limitrophe, tem muitas feiras e mercados 
importantes, muitas lojas de commercio bera 
sortidas, um theatro, ura hospital da Mise- 
ricórdia, pharmacias, etc. 

Os primeiros proprietários) d'esta fregue- 
zia na actualidade são — Manuel d'Almeida 
Coutinho, Victorino de Queiroz e o viscon- 
de do Granjão. 

Aos meus illustrados collegas, os rev. os 
Antonio Corrêa da Silva e Abilio Pereira 
Dias, agradeço os apontamentos que se di- 
gnaram enviar- me. 

VILLA MARIM — freguezia do concelho, 
comarca e districto de Villa Real, arcebis- 
pado de Braga, província de Traz-os-Mon- 
tes. 

Vigairaria. Orago Santa Marinha —fogos 
303,— habitantes 1:260. 

Em 1706 contava 135 fogos,— era da apre- 
sentação dos jeronymos de Belém— e per- 
tencia ã comarca, ouvidoria e corregedoria 
de Villa Real, provedoria de Lamego. 

Em 1768 era da mesma apresentação,— 
contava 194 fogos— e rendia para o seu vi- 
gário 40$000 réis. 

Comprehende as povoações ou aldeias!' se- 
guintes: Villa Marim, Ramadas, Gallegos. 
Quintella, Amai, Outeiro, Barroca, Muas ou 
Meças, Agares, Pombal e Refontoura;— os 
casaes ou quintas de Cabril, Fojo, Covello e 
Veiga ;— a casa, habitação isolada, dos Ma- 
chados— e os sitios da Marinheira e Cou- 
cieiro. 

Freguezias limitrophes — Mondrões a S. O. 
— Borbella a N, E.— Villa Real a S. E— e 
Villa Cova a 0. 

Dista de Villa Real 3 kilometros para 
N. O.— 30 da Regoa —134 do Porto— e 471 
de Lisboa. 

Producções dominantes— cereaes, casta- 



nhas, batatas, melancias, maçãs e vinho 
muito áspero. 

No século xiv D. Martinho d'01iveira, 
quarto do nome, natural d'Evora, annexou 
ao convento benedictino de Pombeiro esta 
parochia de Villa Marim, e as de Santa Ma- 
ria de Canedo, em terras de Basto, S. Miguel 
de Vargiella, S. Diniz de Villa Real de Traz- 
os-Montes, S. Martinho de Penacova, Santa 
Maria de Bobadella, S. Fins de Torno, S. João 
de Cavez, S. Salvador de Moure, S Mamede 
de Villa Verde, S. Martinho d'Armil e Val 
de Bouro, segundo se le na Benedictina Lu- 
zitana, L. 2.* pag. 72, col. 1.* 

ê — 

Esta parochia é muito antiga e muito con- 
siderada pois já no tempo do nosso primeiro 
rei D. Affonso Henriques era honra;— per- 
tencia como tal a Mem- Guedes— e d'elle pas- 
sou por varonia, durante séculos, aos Gue- 
des Alcoforados, descendentes de Mem Gue- 
des. 

Tomaram o appellido Alcoforados depois 
que Diogo Guedes, 3.° neto de Mem Guedes, 
casou com D. Goldora Goldares Alcoforado. 

Caetano Guedes Alcoforado foi o 17.° neto 
d'aquelle avoengo e teve uma irmã, D. Ma- 
gdalena Máxima Souto e Medeiros, que ca- 
sou em Provezende com José Botelho ^Aze- 
vedo Cão, fidalgo distincto, capitão mor do 
Couto de Provezende, morgado e descen- 
dente do celebre Diogo Cão, descobridor do 
Congo. 

Do consorcio com D. Magdalena teve José 
Botelho uma filha única e herdeira, D. Qui- 
téria Liberata Souto Maior d' Azevedo Cão, 
que casou com Affonso Botelho de S. Payo 
e Sousa, morgado de Passos, junto de Sa- 
brosa, descendente de Affonso Botelho, o 
velho, primeiro alcaide-mór de Villa Real de 
Traz-os-Montes, por graça d'el-rei D. Diniz. 

Por esta fórma os vínculos de Passos e 
Provezende se reuniram em uma só família, 
que pelo lado materno procedia dos Guedes 
Alcoforados, senhores da honra de Villa Ma- 
rim, concelho de Villa Real, desde o princi- 
pio da nossa monarchia. 

Estas casas e estes vínculos foram em nos- 



788 VIL 



VIL 



sos dias representados pelo notável campeão 
das medidas restrictivas do Douro, deputado 
ás cortes em differentes legislaturas, Affonso 
Botelho de S. Payo e Sousa, > mas não re- 
presentava a casa de Villa Marim. Apenas 
tinha o sangue d'ella. 

Ha n'esta freguezia, na povoação de Quirt- 
tella, uma torre antiquíssima, acastellada e 
ameiada, com o aspecto da Torre da Marca, 
hoje dos Terenas, no Porto. Antes da funda- 
ção de Villa Real de Traz-os-Montes já exis- 
tia a mencionada torre de Villa Marim— e em 
1721 era senhor dYlla o conde de Vimioso. 

Ignoramos a quem pertence na actualida- 
de e quem íoi o seu fundador. 

Ao meu illustrado cyreneu e bom amigo, 
o ex. mo sr. José Augusto Pinto da Cunha 
Saavedra, de Provezende, agradeço os apon- 
tamentos que se dignou enviar-me. 

Com relação a esta parochia diz J. A. de 
Almeida : 

«No logar de Agares está a ermida de S. 
Torquatò, aonde concorriam muitos romei- 
ros. Aqui junto ha memoria de um castello 
demolido, com uma cova no meio, entulha- 
da de pedras lavradas, e com o seu recinto 
de muralhas por fóra, de que se vê ainda 
hoje parte, e que dizem ser obra dos mou- 
ros. Mais perto do mesmo sitio vê-se uma 
cova em terra de salão, d'onde, affirmão al- 
gumas pessoas, se tiràra um caixão com 
muitas peças d'ouro.» 

Foi natural d'esta parochia Fr. Seraphim 
da Conceição, carmelita descalço. 

Nasceu a 6 de janeiro de 1734 e falleceu 
a 6 de fevereiro de 1814. Passou a maior 
parte da sua vida em Braga, onde, pela sua 
illustração e virtudes, foi bem acceito-aos 
arcebispos D. Gaspar, D. Fr. Caetano Bran- 
dão e D. José da Costa Torres, de quem foi 
confessor. 

Esci eveu varias obras, indicadas por In- 
nocencio Francisco da Silva. 

No supplemento a este diccionario — se 



V. Sabrosa e Provezende. 



Deus nos der vida e forças e elle estiver 
ainda a nosso cargo— desenvolveremos con- 
sideravelmente este artigo. 

VILLA MARTIM— hoje Martim, freguezia 
do concelho e comarca de Barcellos, da qual 
já se fallou no vol. 5.° pag. 100,' col. I a 

E' povdfcção muito antiga, pois d'ella faz 
menção o livro Fidei dizendo que estava nas 
faldas do monte Baseio (ou Bastucio) e que 
ali tivera certas propriedades Anagildo,— 
propriedades que vendeu a Guthierre Love- 
sende e a sua mulher D. Aragunta, no anno 
de 1024. 

Comprehende hoje esta parochia as al- 
deias ou povoações seguintes: Martim, séde 
da parochia, Venda, Pousada, Pomares, Ri- 
quinha, Lousa, Caldellas, Logar d'Alem, Ta- 
pada, Poi tella e Carcará. 

A aldeia de Martim, outr'ora Villa Mar- 
tim, ó atravessada pela estrada real a maca- 
dam de Braga para Barcellos e demora na 
margem esquerda do rio Cavado, do- qual 
dista 3 kilometros,— 10 da villa de Barcellos 
—62 do Porto— e 399 de Lisboa. 

VILLA DE MATTOS — V. Vil de Mattos, 
n'este vol. 10.° pag. 661. 

VILLA ME× freguezia, couvento e couto 
extinctos no concelho de Sinfães. 

V. Escamarão e Souzello. 

Note-se que o coucelho de Paiva, de que 
se fallou nos logares citado?, já não é do 
bispado de Lamego. Desde 1882, data da ul- 
tima circumscripção diocesana, ficou per- 
tencendo ao bispado do Porto, bem como to- 
do o concelho dArouca, exceptuando unica- 
mente a freguezia d'Alvarenga, por estar na 
margem direita do rio Paiva, linha divisória 
adoptada para extrema dos bispados do Porto 
e de La mego, como já se disse em Villa Jusã. 

VILLA ME× freguezia do concelho de 
Villa Nova da Cerveira, comarca de Valença 
do Minho, districto de Viauna do Castello, 
diocese de Braga, província do Minho. 

Reitoria. Orago S. Paio,— fogos 102 —ha- 
bitantes 404, comprehendendo a povoação 
de Chamosinlws que lhe.foi aonexada admi- 
nistrativamente, mas que para os effeitos es- 
pirituaes pertencia e pertence á parochia de 
S. Pedro da Torrre. 



VIL 



VIL 789 



Esta freguezia é formada pela povoação do 
seu nome, em cujo centro está a egreja ma- 
triz, e pela de Montorros, que apenas tem 3 
fogos. 

A aldeia de Chamosinhos em tempos mais 
remotos esteve annexa á freguezia de Santa 
Maria da Silva, d'este mesmo concelho de 
Valença, mas depois, por eontracto feito com 
o convento de Uia, em Galliza, padroeiro da 
dieta parochía da Silva, passou para a de 
S. Pedro da Torre, mediante o pagamento de 
80 alqueires de pão por anno ao convento 
de Oia. 

Em 1706 denominava-se esta freguezia 
Villa Meão,— contava 40 fogos— e era vigai- 
raria da apresentação da collegiada de Va- 
lença. 

Em 1768 era da mesma apresentação— 
contava 65 fogos— e rendia para o seu vigá- 
rio 301000 réis. 

Demora na margem esquerda do Minho, 
do qual dista 2 kilometros para S. E.,— 5 de 
Villa Nova da Cerveira e de Valença— 35 
de Vianna do Castello,— 70 de Braga,— 116 
do Porto— e 453 de Lisboa. 

Os campos de Villa Meã foram cortados 
ao sul pela estrada real de Caminha a Va- 
lença,— e ao norte pela linha férrea do Mi- 
nho, cuja estação mais próxima é a de S. 
Pedro da Torre, a distancia de 3 kilome- 
tros. 

Producções dominantes — cereaes, — vinho 
verde e hervagens. 

Também é mimosa de peixe do mar e do 
Minho, nomeadamente de salmões, sáveis, 
e lampreias. 

Esta parochia já esteve algum tempo an- 
nexada á de Campos, sua limitrophe, mas 
hoje ó freguezia independente, com parocho 
próprio. 

V. Campos, vol. 2.° pag. 75, col. l. a 

A Villa Meã, a que se referem as Inquiri- 
ções de D. Affonso III, no termo de Vianna, 
e a troca feita com D. Gil, bispo de Tuy, era 
um logar da freguezia d'A(fife, concelho de 
Vianna do Castello. 

V. Afife, in fine. 

VILLA ME× quinta antiquíssima junto 



de Prime, no termo de Vizeu,em 1207, data 
em que D. Sancho 1 a doou a Martinho Sal- 
vador, como se lê em Viterbo no artigo Ca- 
lumpnia, e como nós já dissemos também 
no art. Prime. 

Suppomos que a tal quinta de Villa Meã, 
mudou de nome, pois no concelho de Vizeu 
não conhecemos quinta ou povoação assim 
denominada, alem da povoação de Villa Meã 
na parochia de Povolide, distante de Frago- 
sella cerca de 10 kilometros, para N. E.— 
em quanto que Prime é hoje uma das aldeias 
da parochia de Fragosella. As outras povoa- 
ções d'esta parochia são— Fragosella de Ci- 
ma, Fragosella de Baixo, Sarnadinha, Tapa- 
do, Espadanai e Granja. 

A Chorographia Moderna não menciona 
quinta alguma pertencente á esta parochia. 
E possível que outr'ora se denominasse Vil- 
la Meã alguma das mencionadas aldeias. 

V. Prime, Fragosella e Povolide. 

VILLA MEÃ DE BAIXO * —aldeia da fre- 
guezia de Real, concelho d'Amarante. 

V. Real, vol. 8.°, pag. 63, col. 2.* 

Comprehende mais esta freguezia as al- 
deias de Real, Outeiro, Ribeira, Rubim, Sal- 
gueiras, Salvador, Souto, Cruz do Souto, Par- 
dieiros, Aldeia, Aldeia Nova, Aldeia Velha, 
Pias, Eirado, Bemfica, Ponte da Pedra, Mon- 
te, Moinhos, Outeiro, Fundo de Villa, Terça, 
Eira, Fonte de Cima, Penedo, Santa Comba 
Rua, Adega Velha, Agro Maior, Salgueiri- 
jihos, Feitoria, Casas Novas, Assento, Mon- 
tinchol, Cotovial e differentes casaes e quin- 
tas. 

Passa junto da aldeia de Villa Meã de 
Baixo a linha férrea do Douro, que tem ali 
a sua 10 a estação a contar do Porto, deno- 
minada Villa Meã. * 

Ha na dieta aldeia uma importante indus- 
tria de mortalhas de palha de milho para ci- 
garros, que são exportadas para o Brazil, 
nomeadamente para o Rio de Janeiro, em 
grande quantidade, — e temos ao norte do 
nosso paiz outras muitas terras que explo- 



i Villa Meã de Cima, aldeia próxima, per- 
tence á freguezia d'Athaide, também do con- 
celho dAmarante. 



790 VIL 



VIL 



ram a mesma industria, nos concelhos de 
Amarante, Lousada, Sinfães, ete. 

São no Rio de Janeiro actualmente conhe- 
cidas 50 marcas differentes de palha portu- 
gueza, que representam outras tantas casas 
expedidoras. 

As ditas mortalhas foram a principio en- 
fiadas da ilha de S. Miguel (Açores) mas 
acabou ali esta industria por ser a palha to- 
da mais grossa e não poder competir com a 
palha do nosso continente. 

Para se avaliar a importância d'esta in- 
dustria, note-se que só uma casa do Rio de 
Janeiro costuma ter em deposito palha no 
valor de 20 a 30 contos de réis fracos?!. . . 

A palha poriugueza é ali conhecida por 
palha especial e fina, de 1.» e 2.» qualidade 
— e vendida em pacotes de 500 mortalhas 
cada um, regulando actualmente o milheiro 
de 2. a por 800 réis,— o de J.« por 10000 rs. 
— e o da especial por 10300 a 10500 réis 
fracos. 

O governo brazileiro a principio cobrava 
na alfandega 200 réis por kilo ; — hoje cobra 
10500 réis— e o consumo tem subido em 
dobro nos últimos annos. 

Ha no Rio de Janeiro fortunas feitas só 
cora este artigo. 

A palha de milho, portugueza é a melhor 
que se conheee para as mortalhas dos ci- 
garros. Lamentamos que na maior parte do 
nosso paiz ainda hoje se ignore esta parti- 
cularidade e o grande partido que podiam 
tirar d'ella, como tiram esta aldeia de Villa 
Meã e algumas outras do Minho e da Reira, 
nomeadamente de Sinfães. 

Esta aldeia de Villa Meã foi a séde do an- 
tiquíssimo concelho de Santa Cruz de Riba- 
Tamega, extincto por decreto de 24 d'outu- 
bro de 1855, pelo qual passou para o de 
Amarante. 

Ainda ali se vé a casa da camará e da ca- 
deia, bem como o pelourinho. 

Era pois uma povoação importante, em 
quanto foi séde do concelho; extincto este, 
decahiu bastante, mas hoje, depois da con- 
strucção da linha férrea do Douro, que lhe 
peu estação própria, Villa Meã recobrou no- 



I va vida e rapidamente ultrapassou a impor- 
tância que perdeu. 

Alem da estação e das suas dependências, 
já tem muitas casas novas, differentes esta- 
belecimentos commerciaes, dois hotéis como 
nunca teve, etc. 1 

VILLA MEÃ DE BORNE£— aldeia da fre- 
guezia d'este nome, junto das Pedras Salga- 
das, no concelho de Villa Pouca d' Aguiar, 
província de Traz-os- Montes. 

V. Bornes e Pedras Salgadas. 

A freguezia de S. Martinho de Bornes 
comprehende as aldeias seguintes -.—Villa 
Meã, Rebordechão, Lago Bom, Tinhella de 
Cima, Tinhella de Baixo, Valhegas e Lagoa 
todas muito antigas,— e a das Pedras Sal- 
gadas, muito moderna, mas hoje a mais no- 
tável e mais importante, formada pela bene- 
mérita companhia exploradora das aguas 
alcalino-gazosas-sodicas,bem conhecidas em 
Portugal e nos paizes extrangeiros como 
aguas das Pedras Salgadas, rivaes das de 
Vichi, em França, das de Verim, em Hes- 
panha, e das de Vidago e Bensaude, n'esta 
mesma província de Traz-os-Montes. 

O dia 9 de setembro de 1884 foi altamente 
lisongeiro para esta povoação de Villa Meã. 

Achando-se nas Pedras Salgadas el-rei o 
sr. D. Fernando com a sua esposa actual, a 
sr. a condessa d'Edla, e com seu filho o sr. 
Infante D. Augusto, fazendo uso das aguas 
alcalino-gazosas, — para fugirem á monoto- 
nia e para respirarem a pulmões cheios o ar 
puro do campo, não cessavam de passear 
pelas cercanias d'aquelle estabelecimento 
balnear. Um dia espraiavam-se pelos montes 
caçando,— outro dia alongavam o passeio 
até ás margens dos rios mais próximos, en- 
tretendo-se com a pesca,— outro dia foram 
nos seus trens até Villa Pouca d'Aguiar; — 
visitaram lambem o Vidago e Chaves— e no 
mencionado dia 9 offereceram um pic-nic 
aos hospedes do Grande Hotel, onde a famí- 
lia real se achava hospedada também. 



1 Dão-lhe também muita vida 2 boas es- 
tradas a macadain, que partem da estação 
para o concelho d'Amarante, servidas por 
diligencias. 



VIL 



VIL 791 



Realisou se a festa em um do3 sitios mais 
pittorescos das visiohanças das Pedras Sal- 
gadas— um souto de castanheiros na aldeia 
de que nos oecupamos. 

Teve a honra de ser um dos convidados 
o sr. dr. Manuel Maria Rodrigues, ao tempo 
também ali a banhos, chronista e redactor 
do Commercio do Porto, para o qual enviou 
no dia immediato uma interessante corres- 
pondência da qual extractamos o seguin- 
te : 

Pedras Salgadas 10 de setembro de 1884. 

«Ficarão memoráveis no espirito de to- 
dos os que tivemos a honra de ser convida- 
dos para o pic-nic realisado hontem pela fa- 
mília real, as impressões agradabilíssimas 
que nos proporcionou aqueila festa, já pda 
magnificência com que foi disposta, já pela 
occasião que tivemos de conhecer, melhor 
do que nunca, o trato delicado e captivante 
de el-rei o senhor D. Fernando e de sua es- 
posa a senhora condessa d'Edla, do infante 
o senhor D. Augusto e ainda da3 pessoas que 
n'esta localidade formam a sua pequena e 
despretenciosa corte. 

Estas qualidades excel lentes, que são tra- 
dieionaes na família realportugueza,só bem 
se apreciam quando, como hontem, nos en- 
contramos par a par com os seus membros, 
sentindo o magnetismo suave das altenções 
com que nos penhorae das amabilidades com 
que nos confunde. 

— Aqui somos todos iguaes— disse el-rei. 

E effectivamente, ao vór-se a convivência 
franca e desprendida que durante a tarde rei. 
nou entre todos os convivas, ninguém julga- 
ria que entre nós, simples cidadãos, estava 
por exemplo, o pai do chefe do Estado, um 
monarcha, emfim, que por mais de uma vez 
tem presidido aos destinos d'esta pátria, que 
jâ de ha muito é também a sua, se não por 
nascimento, comtudo pelos laços da familia 
que o prendera a um torrão, pequeno em di- 
mensões, é verdade, mas grande nos feitos 
gloriosos que ennobrecem as paginas bri- 
lhantes da sua velha historia. 

El-rei e suafamilia pareciam sentir-se bem 
n'este grupo, que apesar da liberdade que 



lhe era dada pelo exemplo do mais amável 
convívio, se via apenas embaraçado por ve- 
zes em não poder testemunhar-lhes bem cla- 
ramente o reconhecimento de que estava 
possuído perante uma affabilidade tão lhana 
como expontânea. 

Nós, os hospedes do Grande Hotel, estáva- 
mos já habituados ao trato familiar e atten- 
cioso de el-rei, de sua esposa e filho, pelas 
conversações a cada passo travadas entre tão 
elevados personagens e nós, mas todos esses 
requintes de cortezia e de fina edueaeão du- 
plicaram na festa de hontem. 



O dia apresentou-se perfeitamente adequa- 
do á diversão que se effeetuava. porque até 
o calor dardejante do sol tornava mais ap- 
petecida a sombra que projectava no sitio a 
ramagem frondosa dos castanheiros. 

Os snrs. Ferreira de Almeida, Mendes de 
Araujo e eu preparamos o terreno e dispo- 
zemos o local para a mais commoda perma- 
nência n'elle. 

Desbravou-se o chão, collocouse um tol- 
de para interceptar algum raio solar mais 
indiscreto, disposeram-se as ramagens e as 
bandeiras e procurou-se emfim dar ao sitio 
um aspecto festivo e uma disposição aprazí- 
vel. 

A's quatro horas da tarde estávamos ali to- 
dos os hospedes convidados. Pouco depois 
chegaram os régios personagens, que foram 
recebidos por nós, próximo do souto desti- 
nado ao banquete; ao mesmo tempo estron- 
deavam os foguetes e a musica 1 executava 
o hymno d'el-rei. 

O povo que se juntára, attrahido pelos si- 
gnaes da festa, collocára-se a distancia e sau- 
dava respeitosamente S. M. e a sua familia. 

Emquanto se tratava dos preparativos, o 
senhor D. Fernando, a senhora condessa e o 
senhor infante faziam as honras do campo 
com a máxima urbanidade e cortezia, já con- 
versando com todos os convidados, já dis- 
pensando as maiores altenções ás senhoras, 



i Era a banda marcial do regimento d'in- 
fanteria n.° 13, que esteve nas Pedras Sal- 
gadas, emquanto ali se conservou a familia 
real. 



792 



VIL 



VIL 



que a senhora condessa tinha chamádo para 
junto de si. 

Estendida a branca toalha no chão, no cen- 
tro da qual se destacava um modesto centro 
das pobres flores que trabalhosamente con- 
seguíramos reunir, alfombrado o chão com 
um macio tapete de fetos sobre os quaes se 
estenderam os chailes e as mantas de via- 
gem, el-rei deu ordem para que nos sentás- 
semos e procurássemos os lugares que me- 
lhor nos approuvesse sem distincções de ca- 
thegorias, e cada um se acommodou perfei- 
tamente, dando-se principio ao pic-nic. 

«Eram quasi cinco horas e a (arde princi 
piava a tornar-se amena. Collocados em uma 
eminência, a nossa vista dominava um for- 
moso panorama emoldurado ao fundo pelas 
curvas das serras, cuja cadeia parecia pro- 
longar-se infinitamente, contrastando o ne- 
grume das suas massas graoitivas com o vi- 
ço dos valles que lhes contornavam a base. 

A refeição correu animadíssima, por en- 
tre os dietos alegres e as conservações pra- 
senteiras de uma sociedade composta na ap- 
parencia e na sua totalidade de amigos ve- 
lhos, tal era a cordialidade com que a todos 
tratava a familia real. 

Do serviço o máximo elogio que se pode 
fazer delie é declarar simplesmente que era 
da casa dei rei. 

Ao champagne, S. M. congratulou- se por 
ver alli reunidas pessoas cuja companhia 
summamente disse ser-lhe agradável pelo 
prazer que duplamente lhe tinham dado com 
aaceeitação do seu convite, e brindou por to- 
das ellas, agradecendo a participação que ha- 
viam tomado n'aquella festa sern pretensões. 

Respondeu em nome d'estes o sr. dr. Na- 
varro de Paiva (procurador régio na Relação 
do Porto), saudando o rei e a familia real. 
Em seguida brindou também a S. M. el-rei 
o sr. D. Luiz I. 

O sr. Ferreira de Almeida, deputado ás 
cortes, brindou pela rainha a senhora D. Ma- 
ria Pia e depois pelo senhor infante D. Au- 
gusto. 

O sr. Mendes Araujo, como filho do Porto, 
relembrando a memoria de D. Pedro IV, brin- 
dou pelos seus descendentes. 



O sr. Navarro de Paiva brindou pela se- 
nhora condessa d'Edla. 

El-rei D. Fernando por ultimo saudou to- 
das as presentes. 



Entardecia já, quando nos dispozemos a 
regresar ao hotel. Deu -se antes um pequeno 
passeio, durante o qual a senhora condessa 
afagava com carinho verdadeiramente ma- 
ternal as creancinhas do povo, e depois diri- 
gimo-nos a pé, pela povoação de Villa Meã 
até á estrada onde estavam os trens, erguen- 
do-se durante o percurso calorosos vivas a 
el-rei, ao senhor infante e á senhora con- 
dessa. 

A familia real pôz de novo á disposição 
dos convidados um dos breacks e uma outra 
carruagem, e pouco depois seguíamos para 
o hotel, á porta do qual nos despedimos de 
el rei e de sua familia, exprimindo-lhes o 
nosso agradecimento pela distíncçâo com que 
nos penhorara, e as gratas impressões que 
em nós permanecerão indeléveis pelas atten- 
ções de que fôramos objecto.» 

Terminado o banquete, a senhora condes- 
sa d'Edia mandou dar ao povo, que se acha- 
va reunido a pequena distancia, tudo o que 
sobrouequeera muito, inclusivamente cham- 
pagne e outros vinhos generosos. 

Foi uma rasia completa, — a nota mais 
alegre da funeção 1 

Os criados a custo salvaram a louça e os 
talheres, porque o povo cuidava de metter 
tudo no estômago— e, se não interviessem os 
policias civis que acompanharam a familia 
real, não sabemos o que succederia ! . . . 

Conclusão :— Graças ao sr. D. Fernando, á 
sr." condessa d'Edia e ao sr. infante D. Au- 
gusto, é hoje o pittoresco souto de Villa Meã 
uma das estancias mais salientes e de mais 
gratas recordações nos arredores das Pedras 
Salgadas. 

VILLA MEÃ DO BURGO— (hoje simples- 
mente Burgo)— aldeia da freguezia de S. 
Salvador do Burgo, concelho e comarca de 
Arouca, districto d'Aveiro, hoje diocese do 
Porto na província do Douro. 

Até 1882, data da ultima circumscripção 
diocesana, pertenceu esta freguezia ao bis- 



VIL 

pado de Lamego, mas pela nova circurnscri- 
pção passou para o bir-pado do Porto com 
todas as do concelho d' Arouca, exceptuando 
a d'Alvarenga, por estar ua margem direita 
do rio Paiva, que ficou sendo por este lado 
a linha divisória dos bispados do Porto e de 
Lamego. 

Também passaram para o bispado do 
Porto todas as freguezias do concelho de 
Paiva, que eram do bispado de Lamego. 

V. Burgo, vol i.« pag. 505, col. I.'— Sal- 
vador do Burgo, vol. 8.° pag. 360— e Lamego 
no supplemento. 

Esta aldeia de Villa Meã do Burgo, hoje 
simplesmente Burgo, é antiquíssima e já foi 
villa e sede de conce lho com justiças pró- 
prias, casa de camará, pelourinho e cadeia, 
mas nunca foi freguezia. 

Era uma das povoações que constituíam e 
constituem a freguezia ainda hoje, denomi- 
nada S. Salvador do Burgo, porque foi sem- 
pre seu padroeiro S. Salvador até os fins do 
ultimo século, data. em que o substituíram 
pelo Santíssimo Sacramento. 

Alem das povoações mencionadas no ar- 
tigo Salvador do Burgo, comprehende esta 
parochia as seguintes:— Forcada, Lourosa, 
Figueiredo, Romariz d'Alem, Romariz d'A- 
quem, Vessada, Villa Meã do Burgo, ou sim- 
plesmente Rurgo, Ponte do Rurgo, Alhavai- 
te, Monte Calvo, Povos e Morta 1 e a quinta 
da Torrena, aldeia de Lourosa ou Leirosa 
dos Campos. 

IN"esta quinta houve (não sabemos se ha 
ainda hoje) uma torre antiquíssima, da qual 
partia uma estrada subterrânea para as fal- 
das do monte, onde estava ou está a dieta 
torre. 

Esta parochia do Rurgo é muito antiga, 
tanto que alguém pretende que a sua egreja 
matriz (S. Salvador) foi a l. a que houve em 
todo este valle d'Arouca; inclinamo-nos po- 
rem a crer que a 1.» foi a de Urro. 

O abbade era aprezentado pela abbadessa 



1 A Chorographia Moderna àiz—Possos e 
Manta. 
Foi lapso. 



VIL 793 

do real mosteiro d' Arouca. Recebia elle a 
terça dos dízimos, das sanjoaneiras e do ren- 
dimento do passal, afóra o pé d'altar;— as 
outras duas partes eram das freiras, dona- 
tárias d'esta freguezia e de todas as outras 
d'este concelho e que, além dos dízimos, ti- 
nham aqui muitos foros. 

Rendiam os dízimos, sanjoaneiras e pas- 
sal 42011000 réis, pertencendo ao parocho 
140$000 réis-e ás freiras 2800000 réis. 

O chão d'esta parochia é fertilissimo, ame- 
no, saudável e de formoso aspecto, pois é 
parte integrante do valle d'Arouea, um dos 
mais formosos tractos de terreno que se en- 
contram em todo o nosso paiz. 

Passa pelo meio d'esta parochia o rio ! i4r- 
da, que banha e fertilisa os seus vastos cam- 
pos e recebe aqui, como tributários, diver- 
sos ribeiros, entre elles um que nasce no 
sitio da Forcada e desagua na povoação da 
Pimenta. 

Y. Arda. 

A maior parte d'esta freguezia era do 
termo e couto d'Arouca ; a parte restante 
formava o antiquíssimo concelho de Villa 
Meã do Burgo que, apesar da sua diminuta 
população, tinha juiz ordinário e vereado- 
res próprios; mas, como as freiras d'Arouca 
fossem donatárias d'elle, os escrivães d'este 
concelho eram os do couto d'Arouca, pelo 
que nos dois concelhos se faziam as audiên- 
cias em dias diííerentes. 

A extincta e antiquíssima villa do Rurgo, 
outr'ora Villa Meã do Burgo, compõe-se ape- 
nas de uma estreita e tortuosa rua, que era 
â antiga estrada d' Arouca para Oliveira de 
Azeméis, na qual, por influencias politicas, 
metteram ou antes entalaram a nova e lin- 
díssima estrada actual a maeadam, feita em 
substituição d'aquella. 

Todas as suas casas são de humilde appa- 
rencia e revelam muita antiguidade, sobre- 
saindo entre ellas a que foi do capitão-mór 
Vaz Pinto e que hoje é do seu herdeiro e re- 
presentante Veríssimo Albino Teixeira Vaz 
Pinto, o primeiro proprietário d'esta fregue- 
zia e um dos primeiros d'este concelho. 

E3ta casa é bastante espaçosa, irregular e 



794 VJL 



VIL 



muito antiga, mas revela muito maior anti- 
guidade ainda um appenso, já sem tecto e 
que foi talvez o núcleo d'esta casa e o solar 
d'esta família. 

Facêa o dicto appenso com a mesma es- 
trada rua;— tem apenas duas portas e duas 
janellas— e a meio d'estas uma lapide com 
uma inseripção muito gasta e quasi inintel- 
ligivel. 

Estando nós ali em 1883 com os nossos 
bons amigos, os srs. Tito de Noronha, enge- 
nheiro, escripior publico e sócio correspon- 
dente da Academia Real. das Seiencias,— e 
dr. Manuel de Barros Nobre, então delegado 
do procurador régio n'esta comarca d'Arou- 
ca e hoje (1885) juiz de direito nos Açores, 
— a custo podemos ler o seguinte : 

Fern. Vaz Pinto 
Fil. Estevan Vaz Pinto 

mort. Africa magn 
virt... Régis Sebastian. 
. . . Selerum comes factus 
Anno Di. 5 8 4. 

Eu mesmo a copiei atentamente, mas não 
me responsabiliso por ella, porque os cara- 
cteres estavam muito gastos e tanto que não 
me foi possível decifrar alguns. 

Parece que diz: 

Fernão Vaz Pinto, filho de 
Estevam Vaz Pinto, morreu na 
Africa e foi um valente 
militar no reinado de 
D. Sebastião 

A data 584 (anno de 1584) refere-se tal- 
vez ao anuo em que ali puseram a lapide, 
pois o reinado de D. Sebastião terminou em 
1578. 

Em 1584 já Filippe II de Hespanha, o de- 
mónio do meio dia, dominava Portugal. 

A pequena, distancia d'esta casa e do mes- 
mo lado (norte) da rua, se lê na padieira da 
porta d'outra casa muito mais humilde, esta 
inseripção 

O P. e Antonio Aranha. 
Jesus Maria José. 
1 6 7 9. 



Em frente d"esta ultima casa, do outro la- 
do (sul) da mesmar ua, se vê uma casa no- 
va, simples, poueq^espaçosa, mas elegante* 
pertencente aos fidalgos de Paço de Sousa 
que possuem aqui um bom casal. 

Tem a dieta casa um brasão esquartelado: 
— no 1.° 3 flores de liz,— no 2.° uma cruz 
aberta, em campo vermelho: — assim os con- 
trários— e por timbre a mesma cruz e duas 
flores de liz. 

Pretende alguém que a primitiva villa 
d' Arouca foi esta aldeia de Villa Meã do 
Burgo, o que não acreditamos, porque Arou- 
ca já existia do tempo dos romanos e foi 
uma povoação florescente no tempo dos go- 
dos. 

Na doação que o conde D. Henrique fez 
em 1102 de Jesus Christo, a Echa Martins, 
ultimo rei mouro de Lamego, menciona-se 
Arouca e outras povoações adjacentes, mas 
não se falia n'esta de Villa Meã ou do Bur- 
go. Com certeza já então existia, mas era 
uma aldeia de pouca importância. 

Quero dizer com isto que o Burgo (na mi- 
nha humilde opinião) não foi a velha Arau- 
ca, Aruca ou Ai aduela dos romanos,— nem 
como villa tem a antiguidade de Arouca. 

No artigo próprio já dissemos que Arouca 
teve foral velho, dado por D. AÍTonso I em 
abril de 1151 e que D. Manuel lhe deu foral 
novo em 20 de dezembro de 1513 — e não nos 
consta que esta Villa Meã tivesse foral velho 
nem novo. 

Franklim menciona um foral dado a Villa 
Meã, aldeia, por D. Affonso III, em Lisboa, 
a 12 de julho de 1255. 

Maço 9 de Forcres Antigos, n.° 8. fl. 18, v. 
—Liv. 3 de Doações do sr. rei D. Alfonso 111, 
fl. 10, col. is — Liv. 2.° de Doações do mesmo 
Sr. Rei, fl. 55, in médio— e Liv. de Foraes 
antigos- de Leitura Nova, fl. 146, col. 1* 

Não diz porem Franklim qual a parochia, 
coneelho ou província da tal aldeia de Villa 
Meã, — e, havendo em Portugal tantas aldeias 
com o nome de Villa Meã, só pela leitura do 
foral pôde saber-se a qual das dietas aldeias 
pertence ;— suppomos porem não ser a esta, 
porque em Arouca não ha memoria alguma 
de semelhante foral. E mesmo que elle fosse 



VIL 



VIL 795 



dado a esta Villa Meã, isso provava que Villa 
Meã ainda era 1255 era uma simples aldeia, 
o que eu não nego. O que sustento é que a 
villa de Arouca é povoação muito mais an- 
tiga e foi sempre mais importante do que a 
villa do Burgo. 

Talvez que o Burgo já fosse aldeia antes 
d'Arouea ser villa, mas isso Dão prova que 
a primitiva Arouca fosse a aldeia do Burgo, 
como alguém pretende. 

É inegável que esta aldeia de Villa Meã do 
Burgo data de tempos muito remotos. 

Sabemos que na era 958 de Cesar (920 de 
Jesus Christo) eram senhores do valle de 
Arouca D. Ansur 1 Godsteiz e sua mulher 
D. Eleva, que reedificaram e ampliaram o 
convento d'Arouca, doando-o com muitas 
rendas e senhorios ao abbade Hermigildo, 
por escriptura feita a 12 d'abril da era 999 
de Cesar, ou 961 de Je-us Christo, na qual 
escriptura se declara que os doadores viviam 
em Villa Meã do Burgo. 

Não sabemos quando esta aldeia, foi feita 
villa— nem quando deixou de ser coneelho 
independente. O que sabemos é que foi de- 
molida em 1804, para passagem da nova es- 
trada a maeadand, a sua casa da camará e 
da cadei». Já não tinha tecto, nem portas, 
nem janelias e era um edifício pequeno e 
modesto, mas construído de granito e muito 
solido ainda. 

Como padrão dos seus antigos foros ainda 
conserva o seu velho pelourinho, que se vé 
junto de uma capella, a N. E. da villa. 

Cerca de 300 metros a S. O. do Burgo se 
vê também junto da 'nova estrada, do lado 
sul, a capella de Santo Antonio e contíguo 
a ella um arco, a que o vulgo erradamente 
chama moimento da Bainha Santa. 

É um arco de granito de architectura 
musarabe, sem inscripção alguma e com 
uns toscos relevos, — obra muito antiga. 



1 D.Ansur era lambem senhor— e senhor 
de baraço e cutelo! !. . .—da cidade ou co- 
marca d'Anegia, a cujo termo Arouca per- 
tencia n'aquelle tempo 

V. Areja n'este diccionaric— e em Viterbo 
a palavra Cutelo. 



A tradição diz que foi feito para n'elle 
descançar o féretro da rainha Santa, quando 
veiu de Castella—e que por essa occasião se 
construíram outros muitos arcos semelhan- 
tes desde Castella até aqui, sendo dois d'el- 
les, o do Marmoiral e o que se vé á entrada 
da quinta da Boa Vista, em Sobrado de 
Paiva. 

Isto é um disparate dos muitos que abun- 
dam nas nossas lendas; 

1. °— Porque o monumento do Marmoiral 
é o tumulo de D. Souzino Alvares. V. Bugefa 
e Marmoiral; 

2. °— Porque a sepultura que está junto do 
portão da Boa Vista é evidentemente o ja- 
zigo d'um guerreiro (não de uma senhora) 
como revelam as espadas que n'elle se veem 
esculpidas: 

3. °— Porque Santa M;ifalda não morreu 
em Castella, mas sim no convento d'Arouca, 
onde professou e rezidiu durante 70 annos, 
approximadamente, no que lodos os chro- 
nistas e historiadores concordam. 

O monumento de Santo Antonio do Burgo 
é incontestavelmente um mausoléu d'algu- 
ma pessoa notável,— talvez d'algum nobre 
guerreiro que fallecesse ha batalha ferida 
aqui pelo conde D. Henrique e por Egas 
Moniz contra o ultimo rei mouro de La- 
mego. 

Poderia também ser o tumulo de D. An- 
sur, depois transferido para o convento de 
Arouca,— ou de algum seu ascendente— ou 
de outro qualquer caválleiró d'estes sitios. 

Está ainda, bem conservado, posto que não 
ha memoria da data em que dVHe tiraram 
o ataúde com os ossos da pessoa que ali ja- 
zia. 

Note-se finalmente que este monumento 
estava alguns metros mais ao norte; mas, 
quando se fez a nova estrada a macadam, 
por causa do alinhamento, removeram no 
(approximadamente em 1864) para o ponto 
onde hoje se vé, ao- sul da dieta estrada e 
contíguo a ella, — sem a mínima alteração ou 
mutilação, — graças ao engenheiro quesuper- 
intendeu na transferencia. 

A rainha Santa Mafalda concedeu aos lha- 



796 VIL 



VIL 



bitantes d'este concelho de Villa Meã do 
Burgo o privilegio de não serem obrigados 
a ir ás montarias nem aos clamores ou pre- 
ces que se faziam na quaresma em differen- 
tes freguezias d'este valle. 

A mesma rainha no seu testamento man- 
dou que se désse annualmente a 12 viuvas 
d'este concelho do Burgo 12 medidas de pão 
12 de vinho e 500 réis em dinheiro, a cada 
uma, o que ha muitos annos se não cum- 
pre. 

Veja-se o artigo Arouca, onde se fazem 
muitas referencias a esta Villa Meã do Bur- 
go—e para a sua etimologia leia-se o artigo 
Burgo, vol. l.° pag. 507, col. 2. a in-fine. 

VILLA MEÃO ou VILLA ME× freguezia 
extincta no concelho, comarca e diocese de 
Bragança, província de Traz-os-Montes. 

Tinha como orago Santa Olaya ou Santa 
Eulália,— era curato da apresentação do rei- 
tor da freguezia de Rabal— e commenda. 

Em 1706 contava 40 fogos;— em 1768 con- 
tava 41— e rendia para o seu cura 8$000 
réis além do pé d'altar. 

Desde muito se annexou á freguezia de 
Babai. Vide. 

Esta freguezia de Rabal demora na pro- 
víncia de Traz-os-Montes (concelho, comar- 
ca, districto e diocese de Bragança) e não na 
do Douro, como se disse por lapso no artigo 
próprio. 

Conta hoje 102 fogos e 426 habitantes. 

Em 1706 estava dividida por 4 commen- 
das, a que chamavam quartos, rendendo ca- 
da um cerca de 50$000 réis,— total 200^000 
réis, dos quaes os eommendadores davam ao 
reitor d'esta freguezia 42$000 réis. 

Tinha também annexa a commenda de 
Villa Meão, que rendia 130$000 réis— e a de 
Grademil que rendia 50$000 réis. Ambas 
mm curatos. 

Era pois esta parochia de Rabal (com as 
suas duas annexas) património de 3 paro- 
cbos e de 6 eommendadores?!. . . 

Ditosos tempos 1 
. VILLA MENDE— aldeia da freguezia de 
Ferreira, concelho e comarca de Coura, pro- 
víncia do Minho. 

V. Ferreira, vol. 3.° pag. 170, col. 1." 



I Esta parochia de Ferreira comprehende 
a3 povoações seguintes -.—Villa Mende, Fer- 

| reira, Valle, Venade, Quintão, Cascalhai, 
Portella, Morini/Cruz, Centteira, Quingustos, 
Barrocas, Villares, Veiga, Fijó, Penedo e 
Tourem. 

A povoação de Villa Mende, notável por 
muitos titulos, está na vertente meridional 
do monte de S. Silvestre, na margem direita 
do rio Coura, d'onde dista cerca de 1:500 
metros. Demora uo valle de Ferreira, ba- 
nhado por um ribeiro d'este nome. 

Antigamente esta parochia de Ferreira 
pertenceu á comarca de Valença, como se 
disse no artigo próprio, mas em 1874 passou 
para a de Coura. 

Na mencionada aldeia de Villa Mende è 
muito digna de menção a antiquíssima Casa 
do Paço, que por alliança passou para a fa- 
mília Champalimaud, a qual ainda hoje a 
possue. 

Junto da dieta Casa do Paço existia desde 
tempos muito remotos a celebre Torre de 
Ferreira ou de Villa Mende. 

Foi demolida ha muitos annos, talvez nos 
fins do século xvir ou nos principios do xvm, 
e com a sua pedra se edificou a capella de 
Nossa Senhora dos Remédios, como consta 
da inscripção seguinte,' que se vê no fron- 
tispício d'ella : 

Ex turri Ferreira olim 

EST DIMENSA SACELLUM 
STRUXIT SED LAPSO CONDIT 
IPSA MODO 

É tradição que fora senhor da dieta torre, 
e nascera na dieta Casa do Paço D. Antonio 
Mendes de Carvalho, 1.° bispo d'Elvas. 

Assim o asseveram também alguns dos 
seus biographos; outros porem dizem que 
nasceu na casa. de Boi a Monte, em Forma- 
riz, parochia d'este mesmo concelho de Cou- 
ra, limitrophe da de Ferreira, para leste e 
muito próxima. Parece porem fóra de du- 
vida que foram senhores da Casa do Paço e 
Torre de Villa Mende, solar dos Mendes, os 
paes do benemérito bispo D. Antonio Men- 
des. 



VIL 



VIL 797 



Pouco mais de seis annos haviam decor- 
rido depois que tomara posse da sua dioce- 
se, quando se perdeu na Africa el-rei D. Se- 
bastião com os 18:000 portuguezes que o 
acompanharam, ficando captivos cerca de 
16:000. Tractando-se logo do resgate, o santo 
bispo D. António Mendes — á custa dos maio- 
res sacrifícios— resgatou todos os que perten- 
ciam ao seu bispado, no que empregou to- 
das as rendas da diocese, ficando reduzido 
ao estrictamente necessário para a sua parca 
e modesta subsistência ! . . . 

Mandou também fazer o paço episcopal e 
viveu sempre com grande parcimonia. Era 
só generoso para com a pobreza e tanto que, 
sendo ainda parocho de S. Miguel de Rebor- 
dosa, concelho de Paredes, no bispado do 
Porto, 1 chegou a passar privações com a 
sua generosidade para cora os pobresinhos. 

Sendo ainda ali parocho, foi um dos pri- 
meiros que adoptaram os livros do registro 
parochial para os nascimentos, casamentos e 
óbitos, pouco depois que o infante D. Affon- 
so, arcebispo d'Evora e de Lisboa e abbade 
d'Alcobaça, filho d'el-rei D. Manuel, creou o 
mencionado registro. 

Falleceu D. Antonio Mendes em Elvas com 
opinião de santidade, no dia 9 de janeiro de 
1591 e jazeu muitos annos em sepultura 
raza na capella mór da sua sé (hoje exlin 
cta) até que fazendo-se de novo a dieta ca 
pella e achando-se o seu corpo incorrupto, 
o bispo D. Antonio de Mattos e Noronha o 
coílocou em tumulo alto na mesma capella, 
do lado do Evangelho, com a inscripção se- 
guinte : 

Sepultura de D. Antonio 
Mendes de Carvalho, primei 
bo bispo d'esta cidade e 
bispado d'elvas. . 

Deus o tenha em bom logar 1 . . . 

Ao ex. mo sr. dr. Luiz de Figueiredo da 
Guerra, illustrado filho de Vianna, agradeço 
os apontamentos que se dignou enviar-me. 

VILLA MENDO — aldeia da freguezia de 



1 Foi ali parocho durante 14 annos. 

VOLUME x 



Abrunhosa Velha, concelho e comarca de 
Mangualde, districto e diocese de Vizeu, pro- 
víncia da Beira Alta. 

V. Abrunhosa- A-Velha, vol 1.° pag. 23. 

Esta freguezia tem hoje 270 fogos com 
1891 habitantes (em 1708 contava apenas 
176 fogos) e comprehende unicamente duas 
aldeias ou povoações— Abrunhosa Velha, sé- 
de da parochia, e Villa Mendo,— alem dos 
casaes seguintes:— Manteiro, Covello, Abru- 
nhal, Pedrogo, Feiteira, Pisão, Senhora dos 
Verdes, Poço Mourão, Fojo, Eiras e Pousada 
— e as quintas da Retorta, Boa Vista, Cabral, 
Caducas, Boehinhas e Carregal. 

No século xviii as duas povoações de Villa 
Mendo e Abrunhosa Velha foram desmem- 
bradas do antigo concelho de Tavares e ar- 
voradas em concelho próprio com o titulo 
de Villa Nova de Abrunhosa Velha, por es- 
tar a séde do concelho em Abrunhosa Ve- 
lha. 

Foram senhores donatários d'este conce- 
lho os Paes de Mangualde, hoje condes da 
Anadia. 

Na aldeia de Villa Mendo ha uma casa 
nobre, muito importante. É a do visconde 
de Villa Mendo, que tomou «festa aldeia o 
titulo,— Antonio de Gouveia Osorio, irmão 
do dr. José de Gouveia Os. rio, digníssimo 
juiz de direito no Fundão, e de, Manuel de 
Gouveia Osorio, tenente coronel de engenhei- 
ros, actualmente inspector d Engenharia na 
2. a divisão militar, com r^ side-m-ia em Vizeu 
— e do dr. Francisco Au^usio de Gouveia 
Osorio, juiz de direito na cidade de Bra- 
gança. 

O visconde de Villa Mendo, Antonio de 
Gouveia Osorio, ainda s Iteiro, nasceu na 
casa de Villa Mendo em 1826. Foram seus 
paes Manuel de Gouveia Osoi io e D. Maria 
Máxima de Gouveia Osorio, >ua sobrinha, 
d'este, filha do dr. José de Gouveia Osorio, 
desembargador da Relação e Casa do Porto, 
procurador da coroa e à> pu ado ás cortes 
de 1820. 

É o dicto visconde ba harel formado em 
direito com distineção e actualmente conse- 
lheiro do supremo tribu« ai <i» Contas, tendo 
sido deputado ás cortes em differentes legis- 

Õl 



798 VIL 



VIL 



laturas e governador eivil nos districtos de 
Angra, Madeira, Évora, Aveiro, Villa Real de 
Traz-os-Montes, Faro, Coimbra, etc. Não quiz 
ser governador eivil de Vizeu, por ter n'a- 
quelle districto a sua terra natal,— nem do 
Porto, por ter ali uma parte dos seus pa- 
rentes,— a família Ayres de Gouveia. V. Vou- 
zella. 

Os ministros do reino duque de Loulé e 
Rodrigues Sampaio o consideravam como 
magistrado de superior merecimento. 

Tem o solar da sua casa em Selvite, fre- 
guezia de Ventosa, no concelho e comarca 
"de Voazella. 

Aos trabalhos do dicto sr. visconde e ao 
seu notável discurso na camará dos deputa- 
dos contra o monopólio da Companhia dos 
Vinhos se deve (em grande parte) a abolição 
dos privilégios d'esta. 

O clima|d'esta freguezia d'Abrunhosa é 
temperado e muito saudável, pelo que n'ella 
se encontram muitas pessoas de 80 a 100 
annos. 

Ainda em março ultimo aqui falleceu uma 
mulher, por nome Maria Ferreira, contando 
a bagatella de 100 aunos. 

Era muito jovial e dotata de excellentes 
qualidades. Não obstante o ser pobríssima, 
os seus visinhos (honra lhes seja !) fizeram- 
Ihe um funeral pomposo e a philarmonica 
d'esta parochia acompanhou gratuitamente 
o cadáver da boa centenária até o seu ul- 
timo jazigo. 

Falleceu também ha pouco tempo a mãe 
do sr. visconde de Villa Mendo, que era 
uma santa senhora e contava mais de 80 an- 
nos de idade. 

Não succede o mesmo nas parochias dos 
campos de Coimbra, depois que n'elles se 
desenvolveu a cultura dos malditos arrosaes 
transformando-os em um medonho foco de 
febres endémicas I 

VILLA DE MILHO, V. Verde Milho, voL 
10.° pag. 296, col. 2." 

VILLA MOU— freguezia do concelho, co- 
marca e districto de Vianna do Castello, ar- 
cebispado de Braga, província do Minho. 
Fogos 107,— almas ôi2. 
Vigairaria. Orago S. Martinho Bispo. 



Em 1706, segando se lê na Chorographia 
Portugueza, — contava 60 fogos, — era da 
apresentação das freiras de S. Bento, de 
Vianna,— rendia para o vigário 80#0O0 réis 
— e para ás freiras 200$000 réis, coropre- 
hendendo os dizimos dos prazos que ellas 
tinham n'esta parochia. 

Em 1768 era da mesma aprezentação — 
rendia 40#000 réis para o seu vigário— e 
contava 83 fogos. 

Comprehende as aldeias seguintes -.—Villa 
Mou, Agra, Lameiro, Valle, Coixinho, Al- 
deia Cruzeiro, Pedreiras, Outeiro de Baixo, 
Outeiro de Cima, Calvário, Eiras, Quelha, 
Rasas, Lombo, Medros, Carvalhal, Torre— 
e os casaes ou quintas de Carvalhal, Ponte, 
Eirado, Torre, Terrados, Cunhas e Rasas. 

O logar de Villa Mou está na margem di- 
reita do Lima, do qual dista 1 kilometro,— 
12 de Vianna —35 de Braga,— 61 de Valen- 
ça do Minho —142 do Porto— e 349 de Lis- 
boa, 

Freguezias limitrophes— Meixedo a N.— 
Lanheses a E.— S. Salvador da Torre a O.— 
e o Lima a S. 

Producções dominantes— vinho de enfor- 
cado e milho, pois comprehende extensos e 
formosos campos, uma veiga fertilissima que 
se estende até o rio Lima. 

Esta parochia é muito antiga; — a sua 
egreja matriz data do século xvi e é a mais 
pobre de todo o concelho de Vianna. 

Corta esta freguezia a lindíssima estrada 
real a macadam, de Vianna a Ponte do Lima. 

Segundo se lê na Benediclina Luzitana, 
vol. 1.° parte II, cap. 29, pag. 413, esta fre- 
guezia (ou a povoação) de Villa Mou, já 
existia no tempo dos mouros e lhes foi to- 
mada pelo capitão Payo ou Pelagio Vermu- 
dez, que alguns chamam conde de Tuy. 

Este conde a possuiu muitos annos e no 
seu termo restaurou o couvento benedictino 
de S. Salvador da Torre, primitivamente fun- 
dado por S. Martinho dumiense. Pelos an- 
nos de 1068 de novo o restaurou, ampliou e 
generosamente dotou Fr. Ordonho, descen- 
dente de D. Pelagio— e por ultimo D. Frei 
Bartholomeu dos Martyres o uniu ao seu 
convento de S. Domingos de Vianna. 



VIL 



VIL 799 



Este mosteiro deu o nome à freguezia de 
S. Salvador da Torre, limitrophe a O. d'esta 
de Villa Mou. 

V. Torre, freguezia,— vol. 9.° pag. 599, 
col. 2. a 

Ao ex. m0 sr. dr. Luiz de Figueiredo da 
Guerra, illustrado filho de Vianna, agradeço 
os apontamentos que se dignou enviar-me. 

Concluiremos dizendo que um pouco a 
montante da egreja matriz d'esta parochia 
se veem ruinas de uma fortificação antiquís- 
sima. 

VILLA NOGUEIRA D' AZEITÃO — villa e 
freguezia do concelho e comarca de Setú- 
bal, districto de Lisboa. 

Orago — S. Lourenço. 

Bem desejávamos dar aqui na sua integra 
o bello artigo que o sr. Antonio Maria d'01i- 
veira Parreira se dignou enviar-nos com re- 
lação a esta formosa villa e que agradece- 
mos com profundo reconhecimento, mas so- 
mos forçados a aligeirar e resumir para ver* 
mos se fechamos o diccionario com este 10.° 
volume—e por isso no supplemento publica- 
remos aquelle interessantíssimo trabalho. 

Desculpem-nos o sr. Oliveira Parreira e 
os leitores. Entretanto veja se n'este diccio- 
nario o art. Azeitão, vol. l.° pag. 288, col. 
l. a , onde já se fallou d'esta freguezia. 

Pôde também ver-se no Diccionario Geo- 
graphico Universal o excellente artigo Azei- 
tão, devido á illustrada penna do mesmo sr- 
Antonio Maria d'01iveira Parreira. 

VILLA NOVA— aldeia da freguezia de S. 
Cypriano, concelho e comarca de Rezende, 
districto de Vizeu. 

V. Cypriano (S.) vol. 2.° pag. 462, e Miu- 
mães, vo!. 5.° pag. 345, col. i. a 

Aiem das aldeias indicadas no artigo pró- 
prio, comprehende a freguezia de S. Cypria- 
no as seguintes: — Louredo, Vau, Carril, 
Prado, Venda, Gallises, Outeirinho, Torri- 
nha, Major, Pinheiro, Telhado e Villa Nova; 
—os casaes de Brejo, Ceara, S. Christovam, 
Torre, Chã das Quartas, Mattinho, Valle, Fir- 
vida, Sobro, Regada, Ponte, Quintans, Pi- 
nhel e Vinha— e a quinta da Torre. 

A freguezia de S. Cypriano pertencia ao 
antiquíssimo concelho d'Aregos, extincto 



pelo decreto de 24 de outubro de 1855, pelo 
qual passou para o de Rezende. 

O extincto concelho d'Aregos comprehen- 
dia mais as parochias d'Anreade, Frei Gil, 
S. Romão, Pancherra e Oradas — e desde 
1834 até 1855 a sua séde,— a casa da ca- 
mará e a cadeia— estiveram na freguezia de 
S. Cypriano, na aldeia de Villa Nova, supra 
indicada 

VILLA NOVA— aldeia da freguezia de 
Carvalhaes, concelho e comarca de Miran- 
della, districto e diocese de Bragança. 

V. Carvalhaes, vol. 2.° pag. 132, 

Comprehende esta freguezia as aldeias de 
Villa Nova, Contins e Nillar de Leãra, que 
antigamente foram (todas tres) parochias 
independentes. 

Em 1706 Villa Nova contava 28 fogos e 
era curato da apresentação do vigário de 
Suzães ou Suzains, 1 no termo de Lamas 
d'Orelhão; — Contins apenas contava 20 fo- 
gos,— era da apresentação do reitor dos Val- 
les, no termo de Chaves,— e rendia para o 
commendador dos Valles 301000 réis;— 
Villar de Ledra, era da apresentação do rei- 
tor de Mascarenhas, hoje freguezia do con- 
celho de Mirandella, e contava 30 fogos. 

VILLA NOVA— aldeia da freguezia de Do- 
nai, concelho e comarca de Bragança. 

Orago S. Justo. 

V. Donai— vol. 2.° pag. 478. 

Esta aldeia já foi parochia independente, 
cujo orago era S. Jorge. Em 1706 contava 
apenas 16 fogos— e estava annexa á reitoria 
de Castro d'Aveíãs.. 

Também n'aquelle tempo a freguezia de 
S. Justo de Donai contava apenas 50 fogos e 
era um simples curato annexo á reitoria da 
Carregosa. 

Em 1768 este curato de S. Jorge de Villa 
Nova era da apresentação do cabido de Mi- 



* Assim se lé em Carvalho, mas o Port. S. 
e Profano escreveu Succães—e hoje na lo- 
calidade lêem e escrevem Sucções. 
V. Sucçães, vol. 9.° pag. 463, col. l. a 
Em 1768 este curato de Villa Nova, tinha 
por orago Santo Antonio (antigamente foi 
Santa Comba)— rendia para o cura 30#O00 
réis— e contava 30 fogos. 



800 VIL 



VIL 



randa,— contava 23 fogos— e rendia para o 
cura 8 $500 réis, afora o pó d'altar. 

VILLA NOVA DABRUNHOSA VELHA. Vi- 
de Villa Mendo. 

VILLA NOVA D'ALVIT0. Vide Alvito e 
Villa Nova da Varonia. 

VILLA NOVA D'ANÇ0S— fregueziado con- 
celho e comarca de Soure, districto e dio- 
cese de Coimbra, na província do Douro. 

Orago— Nossa Senhora de Finis Terrae, 
ou Finisterra. 

Priorado. Fogos 298,— habitantes 1:203, 
segundo os apontamentos que se dignou en- 
viar-me o próprio administrador do conce- 
lho, mas pelo ultimo censo (1878) contava 
380 fogos e 1:070 habitantes, população 
pouco acceitavel, pois 380 fogos deviam ter 
pelo menos 1:420 almas. 

Em 1708, segundo se lê na Chorographia 
Portiigueza, contava 500 fogos (?)— já era 
priorado, da apresentação do duque de Ca- 
daval, conde de Tentúgal, e tinha casa de 
Misericórdia, hospital e duas capellas,-— Se- 
nhora dos Remédios e Santo André, ambas 
publicas. Era também villa e séde de conce- 
lho de que eram senhores os duques de Ca^ 
daval, tinha 2 juizes ordinários, 3 vereado- 
res, 1 procurador do concelho, 1 escrivão da 
camará, 1 juiz dos órfãos com seu escrivão, 
2 tabeliães, 1 alcaide, 2 companhias de or- 
denanças,— e pertencia á comarca e prove- 
doria de Coimbra. 

Em 1768 era priorado da mesma apre- 
sentação,— rendia para o seu prior 300$000 
réis— e contava 280 fogos, segundo se lê no 
Portugal Sacro e Profano. 

Perdêra pois nos últimos 60 annos— ou de 
1708 a 1768-220 fogos - e tem hoje, 1885, 
ou passados 117 annos, apenas mais 18 fo- 
gos, o que tudo é pouco acceitavel e parece 
depôr contra as nossas estatísticas. 

O Flaviense deu-lhe 233 fogos, em 1852 
— e Almeida, era 1866, deu-lhe 246fogos,-*- 
população muito inferior á que o Padre 
Carvalho e o Port. S. e Profano lhe deram 
no ultimo século! . . .* 



1 A extraordinária oscillação que se nota 
na população d'esta parochia talvez prove- 
nha das grandes epidemias que teem pesado 



Comprehende as aldeias ou povoações dei 
Villa Nova d' Anços, séde da parochia, Val 
d'Azurva e Ribeira da Matta ou Monte,— os 
casaes de Almoinhas, Giraldo, Valente, Mar- 
tins, Regato, Brito, Marqueza e dos Montes 
e as quintas do Azevedo e da Caramancha. 

Freguezias limitrophes— Soure, Gesteira, 
Alfaréllos, Brunhoz, Villa Nova d'Anços, 
Ega e Figueiró do Campo. 

É cortada pelo rio Soure, que a banha e 
fertilisa, e pela linha férrea do norte, dis- 
tando 5 kilometros da estação para N. N. 
O.,— 6 da villa de Soure,— 8 da estação de 
Formoselha para S. S. O.— 24 de Coimbra, 
—143 do Porto— e 191 de Lisboa. 

Anda em construcção uma estrada distri- 
ctal que deve atravessar a séde d'esta paro- 
chia. 

Tem esta freguezia hoje 7 templos — a 
egreja matriz,— a egreja da Misericórdia,— 
as capellas do Santíssimo Sacramento, da] 
Senhora da Conceição, da Senhora da Pie-j 
dade e de Santo Antonio, todas dentro da 
villa— e a 1 kilometro de distancia a capella] 
de Nossa Senhora dos Remédios, que tem 
festa e romagem na l. a oitava da Paschoa.j 

Foi villa, como já dissemos; — nada porem i 
já resta da casa da camará, da cadeia e do] 
pelou; inho. 

Tem uma feira mensal no dia 3, mas é 
pouco importante. 

Villa Nova d'Anços tomou o nome do rio 
Anços, (antigamente Anceo, Anco e .ánmce)! 
assim denominado por nascer junto das al-j 
deias de Anços e Outeiro d 7 Anços na fregue-j 
zia da Redinha, concelho de Pombal. 

O mesmo rio Anços se denomina tambeml 
Soure pelo facto de tocar na villa d'este no- 1 
me. 

V. Soure, vol. 9.° pag. 431, col. l.«— eAn-\ 
ços, vol. l.° pag. 213, col. 2. a — e note-se que] 
este rio não passa pela villa de Monte-Môrl 
o Velho, como por lapso ali se disse, pois 
esta villa demora na margem direita do Mon- j 



sobre ella, geradas nos seus pântanos e nos 
malditos arrosaes, que a tornam muito in- 
salubre. 



VIL 



VIL 801 



dego— e o rio Soure desagua na margem es- 
querda, cerca de 5 kilometros a jusante dé 
Monte Mor e de 4 a montante de Verride. 

N'esta parochia de Villa Nova d'Anços, 
que está sobre a margem direita do rio An- 
ços ou Soure, tem este rio uma boa ponte 
de pedra, de um só arco— duas em Soure 
—uma na Redinha— *e junto da de Villa No- 
va d'Anços, na margem direita, vários moi- 
nhos de cereaes e um lagar d'azeite. 

Producções dominantes— trigo, milho, ce- 
vada, bataías, azeite e vinho. 

Também colhe algum arroz em terrenos 
pantanosos, que muito prejudicam a salu- 
bridade publica, pois são um verdadeiro foco 
de febres intermittentes. V. Vil de Mattos. 

Tem uma escola ofíicial d'instrucçâo pri- 
maria elementar para o sexo masculino. 

Segundo se lê na Chorographia Portugueza 
e na Charographia Moderna esta vi Ha teve 
[oral, dado por D. Affonso IV, sendo ainda 
infante e por consequência durante o reina- 
do de seu pae D. Diniz (1279 a 1325). 

D. Manuel lhe deu foral novo em Lisboa, 
no dia 12 de dezembro de 1515. Liv. do Fo- 
raes Novos da Extremadura, fl. 117, v. 
col. l. a 

Veja-se a Minuta para este foral no Corpo 
Chronologico, Parte II, Maço 28, Documento 
78. 

Houve — e não sabemos se ha ainda hoje 
a q U i_ um a associação dramática, de que em 
1878 era presidente o sr. Antonio de Nápo- 
les, benemérito filho d'esta vi 11a, — e um 
theatro em que se representaram diversas 
composições, entre ellas o drama sacro San- 
to Antonio, na noite de 11 d'outubro de 
1874. 

Os actores eram todos curiosos, filhos 
d'esta villa, que mostraram ler pronunciada 
vocação para o palco, distingui odo- se entre 
eiles o ferreiro José Antonio d' Azevedo, ar- 
tista muito intelligente, premiado nas expo- 
sições Districtal de Coimbra e Internacional, 
de Vienna d' Áustria. 

Desempenhou admiravelmente o papel do 
thaumaturgo. 

Um dos primeiros proprietários d'esta 



villa é o sr. Pedro Henrique de Castro Fi- 
nali, cavalheiro de muito merecimento. 

Sob a epigraphe Campos do Mondego, pu- 
blicou em 1875 um jornal de Coimbra um 
curiosíssimo artigo acerca dos estragos cau- 
sados pelos arrosaes e dos bons reslutados 
obtidos posteriormente com o saneamento 
dos pântanos. Diz a folha alludida que um 
casal da freguezia das Alhadas, atacado pe- 
las febres paludosas, a ficou reduzido a um 
só homem valido ; que em Montemor o Ve- 
lho, foram atacadas 897 pessoas de 1:363» 
que eram a sua população ; e que em Cioga 
do Campo, Ameal, S. Fagundo e S. Fino 
se fecharam muitas casas por falta de habi- 
tantes. 

Felizmente tem-se limpado já muitas vai- 
las, que estavam obstruídas ha mais de 40 
annos; tem-se aberto outras p*ara dar es- 
coante ás aguas; tem-se feito as valias reaes 
do norte e sul do Mondego, Cidreira, Perei- 
ra, Arzilla, Valle Travesso, Gesteira, villa 
Nova d'Anços, Alfarellos, S. Fagundo, etc, 
despendendo-se n'estas obras, por conta do 
governo e de particulares, cerca de 100 con- 
tos, até 1875. 

Mais de 2:000 hectares de terreno foram 
conquistados para a cultura. Campos que 
não produziam coisa alguma estão arrenda- 
dos por bom preço. Os exemplos são muitos. 
Um proprietário que tinha 2 hectares de 
paul, e que havia mais de 56 annos nada 
lhe rendiam, feitas as primeiras obras, obte- 
ve uma renda de 200 alqueires. 

São effectivamente importantes os melho- 
ramentos realisados nos campos de Coimbra 
e de Leiria, mas pouco tem lucrado a hy- 
giene, porque, apesar dos clamores da im- 
prensa 1 e do publico e das repetidas leis e 
portarias prohibindo a cultura do arroz, ella 



i Na crusada contra os arrosaes merece 
especial menção o Conimbricense, pois desde 
a sua fundação até hoje lhes tem feito crua 
guerra, cabendo por isso justos emboras ao 
sr. Joaquim Martins de Carvalho, benemé- 
rito e muito illustrado filho de Coimbra, 
proprietário e redactor do Conimbricense. 



802 VIL 



VIL 



tem assumido n'aquelles dois districtos pro- 
porções espantosas I 
Tanto pode a sacra fames auri ? ... 

Ao ex. m0 sr. administrador de concelho de 
Soure agradeço os apontamentos que se di- 
gnou enviar-me~ por intermédio dos ex. mos 
srs. governadores civis de Coimbra e do 
Porto, aos quaes igualmente beijo as mãos 
agradecido. 

Por carta régia de 24 de julho de 1481 
el-rei D. Alfonso V deu ao conde de Tentú- 
gal, D. Alvaro, para elle e para um seu filho 
lidimo, em satisfação da villa de Torres No- 
vas que o dito conde cedeu á coroa, esta 
Villa Nova d'Anços e as villas e logares de 
Tentúgal, Povoa, Pereira, Buarcos, Rabaçal 
e Anobre, com todas as suas rendas, reguen- 
gos e jurisdicçôes, e os padroados das egre- 
jas de S. Miguel e da Magdalena de Monte- 
Mór o Velho, alem dá villa d'Alvaiazere, que 
já tinha. 

Foi esta doação confirmada por D. Manuel 
em 1496 e 1516— e por D. João III em 1523, 
— exceptuando a villa de Pereira, que passou 
para a coroa em troca dos disiraos novos de 
Buarcos e de Monte-Mór ó Velho. 

VILLA NOVA DA BARCA — freguezia do 
concelho e' comarca de Monte-Mor o Velho, 
districto e diocese de Coimbra, na província 
do Douro. 

Orago Nossa Senhora da Conceição,— fo- 
gos 152,— habitantes 460,— segundo os apon- 
tamentos que se dignou enviar-me o próprio 
administrador do concelho,— pois o ultimo 
recenseamento official (1878) deu-lhe 149 
fogos e 507 almas. 

Em 1708 era curato da apresentação da 
mitra, contava apenas 80 fogos— e pertencia 
ao termo e concelho de Monte-Mór o Velho 
comarca de Coimbra. 

Em 1768 era curato da apresentação do 
prior de S. Miguel de Monte-Mór o Velho, 
—rendia para o cura 15^000 réis, afóra o' 
pé d'altar— e contava 142 fogos, segundo se 
lé no Portugal S. e Profano. 

Em 1840 pertencia ao concelho ^Abru- 
nheira, que pelo decreto de 7 d'outubro de 
1844 passou a denominar-se Verride. De- 



pois, sendo exaincto este concelho por de- 
creto de 31 de dezembro de 1853, foi trans- 
ferida esta pairochia para o concelho de 
Monte-Mór o Velho. 
Ainda hoje é curato. 

Comprehendie as aldeias ou povoações se- 
guintes— Villa Nova da Barca, séde da pa- 
rochia, Marajá J, Caixeira, (parte) e Laran- 
jeira—o casal de S. João— e as quintas de 
Marujal, da vi scondessa de Maiorca,— Boa - 
Vista, da viscondessa da Ponte da Barca,— 
Vigia, Ide Ant onio Ferreira de Mattos — e 
Cardosas, do visconde da Bahia. 

A aldeia de Villa Nova da Barca está em 
um pequeno monte na margem esquerda do 
Mondego, do qual dista 1 l / z kilometro,— 
6 de Monte-Mór o Velho,— 8 da estação de 
Formoselha, na linha férrea do norte,— 24 
de Coimbra,— 143 do Porto— e 210 de Lis- 
boa. 

Freguezias li mitrophes— Villa Nova d'An- 
ços, Afarellos, Brunhoz e Samuel, no conce- 
lho de Soure,— e Verride no de Monte-Mór. 

Tem já construída uma estrada municipal 
da povoação da Caixeira a Verride— e anda 
em construcção um lanço da estrada distri- 
ctal n.° 60 A de Lares a Formoselha, o qual 
atravessa toda a freguezia. 

A egreja matriz é templo muito antigo;— 
tem varias sepulturas com inscripções — e, 
porque ameaçava ruina, foi reconstruída em 
1884. 

Tem duas capellas publicas, hoje perten- 
centes á junta de parochia, uma de Nossa 
Senhora da Conceição, para a qual se trans- 
feriu o Santíssimo Sacramento durante as 
obras da matriz, — outra de S. João— e a par- 
ticular, de Santa Leocaâia, na aldeia do Ma- 
rujal, pertencente á viscondessa de Maiorca. 
A festa principal que hoje aqui se celebra é 
a de Nossa Senhora do Bosario, no primeiro 
domingo de Maio, com grande romaria. 

Em outros tempos viveram aqui muitas 
famílias nobres, das quaes restam ainda dif- 
ferentes casas apalaçadas, taes são as dos 
Nápoles, Athaides, Mellos, Cardosos e da 
Telhada, todas em ruinas com o peso dos sé- 
culos e com a ausência dos seus donos. 



VIL 



VIL 803 



Em um largo âe Villa Nova da Barca se 
vê uma columna de pedra, encimada por 
uma pequena cruz. O povo chama a esta la- 
pide pelourinho, mas não nos consta que 
esta povoação fosse villa. 

Esta parochia é banhada a N. pelo Mon- 
dego Velho (dizem os apontamentos que re- 
cebi) e a leste pelo rio Soure, que nos limi- 
tes d'esta parochia não tem pontes, nem 
move fabricas, moinhos ou azenhas. 

Producções dominantes — cereaes, vinho, 
azeite, fructas e arroz; pelo que é na estia- 
gem cruelmente açoutada pelas febres palu- 
dosas, — graças aos beneméritos explorado- 
res, dos malditos arrosaes,—& maior praga 
que pesa sobre os districtos de Coimbra e 
Leiria, desde o meiado de ultimo século. 

Por ser muito lucrativa a agricultura, tem 
attingido extraordinário desenvolvimento 
nos últimos annos n'esta parochia e nas cir- 
cumvisinhas. 

Rem, rem, quomodo cumque rem— dizia o 
satírico romano. 

Como a coisa rende (dizem os nossos cul- 
tivadores dos arrosaes) pouco nos importa 
que o povo clame e grite, — que viva ou mor- 
ra — ou que o leve o diabo! 

Ao inferno almas tão vis, o seu nome á 
execração 1 

Esta freguezia não tem aula alguma offi- 
cial, nem sequer d'instrucção primaria ele- 
mentar para o sexo masculino I . . . 
• Com vista á camará de Monte Mor o Velho. 
Consta que teem apparecido aqui em dif- 
Terentes datas moedas muito antigas. 

Esta parochia foi completamente saquea- 
da pelos francezes, durante a guerra penin- 
sular. 

* 

Ao ex. mo sr. administrador d'este conce- 
lho de Monte Mór agradeço os apontamen- 
tos que se dignou enviar-me por intermédio 
dos ex. m08 srs. governadores civis de Coim- 
bra e do Porto, aos quaes igualmente beijo 
as mãos agradecido. 

VILLA NOVA DA BARONIA— villa e fre- 
guezia do concelho d'Alvito, comarca de 
Cuba, districto e bispado de Beja, na provín- 
cia do Alemtejo. 



Reitoria. Orago Nossa Senhora da Assum- 
pção,— fogos 300,— habitantes 1:220,— se- 
gundo os apontamentos que se dignou en- 
viar-me o administrador d'este concelho. 

O censo de 1878 deu-lhe 276 fogos e 967 
almas. 

Em 1708 esta freguezia denominava-se 
Villa Nova d' Alvito,— erà séde de concelho 
com casa de camará, cadeia, pelourinho e 
justiças próprias,— 2 juizes ordinários, 3 ve- 
readores, 1 proctirador do concelho, 1 escri- 
vão da camará, 1 juiz dos órfãos com seu 
escrivão, 2 tabelliães do judicial e notas, 1 
alcaide, e uma companhia de ordenanças,— 
e contava 550 fogos I . . . 
Em 1768 contava apenas 189! . . . 
Perdeu pois 361 fogos em 60 annos, por 
que uma medonha epidemia pesou cruel- 
mente sobre ella— dizem cs meus aponta- 
mentos. 

Ainda hoje em quaesquer escavações se 
encontram nos seus quintaes alicerces das 
habitações que ficaram desertas. 

Bem medonha e horrorosa foi por certo 
a tal epidemia t. . . 

Foram senhores donatários d'esta villa e 
seu concelho os condes-barões d' Alvito, mas 
o seu parocho (reitor) era da apresentação 
da mitra ou dos arcebispos d'Evora— e tinha 
de rendimento apenas 400000 réis, afora o 
pé d'altar que, antes da grande epidemia, 
foi muito importante. 

Note-se que esta freguezia até 1882, data 
da ultima circumscripção diocesana, perten- 
cia ecclesiasticamente ao arcebispado devo- 
ra. Judicialmente pertenceu outr'ora á co- 
marca de Beja. Administrativamente, quan- 
do foi extincto o concelho de Villa Nova da 
Baronia, passou esta parochia para o conce- 
lho d l Alvito;— extincto este concelho, por 
decreto de 23 de dezembro de 1873, esta fre- 
guezia, com as outras qne o formavam, pas- 
sou para o concelho de Cuba,— mas, restau- 
rado o concelho d'Alvito, voltou para elle e 
hoje é formado somente por esta parochia e 
pela d' Alvito, séde do concelho, ambas da 
comarca de Cuba, judicialmente. 

Esta parochia é formada pela villa do seu 



li 



804 VIL 

nome, povoação ainda hoje importante, pois 
comprehende cerca de 230 fogos,— e pelas 
hortas e herdades seguintes, todas habita- 
das : 

Herdades: a de S. Brissos, pertencente ao 
dr. Borges, <i'Alcaçovas, com 1 fogo,— a do 
Miradouro e a do Sobral, pertencentes a Fran- 
cisco Manuel Fragoso, também d' Alcáçovas» 
com 4 fogos,— a do Pego do Couto, perten- 
cente aos filhos de José Augusto Fragoso, 
também de Alcáçovas, com i fogo,— a dos 
Marmellos e a de Faimais, pertencente á 
casa pia de Vianna do Alemtejo, com 2 fo- 
gos,— a das Amoreiras, pertencente ao dr. 
Ramalho, d'Evora, com 1 fogo,— as de Ca- 
breiros, Cadema e Horta Grande, pertencen- 
tes aos Cabraes, de Vianna do Alemtejo, com 
3 fogos,— a dos Albardeiros, pertencente a 
José Leonardo, de Vianna do Alemtejo, com 
1 fogo,— as de Vallongo, Outeiro e Minas, a 
Luiz Ignacio de Paiva, de Alcáçovas, com 2 
fogos,— a de Rio Secco, pertencente á baro- 
neza de Mesquita, com i fogo,— as das Pe- 
dras, e das Barras de Cima e Barras de 
Baixo, pertencentes aos herdeiros de Thiago 
da Silva Monteiro, d'Evora, com 3 fogos,— 
as do Azinhal, Patas, Fontes e Ayres, per- 
tencentes a Manuel Nunes Serrão, de Villa 
Nova da Baronia, com 3 fogos,— a de Covas 
Ruivas, pertencente ao marquez d'Alvito, 
com \ fogo,— a de Santa Agueda Velha, per- 
tencente a José Maria de Carvalho e Gosta, 
de Lisboa, com 1 fogo, — as de Bolorina e 
Freixieira, pertencentes a José Maria Par- 
reira Capas, de Villa Ruiva, com 2 fogos,— 
a de Maria Pires, pertencente a João Thiago 
da Silva Monteiro, d'Evora, com i fogo,— a 
de Galas, pertencente a Antonio Isidoro de 
Sousa, de Vianna do Alemtejo, com i fogo» 
—a do Zambujal, pertencente a Pedro José 
Limpo Toscano, d'Alvito, com 1 fogo,— as de 
Telheiros e Vendas, pertencentes a João An- 
tonio Martins Morom, de Vianna do Alem- 
tejo, com 2 fogos,— a de Monte Conde, per- 
tencente ao visconde da Serra de Tourega, 
d'Evora, com 2 fogos,— e a de Monte-Barão 
pertencente a D. Maria Rita Rosado Perdi- 
gão, d'Evora, com 2 fogos. 

Comprehende também as hortas seguin- 



VIL 

tes:— a da Lameira, pertencente aos herdei- 
ros de José Filippe, de Villa Nova da Baro- 
nia, com 2 fogos,— a de Privanes, pertencen- 
te a Gertrudes Maria, também d'esta paro- 
ehia, com 1 fogo,— a de S. Neutel, perten- 
cente ao conde da Esperança, de Cuba, com 
1 fogo,— a da Fonte da Rata, pertencente a 
Francisco Gonçalves Godinho, d'Alvito, com 
1 fogo,— a de Freixo da Cruz, pertencente 
a Manuel Nunes Serrão, doesta villa, com 1 
fogo,— a Horta a Baixo, pertencente a Do- 
mingos José Fialho, d'esta villa, com 1 fo- 
go,— e a Hortinha, pertencente a Manuel Va- 
lério, também d'esta villa, com i fogo. 

Comprehende ainda as herdades de Al- 
bardeiros, Ayres, Amoreira, Cabreiros,, Cas- 
tello Ventoso, Freixieira, Monte Pires, Tos- 
canos, Pego do Couto, Cavallinha e Conde 
— e as hortas de Fonte Coberta e Almoi- 
nhas. 

Tem mais na povoação, denominada Al- 
deia de S. Neutel, cerca de 3 kilometros ao 
sul da villa, 7 fogos,— 8 a 10 na Mina d' Ay- 
res, vivendo uns nas casas do dono da mina 
outros em choças ou cabanas, feitas de pe- 
dra solta e cobertas de junco e palha,— e 
alguns fogos também na estação do caminho 
de ferro. 

Do exposto se vé que esta paroehia, ape- 
sar de haver perdido cerca de tres partes da 
sua população com a medonha epidemia que 
pesou sobre ella no ultimo século— e de per- 
der também posteriormente a sua autono- 
mia como concelho, é uma freguezia muito 
importante, sendo para lamentar que a maior 
parte das suas numerosas herdades perten- 
çam a estranhos, como vimos. 

Parochias limitrophes— Torrão e Alcáço- 
vas a O.— Alvito a E.— Vianna do Alemtejo 
a N.— e Odivellas a S. . 

Producções dominantes— azeite, cereaes, 
cortiça, laranjas, vinho e lã, pois cria bas- 
tante gado lanígero. 

A séde da paroehia está entre dois rega- 
tos que mais abaixo se juntam e formam a 
ribeira Sobrena ou de Villa Nova da Baro- 
nia, confluente da de Odivellas. 

A ribeira de Villa Nova tem duas pontes 
de pedra, — uma denominada ponte Carvalha, 



VIL 



VIL 805 



outra ponte do Azinhal, ambas insignifican- 
tes e muito estreitas. 

Um dos ribeiros que desagua na ribeira 
de Villa Nova denomina-se Ribeiro das Pas- 
sadeiras e tem Uma ponte denominada Ponte 
do Tabellião, também de pedra e muito aca- 
nhada. 

Banha também esta paroehia o ribeiro de 
Santo Antonio, que desagua na ribeira .de 
Odivellas e tem uma ponte como as antece- 
dentes. 

Movem estas ribeiras 3 moinhos— e ha 
n'esta paroehia mais 3 movidos pelo vento. 

Tem esta freguezia estação própria na li- 
nha férrea do sul,— denominada estação de 
Villa Nova, e é a 13." partindo de Lisboa. 

A séde da paroehia dista cerca de 500 me- 
tros da sua estação,— 8 kilometros e 500 
metros 1 da de Alvito, séde do concelho,— 
20 kilometros e 500 metros da de Cuba, 
séde da comarca,— 37 kilometros e 500 me- 
tros de Beja,— 43 kilometros e 500 metros 
d'Evora,— 127 de Lisboa,— 464 do Porto— e 
594 de Valença do Minho. 

Atravessa uma parte d'esta paroehia a es- 
trada districtal n.° 115, do Torrão a Portel, 
tocando na estação d'esta vi lia. 

Os templos d'e3ta paroehia reduzem-se a 
2 egrejas, — a matriz e a da Mizericordia— 
e a 4 capellas, todas publicas. 

A egreja matriz é um templo não muito 
antigo, mas vasto, elegante e sem contesta- 
ção um dos melhores da província. Pela sua 
amplidão bem revela que esta freguezia já 
foi muito mais populosa. 

É toda exteriormente revestida de colu- 
imas (talvez gigantes para contraforte das 
paredes) que se elevam acima do telhado e 
terminam em ponta de lança, dando ao todo 
agradável perspectiva. 

Interiormente é digna de especial menção 
a tribuna do altar-mór, precioso e valioso 
retábulo de talha dourada com soberbas co- 



1 Em 1708 contavam apenas meia légua, 
d' Alvito a esta paroehia. 

Muito grandes eram as léguas n'aquelle 
tempo 1 



lumnas torcidas, cobertas de ramos de vi- 
deiras, cachos e seraphins, tudo em alto re- 
levo. 

A egreja da Mizericordia é mais antiga e 
mais pequena, mas também muiio elegante, 
imitando no estylo a egreja matriz. 

Tem sobre o arco cruzeiro a data 1613 
que ou se refere á sua construcção ou res~ 
tauração. 

As capellas são as seguintes : 

1. a — Neutel, a mais antiga de todas, em 
estylo manoelino, obra de muito preço e 
digna de attenção. 

Está no centro da Aldeia de S. Neutel, á 
qual deu o nome, — e foi do município. 

Teve outr'ora grande romagem, segundo 
se lê na Chorographia Portugueza, 1 mas ha 
muito que essa romagem terminou 

2. a — Nossa Senhora da Conceição, — tem- 
plo pequeno e simples, forrado interiormente 
d'azulejo. 

Demora na praça da villa e julgamos ser 
a capella da Senhora da Assumpção, men- 
cionada na Chorographia Portugueza. 

3. a — S. Sebastião, sem ornato algum e 
também mencionada por Carvalho, em 1708. 

Está hoje dentro do cemitério da villa. 

4. *— Santo Antonio, também muito sim- 
ples e com alpendre ou galilé á p >rta. 

Carvalho não a menciona, ma-* em vez 
d'ella menciona uma ermida de S. Pedro, 
que não encontro nos meus apontamen- 
tos. 

Ha hoje n'esta paroehia apenas uma ro- 
maria, na dominga in Albis,—ê a de Santa 
Agueda, a que o povo chama festa e roma- 
ria do leite, porque todos os "lavradores, 
desde eras remotas, costumam offereeer a 
Santa Agueda n'aquelle dia o leite dos seus 
rebanhos, que è vendido aos romeiros á 
porta da ermida de S. Neutel. 

Foi outr'ora muito concorrida psta roma- 
gem (suppomos ser a mencionada na Cho- 
rographia Portugueza, como romaria de S. 



i Diz também a Chorographia Portugueza 
que esta ermida distava um quarto de légua 
da villa. Esse quarto de légua da boje cerca 
de 3 kilometros ! . . . 



806 VIL 



VIL 



Neutel) mas hoje vae em pronunciada deca- 
dência. 

Houve também n'esta villa antigamente 
uma feira a 3 d'outubro, mas cessou ha 
muitos annos. 

A Chorographia Moderna do sr. João Ma- 
ria Baptista, copiando o Diccionario abre- 
viado de J. A. d'Almeida, menciona como 
existente ainda a dieta feira e diz que dura 
3 dias. Foi lapso. 

Os edifícios mais notáveis d'esta parochia 
na actualidade, são a egreja matriz pela sua 
vastidão e elegância— e a capellinha de S. 
Neutel pela sua antiguidade e pela sua ar- 
chitectura em estylo gothico florido. 

Esta villa nunca foi fortificada, mas tem 
a pequena distancia um morro, denominado 
Castello. 

Não se veem ali hoje vestígios alguns de 
obras de defesa, mas é possível que as ti- 
vesse em outros tempos. 

Esta villa ainda conserva os paços do seu 
extincto concelho. N'elles funeciona uma es- 
chola official de instrucção primaria elemen- 
tar para o sexo masculino. 

Também esta parochia tem outra eschola 
official de instrucção primaria para o sexo 
feminino. 

Conserva também ainda a sua antiga ca- 
deia. 

O pelourinho foi derrubado em certa nou- 
te e d'elle resta hoje apenas o pedestal, mas 
removido para um canto do largo onde se 
erguia e pompeou durante séculos. 

Tem esta villa um largo, a que dão o no- 
me de Rocio da Fonte, sem embellesamento 
algum,— e 2 praças, nova e velha, ambas 
muito acanhadas e sem embellesamento al- 
gum também. 

As suas ruas principaes hoje são as se- 
guintes:— rua Nova, rua d' Évora, rua da 
Praça, rua Grande e rua dos Lagares. 

Ha n'est,a freguezia hoje em exploração 
duas minas de ferro,— uma na herdade dos 
Ayres e outra na do Zambujal, ambas ex- 
ploradas pelo cidadão inglez — Thomaz Jorge 
Elliatte. Alem d'estás, ha n'esta freguezia 
outras, mas simplesmente registradas. 



Em 21 d'ag09to de 1877, por exemplo, re- 
gistrou na camará d'Alvito uma de ferro e 
outros metaes, M. Gonçalves d*Azevedo Ca- 
ruço, que descobriu na herdade dos Albar- 
deiros,—e em outubro de l§8i, José Duarte 
Alves pediu ao governo o diploma de desco- 
bridor legal d'outra mina de ferro no sitio 
do Monte do Conde. 

•Ha nos limites d'esta parochia dois serros 
denominados Outeirões das Barras, cober- 
tos de espesso matto, coito e viveiro de ja- 
valis, pelo que ali se fazem grandes caçadas, 
tendo el-rei assistido a algumas d'ellas. 

A única associação de beneficência que ha 
hoje aqui, depois da extineção da Misericór- 
dia d'esta villa e do seu hospital, é a junta 
de parochia. Em cumprimento de differen- 
tes legados e com o subsidio que recebe da 
camará de Beja, como senhora dos bens da 
extincta Misericórdia, tem a seu cargo soc- 
correr os pobres com medicamentos e die- 
tas. Nada mais resta do antigo hospital e da 
Misericórdia d'esta villa, extinctos e trans- 
formados em património da Casa Pia de 
Beja, 

Ha finalmente n'esta villa uma estalagem 
insignificante e única na Praça Nova. 

Em julho de 1874 falleceu n'esta villa, de 
fome e de miséria, um professor que deixou 
avultada fortuna á junta de parochia. 

Encontrou-se grande porção de dinheiro 
nos forros de um immundo collete que tra- 
zia sempre vestido e com o qual morreu. 

Na freguezia de Távora, concelho de Ta- 
boaço, districto de Vizeu, onde já fomos pa- 
rocho, de 1861 a 1863, conhecemos nós ou- 
tro professor que podia fazer pendant com 
este. 

Chamava-se padre Sebastião,— vixeu sem- 
pre só em uma casa immunda, envolto em 
andrajos e lateralmente coberto de bichos* 
sendo proprietário e pertencente a uma das 
primeiras famílias da localidade. 

Falleceu velhíssimo e por sua morte os 
herdeiros encontraram boa somma em lu- 
zentes peças de ouro, escondidas pelos re- 
cantos do immundo albergue,— alem das que 
lhe haviam roubado. 



VIL 

Deus lhe perdoe ! 

Segundo se lê nas correcções e addicções 
ao tomo II do Mappa de Portugal de João 
Baptista de Castro, houve também n'esta pa- 
rochia uma egreja de Santa Agueda, erecta 
no próprio local onde em tempos muito re- 
motos existiu um templo de Diana, como 
affirmou e communicou a J. B. de Castro o 
rev. Fr. Francisco d'01iveira, baseado em 
uma inscripção que ali encontrou e que fez 
collocar em 1761 no frontispício da nova 
casa do despacho da Misericórdia da mesma 
villa. 

Não sabemos se ainda lá se encontra. 

Este Fr. Francisco d'01iveira, frade do- 
minico, natural de Beja, homem muito illus- 
trado e profundo investigador, é muito nosso 
conhecido, e d'elle fallaremos detidamente 
no supplemento a este diccionario, quando 
chegarmos aos artigos Beja e Cubà. 

No Códice n.° 104 da Bibliotheca Munici- 
pal Portuense se encontram os tres manu- 
scriptos seguintes, todos muito interessantes: 

1. ° — Diálogos de Chrístovão Rabello de 
Macedo, escriptos em 1625 e que tratam das 
antiguidades de Beja. 

A pedido nosso foram publicados, ha an- 
nos, em folhetins no Bejense, com o titulo de 
Peregrinos de Beja. 

2. °— Memorias da Villa do Alemtejo. 

Não teem data nem nome do auctor; mas 
julgo serem escriptas pelo mesmo Fr. Fran- 
cisco d'01iveira e d'ellas fiz um extracto que 
offereci ao meu antecessor e bom amigo Pi- 
nho Leal, para o artigo Vianna do Alemtejo. 
Veja-se este vol. 10.° pag 322, col. 2. a e se- 
guintes. 

3. °—» Memorias Históricas que do Logar 
de Cuba escreve no anno de 1742 Fr. Fran- 
cisco de Oliveira, da ordem dos Pregado- 
res.» 

D'este ultimo trabalho existe no archivo 
da camará de Cuba hoje uma copia tirada 
por mim em 1883, a pedido do sr. dr. José 
dos Santos Pegas Cabrita, benemérito filho 
da mesma villa de Cuba. 

A villa de que nos occupamos denomi- 



VIL 807 

nou-se Villa Nova da Baronia por fazer 
parte do grande senhorio dos barões d' Alvito. 

Veja-se esta ultima palavra no vol. i.° pag. 
180, col. 2.* e seguintes. 

Também esta parochia se denominou Vil- 
la Nona d? Alvito, por ser fundada depois 
da de Alvito; comtudo, jã existia no século 
XIV, pois no foral velho, dado por D. Diniz 
a Vianna do Alemtejo em 1313, lhe assignou 
por termo Alvito, Villa Nova d' Alvito, Villa 
Ruiva e Malcabron. 

V. Vianna do Alemtejo n'este vol. 10.° pag. 
322, col. 2. a , e particularmente a pagina 323 
col. 1." infine e seguintes. 

É mesmo anterior ao século XIV, pois lhe 
deu o primeiro foral o provincial da ordem da 
Trindade pelo foral de Santarém, por Carta, 
de 18 d'agosto de 1280. Maço II de foraes 
antigos n.° 2 e 3. 

D. Manuel lhe deu também foral novo em 
Lisboa, no dia 20 de novembro de 1516. 

Liv. de Foraes Novos do Alemtejo, fl. 100 
v. col. í.\ 

No artigo Alvito se fez menção do con- 
vento de Mujadarem ou Mongedarem (mon- 
ges d" além) convento benedietino do tempo 
dos godos, destruído pelos árabes e depois 
reedificado e dado aos franciscanos com o 
titulo de Nossa Senhora dos Martyres, em 
memoria dos monges n'elle martyrisados 
pelos mouros. 1 

Alguém diz que o velho convento de 
Mongedarem foi fundado por Santo Eleu- 
tério (outros pretendem que o seu funda- 
dor foi S. Lauteno, monge francez) ab, 
bade do convento benedietino de S. Marcos 
junto á cidade de Espoleto, na Itália, funda- 
dor de vários conventos da mesma ordem 
na Hespanha. Pelo menos é fóra de duvida 
que Santo Eleutério viveu e depois teve 
culto no convento de Mongedarem e que em 
uma das invasões dos mouros alguns fieis 
esconderam as imagens que ali se venera- 



1 O convento de Mongedarem era um dos 
que obedeciam ao de S. Cucufate, pelo que o 
prelado d'este se intitulava Abbade dos Ab- 
bades. 

V. Villa de Frades. 



808 VIL 



VIL 



vam, entre ellas a de Santo Eleutério e a de 
Nossa Senhora dos Ares. 

Esta ultima, passados séculos, appareeeu 
no termo da villa de Vianna de Alemtejo, no 
local onde lhe erigiram e ainda hoje se vê 
o sanetu^rio da Senhora dos Ares ou d' Ay- 
res, de qu> já se fez menção n'este vol. 10.° 
pag. 330, col. i. a e seguintes. 

Por ser aquella imagem muito querida 
dos povos d<> Alemtejo lhe dedicaram outras 
ermidas; e d 'estas e da dieta imagem toma- 
ram e conservam o nome vários sitios e her- 
dades d'esia freguezia de Villa Nova da Ba- 
ronia, já indicados supra. 

A imagem de Santo Eleutério appareeeu 
no termo d'esta parochia, precisamente no 
local ondo lhe erigiram e se vê ainda hoje 
a capelhtiha de S. Neutel, na povoação d'es- 
te nome, ambas também já mencionadas, 
pois o vulgo com o andar dos tempos fez de 
Eleutério Neutel— como de Cypriano Cibrão 
— de Eduardo Duarte, — de Jacob Jaco, Jac- 
ques, Yago e Thiago,—áe Eulália Olaia e 
Ovaia,— de Juliano Julião e Gião, — de Isi- 
doro Isidro e Cidro, — de synagoga esnoga, — 
e de Magdal na Madanella, como ainda hoje 
teima em d* nominar uma freguezia do con- 
celho de Villa Nova de Gaya, etc. 

Com relayão ao convento de Mongedarem e 
á capellinha de, S. Neutel ou Eleutério è 
muito digno de lêr-se o artigo publicado na 
Benedictina Luzitana, vol. l.° pag. 448 e se- 
guintes. 

VILLA NOVA DA BARQUINHA— villa, fre- 
guezia e séde de concelho, dístricto de San- 
tarém, província da Extremadura. 

V. Barquinha, vol, 1.° pag. 337, col. 2." 

Aproveitando o ensejo, faremos algumas 
rectificações e addições ao mencionado ar- 
tigo : 

Tem hoje esta parochia 235 fogos e 980 
habitantes — e já não pertence á comarca de 
Torres Novas, mas á da Gollegã. 

Este concelho comprehende 4 freguezias, 
—tem de superfície em hectares 6:771,— fo- 
gos (pelo ultimo recenseamento de 1878) 
871, —habitantes 3:675,— prédios inscriptos 
na matriz 3:017. 



A villa tem por brasão d'armas um escu- 
do bipartido (em palia) orlado interiormen- 
te na parte inferior com duas palmas cru- 
sadas, atadas com uma fita azul e a legenda 
Villa Nova da Barquinha 1836. No quartel 
da direita um barco á véla— e no da es- 
querda uma oliveira, tendo no chão de 
cada lado uma infusa preta,— tudo em cam- 
po branco. 

Freguezias limitrophes— Atalaia, Tancos, 
Asseiceira, S. Thiago de Torres Novas, Nos- 
sa Senhora da Conceição da Gollegã e Santa 
Maria do Pinheiro Grande, da Chamusca. 

Partem d'esta parochia para Santarém a 
estrada districtal n.° 75 e para Coimbra a 
estrada real n.° 51. 

A l. a está em via de construcção d'aqui 
para Abrantes. 

A estação da Barquinha dista cerca de 
400 metros d'esta vilJa. 

Os templos d'esta parochia reduzem-se á 
sua egreja matriz, da invocação de Santo 
Antonio, recentemente construída, ainda em 
obras no interior,— e a uma capella de Nossa 
Senhora, muito antiga e já bastante arrui- 
nada, com um retábulo de talha de muito 
merecimento. 

Tem esta villa uma feira annual no dia do 
seu padroeiro Santo Antonio, 13 de junho. 
Abunda em artigos commerciaes, madeiras 
de pinho e de castanho para construcçoes 
e vazilhame, coiros de boi e de bezerro cor- 
tidos, etc. 

A rua principal d'esta villa é a da Barca; 
— tem um largo, o do Caes Novo— um jar- 
dim publico, denominado Jardim da 3.» sec- 
ção das obras do Tejo, — uma Alameda, no 
largo das Amoreiras— e uma praça com o 
nome de Praça do Commercio. 

Esta villa é banhada pelo Tejo, que tem 
aqui um bom caes para serviço dos muitos 
barcos que se empregam na navegação en- 
tre esta villa e Lisboa, a jusante — e entre 
esta villa e a de Alcantara (hespanhola) a 
montante— e portos intermediários. 

Também crusa sobre o Tejo uma barca de 
passagem entre o dicto caes, na margem di- 
reita do rio, e a povoação da Carregueira, 



VIL 



VIL 809 



do eoncelho da Chamusca, na margem es- 
querda, atravessando também os ribeiro^ do 
Valle e do Arôz que passam n'aquella po- 
voação e desaguam no Tejo. 

As producçoes dominantes d'esta parochia 
são azeite e cereaes. 

Esta villa soffreu muito em 1875 com a 
grande cheia do Tejo, que foi a maior d'este 
século ao sul do nosso paiz 1 e que inun- 
dou dois terços da povoação muitos dias, 
chegando a derrubar alguns prédios. 

Tem uma eschola offlcial de instrucção 
primaria elementar e complementar para o 
sexo masculino e outra elementar para o 
sexo feminino,— e uma hospedaria de Ma- 
nuel Nunes da Silva, na Praça do Commer- 
cio. 

N'esta villa e nos seus arrabaldes lêem 
apparecido differentes moedas romanas e 
outras velharias. 

Esta parochia foi ereada por decreto de 2 
de maio de 1838. Anteriormente era uma 
simples povoação da freguezia da Atalaya— 
e foi arvorada em sede de concelho por de- 
creto de 2 de julho de 1839, fuodindo-se 
n'este concelho os d'Atalaya, Tancos e Paio 
Peite. 

Esta villa é um centro commercial muito 
importante, principalmente djs artigos ma- 
deiras de differentes qualidades e cortiça, 
que exporta para Lisboa e outros pontos em 
grande quantidade, pelo rio e pela via férrea. 

Decahiu bastante com a inauguração da 
linha férrea, mas volveu de novo á vida e 
hoje o seu estado é prospero e florescente. 

VILLA NOVA DO CASAL— freguezia do 
concelho e comarca de Gouveia, districto e 
diocese da Guarda. 

V. Casal, vol. 2.° pag. 142,— Tazem (a l. a ) 
vol. 9.° pag. 521— e Villa Nova de Tazem, 
n'este 10.° vol. 

VILLA NOVA DA CERVEIRA— villa, fre- 
guezia e séde do concelho do seu nome, co- 
marca de Valença, districto de Vianna do 
Castello, arcebispado de Braga, na província 
do Minho. 



1 Ao norte a cheia maior d'este século foi 
a de 1860. 



Abbadia. Orago S. Cypriano, outr'ora S. 
Cibrão, í— fogos 356,— habitantes 1:440. 

Em 1706 contava 250 fogos,— era da co- 
marca de Vianna, — tinha muita nobresa e 
voto em cortes, com assento no banco 17, 
—juiz de fóra por creação de Filippe IV, 
em 1622 (anteriormente tinha 2 juizes, um 
nobre e outro plebeu)— 3 vereadores, 1 pro- 
curador do concelho, i escrivão da camará, 
1 juiz dos órfãos com seu escrivão, 1 juiz 
da alfandega e outro da dizima, aprezenta- 
dos pela casa de Bragança, 1 es rivão das 
cizas, 3 escrivães do judicial e notas, 1 con- 
tador, 1 distribuidor, 1 inquiridor e 1 mei- 
rinho, todos de nomeação regia— e 1 alcaide 
apresentado pelo visconde de Ponte de Li- 
ma, Alcaide mór d'esta villa, que apresen- 
tava também o parocho. 

Tinha no concelho 4 companhias de orde- 
nanças, servindo de capitão-mór a camará, 
na ausência do alcaide-mór,— e na villa e 
praça 3 companhias de infanteria paga. 

Em 1768 era abbadia da me*ma apresen- 
tação,— rendia para o parocho 160#000 réis 
— e contava 212 fogos. 

Comprehende alem da villa as povoações 
seguintes: — Cortes, 1 Feira do Gado, Veigas, 
Prado e Outeiro da Forca e outras mais pe- 
quenas. 

Esta villa demora na margem esquerda do 
rio Minho, 15 kilometros a S. O. da Praça 
de Valença, 34 a N. N. E. de Vianna, séde 
do districto, 91 de Braga (pela via férrea) 
116 do Porto e 452 de Lisboa. 

O concelho tem : 





8 


048 




21 


736 


Fogos (pelo ultimo recenseamento). 


3 


041 




10 


446 






15 



S. Cypriano na villa, ficando-lhe a N. E. 
Lobêlhe, Roboreda, Campos e Villa Meã; 
—a S. O. Loivo e Gondarem, todas estas 



1 V. n'este diccionario os artigos Cibraão 
vol. 2.° pag. 298, coi. 1.»— e Cortes, no mes-- 
mo vol. pag. 391, col. 1." 

Veja-se também o art. Cibraão no Eluci- 
dário de Viterbo. 



810 VIL 



VIL 



confinando com o Minho ;— Sôppo, Covas, 
Mentrestido e Gondar a S.;— Nogueira, Cor- 
nes, Candemil e Sapardos, a L. 

O concelho é na maior parte accidentado 
e montanhoso— e se estende peias fraldas do 
elevado monte de S. Paio. 

A villa está em um sitio muito agradável 
e pittoresco sobranceira ao Minho ; atraves- 
sa-a a estrada-real n.° 23 (como dissemos a 
pag. 456 d'este volume) que vem de Vianna 
e Caminha, e segne para Valença e Melgaço 
pela margem esquerda do Minho. 

Entra aquella estrada no concelho de Villa 
Nova da Cerveira, no começo da freguezia 
de Gondarem, — atravessa as freguezias de 
Loivo, Cerveira, Lobelhe, Reboreda, Campos 
e Villa Meã, todas d'este concelho — e conti- 
nua atravez do concelho de Valença. 

Alem d'esta estrada, corta também este 
concelho na mesma direcção e seguindo o 
mesmo traçado a linha férrea do Minho, que 
passa na villa entre o caes e a capella.de S. 
Sebastião e tem a sua estação a 500 metros 
da villa. 

A camará projecta construir duas estra- 
das municipaes cujos estudos já se acham 
feitos— uma ligando esla villa com a fregue- 
zia de Covas, passando nas freguezias de 
Loivo, Gondarem, e Sôppo;— a outra, par- 
tindo de Lovêlhe, onde entronca na estrada 
real n.° 23, corta as freguezias de Roboreda, 
Candemil, Gondar e Mentestido e vae até 
S. Martinho de Coura, no concelho d'este 
nome. 

A egreja matriz era um templo muito an- 
tigo, de uma só nave e com um excellente 
retábulo, também antigo de talha dourada. 
Um furioso vendaval derrubou parte d'este 
edifício na manhã de 2 de janeiro de 1877, 
poupando apenas a capella mor; aeha-se 
porem já reconstruída com 3 naves e 2 tor- 
res ainda incompletas, por falta de meios. 

Ha lambem na villa a egreja da Miseri- 
córdia dentro da eidadella, junto ao hospi- 
tal da Santa Casa— e as capellas de Nossa 



1 Para evitarmos repetições, veja-se o ar- 
íigo Cortes, vol. 2.° pag. 391 col. 1.» 



Senhora da Ajuda, á entrada do Castello,— 
de S. Sebastião, junto ao cáes, com um bom 
retábulo antigo,— e a do Anjo da Guarda, 
todas publicas,— e 4 particulares:— a de S. 
Gonçalo, com boa obra de talha, pertencente 
a José Augusto Pereira Pinto Maldonado, — 
a de S. Pedro de Rates,— & de S. Roque, e a 
de Santo Antonio de Lourido, na quinta e 
casa do mesmo nome, pertencente hoje a 
Francisco Pereira Sanches de Castro l . 

Tem esta villa duas feiras mensaes muito 
importantes, nos dias 3 e 16. São das me- 
lhores do Alto Minho. 

O Castello mandado fazer por D. Diniz, 
ainda se conserva, mas já em ruinas, bem 
como as suas Velhas torres, exceptuando a 
denominada dos Mouros, que foi demolida 
ha annos para alargamento da rua do Ar- 
rabalde. As torres e muros da praça ainda 
se conservam em pé, mas os quartéis estão 
em misero estado^ 

Dentro do Castello se levantam— a egreja 
da Misericórdia, os paços do concelho e a 
cadeia da villa, em más condições. 

Foi esta villa praça de guerra, cercada 
por muros e fossos, mandados fazer em 1660 
por ordem do governador das armas d'esta 
província, D. Diogo de Lima, 9.° visconde 
de Villa Nova da Cerveira. Por carta de lei 
de 22 de março de 1875 foi a camará d'esta 
villa auctorisada para apear aquelles muros 
desde as portas de Vianna até á da Campa- 
nha, comprehendendo o lanço que circum- 
dava a villa pelo sul, para que a povoação 
podesse estender-se para aquelle lado, des- 
afrontando a rua do Arrabalde e aprovei- 
tando-se o local para a feira e passeio pu- 
blico. A parte restante dos muros está em 
poder de particulares. 

No apno de 1321, no dia 1.° d'outubro, 
foi dado a esta villa foral por D. Diniz, seu 
fundador. 

Veja-se o Liv. IV de Doações do sr. Rei 



1 Carvalho menciona tambem uma capella 
de Nossa Senhora da Encarnação e outra do 
Espirito Santo, alem das 7 mencionadas su- 
pra. 



VIL 



VIL 811 



D. Diniz, fl. 91, v. eol. 2.»— Gaveta 15, Maço 
3, n.° 12— e o Liv. III dos bens dos próprios 
d'El-Rei, fl. 164. 

D. Manuel lhe deu foral novo em Lisboa, 
no dia 20 d'outubro de 1512. 

Liv. de Foraes Novos de Traz-os-Montes, 
fl. 21, eol. l. a 

Veja-se também a Minuta para este foral 
na Gaveta 20, Maço H, n.° 23. 

O foral de D. Diniz lhe concedeu muitos 
privilégios, — couto para 7 criminosos, feira 
franca em S. Paio, isenção de direitos para 
tudo o que importasse da Galliza ou expor- 
tasse para ali, eleição livre dos vereadores 
e juiz ordinário, terça dos dizimos para con- 
servação do castello, etc. 

No «alto do monte de S. Paio, nos limites 
d'esta villa, houve um convento de religio- 
sos franciscanos, instituído por fr. Gonçalo 
Marinho nos fins do século xiv. Está hoje 
em ruínas e pertence aos herdeiros de Ma- 
nuel José de Faria Pereira. 

Tem a villa duas aulas officiaes de ins- 
trueção primaria elementar para os dois se- 
xos—e uma associação de soccorros mútuos 
denominada Montepio Cerveirense de Nossa 
Senhora da Boa Nova, com estatutos appjo- 
vados em 1876. 

Ha n'este concelho uma mina de carvão 
de pedra, chumbo e outros mineraes, sim- 
plesmente registada. 

O melhor edifício da villa é a casa que foi 
da nobre família Castros, do Covo, hoje re- 
presentada pelo conde de Côvo. 

Ergue-se aquelle edifício no Terreiro da 
villa;— conserva ainda o brasão dos seus 
antigos senhores, mas hoje pertence a José 
Augusto Pereira Pinto Maldonado, filho do 
fallecido dr. José Narciso Barbosa Pereira 
Pinto. 

Da freguezia de Gondarem, d'este conce- 
lho, eram naturaes Manuel Marinho Falcão, 
ministro da justiça no tempo d'el-rei D, João 
VI,— e o desembargador João Manuel Guer- 
reiro d'Amorim, conselheiro da fazenda, 
n'aquella mesma época. 

Lembramo-nos de um litterato distincto 
e homem de grao.de virtude natural de Villa 



Nova da Cerveira e citado por lnnocencio, 
Fr. Bernardo de S. Miguel, monge de Cister, 
companheiro de Fr. Antonio das Chagas nas 
missões d'este varão apostólico. 

Nasceu pelos annos de 1634 n'esta villa e 
falleeeu em 1697 nq convento d'Alcobaça. 

Escreveu o Espelho da rasão, amor acer- 
tado. . . Lisboa, 1690, 8." de 388 pag. 

O auctor hombrea com os mais cultos da 
sua época, mas, como o seu livro não anda 
no Catalogo da Academia, não gosa de es- 
timação alguma e corre por baixo preço!... 

Citaremos ainda dois grandes litteratos 
que, posto não fossem filhos d'esta villa, d'ella 
foram arcediagos : 

Francisco Ferreira Barreto, presby- 
tero secular e dr. em theologia. 

Nasceu em Lisboa em 1554,— falleeeu em 
1610— e escreveu e publicou vários sermões 
muito estimados ainda hoje., 

2.° — Francisco Vellasco de Gouveia, — dr. 
e lente de cânones na Universidade de Coim- 
bra, arcediago de Villa Nova da Cerveira e 
desembargador dos liggravos na Casa da 
Supplicacão, natural de Lisboa, onde falle- 
eeu em 1659, contando cerca de 80 annos 
de edade. 

É auctor de varias ebras de muita mere- 
cimento, indicadas por lnnocencio. 

Ha n'esta freguezia e n'este concelho mui- 
tas quintas importantes. 
Indiquemos as principaes: 

1. a — A de Lobêlhe, na freguezia d'este no- 
me. Foi dos jesuitas e pertenceu a um hos- 
pício que estes padres ali tiveram ;— hoje é 

.dos filhos de João Antonio da Rocha Pe- 
reira. 

V. Lobêlhe, vol. 4.° pag. 432— e Sôpo vol. 
9.° pag. 424 e 425, onde já se fallou d'esta 
rica propriedade. 

2. a — Agua Branca, n'aquella mesma fre- 
guezia. Pertence hoje a Luiz de Caldas Oso- 
res Sottomaior. 

3. *— Penafiel, na freguezia de Reboreda, 
solar dos Reboredas, com uma torre brazo- 
nada. 

Foi da família Pereira da Cunha, de Vian- 
na, que a emprasou ao seu actual possui- 
dor Francisco Pereira Sanches de Castro. 



812 VIL 

V. Reborêda, vol. 8.° pag. 68. 

4.»— A Quinta, assim denominada, na fre- 
guezia de Covas, propriedade dos Pittas, de 
Caminha, hoje muito dignamente reprezen- 
tados pelo sr. João Filippe Menezes Pitta. 

5*—Louceira na freguezia de Gondarem ? 
com casas e capella brasonadas, pertencente 
a Francisco de Sousa Cadaval. 

V. Gondarem, vol. 3.° pag. 301. 

6. *— Da Torre, na freguezia de Loivo. É 
brasonada; — pertenceu a uma illustre famí- 
lia hoje extincta,— e é actualmente de João 
Manuel Pereira dos Santos. 

V. Loivo, vol. 4.° pag. 434, col. 1." 

7. '— Das Laranjeiras, mesmo na villa. 

É brazonada e pertence a D. Rosa Josefa 
Pereira da Cunha e Castro. 

As armas d'esta villa são um veado ou 
cervo da sua côr, em campo verde susten- 
tando o veado nas pontas um escudo com as 
quinas portuguezas, sem os castellos. 

Estas armas alludem ao primitivo local 
d'esta villa, denominado Cervaria, por ser 
então deserto e abundarem n'elle veados. 
Segundo esta- opinião Villa Nova da Cer- 
veira quer dizer Villa Nova da Cervaria ou 
dos veados;— outros porem se inclinam a 
crer que o titulo de Cerveira lhe: provem 
do seu primeiro senhor, João Nunes de Cer- 
veira, que teve o seu solar por aquelles sí- 
tios, no tempo de D. Sancho II. Os que se 
inclinam a esta ultima opinião, escrevem 
Villa Nova de Cerveira e não Villa Nova da 
Cerveira, como nós escrevemos e geralmen- 
te e oficialmente se escreve. São questões de 
pouca monta. 

Ha n'esta villa um Club ou Assembléa 
para distracção dos seus sócios. 

O forte de Lobêlhe, ou do Azevedo, é ainda 
do estado e tem alguma importância estra- 
tégica. 

No dia 25" de setembro do 1643 vieram os 
hespanhoes atacar Villa Nova da Cerveira, 
mas foram repellidos pelos portuguezes, ca- 
pitaneados por Manuel de Sousa d'Abreu. 

Defronte d'esta villa e3tá em terreno hes- 
panhol, na margem direita do Minho, © forte 
da Barca de Goyão, que fazia pendant com 
as fortificações portuguezas da margem op- 



VIL 

posta, como a praça de Tuy se oppunha á 
nossa de Valença, a de Monte Rei á nossa 
de Chaves, a da Conceição á nossa d'Almei- 
da, a de Radajoz á nossa d'Elvas, a de Aya- 
monte á nossa de Castro Marim, etc. 

Em 25 de novembro de 1876 pesou sobre 
este concelho, nomeadamente sobre a fre- 
guezia de Covas, um medonho vendaval, cau- 
sando prejuízos enormes, como já dissemos 
no vol. 9.° art. Seixas, pag. 84, col. 2.»— 
vol. 8.° art. Riba d' Ancora, pag. 168, col. 1.» 
— e n'este vol. 10.° art. Venade, pag. 276, 
col 2.* 

Por carta de D. Alfonso V, passada em 
Touro, a 4 de março de 1476, foi feito vis- 
conde de Villa Nova da Cerveira D. Leonel 
de Lima, fidalgo de boa linhagem, alcaide 
mór de Ponte de Lima, senhor da villa dos 
Arcos de Val de Vez e d'outras muitas terras. 

Era filho 2.° de Fernão Eannes de Lima 
(fidalgo a quem D. João I doou Val de Vez 
e outras terras) e de sua mulher D. Theresa 
da Silva, filha de João Gomes da Silva, al- 
feres mór do reino. 

D. Leonel de Lima foi o 1.° visconde que 
houve em Portugal, pelo que os seus des- 
cendentes com orgulho se intitulavam Pri- 
meiros viscondes de Portugal. 

Casou com D. Filippá da Cunha e foi seu 
3.° neto o 5 ° visconde de Villa Nova da Cer- 
veira, D. Francisco de Lima, no qual termi- 
nou a varonia de tão illustre família, porque 
tendo casado com D. Brites de Alcaçova, fi- 
lha do 1.° conde da Idanha, succedeu-lhes 
sua filha D. Ignez de Lima, que casou com 
Luiz de Brito e Nogueira, senhor dos mor- 
gados de Santo Estevam de Reja e S. Lou- 
renço de Lisboa, entrando por este casa- 
mento na casa dos primeiros viscondes a 
varonia dos Rritos. 

Seu filho D. Lourenço de Lima Rrito e 
Nogueira recusou o titulo de conde, para não 
se perder a memoria de terem sido os seus 
ascendentes os primeiros viscondes de Portu- 
gal; foi-lhe porem concedida por carta de 
19 de dezembro de 1623 a prerogativa de 
•grandeza, de que usam os nossos condes. 

Casou D. Lourenço de Lima com D. Luiza 



VIL 



VIL 813 



de Távora e tiveram muitos filhos, dos quaes 
o primogénito foi o i.° conde dos Arcos. O 
6.° filho, D. Diogo de Lima, succedeu no vis- 
condado de Villa Nova da Cerveira e casou 
com D. Joanna de Vasconcellos e Menezes, 
senhora de Mafra e Soalhães. 

Conservou-se em seus descendentes a va- 
ronia dos Britos atè que sua bisneta D. Ma- 
ria Xavier de Lima e Hohenloe adveiu ao 
viscondado, desposando em 1720 Thomaz da 
Silva Telles, filho do 2.° marquez ^Alegre- 
te, entrando assim na casa dos primeiros vis- 
condes outra varonia, a dos Telles da Silva. 

Foi seu filho e herdeiro D. Thomaz Xa- 
vier de Lima Nogueira Vasconeellos Telles 
da Silva, que ao titulo de visconde de Villa 
Nova da Cerveira juntou o de marquez de 
Ponte de Lima, por carta de 17 de dezem- 
bro de 1790. 

Foi um do3 homens mais notáveis do seu 
tempo: secretario d'estado dos negócios do 
reino e da fazenda, da junta do commercio, 
presidente da Academia Real das Sciencias, 
etc, e casou com D. Eugenia Maria Josefa 
de Bragança, filha dos 4. 0S marquezes ^Ale- 
grete, seus parentes. 

Acha-se alliada também esta illustre ge- 
ração aos marquezes de Nisa, Abrantes e 
Castello Melhor— e aos condes de Ficalho e 
Óbidos, etc. 

Seu filho D. Lourenço foi o 1.° conde de 
Mafra e o primogénito, D. Thomaz Xavier 
de Lima Nogueira e Vasconcellos Telles da 
Silva, foi visconde de Villa Nova da Cer- 
veira, não chegando a ser agraciado com o 
marquezado de Ponte de Lima, por fallecer 
antes de seu pae. Casou em 1777 com D. 
Maria José d'Assis Mascarenhas, filha dos 
3. 0S condes d'Obidos, de quem teve uma fi- 
lha, e um filho que foi 

D. Thomaz José Xavier de Lima Vascon- 
cellos Brito Nogueira Telles da Silva, vis- 
conde de Villa Nova da Cerveira e marquez 
de Ponte de Lima, por successão a seu avô, 
sendo assim o 2.° marquez d'este titulo. 

Casou em 1804 com D. Helena José d'As- 
sis Mascarenhas, filha dos 4. 08 condes d'Obi- 
dos e d'este consorcio nasceram os filhos 
seguintes : 

volume x • 



— D. José Maria Xavier de Lima e Vas- 
concellos Brito e Nogueira Telles da. Silva, 
que nasceu em 1807 e falleceu sem geração 
em dezembro de 1877. 

Foi elle o 17.° e ultimo' visconde de Villa 
Nova da Cerveira, 3.° marquez e alcaide-imór 
de Ponte de Lima, 

V. vol. 7.° pag. 176 e 183. 

Soldado valente e de animo generoso, viu 
desabar a sua grande fortuna, soíTrendo atoi- 
camente os incommodos da pobreza, despre- 
zando honras e empregos. 

Aqui terminamos a genea- 
logia dos viscondes de Villa 
Nova da Cerveira. 

— D. Maria Xavier, fallecida também sem 
geração. 

— D. João Xavier de Lima. 

Falleceu em 1878, sem geração tam- 
bém. 

— D. Anna Xavier de Lima. 

Foi a ultima vergontea de tão nobre fa- 
mília e falleceu em Lisboa, no dia 3 de fe- 
vereiro do corrente anno (1885) também sem 
geração. 

— D. Helena Luiza Xavier de Lima, mar- 
queza de Castello Melhor pelo seu casamento 
com o 4.° marquez Antonio de Vasconcellos 
e Sousa Camara Caminha Faro e Veiga. 
D'estes é filha a actual marqueza de Castello 
Melhor D. Helena do Santíssimo Sacramento 
Maria Josefa Francisca d' Assis Anna de Vas- 
concellos de Sousa Ximenes, hoje viuva de 
D. Manuel Maria Ximenes d' Azevedo, de 
quem teve filhos, vivendo porem actualmente 
um só,— D. Helena do Santíssimo Sacramen- 
to, nascida em 1871. 

De D. Helena Luiza Xavier de Lima e de 
D. Antonio de Vasconcellos, 4. 08 marquezes 
de Castello Melhor, nasceram 4 filhos dos 
quaes somente 2 deixaram successão. 

— D. Helena do Santíssimo Sacramento, 
6. a marqueza de Castello Melhor em 1879, 
por fallecimento de João de Vasconcellos, 
seu irmão e 5.° marquez, sendo já viuva de 
D. Manuel Ximenes, de quem teve os filhos 
seguintes : 

£>2 



814 VIL 



VIL 



— D. Helena do Santíssimo 
Sacramento, mencionada su- 
pra, nascida em 1871 ; 

— D. Miguel e 

— D. Antonio, fallecidos de 
tenra idade. 

— D. João de Vasconcellos, nascido em 
1841, já mencionado. 

Foi 5.° marquez de Castello Melhor e fal- 
leceu em Lisboa no dia 11 de janeiro de 
1878, perfilhando no seu testamento 

— D. Maria da Puresa, que nasceu a 28 
de abril de 1877. 

Do exposto se vê que a casa dos primei- 
ros viscondes cahiu na de Castello Melhor e 
se acha representada, como esta, pela filha 
de D. João de Vasconcellos, D. Maria da Pu- 
reza, e por sua tia paterna D. Helena do 
Santíssimo Sacramento, actual marqueza de 
Castello Melhor. 

Os viscondes de Villa Nova da Cerveira 
não eram senhores da villa que, por alvará 
de D. João II, foi sempre da coroa;— tiveram 
somente d'ella o titulo e o padroado da 
egreja mairiz. 

As prodacções principaes d'esta paroehia 
e d'este concelho são— milho, trigo, centeio, 
feijões, hortaliças, castanhas, fructas, her- 
vagens, vinho verde, exeellente mel e muito 
liDho, do melhor da província. 

Também criam muito gado de differentes 
espécies e teem abundância de caça grossa 
e miúda e de peixe do Minho e do mar, 
principalmente de salmões, sáveis e lam- 
preias, constituindo os salmões uma especia- 
lidade distincta e um rendoso artigo de- 
portação, pois vão d'aqui em grande quanti- 
dade para todo o nosso paiz e para a Hes- 
panha. 

Para se formar idéa da importância d'este 
artigo, veja-se o que sobre o assumpto já 
dissemos no vol. 9.° pag. 84, col. 1.» e 2.* 

A maré chega até esta villa e ainda passa 
um pouco acima d'ella. 

Falleceu ha poucos annos em S. Pedro da 



Torre o venerando Diniz Ferraz d'Araujo> 
abbade d'aquellafreguezia,mas natural d'es- 
ta, onde nasceu em 1790! 

Contava pois mais de 90 annos de idade. 

Era muito caritativo;— perdeu completa- 
mente a vista alguns annos antes de fallecer, 
mas vivia resignado com a sua sorte e mes- 
mo apparentemente satisfeito, costumando 
dizer sorrindo que por sua morte não have- 
ria demandas por causa da herança. Dava 
tudo aos pobres. 

V. S. Pedro da Torre, vol. 9.° pag. 12, 
col. 2.» 

Também já falleceu (em ja- 
neiro do corrente anno) o rev. 
dr. José Gomes Martins, cóne- 
go e chanceller em Braga, de 
quem se fallou n'aquelle arti- 
go e que foi meu condiscípulo 
na Universidade e sempre 
muito meu amigo. 

Era considerado por pessoas 
competentíssimas o primeiro 
theologo de Portugal?!. . . 

Deus o tenha na gloria. 

Em tempos muito remotos houve no 
termo de Villa Nova da Cerveira 2 conven- 
tos de freiras da ordem de S. Bento, ha muito ' 
extinctos, unindo-se as suas rendas ao de 
SanfAnna de Vianna do Castello. 

Referimo-nos aos conventos de Santa Ma- 
ria de Valbôa, e Santa Marinha de Loivo. 

O 1.° estava junto do rio Minho e d'elle 
parece fallar o conde D. Pedro no seu Nobi- 
liário, tit. 58, fallando dos Silvas, pois faz 
menção de Soeiro Gonçalves, filho de Gon- 
çalo Pires, de Belmir (antigo couto no ar- 
cebispado de Braga) um dos cavalleiros que 
se acharam com el-rei D. Fernando, o santo, 
no cerco de Sevilha pelos annos de Christo 
1248,— e diz que Soeiro Gonçalves teve uma 
filha, por nome D. Urraca Soares, que foi 
abbadessa de Valbôa. 

É mais terminante o Registro de Valença, 
pois n'elle se lê que no anno do Senhor 1444 
Ignez Barbosa foi confirmada abbadessa do 
mosteiro de Santa Maria de Valbôa, da or- 
dem de S. Bento. 

Benedict. Lusit. vol. 2.° pag. 97. 



VIL 



VIL 815 



O 2." convento estava na freguezia de 
Loivo e parece que a primitiva egreja ma- 
triz d'esta parochia foi a mesma das frei- 
ras. 

D'este antiquíssimo eonvento diz o citado 
Registro de Valença : 

«Em novembro do anno do Senhor 1487, 
na cidade do Porto, dentro nos Paços Epis- 
copaes, onde pouza o sr. Bispo de Ceuta D. 
Justo Balduíno, confirmou em Abbadeça do 
Mosteiro de S. Marinha de Loivo da ordem 
de S. Bento a Brites de Sousa. . .» 

V. no art. Valença do Minho, a col. l. a da 
pag. 117, n'este vol. 10.°— no vol. 4.° pag. 
434, col. l. a o art. Loivo— e a Benedict. Lu- 
zit. no logar citado. 

Parece que o convento de Santa Maria de 
Valbôa esteve na freguezia de Villa Meã, 
solar antigo dos Valbôas, da qual foi trans- 
ferido para a de Loivo, ambas d'este conce- 
lho de Villa Nova da Cerveira— e que no 
principio do século xvi foi unido ao de 
SanfAnna, de Vianna. Deixaram então es- 
tas religiosas o habito de S. Francisco e to- 
maram o benedictino. 

V. vol. 2.° pag. 75. col. 2. a e vol. 10.° pag. 
441 e 442. 

O concelho de Villa Nova da Cerveira es- 
tava comprehendido no condado d'entre o 
Minho e Lima, segundo a divisão feita no 
século xi por D. Fernando o Magno, rei de 
Leão e Castella. 

V. Romarigães. 

Ao ex. m0 sr. dr. Luiz de Figueiredo da 
Guerra, illustrado filho de Vianna, agradeço 
os apontamentos que se dignou enviar-me. 

VILLA NOVA DE CONSTANCIA-ou sim- 
plesmente Constância— outr'ora e ainda hoje 
Punhete, — villa, freguezia e séde de conce- 
lho, comarca d' Abrantes, districto de San- 
tarém, bispado de Portalegre, província da 
Extremadura. 

Orago S. Julião. Priorado. 

V. Constância, vol. 2.° pag. 380, col. l. a 
onde já se fallou d'esta parochia e por isso 
apenas accrescentaremos o seguinte : 

Esta villa demora em um local muito pit- 



toresco, alegre e vistoso, precisamente na 
confluência do Zêzere com o Tejo, na mar- 
gem direita d'este e na esquerda d'aquelle, 
na estrada real d'Abrantes para Santarém, 
2 kilometros ao norte e montante da linha 
férrea de leste, da estação da Praia e da ponte 
sobre o Tejo, do qual se descobre perfeita- 
mente a villa toda e nós a vimos já por ve- 
zes, afastando-nos d'ella sempre com sau- 
dade e com vivo desejo de a visitarmos ex- 
pressamente. 

A villa reveste parte da encosta, mas desce 
até á praia, onde tem um caes importante, 
de muito movimento ainda hoje e maior 
ainda antes da construcção da linha férrea. 

A parte baixa d'está formosa e alegre villa 
soffreu sempre muito com as inundações 
por occasião das cheias dos dois grandes 
rios que a banham. Tornaram-se triste- 
mente memoráveis n'esta villa e nas mar- 
gens do Tejo as inundações de 1872 e de 
1876, pois foi esta ultima a maior ao sul do 
nosso paiz n'este século, emquanto que ao 
norte do nosso paiz as aguas attingiram 
muito maior altura em dezembro de 1860. 

Em uma das cheias a agua chegou a en- 
trar na egreja matriz d'esta villa, pelo que 
se removeu o Santíssimo Sacramento em 
uma bateira. 

Comprehende alem da villa as povoações 
de Santa Barbara, Santo Antonio, Charneca, 
e Moinho de Vento:— as quintas de S. Vi- 
cente, Santa Barbara, Cruz, Trombeiro, S. 
João, Areias, Alegria e Lameira ;— as habi- 
tações isoladas de Horta do Zêzere, Val Es- 
curo, Almegue, Larião, Escorrega, Pinhal, 
Couto, Pedras da Quinta ; — e os sitios de 
Preanes, Pinhal e Capareira. 

Carvalho menciona a quinta de Santa Bar- 
bara, nome que tomou de uma capella da 
mesma invocação, e diz que era n'esse tempo 
(1708) do desembargador João Pinheiro. 
Menciona também uma ermida de Santo An- 
tonio d' Entre as Vinhas, ao sul do Tejo, tal- 
vez na povoação actual de Santo Antonio, e 
diz que a imagem do padroeiro da tal ca- 
pella foi a 2." feita em Portugal— e de peder- 
neira—imagem de grande devoção e roma- 



816 VIL 



VIL 



rias, tanto que o ermitão era nomeado ou 
apresentado pela camará da villa. 

Menciona também Carvalho as ermidas de 
Sant'Anna, S. Pedro, S. João e a egreja de 
Nossa Senhora dos Martyres, ao tempo ainda 
incompleta e situada na chã de um monte 
com alegre e dilatada vista para todas as 
partes. 

Também teve e não sabemos se ainda hoje 
tem casa de Mizericordia e hospital. 

Desde 1882, data da ultima circumscri- 
pção diocesana, é do bispado de Portalegre. 

Em 1708 contava 350 fogos, mas pelo ul- 
timo recenseamento (1878) contava 305 fo- 
gos e 1:187 habitantes. Não sabemos o mo- 
tivo porque baixou tanto a sua popula- 
ção 1 .. . 

Tem este concelho ainda hoje apenas 3 
freguezias — Constância ou Villa Nova de 
Constância, — Mont'Alvo e Santa Margarida 
da Coutada,— fogos (total) 724,— habitantes 
2:912,— superfície em hectares 8:304,— pré- 
dios inscriptos na matriz 2:250. 

Diz M. Leitão d'Andrade (Miscellanea, dia- 
logo XIX pag. 574) que esta villa foi deno- 
minada pelos romanos Pugna-Tegi e que o 
dicto nome com o tempo perdêra a ultima 
syllaba ficando Pugnate, depois Punhête. 

Diz o mesmo Leitão d'Andrade que el-rei 
D. Sebastião a fez villa a pedido de Simão 
Gomes, o sapateiro santo, natural do Mar- 
meleiro, junto a Thomar, referindo-se ao 
que se lê na vida do dito Simão Gomes, pelo 
padre Manuel da Veiga; mas Carvalho diz 
que aquelle soberano a fez villa em attenção 
aos serviços que lhe prestaram 40 homens 
filhos d'ella, acompanhando-o com seus cria- 
dos e cavallos, quando em 1574 foi pela pri- 
meira vez á Africa, como consta de uma 
provisão do mesmo rei que se conserva no 
cartório da camará. 

Entre as pessoas notáveis de que esta villa 
foi berço, merecem especial menção as se- 
guintes : 

—Bartholomeu dos Martyres Dias e Sou- 
sa— ão concelho de S. Magestade, commen- 
dador das ordens de Christo e de Nossa Se- 
nhora da Conceição de Villa Viçosa, caval- 



leiro da Torre e Espada e de S. Máauricio 
e S. Lazaro da Sardenha, official maiiior gra- 
duado da secretaria do ministério ddos ne- 
gócios ecclesiasticos e de justiça, deeputado 
ás cortes em varias legislaturas, etc. 

Viveu no 2.° e 3.° quartel d'este í século, 
mas ignoramos a data do seu nascimnento e 
fallecimento. 

Publicou uma Memoria sobre a alllocução 
do S. m0 Padre Pio IX no Consistório í Secreto 
de 17 de Fevereiro de 1851. Lisboa,, 1851, 
8.° gr. de 24 pag. 

— Fr. Damazo da Apresentação, frrancis- 
cano da província de Santo Antonio ee n'ella 
por duas vezes Custodio, exercendo ainterior 
e posteriormente outros cargos de dlislinc- 
ção. 

Nasceu n'esta villa em 1577 e fallecceu em 
Lisboa em 1642. 

É auctor da Obrigação do Frade mtenor... 
1.* edição 1627, por Antonio Alvaress,— 2. a 
por Pedro Ferreira, Lisboa, 1727. 

D'esta obra diz o diccionario de Ininocen- 
cio : «É estimada entre os livros astceticos 
pela correcção e propriedade da lingcoagem, 
com estylo adequado aos assumptos cde que 
tracta.» 

VILLA NOVA DA ERRA— villa e frregue- 
zia do concelho de Coruche, comairca de 
Benavente, districto de Santarém. Orrago S. 
Matheus. Priorado. 

Até 1882, data da ultima circumscrripção 
diocesana, pertenceu ao patriarchado, — mas 
desde 1882 pertence ao arcebispado de 
Évora. 

Em 1708 contava 200 fogos — e pelo mltimo 
recenseamento apenas 160 com 621 habi- 
tantes. 

Baixou consideravelmente a sua ptopula- 
ção, talvez por causa das epidemias qute teem 
pesado sobre ella, provenientes da suai agua 
potável, que é péssima, e da má visinihança 
dos brejos e pmes que tem nas margeens da 
ribeira da Ena, que lhe dá o nome e fer- 
tilisa os seus \astos campos, mas que torna 
o seu clima pouco saudável. 

Tem feira amuai na 1.» oitava da Pas- 
choa. 

Gaspar Barreiros diz que esta povoação 
foi a antiga Aritium Praetorium dos ffoma- 



VIL 



VIL 817 



nos, 1 indicada no Itinerário d' Antonino Pio, \ 
entre Lisboa e Merida. 

Alem da villa comprehende os casaes se- 
guintes :— Mourão, Alegrete, Retiro, Fari- 
nheira, Paul, Moinho do Lagar, Acipreste, 
Corredoura, Juncal, Feixe, Concelhos, Bar- 
rancosas, Biea3, Cortiçada, Cascalheira, Mon- 
tinho da Vinha, Horta do Telheiro, Marate- 
ca da Pereira, Val Vidro, Val Mosteiro, Var- 
je ou Várzea d'Agua, Catarroeira, Moinho do 
Couto, Moinho do Alves, Pé da Erra e as 
quintas de Montinho, Barbas e Maia. 

V. Erra, voi. 3.° pag. 48, col. 2. a 

VILLA. NOVA DE FAMALICÃO — villa, 
freguezia e séde do concelho e da comarca 
do seu nome, districto e diocese de Braga, 
província do Minho. 

Abbadia. Orago Santo Adrião— fogos 460, 
—habitantes 1:915. 

Em 1706 contava apenas 100 fogos — era 
abbadia da apresentação da mitra,— rendia 
para o seu parocho 200#000 réis,— tinha 
como orago Santa Maria Magdalena— per- 
tencia á grande comarca de Barcellos,— era 
séde do julgado de Vermoim,— tinha um 
simples juiz pedaneo (anteriormente era or- 
dinário) que julgava sem appellação até á 
somma de 400 réis, eleito pelo povo sob a 
presidência do ouvidor de Barcellos; — um 
escrivão sem notas, — um almotacé, — um 
meirinho,— feira franca de lo em 15 dias, e 
uma d'anno, de bestas e gados, no dia de S. 
Miguel, 29 de setembro. 

Era 1768 era abbadia da mesma apresen- 
tação;— tinha também como orago Santa Ma- 
ria Magdalena;— rendia para o seu parocho 
240$000 réis— e contava 156 fogos. 

Em 1852, segundo se lê no Flaviense, já 
contava 284 fogos ;— em 1878 o ultimo re- 
censeamento deu-lhe 386 fogos e 1:793 ha- 
bitantes;— hoje (1885) segundo os nossos 



* V. Noticias archeologicas de Portugal 
pelo dr. Emilio Hubner, pag 96, natraduc- 
ção da Academia— e o interessante, mas 
muito cego e conciso trabalho do dr. Levy Ma-^ 
ria Jordão — Porlugalliae Inscriptiones Ro- 
>manas, pag. 360, col 2. a e pag. 144, onde 
sob o n.° 320 se encontra uma inscripção 
enorme, relativa á velha cidade Aritium. 



apontamentos, conta, como já dissemos, 460 
fogos e 1:915 habitantes— e a sua popula- 
ção tende a ir muito mais longe, porque o 
estado actual d'esta formosa villa é prospero 
e florescente ; ha porem quem diga que a 
linha férrea a prejudicou. 

É certo que, antes da construcção da linha 
férrea lhe dava muita vida o extraordinário 
movimento de viandantes, diligencias, car- 
ros e trens do toda a ordem que, noite e dia» 
cruzavam incessantemente na rua central, 
a rua Formosa, por onde passava a impor- 
tantíssima estrada real do Porto para Bra- 
ga, — para toda a província do Minho — e 
para a Galliza. 

Antes da construcção da linha férrea ha- 
via mais movimento na dieta estrada-rua 
em um raez do que agora em um anno. 

Situada em ampla, mas vistosa, mimosa e 
fértil planície, embora um pouco funda, cer- 
cada de bellos campos orlados d'arvoredo 
e sempre cobertos de luxuriosa vegetação 
como toda a província do Minho, tão justa- 
mente denominada— jardim de Portugal — 
o seu chão era completamente despovoado e 
deserto quando el rei D. Sancho I, o povoa- 
dor, tentado pela belleza e amplidão do sitio 
e pela sua vantajosa situação no meio da 
província do Minho entre ás cidades do 
Porto e Braga e cortado por uma estrada 
importantíssima desde o tempo dos romanos, 
se determinou a povoal-o. 

Com esse intuito, no anno XX do sen rei- 
nado, no dia 1 de julho de 1205, deu foral 1 
aos que haviam de povoar o seu reguengo 
de Villa Nova de Famalicão, segundo se lê 
em Viterbo, na palavra Feira. 

Entre outras graças e privilégios conce- 



i Que nós saibamos, foi este o £.° e mico 
foral d'esta villa, mencionado por fr. Joa- 
quim de Santa Rosa de Viterbo. Estranha- 
mos que D. Manuel lhe não desse foral novo 
e que Franklin nem faça menção do de D. 
Sancho I. . 

O seu foral novo, (se foral pôde dizer-se) 
foi-lhe dado pela rainha, a sr. a D. Maria II, 
em 22 de julho de 1841, elevando-a á cathe- 
goria de villa — ou permittindo-lhe que se 
chamasse Villa Nova de Famalicão, nome 
de que sempre usára 1 . . . 



818 VIL 



VIL 



deu D. Sancho aos futuros povoadores d'este 
seu reguengo uma feira quinzenal aos do- 
mingos e a mesma taxa das portagens que 
pagavam os de S. Pedro de Rates, etc, pois 
no dicto foral se lé o seguinte : 

Mando etiam, ut faciatis feiram in Domi- 
nicodie, de XV in XVdiebus, et detis Porta- 
gium, quomodo dant in S. Petro de Jiatis. 
Et om,nes, qui venerint ad illam feiram quid- 
quid ibi fecerint de Calumpnia in illo die, 
non sint pignorati, vel retenti. 

Livro dos Foraes velhos. 

Em vulgar é o seguinte • 

«E mando que façaes ahi feira aos domin- 
gos, de 15 em 15 dias, e que pagueis de 
portagem o mesmo que se paga em S. Pedro 
de Rates. E todos os que vierem á dieta 
feira não poderão ser presos n'aquelle dia 
por qualquer crime que n'ellacommettam.» 

D'este grande privilegio ou franquia lhe 
proveiu o nome de feira franca. 

Em vista não só d'aquelles privilégios e 
franquias, mas da belleza do local e da sua 
vantajosa situação topographica, parece que 
a população ali devia desinvolver-se rapi- 
damente ; mas não suceedeu assim, pois, se- 
gundo dizem o padre Carvalho na Chorogra- 
phia Portugueza, (vol. l.°, pag. 324)— o sr. 
Ignacio de Vilhena Barbosa no Archivo Pit- 
toresco (vol. 4.° pag. 298)— e o meu illustra- 
do e mallogrado collega Domingos Joaquim 
Pereira, abbade do Louro, na sua interes- 
sante Memoria Histórica de Barcellos, Bar- 
cellinhos e Villa Nova de Famalicão (pag. 
211) esta villa era ainda um ermo despovoa- 
do, quando em 1298 a 1578 um vendeiro, 
por nome Famelião, aqui montou uma ven- 
da, que foi a l. a casa e o 1.° estabelecimento 
do dicto logar e por consequência o núcleo 
d'esta formosa villa que da mencionada ven- 
da, denominada Venda Nova de Famelião, 
tomou o nome de Villa Nova de Famalicão. 

Diz ainda o abbade do Louro que em vez 
de Famalicão deve escrever-se Famelicão, 
porque o nome do tal vendeiro, 1.° povoa- 
dor d'esta villa, era Famelião e não Fama- 
Hão. 

Também se lê Famelião no citado artigo 
do sr. Ignacio de Vilhena Barbosa e na Cho- 



rographia Portugueza; mas eu (salvo ) o res- 
peito devido a tão illustrados auctore^es) es- 
creverei Famalicão pelas consideraçòòes se- 
guintes : 

1. "— Porque, se houvéssemos de seteguir o 
rigor etymologico, deveríamos dizer r Villa 
Nova de Famelião, pois o pretendido f funda- 
dor ou povoador era (dizem) Famelião o e não 
Famelicão ; 

2. a — Porque vemos dar geralmente e e ofi- 
cialmente o nome de Famalicão, não o só a 
esta villa, mas a outras muitas povooações 
do nosso paiz. 

3. a — Porque duvido da existência < do tal 
vendeiro e do facto a que se allude, pobis não 
vejo citar outra auctoridade alem da ddo pa- 
dre Carvalho, que para mim não faz f<fé. 

Bem podia succeder que lhe impinggissem 
a lenda do Famelião, como lhe impinngiram 
outras muitas. 

4. a — Porque não citam documento a algum 
em que se leia Famelião— nem eu atôé hoje 
encontrei tal nome. 

5. "— Porque, em geral, n'isto de etyymolo- 
gias tot capita, tot sententiae l 

A de Villa Nova de Famalicão está i muito 
comesinha,— graças ao padre Carvalhoo ou a 
quem o brindou com ella ; mas eu não ) posso 
acceital-a, pois temos no nosso paiz ooutras 
muitas povoações, todas muito distanntes e 
com o mesmo nome de Famalicão, v. gg. Fa- 
malicão, também villa, no concelho da (Guar- 
da, ao sul da Serra da Estrella,— Famaalicão 
freguezia do concelho d' Alcobaça, na ESxtre- 
madura,— Famalicão, aldeia da freguezzia de 
Moure, no concelho de Felgueiras,— FFama- 
licão, aldeia da freguezia dos Arcos, noo con- 
celho da Anadia, — Famalicão de Baaixo e 
Famalicão de Cima, aldeias da freguezzia de 
Famalicão, no concelho d' Alcobaça, — Ffama- 
lição, aldeia da freguezia de Cortes, no 3 con- 
celho de Leiria, — e Famalicão, quinta oou ca- 
sal da freguezia de Samuel, no concelhho de 
Soure. 

É provável que todas estas villas, freegue- 
zias e aldeias com o mesmo mesmisssimo 
nome de Famalicão tenham a mesma ettymo- 
logia; mas poderá crer-se que todas foossem 
oceupadas e povoadas pelo triste venedeiro 
Famelião^ 



VIL 

Pôde, também crer-se que houvesse no 
nosso paiz em tempo algum tantos homens 
com o nome de Famelião e que tivessem a 
ventura de fundar tantas povoações? 

Não creio. 

Volvendo ainda á lenda do padre Carva- 
lho, diz elle— e com elle o abbade do Louro 
e o meu presado amigo e mestre, o sr. Igna- 
cio de Vilhena Barbosa— que o tal vendeiro 
Famelião casou com uma mulher de appel- 
lido Motta, criada dos condes de Barcellos, 
e que a dieta sr. a Motta plantara um carva- 
lho no sitio que ainda hoje se chama Car- 
valho da Motta. 

Accrescenta o abbade do Louro que aquel- 
le sitio se chamava o Terreiro e que poste- 
riormente se denominou Praça da Motta, 
para coramemorar .e perpetuar o nome da 
mulher do 1.° povoador d'esta villa, o que 
acha justíssimo, pois (diz elle) se Famelião 
é o Adão de Villa Nova, Motta é a sua Eva. 

Fiat voluntas tua. 

Mas passemos adiante, porque estamos a 
gastar tempo com questões lanae caprinae. 
Villa Nova de Famalicão não necessita de 
taes lendas para ser, como de facto é, uma 
villa das mais formosas e mais interessantes 
do nosso paiz na actualidade. 

Demora na importantíssima estrada real a 
macadam do Porto a Braga, Barcellos, Vian- 
na, Caminha e Valença,— estrada que a corta 
pelo centro e que é com pequenas varian- 
tes a antiga estrada romana de Bracara Au- 
gusta a Cale (hoje Porto) indicada no ro- 
teiro de Antonino Pio. 

Passa também hoje n'esta villa, a O. a li- 
nha férrea do Minho, que lhe deu estação 
própria, distante da villa pouco mais de 1 
kilometro,— e é terminus da linha férrea de 
via reduzida, do Porto á Povoa de Varzim e 
Villa Nova de Famalicão, devendo seguir 
pelas proximidades de Guimarães até Cha- 
ves, co'mo dissemos no artigo Vias Férreas. 
Vide. 

Servem-na também e ao seu vasto conce- 
lho outras muitas estradas a macadam. 

Ora, se as vias de communieação, como 
é obvio a todos, são as artérias das povoa- 



VIL 819 

ções, pelo exposto pôde calcular-se a vida 
d'esta. 

Note-se também que, ha muitos annos, 
esta villa e este concelho teem dado um forte 
contingente de emigrados para o Brazil, 
d'onde teem regressado e continuam a re- 
gressar muitos com avultadas fortunas, aos 
quaes, como bons filhos que não esquectem 
a sua terra natal, o que mnito os nobilita e re- 
commenda, se deve em grande parte a pros- 
peridade d'esta formosa villa e muitos dos 
melhores edifícios que a povoam. 

É banhada ao nascente pelo ribeiro de S. 
Thiago d' Antas— e ao poente pelo do Vinhal; 
—ambos se juntam no sitio dos Vargos, fre- 
guezia de S. João do Calendário, e desaguam 
na margem direita do rio Ave, no sitio da 
Bogueira de Lousado, um pouco a jusante 
da ponte da Lagoncinha, com 6 a 7 kilome- 
tros de curso. 

Villa Nova de Famalicão dista 1:500 me- 
tros da sua estação na linha férrea do Minho, 
—6 kil. do rio Ave —20 de Barcellos— 22 
de Braga,— 23 de Guimarães,— 29 da Povoa 
de Varzim— 32 de Villa do Conde, 34 do 
Porto— 50 de Vianna do Castello,— 98 de 
Valença do Minho,— 129 da Regoa— e 371 
de Lisboa. 

Freguezias limitrophes— Louro, Gavião, 
S. Thiago d'Antas, S. João do Calendário e 
Brufe. 

Comprehende alem da villa as aldeia» ou 
povoações seguintes :— Cruz Velha, Santo 
Adrião, Poço, Fornello, Pinheirinho, Pain- 
çaes, Pereiras, Mões, Ribeira, Poido, Sinçães 
e Louredo de Baixo; as quintas de Vinhal 
Eira, Salgueiro e Sinçães; — os casaes de 
Mões (antigamente Mós) e Serrões (antiga- 
mente Serós)— os sítios da Bandeira e Ban- 
deirinha;— a estação própria da villa na li- 
nha férrea do Minho— e a estação terminus 
(entroncamento) da linha férrea do Porto á 
Povoa de .Varzim e Villa Nova de Famali- 
cão. 

Pôde dizer- se que esta villa data de 4205, 
ou do anno em que D. Sancho I lhe de u fo- 
ral;— mas, segundo a lenda do tal Famtelião, 
a sua 1.» casa foi feita pelos annos de 1298 



820 VIL 



VIL 



a 1578, como diz o abbade do Louro, o que 
nós não acreditamos. 

Tendo-lhe dado D. Sancho I foral com 
tantos privilégios, como já dissemos, e con- 
cedido feiras francas de 15 em 15 dias, — 
feiras que n'aquelles tempos tinham uma 
importância immensa e eram grandes focos 
de vida;— estando alem d'isso em chão mi- 
moso e fértil, que se prestava admiravel- 
mente para toda a sorte de construcções e 
cortado a meio por uma das estradas mais 
importantes do nosso paiz, — era natural- 
mente impossível que ao lado do campo das 
suas grandes feiras se não levantasse edifí- 
cio algum, nem sequer uma simples ven- 
da ou estalagem, e que o seu chão se con- 
servasse completamente deserto e despovoa- 
do durante noventa e tres a tresentos setenta 
e tres annos ! 

É porem fóra de duvida que nos princí- 
pios d 'este século não contava 200 fogo3 e 
que ainda em 1835 era uma povoação pe- 
quena e triste. 

Todo o seu progresso e toda a sua flores- 
cência datam de 1836 e particularmente 
desde que se fez a nova estrada a macadam 
do Porto a Braga, que não só lhe insufflou 
muita vida, mas lhe deu a sua l. a rua,— a 
estrada-rua central, por justos títulos deno- 
minada Rua Formosa, que immediatamente 
se vestiu de prédios elegantes, alguns muito 
luxuosos, dando á villa a bellesa e regula- 
ridade que lhe faltavam. E a esta rua ac- 
cresceram logo as ruas de Santo Antonio, 
Municipal e da Ponte — e por ultimo a Es- 
trada-rua da Estação, denominada Avenida 
do Barão da Trovisqueira, que valem muito 
mais do que toda a villa velha. 

Até 1835 as ruas, campos, largos, terrei- 
ros e praças d'esta villa eram os seguintes: 
Rua da Egreja, apenas o principio ou uma 
pequena parte da nova rua de Santo Anto- 
nio, indo do poente para o nascente ; — o 
Terreiro, hoje Praça da Motta ;— o Beco das 
Larangeiras;—& Rua Direita;— a Viella dos 
Enchidos;— o Largo da Lapa;— o Largo da 
Cruz Velha— e o Campo da Feira, que até 
1841 era menos espaçoso do que hoje e ti- 
nha apenas algumas barracas de madeira, 



cobertas de colmo e sem alinhamento, des- 
tinadas aos feirantes, e algumas casas em 
volta. 

Em toda a povoação não havia uma única 
fonte de bica ou chafariz, mas apenas alguns 
poços, emquanto que hoje tem 2 chafarizes 
com boa agua potável— um junto da Praça 
da Motta, outro junto do Campo da Feira. 

Também até 1835 apenas tinha feiras de 
15 em 15 dias, ás quartas feiras, e duas an- 
nuaes e grandes em 8 de maio e 29 de se- 
tembro;— era a séde do extincto julgado de 
Vermoim;— tinha apenas o pequeno numero 
de funecionarios públicos indicados na Cho- 
rographia Portugueza, de que já fizemos 
menção no principio d'este artigo,— e era 
villa apenas in nomine. 

Foi só em 22 de julho de 1841 que S. M. 
a rainha D. Maria II lhe deu nova carta de 
Foral (636 annos depois do seu Foral velho 
concedido por D. Sancho I) e a elevou á ca- 
thegoria de villa, concedendo aos seus habi- 
tantes todos os privilégios, honras, preroga- 
tivas e mais isempçoes das outras villas do 
reino. 

Desde 1835 principiou a ter camará mu- 
nicipal, de que foi 1.° presidente o dr. An- 
tonio Ribeiro de Queiroz Moreira, da nobre 
casa do Vinhal, hoje muito dignamente re- 
presentada pelo sr. José d'Azevedo Menezes 
Cardoso Barreto; 1 — depois teve arcypreste, 
administrador do concelho, juiz de direito, 
delegado com os seus respectivos escrivães 
e officiaes subalternos, contador, conserva- 
dor, estação telegraphica, etc. 

Foi seu 1.° juiz de direito o dr. Silvério 
da Silva e Castro, 2 da casa de Villar, de S. 
Thiago d'Antas, 3 nomeado em 1835, data da 



1 V. Vinhal. 

2 Foi também governador civil de Braga 
em 1846 e falleceu sendo juiz na Relação do 
Porto. 

É hoje muito dignamente representado 
pelo sêu filho José da Silva e Castro, senhor 
da casa de Villar, e da de Sinçães, onde re- 
zide., 

3 É seu juiz de direito na actualidade o 
sr. dr. José Ferreira da Silva Fragateiro ma- 
gistrado digníssimo e que foi anteriormente 



VIL 

creação d'este concelho e d'esta comarca,— 
e o primeiro administrador d'este concelho 
foi Francisco Jeronymo de Castro, da casa 
de Villa Bôa, na freguezia de Joanne. 

Também logo em 1835 se principiaram a 
construir novos edifícios, particulares e pu- 
, blicos, entre estes os novos paços do conce- 
lho, 1 em que se acham installados também o 
tribunal, a administração do concelho, a 
conservatória e escrivania da fazenda. 

Esta comarca de Villa Nova de Famalicão 
é de 1." classe, formada apenas pelo conce- 
lho do seu nome. Tem este: 



Superfície em hectares 21 

Prédios inscriptos na matriz 25 

Fogos (pelo ultimo recenseamento) 7 

Almas 29 

Freguezias 



922 
573 
346 
549 
48 



São as seguintes: Abbade de Vermoim, 
\ Antas, Arnoso do Mosteiro, orago o Salva- 
dor, Arnoso, orago Santa Eulália, annexa á 
antecedente, Arnoso, orago Santa Maria, 
\ Ávidos, Bairro, Bente, Brufe, Cabeçudos, 
Calendário, Carreira, Castellões, Cavallòes, 
Cruz, Dellães, Esmeriz Fradellos, Gavião, 
Gondifellos, Jesufrei, Joanné, Lagôa, Lan- 
dim, Lemenhe, Louro, Lousado, Mogege, 
Mouquim, Nine, Oliveira, Outiz, Pedome, 
Portella, Pousada, Requião, Riba d' Ave, Ri- 
. beirão, Ruivães, Seide, orago S. Miguel — 
| Seide, orago S. Paio, Sezures, Telhado, Val- 
le, orago S. Cosme,— Valle, orago S. Marti- 
nho, Vermoim, Villa Nova de Famalicão e 
Villannho. 

No ultimo anno económico de 1884 a 
1885 pagou este concelho : 



juiz em Pombal, Castello Branco, Regoa e 
Baião. 

É primo do sr. dr. João Ferreira da Silva 
Fragateiro, muito digno secretario geral do 
governo civil de Vianna dQ Castello. 

1 Principiou a construcção dos novos pa- 
ços do concelho em outubro de 1877 e ter- 
minou em junho de 1881. 

Custaram 21:099^550 réis. 



VIL 821 

Contribuição predial 17:51201.16 

industrial 2:6050497 

» renda de casas e 

sumptuária... 6180705 

» de juros 5:4040828 

Total. • 26:1410166 

Já \êem que é muito importante este con- 
celho. 

Note-se que na verba supra 
se incluem a dos addicionaes 
e a do sello. 

Tem este concelho 3 juizes ordinários,— 
2 na villa e' 1 na freguezia de Dellães — e 5 
círculos de juizes de paz,— um com a séde 
na villa ; os outros nas freguezias de Fra- 
dellos, Oliveira, S. Cosme do Valle e Rui- 
vães. 

Os templos d'esta villa são os seguintes : 
—egreja parochial,— 4 capellas publicas,— 
2 particulares— e na aldeia de Santo Adrião 
a pequena capella d'este titulo, que foi a 1.* 
matriz d'esta parochia. 

A egreja matriz actual ergue-se ao nas- 
cente da Praça da Motta— tem a fronteria 
voltada ao poente— e é um templo bastante 
espaçoso, mas muito irregular, com duas 
portas na fronteria e duas naves no inte- 
rior 1. . . 

Expliquemos este aborto de architectura: 

A primitiva egreja parochial era a de 
Santo Adrião, que ainda hoje existe, com a 
sua velha residência e passal, cerca de um 
kilometro ao norte da villa. 

No próprio local da nova matriz houve 
desde tempos muito remotos uma simples 
capella de Santa Maria Magdalena, que al- 
guém suppõe ter sido também matriz, antes 
da matriz passar para a egreja de Santo 
Adrião, em 1522, pois diz a Memoria do ab- 
bade de Louro que em 31 de outubro de 
1522 o arcebispo D. Rodrigo de Souza anne- 
xou á egreja de Santo Adrião a ermida de 
Santa Maria Magdalena. 

Não comprehendemos bem isto. 

Se a capella foi annexada á egreja de 
Santo Adrião em 1522,— ou era já matriz e 
deixou de o ser— ou pertencia a outra pa- 



822 VIL 



VIL 



rochia ; mas o abbade de Louro nada diz a 
tal respeito ! 1 

Por seu turno a egreja de Santo Adrião 
deixou de ser matriz e foi arvorada em ma- 
triz a mencionada capella, não sabemos 
quando. O abbade de Louro (Memoria cita- 
da, pag. 322) diz que foi antes de 1540, o 
que nos parece pouco acceitavel, pois logo 
em seguida diz— que em 1583 a irmandade 
de S. Thiago, até então erecta na egreja de 
S. Thiago d'Antas, se mudou para a dieta 
capella, estabelecendo-se no altar do Ar- 
chanjo S. Miguel, que já existia na mencio- 
nada capella, tomando a irmandade por essa 
occasião o titulo de S. Miguel, e que d'esta 
transferencia se lavrou escriptura publica 
em dezembro do dicto anno. 

«Parece comtudo, que não se verificou 
logo a mudança da irmandade (continua a 
citada Memoria) porque por outra escriptura 
de 9 de março de 1586. . . foi pactuado e re- 
solvido que, visto que a egreja de Santo 
Adrião estava apartada do logar de Villa Nova 
e que n'este haviam crescido os freguezes, 
de licença do prelado diocesano se collocasse 
pia baptismal na ermida de Santa Maria 
Magdalena . . . e que n'esta ermida se orde- 
nasse a dita irmandade, no altar da ermida, 
da parte do norte; e que depois se alargaria 
mais a mesma ermida, e se faria uma sa- 
christia e outras obras, etc. 

Ora se em 1586 ainda se não havia collo- 
cado pia baptismal na capella de Santa Ma- 
ria Magdalena, claramente se vê que ella 
ainda não era matriz n'aquella data. Como 
acreditar pois que ella já fosse matriz em 
1540? 

É certo que a matriz se mudou da capella 
de Santo Adrião para a mencionada ermida 
que posteriormente se ampliou e transfor- 
mou na egreja actual, construindo-se o cor- 



( 1 Os tópicos relativos á matriz e oragos 
d'esta vílla são muito emmaranhados e de- 
mandam investigações morosas, a que esta- 
mos procedendo. 

No fim d'este artigo ou no supplemento a 
este diccionario informaremos os leitores. 



po e a fronteria e ficando a velha ermida 
servindo de capella-mór. 

Havia também já em 1540 outra ermida 
no mesmo local, contigua e parallella á de 
Santa Maria Magdalena, da parte da epistola, 
ou do lado sul, que foi posta em communi- 
cação com a nova egreja por meio d'arcos 
abertos nas paredes divisórias e depois se 
prolongou também parallelamente até á fron- 
teria da egreja, formando com ella um só 
todo. 1 

Correspondem, pois, as duas portas da 
frente e as duas naves do interior ás duas 
antigas capellas. 

Em 1702 e 1703 se fizeram os 2 coros das 
2 naves e a torre dos sinos na do lado nor- 
te, correspondente á antiga capella de Santa 
Maria Magdalena. 

N'aquella mesma data se prolongou a ca- 
pella do Santíssimo Sacramento e se harmo- 
nisou a sua fronteria com a da egreja. 

A capella do Santíssimo Sacramento foi 
feita em 1540 pelos habitantes d'esta fre- 
guezia de Villa Nova de Famalicão e das 
circumvizinhas, por iniciativa de Rodrigo 
Annes, ao lado da capella de Santa Maria 
Magdalena, que poucos annos antes tinha pas- 
sado a ser a Egreja parochial— repete ainda 
a citada Memoria, pag. 234, o que mal se 
harmonisa com a lettra das citadas escri- 
pturas ! 

No mesmo anno de 1540 se constituiu a 
irmandade do Santíssimo Sacramento e se 
fizeram os seus estatutos, que foram refor- 
mados e confirmados pelo Ordinário em 10 
de junho de 1596— e addiccionados em 1659. 

A esta irmandade concederam os roma- 
nos Pontifices muitas graças e indulgências. 

A egreja matriz com o addiccionamento 
da capella do Santíssimo mede ao todo 10 
metros de largura, 7 m ,70 d'altura e 28 de 
comprimento. 

Tem 6 altares:— Senhora das Dores, San- 
tíssimo Sacramento, Senhora do Rosario, 



1 Entre a capella do Santíssimo e a de 
Santa Maria Magdalena mediava o espaço 
em que se fez a nave do lado sul e que poz 
em communicação as duas capellas. 



VIL 



VIL 823 



Archanjo S. Miguel, Chagas e Senhor Ecce 
Homo. 

N'ella se fez Laus Perenne no 3.° domingo 
de cada mez, em cumprimento do legado de 
uma piedosa senhora e, desde 1882, se fes- 
teja com grande pompa e extraordinária 
concorrência o Mez do Rosario. 

Ha hoje n'esta parochia as capellas se- 
guintes : 

1. » — S. Vicente, no logar da Bandeirinha. 
Tem festa annual. 

Foi esta ermida feita ha poucos annos. 

2. * — A do cemitério municipal. 
Ignoramos a sua invocação. 

3. *— Nossa Senhora da Lapa, no largo 
d'este nome, contigua ao Hospital da Mise- 
ricórdia. 

O seu orago primitivo foi S. Sebastião, 
cuja imagem ainda ali hoje se venera. 

É um templo espaçoso, rico em obra 
de talha, e extremamente limpo e aceado, 
— graças às piedosas Irmãs Hospitalei- 
ras, que d'elle cuidam e dos doentes do 
hospital. 

N'esta capella se faz com grande pompa 
o Mez de Maria. 

i.*— Santo Antonio, no Campo da Feira, 
outr'ora logar da Granja, com grande festi- 
vidade annual no dia 13 de junho. 

O orago d'esta capella foi antigamente 
Santo Ivo, mas já em 1696 ali se venerava 
e venera ainda a imagem de Santo Anto- 
nio. 

N'esta capella se instituiu a venerável or- 
dem 3. a de S. Francisco, por zelo e devoção 
do rev. abbade d'esta villa, Manuel Rebello 
de Souza, natural da villa de Trevões, con- 
celho e comarca da Pesqueira, districto de 
Vizeu, que em 1664 havia estado em Roma 
e falleceu em 1781, tendo renunciado em 
seu sobrinho, o rev. Manuel Rebello de Sousa 
também. 

O 1.° commissario e visitador d'esta or- 
dem 3.» foi Fr. Manuel de S. Mauricio, reli- 
gioso observante de Portugal, morador no 
convento dos Franciscanos de Villa do 
Conde. 

Em 1707 esta ordem se desligou d'aquelle 
convento e passou a prestar obediência ao 



do Monte da Franqueira, pertencente á pro- 
víncia da Soledade, que lhe deu por com- 
missario visitador Fr. Plácido de Villa Nova 
de Famalicão, natural d'esta villa. 

Cahindo em grande abatimento a dieta 
ordem, o abbade d'esta villa, dr. Caetano 
José de Sousa Rebello, sobrinho do ultimo 
Manuel Rebello de Sousa, se propoz restau- 
ral-a e para isso pediu novo commissario e 
vizitador ao provincial da santa e reformada 
província da Soledade, que do mesmo con- 
vento da Franqueira lhe mandou fr. André 
do Porto Silva e, sendo eleita nova meza em 
1 de setembro de 1771, foi nomeado minis- 
tro o mesmo rev. e benemérito abbade, dr. 
Caetano José de Sousa Rebello, que muito 
fez prosperar a dieta ordem. 

Em 1690 já ella tinha estatutos e actual- 
mente se rege pelos de 24 de janeiro de 
1797, confirmados pelo provincial da Sole- 
dade, Fr. Antonio da Capinha, morador no 
convento de Santo Antonio de Valle da Pie- 
dade, em Villa Nova de Gaya. 

Usando todos os irmãos 3. 0S habito côr de 
saragoça, estes por excepção usam habito 
preto, porque era preto o habito dos frades 
franciscanos do convento de Villa do Conde, 
o 1.° a que prestaram obediência. 

Todas as mencionados capellas são publi- 
cas; mas ha ainda n'esta parochia mais 2 
particulares, — uma de Nossa Senhora do 
Carmo pertencente á nobre casa e quinta do 
Vinhal (V. Vinhal) — e outra no logar do 
Barreiro, pertencente á casa das Lameiras 
e em lastimável abandono 1 

Tem esta villa um bom cemitério muni- 
cipal, mas pessimamente situado no logar da 
Segonheira, cerca de 200 metros distante da 
egreja matriz, em terreno fundo, abafado e 
pantanoso ! 

Foi principiado em 1858 e concluído e 
benzido em 24 de novembro de 1867. 

0 1.° cadáver que n'elle se enterrou foi o 
da sr." D. Adélia Ermelinda Ferreira de 
Maneio Franco, mulher de João Maneio da 
Silva Franco, no dia 27 do mesmo mez e 
anno. 

Ha hoje n'elle dois bons mauzoleus,— um 
do barão de Joanne, outro da sr. a D. Maria 



824 VIL 

Isabel da Costa Macedo Castello Branco, 1 es- 
posa que foi de Nuno Castello Branco, filho 
do grande escriptor Camillo Castello Bran- 
co, o solitário de S. Miguel de Seide, fregue- 
zia d'este concelho, onde vive ha muitos an- 
nos, a 5 kilometros d'esta viila, para leste. 

Não consta que esta villa tivesse em tempo 
algum pelourinho— nem ha n'ella vestígios 
de monumentos históricos. Apenas consta 
que na Praça da Motta tiveram os condes 
de Barcellos ura edifício denominado Paço e 
Casa do Foral, com uma quinta annexa que 
depois emprasaram a Domingos Thomé da 
Fonseca e é hoje dos Aguiares de Santa Ma- 
ria de Vermoim. 

O velho edifício, hoje restaurado, ainda se 
conserva no mesmo local, ao sul do dicto 
campo. 

Diz a Chorographia Portugueza que no 
mencionado edifício esteve uma columna de- 
dicada ao Imperador Elio Trajano. 

O dr. João de Barros também falia da 
mesma columna nas suas Antiguidades d' En- 
tre Douro e Minho, dizendo que tinha 20 pal- 
mos d'altura e que era um marco milliario 
da estrada romana de Braga ao Porto, que 
por ali passava e que foi concertada no 
tempo d'aquelle imperador. 

Segundo se lê em Argote (Liv. 2.° pag- 
598) a dieta columna linha a inscripção se- 
guinte : 

Imp. Caesari Traiano 
Hadriano Aug. Pont. 
Max. Trib. Pot. Cons III 
Imp V Abraça A]A. B. 
M. P. VIII ' 

Quer dizer : — Este padrão se levantou, 
sendo imperador Cesar Trajano Adriano Au- 
gusto, pontífice máximo, do poder tribuniáo, 
cônsul ires vezes, imperador cinco. 

D' aqui a Braga são oito mil passos. 

D'este marco ou padrão se vê que a dieta 
estrada se reedificou no tempo de Adriano; 
mas como a inscripção não diz quantas ve- 



1 Nasceu no dia o de maio de 1864 e fal- 
leceu no dia 30 de agosto de 1884, na fre- 
guezia de Vil laça, concelho de Braga. 



VIL 

zes já tinha sido tribuno, d'ella não pôde sa- 
ber-se em que anno se fizeram aquellas 
obras. 

Diz a inscripção que Adriano tinha sido 
já o vezes imperador, mas Pagi, na Critica 
a Baronio, citando a Grutero, meneiona ou- 
tra inscripção dedicada a Adriano no ul- 
timo anão do seu império e diz que só duas 
vezes foi acelamado imperador; pelo que ou 
a nossa inscripção está errada ou não foi 
bem copiada. 

A sobredicta columna ainda em 1734 exis- 
tia na adega das dietas casas, mas já toda 
picada e posta em esquadria tendo cada uma 
das faces cerca de 2 palmos de largura e as 
lettras já todas apagadas, exceptuando um 
pequeno espaço ainda redondo, em que se 
lia claramente Trayano. Ultimamente a pos- 
suidora actual das dietas casas, mandando 
fazer um muro, metteu nos alicerces o resto 
da pobre columna ! . . . 

Esta inscripção é a que sob o n.° 208 se 
encontra no Portugalliae Inscriptiones Bo- 
manae (pag. 87) do sr. dr. Levy Maria Jordão. 

O dr. Hubner 1 diz : «Havia em Villa No- 
va de Famalicão, alem de alguns marcos 
truncados, o oitavo e o duodécimo de Adria- 
no. Certamente os marcos d'esta estrada an- 
dam desencaminhados, por isso que em 
Santiago d'Antas se encontrou o decimo 
quarto de Caracalla.» 

Esta villa, pelo facto de ser atravessada 
por uma estrada militar importante e de 
estar a meia distancia entre o Porto e Bra- 
ga, soffreu sempre muito com os movimen- 
tos e aboletamentos de tropa em tempos de 
paz e mais ainda em tempos de guerra, no- 
meadamente n'este século por occasião da 
guerra peninsular e das guerras civis pos- 
teriores, mas em compensação a mesma es- 
trada lhe deu sempre muita vida, princi- 
palmente depois que se macadamisou e se 
tornou viável para diligencias e trens de to- 
da a ordem, que ali tiveram sempre descanço 
forçado. 



1 Noticias archeologícas de Portugal (tra' 
ducção da Academia) pag. 68. 



VIL 



VIL 825 



«Achando-nos no Porto, — diz o sr. Igna- 
cio de Vilhena Barbosa no seu bello artigo 
publicado no Archivo Pittoresco, em 1861, 
— referiu-nos uma pessoa que acabava de 
chegar de Villa Nova de Famalicão, que 
vira e contara, em um dia d'esse mez, nas 
ruas d' esta villa, trinta e cinco carruagens 
publicas e particulares paradas ás portas 
das hospedarias.» 

Não succede o mesmo depois que se inau- 
gurou a linha férrea do Minho e posterior- 
mente a do Porto á Povoa e Villa Nova de 
Famalicão, mas também já não é tão massa- 
crada pela trona— e das mencionadas linhas 
aufere muita vida também. 

Sustenta bons mercados semanaes todas 
as quartas feiras— nos dias 8 de maio e 29 
de setembro duas feiras d'anno, das mais 
importantes da província — e tres hospeda- 
rias na rua Formosa,— uma de Augusto Fo- 
lhadella, denominada Hotel Villanovense, 
muito limpa e espaçosa, a melhor da villa, 
—outra de Leonardo José Rodrigues— e a da 
Carolina. 

Ha também na mesma rua dois cafés e 
um no Campo da Feira. O melhor denomi- 
na-se Gato d'ouro;— outro tem o pomposo ti- 
tulo de Saldanha. 

N'estes cafés e em algumas casas parti- 
culares também ha sempre por occasião das 
grandes feiras jogo rijo de monte e roleta, 
em que se arruinam muitas famílias, fazen- 
do a auctoridade vista grossa !... 

Para se formar idéa da vida que esta villa 
aufere das duas mencionadas linhas férreas, 
note-se que o movimento da sua estação em 
1884 foi o seguinte: 

Bilhetes de 1." classe 1:324 1:078#815 rs. 
, de 2.» » 5:033 2:710» » 
. de 3.» » 22:847 7:3540800 » 

Total — bilhetes 29:204— réis— 11:144^565. 

Mercadorias expedidas e chega- 
das á mesma estação, kilos. . . 1:086:777 

Recovagfns, kilos 65:147 

Bagagens, kilos 40:000 

Mercadorias manipuladas na di- 
eta estação por trasbordo da li- 



nha da Povoa de Varzim para 

as do Minho e Douro, kilos... 1:735:203 

Recovagens, kilos 681:973 

Bagagens, kilos 10:950 

Mercadorias manipuladas na di- 
eta estação por trasbordo das 
linhas do Minho e Douro para 
a da Povoa de Varzim, kilos.. 1:613:505 

Recovagens, kilos 65:929 

Bagagens, kilos 14 :000 

Tem esta villa hoje os seguintes edifícios 
brasonados : 

i.o—X casa da sr." D. Bernardina Bran- 
dão, na rua Direita. 

Foi de uma familia nobre extincta e hou- 
ve-a por compra o abbade d'esta villa José 
Joaquim Ferreira Brandão, tio da sua actual 
possuidora, que é prima em 6.° grau de 
Ignacio Teixeira Brandão de Vasconcellos, 
da Villa d'Arouca,— sendo este cavalheiro, 
por parte da sua bisavó materna,— D. Cae- 
tana Mathilde Aranha Brandão de Mendonça 
—parente do venerando arcebispo de Bra- 
ga, D. Fr. Caetano Brandão, do qual exis- 
tem ainda hoje mais parentes n'esta villa. 

Em 5 de maio de 1852 hospedou-se nesta 
casa a rainha D. Maria II, quando visitou as 
províncias do norte . 

Adiante fallaremos d'esta e d'outras visi- 
tas da familia real. 

2.° — A casa do fallecido barão de Joanne, 
no Campo da Feira. É hoje do seu filho dr. 
Bernardino Machado, lente cathedratico de 
philosophia na Universidade de Coimbra, 
deputado ás cortes, etc. 

A casa da sr. a D. Sophia Ferreira de 
Macedo na povoação das Lameiras, termo 
d'esta villa. 

4.°— A casa do Vinhal, do sr. José d' Aze- 
vedo Menezes Cardoso Barreto. Tem o bra- 
são d'armas na frente da capella. 

São estes os edifícios brasonados, mas os 
mais notáveis são os seguintes : 



1 Frequentava eu então o 1.° anno theo- 
logico em Coimbra, onde S. M. se demorou 
dias e foi muito obsequiada. 

Bom tempo era esse ! . . . 



826 



VIL 



VIL 



1. °— O Hospital de S. João de Deus, no 
largo da Lapa. 

2. °— O tribunal e paços do concelho, no 
alto da rua Formosa. 

3. ° — O elegante, espaçoso e sumptuoso pa- 
lacete do barão da Trovisqueira, hoje abso- 
lutamente o 1.° edifício particular d'esta villa. 

Welle o seu proprietário deu hospedagem 
esplendida a el-rei o sr. D. Pedro V, em 29 
d'agosto de 1861,— e a el-rei o sr. D. Luize 
a sua esposa a sr. a D. Maria Pia, em 25 de 
novembro de 1863- 

Demora este esvelto palacete na rua For- 
mosa também. 

Nos arrabaldes avultam: 

4. °— A casa de Sinçães, de José da Silva e 
Castro. 

5. °— A casa do Vinhal, de José de Aze- 
vedo Menezes Cardoso Barreto. 

6. °— A casa de Louredo, de Francisco de 
Oliveira, contigua á estação da linha férrea. 

O Hospital de S. João de Deus, verdadeiro 
monumento de caridade e piedade, que 
muito honra e ennobrece Villa Nova de Fa- 
malicão, é um edifício elegante e espaçoso, 
muito vantajosamente situado no vistoso e 
pittoresco Largo da Lapa, defrontando com a 
estação da linha férrea, da qual dista cerca de 
1 :500 metros, e \endo-se d'ella perfeitamente. 

Foi fundado pela piedosa Associação das 
Filhas de Maria em 1869, por conselho e 
direcção dos ex. mos e rev.™ 08 srs. D. João Re- 
bello Cardoso de Menezes, hoje vigário ge- 
ral do patriarchado e arcebispo de Mytilene, 
— e padre Carlos João Rademaker, ao tempo 
em missão n'esta villa ambos. 

O commendador Antonio da Costa Faria, 
que Deus haja, cedeu gratuitamente a sua 
casa n.° 18, na rua Direita, onde provisoria- 
mente installaram o novo hospital as piedo- 
sas Filhas de Maria e n'elle superintende- 
ram até 22 de dezembro de 1870, data em 
que o entregaram a uma commissão admi- 
nistrativa, creada para dirigir e promover 
a construcção do novo edifício. 

Entre aquellas piedosas senhoras merece 
especial menção D. Balbina do Patrocínio 
Corrêa da Costa. 

Annos depois instituiu-se a Irmandade 



da Misericórdia, cujo compromisso foi ap- 
provado em 2 de março de 1874 pelo conde 
de Margarida, ao tempo governador civil de 
Braga. 

A 15 do dicto mez teve logar a l. a assem- 
bléa geral dos irmãos da nova Misericórdia, 
na qual se elegeu a sua 1.» mesa, saindo 
provedor Francisco Ignacio Tinoco de Sou- 
sa, benemérito filho d'esta villa e grande 
bemfeitor da nascente instituição, — vice- 
provedor o rev. abbade d'esta villa, Domin- 
gos de Paula Pereira de Mesquita,-secre- 
tario Antonio Luiz Machado Guimarães — 
thezoureiro José Constantino Pereira d'Aze- 
vedo,— vogaes : Antonio José Corrêa de Sou- 
sa, Manuel da Costa Freitas, Albino Joaquim 
Ferreira Tinoco, José Augusto de Carvalho 
e Sá e José Bernardino da Costa e Sá. 

No dia 13 de julho do mesmo anno abri- 
ram os fundamentos para a construcção do 
novo hospital, junto á capella de Nossa Se- 
nhora da Lapa— e no dia 25 de outubro do 
mesmo anno lhe lançaram a pedra funda- 
mental com grande pompa, assistindo o go- 
vernador civil do districto, as auctoridades 
da villa, muitas pessoas gradas e grande 
multidão de curiosos. 

Proseguiram as obras sem interrupção e 
no dia 27 d'outubro de 1878 se inaugurou 
solemnemente a abertura do novo hospital, 
mudando-se para elle os doentes que esta- 
vam na dieta casa n.° 17 da rua Direita. 

Alem das auctoridades e pessoas princi- 
paes d'esta villa, honraram com a sua pre- 
sença a grande festa os srs. conselheiro José 
Dias Ferreira, Pinheiro Chagas, visconde de 
Moreira de Rei e o dr. José Maria d'Almeida 
Teixeira de Queiroz, deputado por este cir- 
culo. 

No dia 2 d'outubro de 1881 teve logar ou- 
tra grande festa, — a da inauguração dos re- 
tratos dos dois cidadãos que mais se distin- 
guiram entre os fundadores do novo hospi- 
tal, — Francisco Ignacio Tinoco de Sousa, 1.° 
provedor e o seu mais generoso bemfeitor *, 



1 Havia este santo varão já fallecido em 
21 de dezembro de 1880 e ; — não satisfeito 



VIL 



VIL 



827 



— e José Constantino Pereira d'Azevedo, i.° 
thesoureiro da irmandade. 

Celebrou de pontifical,— o primeiro de que 
ha memoria ríesta villa, — o actual senhor 
arcebispo de Mytilene, com assistência de 
numeroso clero, auetoridades da villa, gran- 
de concurso de fieis e muitas pessoas de 
distineção. Terminada a ceremonia religiosa 
seguiu-se a inauguração dos referidos retra- 
tos, em sessão solemne., descerrando a cor- 
tina s. ex. a rev. ma o sr. D. João Rebello Car- 
doso de Menezes, arcebispo de Mytilene, a 
convite do provedor José d'Azevedo Mene- 
zes Cardoso Barreto, digníssimo represen- 
tante da nobre casa do Vinhal, que n'esse 
dia offereceu ura lauto banquete a numero- 
sos convidados e ás pessoas que tomaram 
parte em tão brilhante funcção. 

O movimento clinico d'este hospital no 
ultimo anno económico de 1884 foi de 120 
doentes. 

Sahiram curados 86 

» melhorados 13 

» no mesmo estado 10 

Falleceram 5 

Ficaram em tratamento 6 

O serviço das enfermarias, desde 31 de 
outubro de 1880, é desempenhado por Ir- 
mãs Hospitaleiras— com o maior zelo e ca- 
ridade. 

São 3 aquellas santas senhoras, que re- 
partem entre si o serviço interno do hospi- 
tal, sendo uma cosinheira, outra enfermeira 
e outra superiora, recebendo cada uma ape- 
nas 240 réis diários para se alimentarem e 
vestirem. 

Ha também no Hospital um enfermeiro. 

A limpesa, o aceio, as alfaias e os para- 
mentos que se notam na linda capella da 
Lapa, contigua ao hospital, tudo se deve á 
piedosa iniciativa das boas Irmãs Hospita- 
leiras, bem como importantes donativos em 



com os relevantes serviços prestados á Santa 
Casa,— no seu testamento lhe legou a im- 
portante somma de dose contos de réis I . . . 
Deus o tenha em bom logar. 



favor da capella e do hospital, constantes dos 
diversos relatórios. 

A parte do novo Hospital de S. João de 
Deus, ou da Misericórdia, já construída, cus- 
tou 13:349^860 réis. 1 

Pelo relatório de 1880 a 1881 se vé que 
no decurso de dez annos a excelsa virtude 
da caridade deu esmolas á Santa Casa no 
valor de réis 22:080^295! 

Os fundos da referida Santa Casa, no fim 
do ultimo anno económico de 1884, eram 
30:500^000 réis (valor nominal). 

Dinheiro mutuado 2:081^910 (metálicos). 

Com destino ás obras 2:000$000 em de- 
posito a 4 p. c. 

Ha n'este concelho grandes romarias. As 
principaes são : 

1. a — Senhor dos Afflictos, a 25 de julho, na 
freguezia de S. Thiago da Cruz, cerca de 2 
kilometros ao norte d'esta villa. 

Conta-se que o terreno, em que se erigiu 
o santuário, foi doado por um nobre senhor 
da casa de Pindella, (V. vol. 7.° pag. 2o) em 
cumprimento d'um voto, para qm Deus o 
livrasse dos malhados ou constitucionaes. 

2. a — Senhora das Candeias, a 2 de feve- 
reiro, na freguezia de Landim, cerca de 5 
kilometros ao nascente d'esta villa, com feira 
no largo fronteiro ao extincto convento dos 
eruzios, hoje propriedade de Antonio Vi- 
cente de Carvalho. 

É um dos sitios mais povoados e mais pit- 
torescos d'este concelho. 

3. " — Senhora do Carmo, no domingo im- 
mediato ao dia 16 de julho, na sua capella 
sita no monte d' Agua Levada, freguezia de 
Lemenhe. 

4. a — Coração de Maria, na parochia de 
Santa Maria de Lousado. 

Esta festividade e romagem foram crea- 
das recentemente e teem sido feitas á custa 
do visconde de S. Bento, brazileiro millio- 
nario, de Santo Thyrso, que despende por 
anno contos de réis, com as festas e roma- 



1 A parte restante demanda igual somma 
talvez, porque o risco é amplo e magestoso ! 



828 VIL 



VIL 



gens do seu coneelho e dos concelhos cir- 
cumvisinhos. 

Ha annos assistimos nós á da Senhora das 
Dores, na Trofa, em que elle foi juiz. Deu 
oito bandas de musica, sendo duas marciaes 
(uma do 9 de caçadores, do Porto, outra do 
8 de infanteria, de Braga) e 300$000 réis só 
para o fogo preso e solto, — além d'espaven- 
tosa armação da capella e da egreja e de 
grande numero d'andores, os maiores que 
os meus olhos teem visto 1 

Ha muitos annos que ninguém n'esta pro- 
víncia e em todo o nosso paiz despende 
tanto dinheiro com festas e romarias como 
o visconde de S. Bento! 

ô\ a — Santo do Monte, na freguesia do Lou- 
ro, cerca de 3 kilometros ao poente d'esta 
villa. 

A esta romagem concorrem sempre mui- 
tos valentões e desordeiros que, depois de 
embriagados, costumam distribuir grossa 
pancadaria ! 

Em outros tempos as grandes desordens 
eram parte integrante e a mais interessante 
dos grandes arraiaes. Por vezes até os pró- 
prios administradores dos concelhos se in 
cumbiam d'aquelle pelouro e se immortali- 
saram a dar bordoada! Referimo-nos ao ce- 
lebre fidalgo Chrystovam de Campos, de 
quem se fallou no vol. 9.° pag. 162, col. 2. a 

Veja-se também o vol. 5.° pag. 112, col. 
l. a — e vol. 2.° pag. 218. 

Felizmente as taes brincadeiras, vão ca- 
hindo em desuso. 

Em 5 de maio de 18S2 visitou esta villa 
S. M. a sr." D. Maria II, acompanhada por 
el-rei o sr. D. Fernando, pelo príncipe D. 
Pedro (o santo e sempre chorado rei D. Pe- 
dro V) e pelo infante e hoje rei, o sr. D. Luiz. 

Hospedaram-se na casa da rua Direita, de 
que já fizemos menção. 

Em 29 d'agosto de 1861 visitou também 
esta villa o mallogrado rei D. Pedro V, acom- 
panhado pelo infante D. João,— e em 25 de 
novembro de 1863 coube também a e3ta for- 
mosa villa a honra de ser visitada por el- 
rei o sr. D. Luiz e por S. M. a rainha, a sr. 
D. Maria. Pia. 



Tanto em 1861 como em 1863 a família 
real foi recebida e esplendidamente hospeda- 
da pelo sr. José Francisco da Cruz Trovis- 
queira, no seu lindo palacete da rua Formo- 
sa, dispendendo largas sommas para que a 
hospedagem fosse digna dos régios hospedes. 

Por este motivo foi s. ex.» nomeado barão 
de Trovisqueira. 

Noticias diversas recebidas á ultima hora: 

No auto da collação do actual abbade 
d'esta villa, Domingos de Paula Pereira de 
Mesquita, se menciona a parochia de Santo 
Adrião e a sua annexa de Santa Alaria Ma- 
gdalena. Consta que em tempo estes 2 ora- 
gos representavam 2 parochias distinctas e 
que houve rija pendência entre os dois pa- 
rochos por causa da annexação. Ainda hoje 
ambas as matrizes teem pia baptismal e em 
ambas o abbade ministra baptismos, assiste 
a casamentos e exerce indistinetamente ou- 
tros actos parochiaes. 

O meu illuslrado informador já foi duas 
vezes á camará ecelesiastica de Braga para 
ver se deslindava a questão, mas nada en- 
controu de positivo e terminante. 

A irmandade da Misericórdia funcciona" 
por empréstimo na capelia da Lapa, que per- 
tence á junta de parochia e que antes da 
fundação da Misericórdia e do seu hospital 
jazia em completo abandono. Até serviu de 
espigueiro; mas hoje é a mais formosa Ca- 
pella da villa— e a Misericórdia já tem dois 
contos de réis em deposito, doados pelo in- 
signe bemfeitor Francisco Ignacio Tinoco de 
Sousa, para restauração e ampliação da di- 
eta capella e construcção de uma torre. 

Algumas casas do Campo da Feira, d'esta 
villa, pertencem á freguezia de S. Thiago 
d'Antas, cuja egreja parochial dista d'esta 
villa apenas 1 kilometro. 

O movimento parochial d'esta villa no 
anno ultimo (1884) foi o seguinte :— bapti- 
sados 67,— casamentos 10, — óbitos 46. 

As feiras semanaes d'esta villa são, depois 
das de Barcellos, as feiras semanaes mais 
importantes do Minho. Abundam principal- 
mente em cereaes e gado bovino gordo, para 
embarque. 



VIL 



VIL 829 



A estação d'esta villa no caminho de ferro 
do Minho foi aberta no dia 20 de maio de 
1875, havendo festa offieial, a que assistiram 
as Magestades. V. Hist. Universal de Cesar 
Cantu, traducção de M. B. Branco, vol. 13, 
pag. 299. 

A nova estrada real a macadam do Porto 
a Braga foi principiada (approximadamente) 
em 1846 e concluída em 1850 pela Compa- 
nhia Viação Portuense, d'accordo com o go- 
verno. 

Hoje este concelho é servido pelas seguin- 



tes estradas a macadam: 

Real n.° 3 (supra) de Famalicão 

ao Porto, extensão 32k'i.500 m ,0 

Realn.°3. De Famalicão a Braga 18kii,905"',3 

Real n.° 4. De Famalicão a Vian- 

na Sikii.000-,0 

Real n.° 31. De Famalicão ás 
Portas Fronhas. (Povoa de 

Varzim) 22kii,428 m ,4 

Real n.° 31. De Famalicão a Gui- 
marães 22kii.l40 m J 0 

Estrada concelhia, n.° 9, de Fa- 
malicão a Villarinho ....... 6 ki i>461 m ,9 

Avenidas — Da estação de Fama- 
licão ao Vinhal 943 m ,0 

Avenidas— Da estacão de Nine 

a Isabelinha lkii,284 ra ,0 



Esta comarca de Villa Nova de Famalicão 
foi creada por lei de 21 de maio de 1835, 
sendo as suas íreguezias desannexadas do 
concelho de Barcellos. A l. a sessão da ca- 
mará teve logar no dia 28 de setembro d'a- 
quelle mesmo anno. 

A sua estação lelegraphica foi creada em 
20 de janeiro de 1862. 

O banco hypothecario tinha mutuados 
n'este concelho 2:768 contos de réis, em 
1884. 

Os tres maiores proprietários d'esta villa 
na actualidade são os seguintes :— barão da 
Trovisqueira, José de Castro e José d'Aze. 
vedo Menezes Cardozo Barreto. 

Os tres maiores proprietários d'este con- 
celho na actualidade são estes:— João Car- 
neiro d' Araujo Telles, José Augusto de Car- 
valho e Sá e Francisco Ignacio d'Aguiar Pi- 
menta Carneiro. 

VOLUME X 



Ao ex. m0 sr. José d'Azevedo Meneses Car- 
doso Barreto, da nobre casa do Vinhal, agra- 
deço os apontamentos que se dignou en- 
viar-me. 

VILLA NOVA DE FOSCOA-villa, fregue- 

zia e séde de concelho e comarca, districto 
da Guarda, diocese de Lamego, província da 
Beira Baixa. 

Abbadia. Orago Nossa Senhora do Pranto, 
—fogos 806 —habitantes 3:210. * 

Em 1708 contava 60 fogos dentro dos mu- 
ros do seu castello e 500 nos arrabaldes, — 
era abbadia do padroado real,— tinha casa 
de misericórdia, hospital e 9 ermidas,— fei- 
ras a 8 de maio e 29 de setembro,— 1 ouvi- 
dor, 2 juizes ordinários, 1 dos órfãos com 
seu escrivão, 2 vereadores, 1 procurador do 
concelho, 1 escrivão da camará, 2 tabelliães, 
2 cfhnotacés, 1 capitão-mór, 1 sargento-mór 
com 2 companhias de ordenanças e 1 com- 
panhia de auxiliares que obedecia á praça 
d'Almeida. 

Era dos condes de Villa Nova de Porti- 
mão, dos quaes adiante fallaremos. 

Em 1768 era também abbadia do padroa- 
do real;— contava 581 fogos—e rendia para 
o seu parocho 300$000 réis. 

A Historia Ecclesiastica da cidade e bis- 
pado de Lamego, eseripta 1103 fins do ul- 
timo século por D. Joaquim dAzevedo, cóne- 
go regrante de Santo Agostinho e abbade re- 
servatório de Sedavim, 2 publicada em 1877, 
dedicou um bello artigo a Villa Nova de 
Foscôâ e lhe deu 862 fogos com 3:268 ha- 
bitantes e 600$000 réis de rendimento. 

Esta villa demora na altitude de 439 me- 
tros sobre o nivel do mar, em um amplo, 
vistoso e alegre planalto, na margem esquer- 
da do rio Côa, do qual dista 3 kilometros 
para 0.— 5 da foz do Côa (da qual tomou o 
nome) e da margem esquerda do Douro, 
para S. O.— 9 da barca e da estação do Po- 
cinho, pela estrada nova, para S. E.— 22 de 



1 O seu movimento paroehial no ultimo 
anno foi o seguinte : baptisados 145, — casa- 
mentos 17, — óbitos 169?!... 

2 V. Villa Nova d' Ourem. 

53 



830 



VIL 



VIL 



Moncorvo, pela barca do Pocinho, para S. 
O.,— 24 da Bárea d'Alva, para E. 0,-70 da 
Guarda— 81 de Lamego, pela linha férrea 
do Douro— 173 do Porto— e 510 de Lis- 
boa. 

Esta parochia é formada pela villa do seu 
nome, povoação compacta e única. Não com- 
prehende aldeias, mas somente 75 fogos 
na Veiga, junto da barca e da estação do 
Pocinho, onde tem duas tavernas e vários 
casaes e quintas, entre as quaes avulta a do 
Reguengo, hoje a l. a d'esta parochia ed'este 
concelho, pela sua extrema fertilidade e 
grande producção de vinho. Adiante lhe da- 
remos o logar d'honra que merece. 

No formoso e mimoso local da Veiga, (em- 
bora bastante doentio) deve desenvolver-se 
um povoado importante logo que se ultime 
a linha férrea do Douro e se abra a estação 
do Pocinho, commum á grande villa de Mon- 
corvo e a Villa Nova de Foscôa. 

Esta villa tem estação própria e mais pró- 
xima na foz do Côa, mas deve convergir na- 
turalmente sobre a do Pocinho por estar a 
N. O. 10 kilometros a jusante da de Foscôa 
e por consequência 10 kilometros mais pró- 
xima do Porto, centro dos maiores interes- 
ses d'esta villa,— por ter para ella já cons- 
truída uma bella estrada a macadam— e por 
haver ali uma barca de passagem sobre o 
Douro, que a liga a Moncorvo e á provincia 
de Traz-os-Montes. 

Deve procurar a estação da Foz do Côa 
unicamente quando tenha interesses a leste 
sobre a Barca d'Alva, Freganeda e Sala- 
manca. 

N'este concelho de Villa Nova de Foscôa 
ha hoje as estradas seguintes a macadam : 

1.°— Real, de Celorico da Beira a Mon- 
corvo e Mirandella, tocando em Villa Nova 
de Foscôa, lado 0. e na estação do Pocinho, 
atravessando o Douro na barca d'aquelle 
nome. 

Já se acha toda construída, exceptuando 
alguns kilometros entre Foscôa e Langroiva 
e entre Moncorvo e barca do Pocinho. 

De Moncorvo deve seguir também para a 
cidade de Miranda, mas n'esta parte com- 



plementar tem apenas alguns kilometros 
construídos junto de Miranda. 

É uma. estrada de grande alcance estra- 
tégico e de muito interesse para as provín- 
cias da Beira e Traz-os-Montes — e deve dar 
extraordinário movimento á estação do Po- 
cinho. 

2. " — Também real de Villa Nova de Fos- 
côa para a Pesqueira, medindo cerca de 16 
kilometros. 

Está em via de construcção e é a conti- 
nuação da estrada real n.° 34, do Porto á 
Barca d'Alva. 

3. a —Districlal, entre a freguezia d'Almen- 
dra e a de Castello melhor, na extensão de 
5 kilometros, em via de construcção. 

4. a — Municipal, entre a freguezia de Frei- 
xo de Numão e a da Touça, na extensão de 
4 kilometros, em via de construcção tam" 
bem. 

5. * — Municipal também, entre a freguezia 
de Sedavim e a da Horta, na extensão de 5 
a. 6 kilometros. Em estudos. 

Passa também n'esta freguezia pela sua 
extremidade N.— N. E.— N. O.— e O.— a li- 
nha férrea do Douro, comprehendendo na 
area desta parochia cerca de 15 kilometros 
de via corrente com as seguintes obras 
d'arte : 

1. a — Tunncl do Salgueiral, na pendente O. 
do Monte Meão, baldio d'esta parochia. Ex- 
tensão 60 metros. 

2. a — Tunnel do Monte Meão,— atravessa de 
O. a E. o monte d'este nome e tem de ex- 
tensão 730 metros. 

3. *— Tunnel da Veiga, no sitio d'este no- 
me. Tem de extensão 90 metros. 

4. a — Viaducto do Pocinho, — com 3 tranos^ 
—2 de 28 melros e 1 de 35,— total 81 me- 
tros d'extensão. 

Sobrestructura metálica da fabrica de 
Eclessin (Bélgica). 

5. a — Estação do Pocinho— de 2.* classe, 
com a extensão total de 104 K, ,20,— 1 kilo- 
metro a montante do viaducto do Pocicho. 

6. " — Viaducto de Caniviães,—3 arcos eom 
o raio de 7 m ,5— e a extensão total de 64 a ,20. 

7. "— Estação de Foscôa, de 4. a classe, na 
margem esquerda do Côa. 



VIL 



VIL 831 



E' destinada para entroncamento da liga- 
ção do caminho de ferro do Douro com o da 
Beira Alta, em projecto. 

8.» — Viaãucto do Côa, sobre o rio d'este 
nome, nos limites d'esta freguezia e da de 
Castello Melhor. 

Tem este viaducto 2 vãos de 28 metros e 
1 de 35,— extensão total 104 ra ,2 —e sobre- 
structura metálica da fabrica Br aine-le- Con- 
te, da Bélgica também. 

V. n'este volume o artigo Vias Férreas, de 
pag. 467 a 502— e particularmente as pagi- 
nas 475 e 476, onde descrevemos todas as 
obras d'arte da linha férrea do Douro na 
parte que se acha em construcção desde Tua 
até Fuente de Santo Estevão, entroncamento 
na linha da Beira Alta, da Figueira a Sala- 
manca, terminus da linha do Douro. 

Freguezias limitrophes:— Muxagata ao sul 
—Santo Amaro a N. O.— a leste o rio Côa 
— e o Douro a N— N. E— e N. O. . 

Esta freguezia tem uma area muito ex- 
tensa, x 

De leste a oeste, seguindo da Foz do^Côa 
pela margem esquerda do Douro, deve me- 
dir cerca de 20 kilometros d'extensão, por 
causa das grandes sinuosidades que o Douro 
aqui descreve ;— e de norte a sul deve ter 
metade d'aquella extensão, approximada- 
mente. 

Está comprehendido no seu termo, a N. 
O. o monte Meão, quasi todo baldio, logra- 
douro commum d'esta parochia e um dos 
seus grandes mananciaes de riqueza, pois 
n'elle apascenta muitos gados e colhe muito 
pão e lenha. 

Note-se que nas freguezias de ambas as 
margens do Côa hoje ha grande falta de com- 
bustível. 

Poucos são 03 proprietários que teem le- 
nha sufficiente para todo o anno ;— o povo 
vae buscal-a {roubal-a) a grandes distancias; 
—queima inclusivamente os excrementos dos 
bois,—e cosinha e aquece os fornos com pa- 
lha ti... 

Para augmentarem a cultura dos cereaes 
de pragana, destruíram os mattos e lavra- 
ram os montes todos. O resultado é — não 
terem lenha para queimar,— nem madeira 



para construcções, — nem matto para estru- 
me. 

Volvendo ao monte Meão, diremos que é 
granítico e bastante espaçoso. Mede talvez 
mais de 5 kilometros quadrados e tem pe- 
nhascos horrorosos, fojos e despenhadeiros 
medonhos que os próprios caçadores da lo- 
calidade não podem transpor sem guia, mas 
comprehende também muito terreno chão, 
arável e fértil. 

É cercado pelo Douro a N. — E. e O— Ali 
houve uma importante povoação fortificada 
no tempo dos romanos. 

Ali se veem ainda hoje ruinas de largos 
muros, edifícios e fontes, principalmente on- 
de chamam o Castello Velho,— sitio muito 
defensável para os tempos d'armas brancas; 
— e ali se tem encontrado muita pedra de 
esquadria, muitas moedas romanas e varias 
inscripções. 

Não se sabe ao certo quando se fundou 
nem quando se extinguiu tal povoação, mas 
lodos concordam que foi o gérmen e o nú- 
cleo d'esta Villa Nova de Foscôa. 

Suppõe-se com todo o fundamento que, 
destruído o povoado do Monte Meão, os ha- 
bitantes que sobreviveram se dispersaram 
pelos recantos vizinhos, formando difleren- 
tes povoações mais pequenas na Veiga, no 
Paço, no Azinhate, etc. 

Na Veiga, ainda lá se vê a capella anti- 
quíssima de Nossa Senhora da Veiga, que 
alguém diz fôra parochial, pois ainda nos 
fins do ultimo século pagava a censuariaâo 
cabido de Lamego, como as outras egrejas 
matrizes;— e a pequena distancia d"ella se 
teem encontrado em escavações ruinas de 
edifícios e sepulturas antiquíssimas soterra- 
das. 

Em uma d'ellas, segundo se lê na Histo* 
ria Ecclesiastica de Lamego, se encontrou 
um esqueleto mui grande, inteiro, e uma es- 
tatua de jaspe branco, que parecia de mu- 
lher. 

Aecrescenta a mesma Historia— que «por 
ser o logar doentio e acometido por tropa 
de faccinorosos.» fugiram os seus moradores 
para o planalto onde se fundou o castello e 
a villa nova actual. 



832 VIL 



VIL 



Também ha memoria de casas no sitio do 
Paço ou do Relento, cerca de 1:200 metros a 
leste da villa, onde ainda hoje se veem os res- 
tos da ermida ou egreja de S. Vicente, que foi 
outr'ora parochial também,,— e no sitio do 
Azinhate, junto da capella de Nossa Senhora 
do Amparo, — bem como junto da antiquís- 
sima capella de Nossa Senhora da Concei- 
ção, que foi do chantre de Lamego e tam- 
bém matriz, em cujo adro se encontram 
sepul.uras. Suppõe-se que todas estas e ou- 
tras aldeias que existiram no termo d'esta 
parochia se despovoaram por serem abertas 
e estirem expostas a serem roubadas pelos 
salteadores e saqueadas em tempos de guer- 
ra; *— que os seus habitantes foram procurar 
abrigo no castello— e que, attrahidos pelas 
vantagens que lhes offereeiam o castello e os 
seus ires amplos foraes, bem eomo pela bel- 
lesa co local, em breve se desenvolveu ali 
uma povoação importante, que por isso mes- 
mo se denominou Villa Nova. 

Também dizem que, antes da fundação do 
castelo, as aldeias que n'elle se concentra- 
ram ooedeciam ã cidade de Numancia, hoje 
Numão, simples parochia d'este concelho, 
que, cu fosse ou deixasse de ser a Numan- 
cia dos romanos, foi com toda a certeza po- 
voação antiquíssima muito importante e 
muito bem fortificada, distante cerca de 20 
kilometros de Villa Nova de Foscôa, para 
oeste. 

V. Numão, vol. 6.° pag. 178— e a Hist. 
Eccl. de Lamego, pag. 175. 

É portanto muito antigo o povoado de 
Villa Nova de Foscôa, pois antes de se fixar 
no ponto onde hoje se vê, esteve no Monte 
Meão e depois andou disperso por differen- 
tes sitios do termo da villa actual. 

Que nós saibamos teve esta villa os 3 fo- 
raes seguintes : 



1 Note-se que até os princípios do século 
xiv o reino de Leão confinava com o rio 
Côa. Foi el-rei D. Diniz que tomou aos leo- j 
nezes tudo o que hoje è de Portugal desde 
o Côa até o Agueda, pela margem esquerda | 
do Douro. V. vol. 7.° pag. 66. 



1. °— Dado por D. Diniz em Portalegre, a 
21 de maio de 1299. 

Liv. IV de Doações do Sr. Rei D. Diniz, 
fl. 13, v. col. 2. a in-fine. 

2. °— Dado pelo mesmo rei em Lisboa, no 
dia 24 de julho de 1314. 

Maço 8 de Foraes antigos, n.° 18. 

3. °— Dado por D. Manuel em Lisboa, no 
dia 16 de junho de 1514. 

Liv. de Foraes Novos da Beira fl. 126, 
col. 1." 

D. Diniz fundou e povoou Foscôa, dando- 
lhe 2 foraes; — depois D. João J a elevou á 
categoria de villa— e por ultimo D. Manuel 
mandou edificar a egreja parochial. 

É por isso que na frente da egreja e no 
pelourinho se veem flores de liz, emblema 
de D. João I— e a esphera armillar, emblema 
d'el-rei D. Manuel. 

O castello não foi mandado fazer por D. 
Diniz. Foi feito muito mais tarde, talvez nos 
fins do século xv, pelos habitantes da nova 
villa, á sua própria custa. 

Quando rebentou a lucta entre o nosso 
rei D. Alfonso V e os reis de Castella,— lu- 
cta que durou desde 1473 até 1479— ainda 
o castello não havia sido feito, pelo que D. 
Affonso V, para determinar os habitantes de 
Villa Nova a construil-o, lhes offereceu o 
privilegio de não pagarem direitos d'alcai- 
daria, como não pagava o castello de Freixo 
de Espada á Cinta; mas nem assim então se 
resolveram. 

Parece-nos ser isto o que se deprehende 
da Monarchia Luzitana, parte V, cap. 3.°fl 
181, col. 2.» 

O terreno em volta da villa é plano e de 
agradável aspecto, mas muito árido e muito 
falto d'arvoredo. 

Apenas de longe em longe se veem algu- 
mas oliveiras e amendoeiras e junto da po- 
voação algumas hortas. São aqui também 
raros os vinhedos. 

O chão é fértil e produz bastante trigo, 
centeio e cevada, mas, como não o estrumam, 
necessita de folga e é semeado á folha, — 
exceptuando o terreno próximo da villa que, 
por ser mais chão e receber alguns adubos, 
é semeado todos os annos. 



VIL 



VIL 833 



Tem a villa 2 feiras antiquíssimas, já in- 
dicadas na Chorographia Portugueza,—\xma. 
no dia 8 de maio,— outra no dia 29 de se- 
tembro, — denominadas feiras de S. Miguel, 
e se fazem no campo do mesmo nome, ou da 
lagoa. 

Também já teve mercado diário impor- 
tante de quanto produziam as terras da co- 
marca (então era Trancoso e antecedente- 
mente foi Pinhel) sendo contínuos os carre- 
tões de pão, vinho, castanhas, melões, cere- 
jas, uvas e outras fructas no tempo, — diz a 
Hist. Eccl. de Lamego. 

Fazia-se o dicto mercado na Praça, mas 
suspendeu-se ha muito. 

Não sabemos quando nem porque; foi po- 
rem restabelecido depois que principiou no 
termo d'esta parochia a construeção da li- 
nha férrea do Douro. É outra vez diário— e 
de 15 em 15 dias mais importante. 

As obras da linha férrea teem dado muito 
dinheiro e muito movimento a esta villa. 
N'ella se abastecem de differentes géneros 
milhares d'operarios; n'ella rezidem alguns 
engenheiros, empreiteiros e vários emprega- 
dos—e n'ella montou um francez outro ho- 
tel, além do que a villa já tinha. 

Também os empreiteiros aqui montaram 
um hospital provisório, pois infelizmente a 
santa casa da Misericórdia d'esta villa se ex- 
tinguiu, ha muito, bem como o seu hospi- 
tal, que esteve na rua do mesmo nome, en- 
tre o Campo do Tabolado e a egreja ma- 
triz. 

O fertilissimo chão da Veiga foi quasi to- 
do reguengo, propriedade particular dos nos- 
sos reis;— depois passou para o município, 
que costumava arrendal-o por 300 a 400 mil 
réis annualmente ;— por ultimo foi vendido 
em hasta publica e comprado por D. Antó- 
nia Rachel Ferreira, viuva do capitão-mór 
d'esta villa i . É hoje d'esta senhora e do seu 
filho Único Augusto Lopes Pereira da Silva, 
residente no Porto, hoje o primeiro proprie- 
tário d'esta villa, pois não só é dono da 



1 Foi o ultimo e chamava-se Francisco 
Antonio Lopes Cardoso. 



quinta do Reguengo, hoje a i> d'este conce- 
lho, mas d'outras muitas. 

Tem a quinta do Reguengo hoje uma boa 
casa d/habitação, grande armazém e lagares 
soberbos, d'onde vae o vinho encanado para 
os toneis, tudo nas melhores condições, sen- 
do a planta para todas estas obras feita pelo 
engenheiro Joaquim Maria Fragoso, de Coim- 
bra, casado em Villa Nova de Foscôa. 

Esta quinta do Reguengo, em quanto foi 
do município, apenas produzia cereaes, mas 
o seu actual possuidor a plantou toda de vi- 
nha e produz cada milheiro de vides baixas 
3 a 4 pipas de vinho, como na ribeira da 
Villariça, que é o chão mais fértil de Portu- 
gal. 

V. Villariça. 

Comprehende a formosa quinta do Re- 
guengo pouco mais de 30 milheiros de vides 
baixas, e produziu no ultimo anno 155 pipas 
de vinho ! . . . 

Foi comprada por seis contos de réis em 
1876;— metade do Reguengo pertencia ao 
município e a outra metade ao passal do 
parocho d'esta freguezia. 

A camará de Villa Nova de Foscôa ainda 
possue na fértil várzea da Veiga alguns chãos 
na margem do Douro e que o rio eobre e 
aduba nas cheias. Costuma arrendal-os e 
produzem admiravelmente milho, trigo, fei- 
jões, abóboras, melões e melancias. 

Colhe também esta parochia muitos me- 
lões e melancias em outros pontos do seu 
termo, nas hortas dos arrabaldes da villa » 
nas da Flor da Rosa, sendo todos os seus 
meloaes de seccadal—e os melões e melan- 
cias da Flor da Rosa saborosíssimos, — tal- 
vez os melhores de Portugal ;— mas os que 
abundam nas feiras e nos mercados da villa 
vão da grande ribeira da Villariça, da fre- 
guezia da Muxagata e da quinta da Veiga 
termo de Langroiva, excellente propriedade 
do conde de Tavarede. 

Ha n'esta villa 5 industrias principaes: — 
a dos carretões e vendilhões de diversos gé- 
neros, — as do fabrico de cordas, calçado e 
carros para bois— e a da preparação do su- 
magre. 



834 VIL 



VIL 



As cordoarias (Testa villa foram muito im- 
portantes no tempo do marquez de Pombal, 
pois este ministro, para libertar o nosso paiz 
das grandes sommas que pagava aos paizes 
estrangeiros, nomeadamente á Rússia, pelas 
cordas para a nossa marinha de guerra e 
mercante, vendo que o fértil torrão da Vil- 
lariça, distante d'esta villa apenas 12 kilo- 
metros, produzia bello cânhamo, creou no 
Porto, em Moncorvo e aqui grandes cordoa- 
rias. 

Veja-se n'este volume o artigo Victoria, 
freguezia do Porto, nomeadamente a pagina 
594. 

Gosam de justa fama os carros que aqui 
se construem. Denominam-se carros de va- 
ras e são feitos de negrilho {ulmus campes- 
tris). 

Para evitarmos repetições veja-se o mesmo 
artigo Victoria, pag. 595, col. 2. a 

Houve aqui outr'ora importantes cor- 
tumes de couros. Fizeram-se fortunas com 
aquella industria, mas desappareceu, ha 
muito. É porém ainda importante aqui uma 
industria congénere,— a dos fabricantes de 
calçado e de couros para arreios de caval- 
gaduras e apeiro dos bois. Da preparação 
do sumagre faltaremos adiante. 

Esta villa em 1708, como já dissemos, per- 
tencia á comarca de Pinhel;— passou depois 
para a de Trancoso; — em seguida para a da 
Mêda;— extincta esta, 1 passou para a da 
Pesqueira;— desde 1854 (me parece) foi ele- 
vada á cathegoria de séde de comarca pro- 



1 A comarca de Mêda foi restaurada em 
1872 (me parece) á custa d'esta de Foscôa, 
da qual recebeu as 8 freguezias seguintes : 
— Barreira, Carvalhal, Coriscada, Gateira, 
Marialva, Pae Penella, Rabaçal e Valle de 
Ladrões. 

Quasi todas lamentam ainda hoje a des- 
membração, porque o município da Mêda é 
pobríssimo— em quanto que este de Foscôa 
é um dos mais ricos da Beira, pelo que as 
contribuições municipaes são muito mais 
violentas na Mêda. 

Deus perdoe ao fallecido Antonio Homem 
da Silveira Sampaio e Mello, do Rabaçal, que 
foi quem promoveu a creação da comarca 
da Mêda, para ter a séde mais próxima da 
sua rica e muito nobre casa. 



pria, formada pelo seu concelho somente, 
com 25 freguezias; mas hoje, depois da crea- 
ção da comarca da Mêda, que lhe roubou as 
8 freguezias já mencionadas, comprehende 
apenas as 17 seguintes :— Cedovim, ou Se- 
davim, Chãs, Custoias, Freixo de Numão, 
Horta, MoZj Murça, Muxagata, Numão, Santa 
Comba, Santo Amaro, Sebadelhe, Seixas, 
Touça e Villa Nova de Foscôa, — todas estas 
do bispado de Lamego,— e Almendra e Cas- 
tello Melhor, do bispado da Guarda, com o 
total de 3:168 fogos e 12:631 habitantes, se- 
gundo o ultimo recenseamento. 

.Aquellas duas freguezias de Almendra e 
Castello Melhor pertencem ao bispado da 
Guarda, porque estão na margem direita do 
rio Côa, pois desde 1882, data da ultima cir- 
cumscripção diocesana, o Côa e a ribeira de 
Maçoeime, sua confluente, formam por este 
lado a linha divisória entre os bispados de 
Lamego e da Guarda. 

Pertencem pois á diocese da Guarda to- 
das as freguezias da margem direita do Cóa 
e da ribeira de Maçoeime até á raia da Hes- 
panha, — freguezias qué outr'ora pertence- 
ram á diocese de Caliabria,— depois á de 
Cidade Rodrigo,— em seguida á de Lamego 
— e por ultimo á de Pinhel, creada em 1770 
e extincta em 1882. 

V. Caliabria e Pinhel. 

Esta villa é a povoação compacta mais 
populosa que se encontra era toda a margem 
esquerda do Douro desde o mar até á Hes- 
panha, exceptuando unicamente Lamego e 
Villa Nova de Gaya. 

Tem bons edifícios e bons proprietários, 
muito commereio, ruas bem calçadas, em- 
bora estreitas, um espaçoso campo, indus- 
trias differentes, feiras importantes, um lindo 
cemitério, hotéis rasoaveis, etc, mas tem 
dois grandes contras: — muita falta d' agua e 
dlarvoredo. 

Como está em um planalto, cujo subsolo 
é schisto e só a grande distancia se erguem 
elevações superiores, a villa, sendo tão po- 
pulosa, não tem uma única fonte de bica, 
mas somente poços e charcos, sendo quasi 
toda a agua d'elles salobra. 



VIL 



VIL 835 



A sua agua polavel reduz-se quasi exclu- 
sivamente á do charco ou poço coberto, de- 
nominado Fonte Nova, contíguo á capelliuha 
de S. Pedro, a leste da villa,— fonte que nos 
annos mais áridos sécca e obriga a popula- 
ção a ir dessedentar-se na fonte da Flor da 
Rosa, ou de S. Bibre, distante 2 a 3 kilome- 
tros para oeste, ao sul do caminho da Pes- 
queira e da Mêda. 

Também não tem agua para rega, exce- 
ptuando a d'alguns poços, que exlrahe com 
difflculdade e por isso no verão a villa é de 
uma aridez extrema! . . . 

Não tem bosques, ribeiros, alamedas, ma- 
tas, soutos, pinheiraes nem pomares e, como 
a producção dominante dos seus arrabaldes 
é o trigo, colhido este, fica o rastolho, como 
succede no Alemtejo e em volta de Madrid, 
vomitando fogo durante o rigor da estia- 
gem. 

Tem muitos bois para carretos e serviço 
da lavoura e muito gado azinino e muar 
para transportes e serviço da lavoura tam- 
bém;— todo o gado porem bebe quasi exclu- 
sivamente agua de uma lagoa que por abso- 
luta necessidade formaram no Campo da 
Feira, aproveitando a depressão d'umazona 
de schisto que se inclina para N. E. e cons- 
truindo d'esse lado um muro para represa 
das aguas pluviaes que ali se conservam 
todo o anno batidas pelo sol, estagnadas, es- 
verdeadas e podres, formando um terrível 
foco d'infecção ! 

Na dieta lagoa, cuja altura máxima é de 
2 m ,50, entram e se banham e bebem os bois, 
os porcos, as cavalgaduras e todos os outros 
animaes K A sua agua é tão limpa ou ião im- 
munda, que só os animaes da villa, criados 
cora ella, a bebem. Os de povoações extra- 
nhas — nem lhe tocam! 

E é a lagoa, este grande foco d'infecção, 
a providencia da villa. pois quando sécca, o 
que succede muitos annos no fim do verão, 
veem-se na necessidade de ir buscar em pi- 
pas agua ao Douro, distante 5 a 6 kilome- 
tros, para entreterem a existência dos seus 



1 Ali se banham e nadam também no ve- 
rão centenares de creanças da villa? I . . . 



gados— e quando a estiagem se prolonga emi- 
gram com elles para as margens do Douro. 

Se d'outra qualquer forma podessem abas- 
tecer a villa d'agua, a primeira coisa que 
deviam fazer e que por certo fariam, era 
arrasar a lagoa, porque é um viveiro de se- 
zões, — um manancial de peste ! . . . 

Os templos d'esta villa e seu termo redu- 
zern-se hoje á sua egreja matriz,— a 8 capei- 
las publicas — e a i particular. 

A egreja matriz é um templo dos maiores 
e melhores da província, mandado edificar 
por el-rei D. Manuel. 

Tem uuiabella frontaria com um rico por- 
tal em estylo gothico florido, encimada por 
um campanário com tres sineiras e dois 
grandes sinos;— a meio um óculo, ou espelho 
liso;— 2 escudos com as armas reaes portu- 
guezas (o chagas e 7 castellos)— no centro 
dos 2 escudos a imagem da Virgem com o 
filho morto nos braços, representando a Se- 
nhora do Pranto, que é a padroeira;— aos 
lados 2-espheras annillares, uma com a cruz 
da ordem de Christo, emblema d'el-rei D. 
Manuel, outra com uma flor de liz— e no 
cunhal, do lado da epistola, a inscripção se- 
guinte : 

Esta obra se fez no 
anno de 1757, sendo 
Abb.° d'esta igreja Anto- 
nio Esteves Pereira. 

D'este conjuncto se vé que este templo foi 
fundado por el-rei D. Manuel— e restaurado 
e ampliado em 1757. 

Interiormente tem tres naves, firmadas so- 
bre 6 columnas de granito, redondas e lisas, 
— capella-mór com um soberbo retábulo de 
talha dourada e boas pinturas antigas no 
tecto e nas paredes,— côro espaçoso sobre o 
guarda-vento— no corpo da egreja 2 alta- 
res lateraes de boa talha antiga e 2 aos la- 
dos do arco cruzeiro com decorações de ta- 
lha moderna, mais barata,— tecto liso de ma- 
deira com larga e vistosa pintura; no centro 
a imagem da padroeira, aos lados muitas fi- 
guras bíblicas com muitos versículos da bí- 
blia também, e ao fundo, perto do coro e no 



836 VIL 



VIL 



mesmo tecto, o retrato do abbade que pro- 
moveu a restauração e ampliação d'este tem- 
plo, como dizem as legendas que tem aos la- 
dos: 

Esta obra foi feita 
no anno de 1767 

Sendo Abb. 8 d'esta I- 
greja Antonio Esteves 
Pereira. 

E por baixo do retrato esfoutra : 

Ubi sunt duo, vel tres 
congregat! in nomine meo, 
ibi sum in médio eorum. 

eucles, cap. 25. 

Tem um só púlpito de granito com 8 fa- 
ces, pintado e encostado a uma das colu- 
mnas que sustentam as naves, do lado do 
evangelho— e entre as sepulturas que ainda 
se veem no interior do templo avulta uma 
com a inscripção seguinte : 

S. a DE GONÇALO DE 

Moraes e Castro, Abb.» 
que foi n'esta igreja. 
Falleceu a 22 d'Agosto 
de 168 5. 

Tem boa sachristia com ampla credencia 
e ricas decorações de talha dourada— e te- 
cto de madeira bem trabalhado e bem pin- 
tado, com orDamentacão de talha dourada 
também. 

Teve também esta egreja preciosas alfaias 
de prata sendo algumas do tempo d'el-rei 
D. Manuel; mas todas foram roubadas pelos 
francezes nos princípios d'este século, por 
occasião da guerra peninsular. 

Concluiremos este tópico dizendo que esta . 
magestosa egreja foi mandada fazer por el- 
rei D. Manuel e ampliada pelo benemérito 
abbade Antonio Esteves Pereira em 1757, 
accrescentando lhe em toda a sua extensão 
3 m ,40 por banda;— o mesmo abbade a man- 
dou cobrir, forrar e pintar em 1767;— hoje 
mede ialeriormente 13 m ,74 de largura e 
36 m ,15 de comprimento,— e os seus abbades 
foram sempre tão considerados que usam de 
murça e annel, como os cónegos, desde tem- 
pos muito remotos. 



As capellas que hoje existam n'esta paro- 
chia são as seguintes : 

1. » — Senhora da Veiga, no sitio d'esíe no- 
me, junto do Douro e da barca e estação do 
Pocinho, bem tractada e bem conservada, 
posto que muito antiga, pois já o padre Car- 
valho a mencionou, dizendo que a ella con- 
corriam muitos concelhos em procissão na 
2.» feira depois da dominga in Albis. 

Outr'ora foi matriz de uma das povoações 
que se concentraram na villa actual — e ainda 
hoje tem festa e grande romagem no dia 8 
de setembro na sua capella, feita com as es- 
molas dos devotos por uma commissão no- 
meada pela junta de parochia. 

Costumam também os lavradores fazer-lhe 
grande festividade na egreja matriz, com 
procissão, 

2. *— S. Sebastião, também muito antiga e 
bem conservada, cerca de 400 metros ao 
norte do cemitério, á direita da estrada no- 
va do Pocinho. 

Tem festa feita pelos sapateiros. 

3. "— Santo Antonio, hoje dentro do cemi- 
tério da villa, a O- do Campo da Feira e 
muito bem tractada. 

Tem altar mór e dois lateraes— e festa an- 
nual, feita pelos cordoeiros, com procissão 
— e até 1865 (approximadamente) tanto no 
dia d'esta festividade como das outras da 
villa costumavam correr touros, ereados no 
Monte Meão. 

í.*— Senhora da Conceição, muito antiga 
e em mau estado, dentro da villa, no largo 
do seu nome, que é povoado quasi exclusi- 
vamente pelos cordoeiros e n'elle fazem as 
cordas. 

Esta capella, como já dissemos, foi matriz 
d'um pequeno curato do chantre de Lamego, 
annexo á egreja (abbadia) de Numão, que 
era do mesmo chantre. 

5. a — Senhora do Amparo, do Azinhate ou 
Azinhaga, no sitio d'Éte nome, cerca de 1 
kilometro a O. da villa. 

Revela muita antiguidade e está hoje em 
abandono, mas já teve grande festa, feita pe- 
los almocreves \. 



A Hist. Eccl. de Lame^pag. 193, in fine, 



VIL 



VIL 837 



$. a — Santa Barbara, também antiga e mal- j 
tratada, a leste da villa, distante cerca de 
400 metros. A esta imagem costumavam pe- 
dir bom tempo, pelo que a sua festa era 
feita pelos cavadores, com procissão, corrida 
de touros, etc. 

7." — Senhora da Aldeia Nova, junto do 
castello, para S. O. --muito antiga e mal 
tractada. 

Ha muito que não tem festa própria. Ape- 
nas ali os estudantes festejavam Santa Luzia. 

8 «— S. Pedro, também muito antiga e já 
em ruinas e profanada, mas ainda com por- 
tas e tecto. 

Está a leste da villa, junto da Fonte Nova, 
o poço coberto que abastece toda a villa 
d'agoa potável. 

A pobre ermida olha para N. e tem ca- 
pella-mór, que parece ter sido a primitiva 
capella, — um pequeno arco de granito de 
volta inteira com as quinas quebradas e or- 
namentação simples — e tem ainda no seu 
velho retábulo duas lindas columnas de ta- 
lha antiga com aves e uvas. Teve festa feita 
pelos moleiros. 

Este sitio, posto seja arrabalde, é um dos 
mais frequentados da villa pela proximidade 
da fonte, sobre a qual toda a grande povoa- 
ção converge em motu constante e fieira in- 
terminável. 

Quando visitámos esta villa em 1 de se- 
tembro de 1881, vindo da Serra da Ertrella, 
onde passámos muito agradavelmente oito 
dias (de 4 a 12 d'agosto) com a Expedição 
Scienlifica, visitámos também esta fonte. 

Era ao cahir da tarde e— tendo crusado 
todo o nosso paiz em differentes direcções e 
tendo alargado também um pouco mais os 
nossos passeios até Madrid e Paris, — não nos 
recordamos de ter visto em tão pequeno es- 
paço de tempo tanta gente em fonte alguma I 

Todas as 8 capellas mencionadas são pu- 
blicas e ha ainda n'esta villa uma outra. 



deu a esta capella o titulo de Nossa Senhora 
do Pranto. Foi lapso, porque a imagem da 
padroeira representa a Virgem com o Me- 
nino Jesus ao collo—e não com o Senhor 
morto no regaço, como se vê na matriz. 



9, a — De Santa Quitéria, particular, mas 
com porta franca ao publico, na rua de Santa 
Quitéria, contigua a um bom prédio que foi 
de Jacinto Lopes Tavares, de Carnicães, do 
concelho de Trancoso, e é hoje dos seus her- 
deiros, que possuem aqui um bom casal. 

Era lindíssima: — tem ainda bons azulejos 
e um rico frontal de talha antiga dourada, 
— mas está em completo abandono. 

Também houve n'esta villa mais 4 capei- 
las publicas; eram as seguintes: 

10. a — S. Vicente, a leste da villa, no sitio 
do Paço ou do Relento. 

Em tempos muito remotos foi egreja ma- 
triz, não sabemos de que parochia. 

H. a — S. Miguel, a S. O. do campo a que 
deu o nome, hoje Campo da Feira, ou da 
Lagoa, na rua denominada também de S. Mi- 
guel. 

Achando-se em ruinas, foi demolida na 
2. a metade d'este século para alinhamento da 
dieta rua, hoje a l. a da villa. 

Tinha galilé ou alpendre e contíguos vá- 
rios cobertos para os feirantes. 

A sua festa era feita pelos habitantes da 
villa, exlra-muros do castello 

12. " — Senhora da Encarnação. 
Não ha memoria d'ella. 

13. " — Senhora da Expectação. 
Também já se perdeu a memoria d'ella, 

mas a Hist. Eccl. de Lamego, escripta nos 
fins do ultimo século, a mencionou, bem 
como a antecedente. 

Também suppomos que houve n'esta villa 
uma egreja da Misericórdia com seu hospi- 
tal, na rua ainda hoje denominada do Hos- 
pital, pertencentes á antiquíssima irmandade 
da Misericórdia, — corporação extincta ha 
muitos annos e da qual não restam docu- 
mentos alguns I 

Depois da egreja matriz, o primeiro edifí- 
cio publico d'esta villa hoje é o seu tribunal, 
um dos melhores do distrieto. 

Foi principiado em 1857 e ultimado em 



1 Os habitantes do bairro do castello m- 
tra-muros, faziam a festa á imagem de Nossa 
Senhora do Castello, que estava e está em 
um nicho sobre a porta voltada a S. 0. 



838 VIL 



VIL 



1868. Ergue-se â N. da Praça, no próprio 
sitio cnde estiveram os velhos paços do con- 
celho. Tem ao rez de cltaussé um pavimento 
onde ftstá a cadeia, com 6 grandes janeilas, 
além do espaçoso portão d'entrada;— no an- 
dar nobre outras 6 grandes janeilas de frente 
com uma porta rasgada e uma varanda ao 
centro— e no topo as armas reaes portugue- 
zas com as quinas e 7 castellos. Tem janei- 
las nas outras tres faces,— muito pé direito, 
— bastante fundo — e accommoda em boas 
condições o tribunal, recebedoria, paços do 
concelho, conservatória e todas as outras re- 
partições publicas da villa. 

Em frente está na mesma praça o velho 
pelourinho restaurado e muito bem conser- 
vado. 

É uma grande columna de granito qua- 
drada, tendo a meio ornamentação de cor- 
das era relevo e no topo quatro pirâmides e 
uma esphera armillar, com a cruz da ordem 
de Christo e flores de liz, emblemas de D. 
Manuel e de D. João I, aos quaes esta povoa- 
ção, como já dissemos, deve a sua egreja pa- 
rochial e a cathegoria de villa. 

Visitámos também o antigo bairro do Cas- 
tello, núcleo da villa e que se ergue em um 
pequeno morro a meio d'ella, formado por 
differentes ruas muito estreitas, que foram 
o bairro dos judeus, todas povoadas, e con- 
servando ainda alguns lanços dos velhos mu- 
ros. 

Também subimos ao alto da velha Torre 
do relógio, hoje restaurada, caiada e bem 
conservada. Tem um bom relógio novo com 
um sino— e termina em um eirado, que é o 
mais bello miradouro da villa. 

D'elle se gosa um largo horisonte, embora 
muito irregular, e um interessante panorama, 
posto que bastante agreste. 

D'ali e só d"ali se descobre toda a villa e 
seus arrabaldes;— a leste as capellinhas de 
S. Pedro e Santa Barbara e mais ao longe as 
Freichedas;— ao norte, além do Douro e já na 
província de Traz-os-Montes, a egreja d'Ur- 
ros e as freguezias do Prêdo e Assureira ; 
— a N. O. o Monie Meão e a freguezia da 
Lousa, lá ao longe, na margem direita do 
Douro, e mais ao perto a capellinha de Santo 



i Amaro;— na villa, ao poente, o tribunal, a 
I egreja matriz, o Campo da Feira, a lagôa, o 
cemitério, as capellinhas de S. Sebastião e 
Santo Antonio e a várzea da Flor da Rosa; 
— e para o sul grande extensão da Beira 
Baixa, avultando ao longe em todos os qua- 
drantes montes agrestes. 

As festividades religiosas principaes que 
hoje aqui se celebram são as de endoenças, 
a de Corpus Christi e a da Senhora da Vei- 
ga, no dia 8 de setembro, feita na matriz, 
além da que se faz na sua capella com ro- 
magem. 

N'esta villa e n'este concelho não ha me- 
moria de convento algum. 

Tem a villa os largos seguintes:— do Ta- 
bolado, onde se fazem os mercados, da Con- 
ceição, junto da capella d'este nome, a Praça 
em frente do tribunal,— e o Campo de S. Mi- 
guel ou da Feira, o mais espaçoso de todos, 
cercado a leste pela villa, a norte pelas ata- 
fonas do surnagre, a sul pela rua de S. Mi- 
guel com bons edifícios, entre os quaes hoje 
avulta a escola feita com o subsidio do con- 
de de Ferreira, e a poente pelo cemitério, 
ficando a meio do dicto campo a lagoa. 

O cemitério está no mais bonito e inte- 
ressante local da villa, dominando-a quasi 
toda, bem como o vasto Campo da Feira, que 
lhe fica a jusante— e a montante a nova es- 
trada do Pocinho, que tem aqui um formoso 
lanço em linha horizontal, caminhando de 
sul a norte e offerecendo um agradável pas- 
seio. 

Parece um jardim publico e em jardim 
devéra transíormar-se, removendo-se o ce- 
mitério para outro ponto um pouco mais 
distante, pois está em intimo contacto com 
a pestilenta lagôa e com a villa, envenenando 
a athmosphera e compromettendo a salubri- 
dade publica. 

Chamamos para este tópico a attenção dos 
illustres camaristas, pois sabemos que pro- 
jectam fazer um jardim publico, ao lado sul 
do cemitério e contiguo a ellel. . . 

Banham esta freguezia o Côa ao nascente, 
—ao norte o Douro— e ao poente o ribeiro 



VIL 



VIL 839 



âo Valle, que tem a sua origem no monte 
Angrão, entre Villa Nova de Foscôa e a fre- 
guezia de Santo Amaro, e desagua no Douro ? 
na Veiga, junto da barca e da es.tação do 
Pocinho. 

Pelo leito Xeste ribeiro {credite posteri l) 
seguia a antiga estrada militar de Traz-os- 
Montes pela barca do Poeioho para Villa 
Nova de Foscôa e para a provineia da Beira» 
sendo intranzitavel, medonha e perigosíssima 
no inverno, pois por vezes a agua attingia 
grande altura e se despenhava em caudalosa' 
torrente, levando d'envolta para o Douro 
tudo quanto encontrava diante de si,— não 
só no inverno, mas mesmo no verão e na 
primavera por occasião de trovoadas. 

Ali pereceram muitas pessoas ;— mas na 
maior parte do verão aquelle ribeiro sécca 
e a dieta estrada é encantadora, porque o 
valle que atravessa é fundo, por extremo 
fértil, todo povoado de amendoeiras e suma- 
graes nas encostas e de oliveiras na parte 
baixa,— oliveiras como grandes castanhei- 
ros,— magestosas, admiráveis, immensas,— 
as maiores de todo o nosso paiz',—e grandes 
faias e negrilhos ensombram e cobrem lit- 
teralmente grande extensão da dieta estrada, 
transformando-a em um bosque frondoso, 
suavíssimo, verdadeiro oásis no meio das 
candentes margens do Alto Douro, no ve- 
rão. 

Para se formar idéa do porte e magestade 
das dietas oliveiras, note-se que uma só 
ainda no ultimo anno produziu 40 alqueires 
d'aseitona\ Está no sitio de Mariannes e 
pertence á família Carvalho, d'esta villa. 

No fundo da Costa, um pouco a montante. 
d'aquella, se veem 4 oliveiras que são tal- 
vez as maiores do termo. Quatro homens 
diffleilmente varejam cada uma d'ellas era 
um dia de trabalho. São todas de um só pé; 
mas junto d'ellas ha uma formada por tres 
pés, que as supplanta. Foi vendida, ainda ha 
pouco, por dose libras— ou 5'jJOOO réis!— 
e ha por ali muitas de 8 a 10 libras de pre- 
ço?!... 

É digna de especial menção também uma 
oliveira que existe no Valle, pertencente a 
Antonio Mallavado. É formada por tres pés, 



—custou 501000 réis— e tem produzido em 
um só anno sessenta rasas d'azeitona, de 17 
litros e meio cada uma ! . . . 

Também no termo d'esta parochia se en- 
contram oliveiras admiráveis em outros si- 
tio?,— no Saião, Patões, Valverde, Valle do 
Abbade e nas olgas 1 da Veiga, junto da 
barca e da estação do Pocinho e da famosa 
quinta do Reguengo. 

Aberta á exploração alinhado Douro, de 
Tua até á Barca d'Alva, com alguns minu- 
tos de demora na estação do Pocinho, todos 
podem vêr e admirar tão magestosas olivei- 
ras e convencer-se de que não é fantasia, 
mas realidade, o que levamos exposto. 

Fugindo da ribeira para a serra, mencio- 
naremos outra especialidade de ordem muito 
diversa no termo d'esta parochia, mas não 
menos admirável. 

É uma pedreira de schisto, duro como aço, 
que ha no Monte do Poio, cerca de 4 kilo- 
metros a S. E. da villa, d'onde se extrahem 
pedras de todas as grossuras e dimensões 
á vontade dos montantes, 2 — umas estreitas 
e delgadas, de que fazem balaustres para, 
varanda?, esteios, etc.,— outras de enormes 
proporções, até 8 e mais metros de compri- 
mento e 1 metro e mais de largura, de que 
fazem tanques, lagares e inclusivamente pon- 
tes de uma só pedra, sendo por vezes neces- 
sárias 7 e 8 juntas de bois para as arrasta- 
rem! 

No ribeiro do Valle, por exemplo, ha uma 
ponte bastante espaçosa, cujo taboleiro é for- 
mado por uma só das dietas pedras, deno- 



1 Assim se denominam aqui e na ribeira 
da Villariça as courellas ou sortes das cam- 
pinas fundas e próximas do Douro. 

2 Montantes, pelo menos ao norte do nosso 
paiz, são os trabalhadores que habitualmente 
se oceupam em extrahir a pedra das pe- 
dreiras, segundo as instrueções e medidas 
que recebem dos mestres das obras;— appa- 
relhadores ou canteiros são os que depois 
trabalham e affeiçoam a pedra;— assentantes 
os que por ultimo collocam e assentam a pe- 
dra nos edifícios. 

Os assentantes são sempre os mestres ou 
contra-mestres' e os officiaes de maior con- 
fiança. 



840 VIL 



VIL 



minadas louzas. Tem i ro ,20 de largura— e 8 
de comprimento I 

Podem também ver-se e admirar-se as 
enormes pranchas da dieta pedra com que 
a camará mandou forrar as paredes e os te- 
ctos das prisões no edifício dos novos paços 
do concelho. 

Ficaram as dietas prisões seguríssimas e 
à prova de fogo, como se fossem couraça- 
das. 

Em muitos pontos das margens do Allo 
Douro, onde predomina o schisto ou louzi- 
nho, por vezes se encontram pedreiras d'on- 
de se extrahe pedra magnifica para cons- 
trucções, como pode ver-se nos muros de 
supporte da linha férrea e da estrada mar- 
ginal, e em algumas pontes d'esta estrada, 
nomeadamente na da foz de Mil Lobos ou do 
rio Temi Lúpus, entre a Folgosa e Bagauste, 
na margem esquerda do Douro,— ponte de 
um só arco de grande abertura e grande al- 
tura, feito do tal schisto. 

Também quasi todos os lagares do Alto 
Douro são feitos com tampos do mesmo 
schisto, alguns dos quaes medem 6 a 7 me- 
tros de comprimento sobre um metro de lar- 
gura e 18 a 20 centímetros d'espessura, 
como podem ver-se na quinta do Ferrão, da 
nobre familia Pessanhas, junto da estação 
d'aquelle nome na linha férrea do Douro, 
extrahidos em Donello, aldeia da freguezia 
de Covas;— mas todas as pedreiras d'aqiielle 
schisto são muito differentes. 

Não se conhece em todo o Douro outra 
pedreira igual a esta de Foscôa— ou da Fra- 
ga do Poio. 

As producções principaes d'esta parochia 
são:— trigo, centeio, cevada, vinho, azeite,, 
lã, caça miúda, melões, melancias, amêndoas 
e sumagre. 

Outr'ora em ambas as margens do Alto 
Douro havia muitos sumagraes, que consti- 
tuíam uma industria e um ramo de negocio 
importantes, mas, depois que o marquez de 
Pombal creou a grande Companhia dos Vi- 
nhos, (veja-se o artigo Victoria) desenvolve- 
ram-se espantosamente os vinhedos nas duas 
margens do Douro e desappareceram quasi 



todos os sumagraes. Apenas aqui se conserva 
ainda aquella industria, mas bastante de- 
cahida com o descrédito proveniente das 
contrafacções, pns costumam addiccionarao 
pó do sumagre a poeira que no verão aqui 
abunda nas estradas publicas e que, por ser 
proveniente do schisto, tem a mesma côr do 
pó do sumagre, sendo muito mais barata e 
muito mais pesada;— mas é tolice, porque 
os compradores já estão prevenidos e sabem 
dar-lhe o devido desconto no preço. Andam 
pois os vendedores do sumagre carregados 
com terra sem proveito algum! 

Prevaleceu aqui a industria da prepara- 
ção do sumagre por 3 rasões,— já porque a 
demareação feita nos terrenos das margens 
do Douro pela Companhia dos Vinhos não 
passava dos concelhos d'Alijó e da Pesquei- 
ra,— já porque os vastos montes e ladeiras 
do termo d'esta parochia produziram sempre 
muito sumagre espontaneamente,— já por- 
que o sumagre do termo d'esta villa foi sem- 
pre de 1* qualidade. É o melhor d'ambas as 
margens do Douro, pelo que ainda hoje— 
apesar das contrafacções— é o que encontra 
venda mais fácil e obtém melhor preço. 

Além dos sumagraes espontâneos que 
abundam no monte Meão, baldio, e nas la- 
deiras incultas, por entre o fragoedo, ha 
aqui muitos sumagraes plantados de estaca 
nas ladeiras mais pobres de húmus e que se 
não prestam a outra cultura. 

Plantam-nos à enxada muito superficial- 
mente e cavam-no3 também muito superfi- 
cialmente apenas de dois em dois annos, 
mas é tão vivaz a planta, que se conserva 
em boas condições de producção tempo in- 
definido I 

Fazem a colheita com o maior desamor 
também. 

Quando a planta attinge o seu maior de- 
senvolvimento, cortam-lhe todas as hastes, 
deixando-lhe apenas as raises que, decorri- 
dos annos, formam uma grande cêpa, á su- 
perfície da terra. 

Conduzem aquella ramagem para o Cam- 
po da Feira;— estendem n 'a ali ao sol sobre 
a terra,— depois de mirrada é batida por 
maagoaes ali mesmo, — e d'ali a levam 



VIL 



VIL 841 



para as atafonas, onde é raoida e redusida 
a pó. 

As atafonas são actualmente 4 e estão to- 
das no mesmo Campo da Feira, lado norte, 
montadas em humildes casas térreas. 

São formadas, como os nossos antigos la- 
gares d'azeite, por um pio ou tanque circu- 
lar, tendo a meio uma trave, firmada per- 
pendicularmente, e presa a ella por um eixo 
uma grande roda de pedra, que tem cerca 
de 3 metros de diâmetro e 3 a 4 deeimetros 
de grossura;— trabalha perpendicularmente 
também e é movida por uma junta de bois, 
em rasão da falta d'agua para motor. 

Cada pio tem uma roda somente. 

No verão ultima-se cada piada em um 
dia, por estar o sumagre ressequido, mas no 
inverno demanda cada piada dois a tres dias 
de moagem. 

Costumam dar no verão pela moagem de 
cada piada 1^600 réis,— sendo 1$000 réis 
para aluguel da atafona e 600 réis para o 
dono do gado. 

Quando ali estivemos em 1881 regulava o 
preço de cada arroba do dicto sumagre por 
500 réis, mas ha ali memoria de se ter ven- 
dido a 1$200 réis, antes de se generalisar a 
contrafacção. 

No ultimo anno (1884) a ceifa do suma- 
gre produsiu 154 piadas de 60 arrobas e re- 
gulou por 600 réis o preço de cada arroba. 
Apurou pois esta villa em sumagre 5:544 $000 
réis !. . . 

Costumam exportal-o para Alverca e para 
o Porto, e é gasto nas tinturarias e nos cor- 
tumes. 

Outr'ora consumia-se também muito aqui 
na villa nas fabricas de cortumes que houve 
n'ella, como já dissemos. 

Além das 4 atafonas do sumagre ha hoje 
n'esta freguezia, na margem esquerda do 
Côa, 4 moinhos para moerem pão, com 16 
rodas;— no Douro 6 azenhas com 15 rodas, 
para moerem pão também— e na villa 6 moi- 
nhos para azeitona, movidos por bois. 

Apesar da grande falta d'arvoredo e de 
agua — e da má visiuhança da lagoa e do ce- 
mitério, o clima de Foscôa não é insalubre, 



por estar a villa em sitio alto e muito lava- 
do dos ares. 

Na Hist. Eccl. de Lamego se lé* textual- 
mente o seguinte : 

«É Villa Nova mui saudável, sem obstar 
a intemperança do ar, por extremo frio de 
inverno, sem lenha,— e no verío ardente 
com excesso, sem aguas, fructas ou horta- 
liças, aiuda que de tudo abunda por lhe vir 
cada dia de fóra. Os naturaes costumam 
chegar a velhice muito avançada; alguns 
passam de cem anuo*. Um existe em 1794 
que militou na guerra da liga, e acompa- 
nhou o exercito que entrou em Madrid. As 
queixas mais frequentes são rheumatismos, 
paralysias, apoplexias, flatos hypocondricos, 
carbúnculos, pleurises, e sezões pernicio- 
sas (?). Os estrangeiros que se vem aqui es- 
tabelecer teem pouca saúde e duração.» 

O clima não é muito insalubre, mas aqui 
teem pesado com força varias epidemias, 
nomeadamente o cólera em 1855. 

Grassou desde março até o fim d'agosto 
d'aquelle anno, fez centenares de victimas, 
não se podendo hoje saber ao certo o nu- 
mero, porque se não lavrou registro algum 
do obituário. O que se sabe é que foi uma 
mortandade medonha, sendo poucos os vi- 
vos para enterrarem os mortos! . . . 

Dias houve em que os enterramentos fo- 
ram feitos por mulheres, sem acompanha- 
mento algum religioso, pois o parocho d'en- 
tão, Caetano Esteves de Mattos, fugiu covar- 
demente para a villa de Trancoso.— Morre- 
riam todos os cholericos sem os soccorros 
espiriluaes se não fora o intrépido sacerdo- 
te, hoje aqui abbade, Antonio Augusto d'Al- 
meida, que se tornou por essa occasião be- 
nemérito, indo promptameule, com risco da 
própria vida, a toda a parte, noute e dia, 
ministrar os sacramentos aos empestados e 
distribuir-lhes palavras de conforto e soc- 
corros de toda a ordem. 

Também muito honrosamente se distin- 
guiu em tão negra conjuuclura o digno ad- 
ministrador d'este concelho, FernaDdo dos 
Santos Sequeira, que se conservou como um 
heroe no seu posto, não se poupando aos 
maiores sacrifícios para valer aos seus admi- 
nistrados. 



842 VIL 



VIL 



É o digno abbade Antonio Augusto d' Al- 
meida irmão do rev. José Maria d'Almeida, 
distincto orador e digno abbade também de 
Freixo de Numão, tendo sido anteriormente 
abbade nas freguezias de Távora e de Santa 
Eulália de Arouca, n'esta diocese de La- 
mego. 

N'esta villa viveu outr'ora grande numero 
de judeus que a tornaram rica e florescente 
com o seu génio económico, laborioso e in- 
dustrial. Soffreu muito com a impolitica e 
barbara extincção d'elles, bera como Villa 
Flor de Traz-os-Montes, Moncorvo, Gouveia 
da Beira Baixa, Covilhã, etc. 
Veja-se este vol. 10.° pag. 732, col. l. a 
Expulsos os judeus em 1496 e sendo de- 
pois os restantes concentrados em judiarias 
ou bairros próprios, aos d'esta villa se lhes 
marcou o pequeno bairro do castelío e ainda 
hoje sobre os habitantes d'aquelle bairro 
pesa o labéu dc judeus, posto que, depois de 
extracta a odiosa distineção entre christãos 
velhos e christãos novos, passaram a viver 
onde muito bem lhes approuve; e hoje os ha- 
bitantes d'esta villa são todos catholicos sem 
distineção alguma, e sinceramente religiosos, 
como provam os muitos templos já mencio- 
nados e as festividades que n'elles se cele- 
bram. 

A propósito da religião e piedade dos vil- 
lanovenses, diz José Antonio d'Almeida: 

«Em tempo de grandes séceas, e quando 
as searas pedem agua, recorrem os habitan- 
tes de Foz-Côa, por meio de preces, á Vir- 
gem Nossa Senhora para que fertilise seus 
campos, mandando a desejada chuva. Raras 
são as vezes que a Mãe de Deus lhes não 
acode. Quando isto, porem, acontece, não 
tendo mais a quem dirigisse, juntam-se 
nove donzellas, que é essencial se chamem 
Marias, vão em procissão a distancia de meio 
quarto de légua, a um sitio chamado La- 
meira d,'Azinhate, 1 e ali voltam de baixo 
para cima uma grande pia de pedra, que 
pesará 30 arrobas, se não mais, regressando 



1 Local da capella n.° 5, de Nossa Senhora 
do Azinhate ou da Azinhaga, — Nossa Se- j 
nhora do Amparo. j 



depois para casa á espera da chuva. N'e3ta 
operação é preciso a maior parte das vezes 
serem as nove donzellas auxiliadas por bra- 
ços viris, pois que suas forças não são suf- 
fleientes para voltar aquella massa enorme.» 

Isto ainda hoje se pratica. 

Também por oceasião das grandes estia- 
gens costumara conduzir em procissão pelas 
ruas da villa a imagem do Senhor dos Pas- 
sos;— outras vezes vão buscar em procissão 
de penitencia á margem do Douro a ima- 
gem de Nossa Senhora da Veiga, — collo- 
cam-na no altar mór da egreja matriz,— fa- 
zem-lhe preces, — ali a conservam até termi- 
nar a estiagem— e depois a levam outra vez 
em procissão para a capella. 

Esta villa é muito hospitaleira e obse- 
quiadora para com os estranhos, mas quem 
fixar n'ella domicilio necessita de viver cora 
muita prudência e muito critério para se li- 
vrar de trabalhos, porque, desde tempos re- 
motos, esteve sempre dividida em partidos 
exaltados que á' mais leve provocação se não 
poupam a hostilidades de toda a ordem, — 
vinganças, perseguições, pancadas, facadas, 
tiros, incêndios e mortes! E, como a villa é 
compacta e muito populosa— e por vezes 
tem estado dividida em dois bandos de fa- 
náticos políticos armados,— nas suas pró- 
prias ruas se teem ferido grandes desordens, 
—batalhas sangrentas que a teem coberto 
de sangue, de cinzas e de vergonhas I 

Sem evocarmos reminiscências muito lon- 
gínquas, poderíamos citar grandes excessos, 
incêndios e mortes, praticados ainda n'este 
século por oceasião das luctas civis, nomea- 
damente durante a revolução da Junta do 
Porto (1846 a 1847) que obrigaram algumas 
das principaes famílias d'esta villa a expa- 
triar-se e abandonal-a até, hoje, fixando a sua 
residência no Porto, Lisboa, Moncorvo, Pi- 
nhel e n'outras localidades, para salvarem a 
vida e o resto dos seus haveres, com o que 
muito soffreu esta povoação. 

Algumas das suas primeiras casas foram 
reduzidas a cinzas em 1847 com toda a sua 
mobília, géneros e valores importantes— e 
outras se acham ainda desertas, taes são as 
da numerosa e abastada familia Campos, do. 



VIL 



VIL 843 



Barào de Villa Nova de Foscôa. Em uma 
d'ellas, na rua de S. Miguel, talvez ainda 
hoje o 1.° edifício particular da villa, se acha 
montado um hotel 1 . . . 

Em poucas povoações do nosso paiz se 
terão praticado lautos excessos, — provenien- 
tes uns da odiosa distincção entre christãos 
velhos e christãos novos, ou pelo menos aco- 
bertados com ella ;— outros provenientes da 
exaltação partidária; — outros provocados 
pelo facciosismo e prepotência de certas au- 
ctoridades, nomeadamente dos escrivães da 
fazenda, um dos quaes, não ha muito, de- 
terminou o povo a um levantamento em 
massa e a incendiar todos os papeis da re- 
cebedoria e da repartição da fazenda,— sal- 
vando-se como por milagre o dicto escrivão 
de ser trucidado e talvez queimado com el- 
lest... 

Nos excessos praticados durante as ulti- 
mas guerras civis desempenharam o pri- 
meiro papel ÁDtonio Joaquim Marçal e Ma- 
nuel Marçal, irmãos do general de brigada 
João Antonio Marçal. 

Capitaneando uma numerosa guerrilha ou 
antes quadrilha de ladrões e assassinos*, ma- 
taram e roubaram ou mandaram matar e 
roubar muitas pessoas e incendiaram mui- 
tas casas n'esta villa e fóra d'ella. 

Só nas freguezias de S.Martinho de Mouros 
e de S. Pedro de Paus, concelho de Rezen- 
de, saquearam a povoação toda e incendia- 
ram trese das primeiras casas, 1 mas por seu 
turno lhes incendiaram também as d'elles e 
ambos foram barbaramente mortos a tiro, 
como feras 2 . 



1 V. Paus, vol. 6.° pag. 509. col. 2. a e seg. 
Pessoa de todo o credito nos asseverou 

que a tal guerrilha ou quadrilha dos Mar- 
çaes, só em um dia de marcha, desde Villa 
Nova de Foscôa até Ranhados, freguezia dis- 
tante de Foscôa cerca de 2o kilometros para 
S. O. assassinou barbaramente desenove pai- 
sanos, sendo o ultimo um pobre pastor que 
encontraram junto de Ranhados 1 . . . 

2 Antonio Joaquim Marçal nasceu n'esta 
villa em 1803 e foi barbaramente assassina- 
do em 11 de janeiro de 18o 1 no sitio do 
Farfão, freguezia da Lousa, concelho de 
Moncorvo. 



Talis vita — finis Uai. . . 

Os Marçaes de Foscôa, fizeram pendant 
com os Brandões de NidÕes—e foram como 
elles o açoute e terror da Beira muitos an- 
nos ! 1 

Para se formar idéa do que esta pobre 
villa tem soffrido com as dissenções e per- 
seguições politicas e religiosas não necessi- 
tamos de remontar-nos á cruel, impolitica e 
barbara expulsão dos judeus, ordenada por 
D. Manuel, nem á ominosa occupação Filip- 
pina. Basta que nos circumscrevamos a este 
século e recordemos alguns factos. 

Horresco refferens t 

1. °— Em 1808 os christãcs velhos, fanati- 
sados e dirigidos pelo abbade José Maria 
Leite, cahiram em massa sobre os christãos 
novos, apodados de jacobinos ou parciaes 
dos francezes, — espancaram e trucidaram 
barbaramente a muitos,— homens e mulhe- 
res, velhos e creanças. — e lhes saquearam e 
arrasaram as casas. Por seu turno os chris- 
tãos velhos, auctores do massacre, foram de- 
pois severamente punidos e massacrados 
pela justiça. Muitos entulharam as cadeias e 
n'etlas pereceram;— outros se homisiarame 
passaram os maiores trabalhos escondidos 
pelas brenhas e montes;— outros foram de- 
gradados para a Africa; — outros jaseram 
nas prisões até 1820 e n'essa data foram 
amnistiados por influencia do generoso li- 
beral e patriota Joaquim Ferreira Soares de 
Moura, de quem logo fallaremos. 

2. ° — Em 1828 e nos annos seguintes cs 
partidários do sr. D. Miguel perseguiram 



Manuel Antonio Marçal nasceu em 1819 e 
foi assassinado pelo seu parente, Rodrigo 
Balsemão, no dia 18 de. maio de 1861, na 
Venda do Valle, freguezia de Mouronho, con- 
celho de Taboa. 

0 general, irmão dos antecedentes, João 
Antonio Marçal, nasceu em 1808 e falleceu 
a 27 de fevereiro de 1878, em Angra do He- 
roísmo. 

1 V. Midões, Oliveira do Hospital, Taboa, 
Várzea de Meruje, Várzea da Candosa, Vi- 
de, freguezia do concelho de Ceia — e La 
Vendetta ou O Saldo de Contas, por Arsênio 
de Chatenay, pseudonymo de Antonio da 
Cunha, de Várzea de Trevões. 



844 VIL 



VIL 



cruelmente os liberaes;— culparam e pren- 
deram nada menos de 102 homens e mulhe- 
res — e houve por es3a occasião muitos 
espancamento?, ferimentos e mortes, con- 
fiscações de bens e insultos e excessos de 
toda a ordem. 

3. ° — Em 1834 e nos annos seguintes, por 
seu turno os liberaes exerceram cruel vin- 
dicta sobre os realistas, havendo por essa 
occasião também muitos espancamentos, fe- 
rimentos, incêndios e mortes, tornando-se 

i tristemente celebre entre os perseguidores 
dos realistas João Antonio Tronfe, por al- 
cunha o Parola, que fez, ou pelo menos se 
jactava de haver feito, vinte e oito assassi- 
natos? I. . . 
Morreu miseravelmente. 

4. °--Em 1837 a 1840 os liberaes em guer- 
ra uns contra os outros praticaram também 
muitos excessos e mortes. 

Por essa occasião as forças do conde do 
Bomfim saquearam pela l. a vez a casa de 
Antonio Marçal, uma das mais importantes 
da villa. 

5. °— Em 1846 e 1847 reappareceram as 
mesmas luctas enlre os liberaes. Dividiu-se 
a villa em dois partidos e formaram-se e ar- 
maram-se dois batalhões, — um cartista, 
commandado por Antonio Marçal, que abra- 
çou a causa da rainha, a sr. a D. Maria II,— 
outro setembrista ou patuleia, que seguia a 
causa popular, ou da junta do Porlo. 

Em 24 de dezembro de 1846 as forças do 
Marçal entrando n'esta villa saquearem e 
destruíram tudo quanto encontraram nas 
casas dos seus adversários, 1 tendo estes res- 
peitado sempre as dos cartistas; mas não se 
fizeram esperar as represálias. 

No primeiro ensejo as forças da junta por 
seu turno saquearem as dos cartistas e in- 
cendiaram as de Manuel Marçal e de An- 



1 Entre as casas que saquearam e des- 
truíram merecem especial menção tres for- 
mosos palacetes dos srs. Joaquim de Cam- 
pos Henriques, José de, Campos Henriques 
e Manuel de Campos Henriques. Estes tres 
cavalheiros tiveram de mudar a sua rezi- 
dencia, — o 1.° para a cidade do Porto, onde 
falleceu,— os dois últimos para a cidade de 
Pinhel, onde falleceram também. 



tonio Marçal, que perdeu no incêndio som- 
mas importantes, pois além da mobília fica- 
ram redusidos a cinzas uns bahus que havia 
escondido em ura falso, cheios de pratas e 
d'outras preciosidades. 

Também por essa occasião lhes tomaram 
muito gado e queimaram todos os papeis da 
camará, municipal, da administração do 
concelho e d'outras repartições publicas. 

6. °— Em 185o até os elementos se conspi- 
raram contra esta villa, pois durante mezes 
o cholera morbus a devastou cruelmente, 
fazendo centenares de victimas!. . . 

7. °— Em 1863, havendo o escrivão da fa- 
zenda Vicente Augusto d' Araujo Camisão, 1 
elevado escandalosamente o rendimento col- 
lectavel das matríses, o povo se levantou 
em massa e reduziu a cinzas tudo quanto 
encontrou na repartição da fazenda e na re- 
cebedoria do concelho, seguindo-se a puni- 
ção, que foi severa I . . . 

8. °— Em 1876 manifestaram-se a deshoras 
da noute vários incêndios em propriedades 
urbanas, attribuidos a vinganças partidárias 
provenientes de umas eleições muito renhi- 
das. 

Mas lancemos um veu sobre tão negro su- 
dário, que a missão de historiador nos obri- 
gou a descobrir e, em contraposição, consi- 
gnemos também aqui os nomes de alguns 
dos muitos cidadãos beneméritos que Villa 
Nova de Foscôa tem produsido desde os 
tempos mais remotos até hoje. 

Nos fins do ultimo século a Hist. Eccl. de 
Lamego, mencionou os seguintes : 

—Guilherme Cardoso de Campos, fidalgo 
cavalleiro e coronel d'infanteria. Militou com 
distincção nas guerras da Liga e foi gover- 
nador do Castello do Alfaiates. 

— Veríssimo Cardoso de Campos, fidalgo 
cavalleiro professo da ordem de S. Bento 
d'Aviz, commendador de Meimoa e capitão- 
mór d'esta villa. 

— Antonio Cardoso de Campos, 

— Er. João Guilherme e 

— Fr. Bento Cardoso, mestres jubilados na 



1 Falleceu em 1884 na Guarda, sendo ali 
delegado do thezouro. 



VIL 



VIL 845 



ordem de S. Domingos, e todos ires irmãos 
de Veríssimo Cardoso de Campos. 

—Guilherme Cardoso, fidalgo cavalleiro 
de S. Bento d'Aviz, alferes da cavallaria 
d'Almeida e commendador de Meimoa, 

—Antonio Cardoso, também alferes de ca- 
vallaria, e 

— João Cardoso, capitão-mór d'esta villa, 
todos tres irmãos e filhos de 

—Veríssimo Cardoso, com o fôro de fi- 
dalgo, desde o 6.° avô. 

—Padre Manuel d'Azevedo, abbade de Al- 
deia Rica. Falleceu n'esta villa contando 92 
annos de idade! 

— Francisco José d'Azevedo e seu filho, 

—Luiz José d'Azevedo, foram ambos sar- 
gentos-môres d'esta villa, á qual fizeram 
grandes bens. 

— João Rodrigues de Vaseoncellos Bravo, 
capitão de cavallaria. Por suas heróicas ac- 
ções nas guerras de 170o e 1712 conquis- 
tou o appellido de Bravo. 

— Manuel Rodrigues de Vaseoncellos, ir- 
mão do antecedente, foi capitão de cavalla- 
ria nas mesmas guerras e valente militar 
também. 

— Pedro de Seixas, cavalleiro professo na 
ordem de Christo, teve o fôro de fidalgo e 
foi capitão mór d'esta villa. 

— Balthasar Mendes de Seixas, alcaide-mor 
d'esta villa, foi armado cavalleiro em Africa 
e proprietário de muitos officios públicos. 

— Simeão de Seixas, sargento-môr das 
caudelarias. 

—Manuel Ferreira de Seixas, sargento 
mór da Praça de Penamacor. 

—Sebastião de Seixas, governador da 
praça de Castello Rodrigo. 

—Fr. Gabriel da Trindade e Seixas, D. 
abbade na ordem de Cister. 

— Dr. Fr. Felisberto de Seixas, provin- 
cial dos gracianos. 

Foi doutor em theologia pela Universida- 
de de Coimbra; viveu como prior no con- 
vento dos gracianos, em Lamego, e ali foi 
mestre de moral e philosophia e examinador 
synodal. 

— Joaquim Manuel de Seixas, cavalleiro 
professo na Ordem de Christo e juiz de fóra 
em Serro Frio. 
volume x 



—Manuel de Campos Ferreira Saraiva, 
sargento-mór e governador da praça de Sal- 
vaterra da Baia. 

— Luiz Domingos Nozes, distincto juris- 
consulto. 

—Gabriel Ferreira, capitão d'infanteria 
d'Almeida. 

— Jaeyntho Lopes Tavares, mestre de 
campo d'auxiliares. 

— Isidoro Saraiva, cavalleiro de conhecida 
nobreza, distincto pelo seu nascimento e vir- 
tudes. 

—Padre Manuel Lopes, abbade de S. Ro- 
mão. 

—Padre João Saraiva, abbade de Pene- 
dono. 

—Padre Francisco d'Almeida, abbade de 
Tropêço. 

—Padre José d'Almeida, reitor de Leomil. 

—Padre João Antonio de Moura, abbade 
de Espinhosete, bispado de Bragança. 

—Fr. Manuel dos Anjos e Moura, da or- 
dem dos Pregadores, leitor em Vianna. 

— Bartholomeu Luiz Ferreira, sargento- 
mór de ordenanças, pae do grande patriota 
José Joaquim Ferreira de Moura. 

—Padre Luiz Bernardo Botelho, abbade 
d'esta villa nos fins do ultimo século, pes- 
soa de muita illustração e virtudes, e que 
foi o informador de D. Joaquim d' Azevedo, 
auctor da Historia que vamos extractando l. 

Mencionaremos ainda 3 beneméritos filhos 
de Foscôa, nascidos no ultimo século. São os 
seguintes : 

1.°— José Joaquim Ferreira de Moura. 

Nasceu em 1776 e falleceu no dia 27 de 
junho de 1829, no sitio de Palhavã, fregue- 
zia de S. Sebastião da Pedreira, no patriar- 
chado. 

Era filho de Bartholomeu Luiz Ferreira, 
pharmaceutico, proprietário e sargento-mór 
d'ordenanças, e de D. Margarida de Moura. 
Formou-se em direito na Universidade de 
Coimbra, nos princípios d'este século,— -e foi 
juiz de fóra em Aldeia Gallega do Ribatejo, 
tomando posse em 1804. Por occasião da 



1 Para a genealogia de D. Joaquim d^Aze 
vedo, V. Villa Nova d'Ourem. 

54 



846 VIL 



VIL 



primeira invasão franceza o general Junot o 
incumbiu de trasladar pára portuguez o 
Código Napoleão, pelo que se tornou sus- 
peito de jacobinismo e esteve alguns annos 
fóra do quadro da magistratura, retirando- 
se para a sua terra natal, onde entretanto 
exerceu a advocacia. 

Consta que por esse tempo escrevera e 
publicara anonyma uma interessante Alle- 
gação ou Memoria jurídica em defesa de seu 
pae, que fôra accusado d'um crime gravís- 
simo,— condemnado nas instancias inferio- 
res—e por ultimo declarado innoeente. 

Em 1820 jà estava outra vez em exercício 
no quadro da magistratura, servindo o lo- 
gar de juiz de fóra em Pinhel. 

Liberal decidido, abraçou com enthusias- 
mo as idéas politicas proclamadas no Porto 
em 24 d'agosto de 1820, e em janeiro de 
1821 tomou assento no congresso consti- 
tuinte, como deputado eleito pela província 
da Beira. 

Ligado intimamente a Manuel Fernandes 
Thomaz, foi com elle redactor do jorual O 
Independente, e tomou parte activa e muito 
saliente nos trabalhos d'aquellas côrtes, em 
que foi membro e varias vezes presidente 
das commissões mais importantes. 1 

A popularidade, de que se mostrára tão 
sequioso, não o abandonou, pois nas côrtes 
immediatas de 1822 foi simultaneamente re- 
eleito pelos círculos de Trancoso Coimbra, 
Castello Branco e Aveiro. 

Em junho de 1823 emigrou para a Ingla- 
terra e ali se conservou até 1826, data da 
proclamação da Carta Constitucional. 

Regressando ao seu paiz, dedieou-se nova- 
mente á profissão de advogado em Lisboa^ 
até que uma pertinaz hydropisia o levou á 
sepultura em 1829. 

Além de varias obras anonymas, sabe-se 
que escreveu e publicou as seguintes : 



1 Galeria dos deputados... pag. 238 a 
258— e Revelações... por J. M. Xavier de 
Araujo, pag. 81. 

Nas camarás distinguiu-se pelos seus vas- 
tos conhecimentos de sciencias sociaes, es- 
pecialmente sobre o regimen parlamentar 
francez. 



Reflexões criticas sobre a administração 
da justiça em Inglaterra . . . 2.» edição, Lis- 
boa, 1836. 4.° de 180 pag. 

Abolição da Companhia do Alto Douro. . . 
Londres, 1826, — l. a edição anonyma. Da 
mesma obra se publicou 2. a edição posthu- 
ma, em Londres também, no anno de 1832. 

Suppõe-se que foram escriptas por elle 
também, mas publicadas se mnome d'auctor, 
as obras seguintes : 

Diccionario d' algibeira politico e moral . . . 
Madrid (sem data) 12.° de 120 pag. 

O Catavento. . . Paris, 1826, 8.° gr. de 54 

O Bota-fóra do Catavento, ou a Cabeça de 
bacalhau fresco, burletla em dois actos... 
Lisboa, 1827. 

Alguém lhe attribuiu também as Cartas 
politicas de Americus. 

Para as mais circumstancias relativas a 
estas obras leia-se o Diccionario bibliogra- 
phico de Innoconcio Francisco da Silva. 

José Joaquim Ferreira de Moura casou 
com uma senhora muito illustrada e de gran- 
de prestigio também,— D. Maria Perpetua 
Lobo de Moura, e tiveram os filhos seguin- 
tes: 

A. — João Antonio Lobo de Moura, viscon- 
de de Moura, fallecido em S. Petersburgo^ 
capital do jmperio da Rússia, em 1868, on- 
de era nosso embaixador, tendo ali casado 
com a condessa Anna Aproxina (?), hoje 
condessa de Moura, irmã da princesa Bol- 
grousU (?) esposa morganática do Czar Ale- 
xandre II. 

B. — Eduardo Lobo de Moura, artistamuito 
distincto, considerado o primeiro pintor ca- 
ricaturista do mundo 1 . . . 

Ainda hoje (1885) vive perto de Londres, 
contando cerca de 70 annos de idade. 

C— D. Maria Barbara Lobo de Moura. Ca- 
sou com Julio Antonio de Luna e Vascon- 
cellos, medico-cirurgico pela escola do Por- 
to, já fallecido, e tiveram— Julio Antonio 
Luna de Moura, cavalheiro de muito mere- 
cimento, bacharel formado em direito e ad- 
vogado em Villa Nova de Foscôa, onde re- 
zide e é prezidente da camará municipal. 

D.— Augusto Lobo de Moura, fallecido em 



VIL 



VIL 



847 



Caritiba (?) no Brazil, onde era magis- 
trado. 

José Joaquim Ferreira de Moura teve vá- 
rios irmãos. Para não fatigarmos os leito- 
res, mencionaremos apenas um, — João An- 
tonio Ferreira de Moura, que foi conselheiro 
de estado, deputado ás cortes, governador 
civil do Porto e d'outros districtos, e 1.° ba- 
rão do Mogadouro. 

Falleceu no Porto e deixou uma única fi- 
lha,— D. Anna Isabel Maria de Moura Pe- 
gado e Oliveira, actual baronesa do Moga- 
douro, casada com o barão do mesmo titulo, 
—Antonio Saraiva d' Albuquerque e Vilhena, 
rezidentes na freguezia das Freixedas, con- 
celho e comarca de Pinhel, tendo uma filha 
casada com seu primo, o dr. Julio Antonio 
de Luna e Moura, supra mencionado. 

Dos tres beneméritos filhos de Villa Nova 
de Foscôa, nascidos nos fins do ultimo sé- 
culo, já mencionamos um, Joaquim Ferreira 
Soares de Moura; mencionemos agora os 
outros dois: 

2.°— Joaquim José de Campos Abreu e Le- 
mos. 

Nasceu n'esta villa em 1780 e, se não oe- 
cupou altos cargos públicos, teve uma vida 
interessante, cortada de peripécias;— foi ho- 
mem muito illustrado — e deixou de si boa 
memoria. 

Provido por concurso em 1809 na cadeira 
de grammatica latina da Villa de Freixo de 
Numão, hoje uma das freguezias d'este con- 
celho de Villa Nova de Foscôa, deixou o di- 
clo emprego e o de eserivão da camará da 
mesma Villa de Freixo para entrar na.re- 
partição do commissariado do exercito, na 
qual serviu até o fim da campanha peninsu- 
lar, merecendo ser condecorado com a me- 
dalha respectiva. 

Terminada a guerra, continuou ao ser- 
viço da mesma repartição— primeiramente 
em Elvas e depois em Lisboa, desempe- 
nhando diversas commissões tanto no tem- 
po de paz, como no das guerras civis. 

Desde 1828 se alistou sob as bandeiras do 
sr. D. Miguel, cujo exercito acompanhou até 
que a convenção d'Evora Monte (26 de maio 



de 1834) o obrigou a regressar á sua casa 
de Freixo de Numão, onde permaneceu al- 
gum tempo, occupando se exclusivamente 
nos negócios domésticos. 

Instado por alguns amigos e pela falta de 
meios, abriu uma aula de grammatica la- 
tina—primeiramente na freguezia d'Outeiro 
de Gatos (hoje concelho da Mêda)— depois 
na villa de Trancoso— e por ultimo na do 
Fundão, leccionando em todas estas locali- 
dades numerosos discípulos que muito apro- 
veitaram com as lições de tão sábio mestre. 

Exerceu no Fundão alguns cargos muni- 
cipaes— e em 1851 foi nomeado escrivão da 
fazenda d'aquelle concelho, cargo que parece 
ainda servia em 1857. 

Ignoramos a data e a localidade do seu 
fallecimento, mas sabemos que falleceu con- 
tando mais de 75 annos de idade e que es- 
creveu e publicou as obras seguintes: 

Grammatica elementar da lingua latina... 
Lisboa, 1822, cuja edição foi de 1:500 exem- 
plares e promptamente se esgotou. 

O desaggravo da Grammatica... Lisboa, 
1820,— publicação anonyma. 

Sustentação do desaggravo da Gramma- 
tica. . . Lisboa, 1822. 

Para as outras circumstancias d'estas 
obras, veja -se o Diccionario Bibliogr. de ln- 
nocencio. 

3.° — Francisco Antonio de Campos, l* 
barão de Villa Nova de Foscôa, commenda- 
dor da ordem de Nossa Senhora da Concei- 
ção de Villa Viçosa, bacharel formado em 
direito pela Universidade de Coimbra, de- 
putado ás cortes de 1823, 1834 e 1835, mi- 
nistro e secretario d'estado dos negócios da 
fazenda em 1835, par do Reino etc. 

Nasceu n'esta villa em 1 de dezembro de 
1780 (ignoramos a data do seu fallecimento) 
e foram seus paes Luiz de Campos Henri- 
ques e D. Angelica Mendes da Silva. 

Deixou grande fortuna;— foi homem muito 
illustrado,— e escreveu e publicou as obras 
seguintes : 

Relatório do Ministro e secretario distado 
dos Negócios da Fazenda . . . Lisboa, 1836. 

A lingua portugueza é filha da latin a . . . 
Lisboa, 1843 ; publicação anonyma. 



848 VIL 



VIL 



Burro d'Ouro d'Apuleio, traduzido em 
portuguez, Lisboa, 1847,— publicação ano- 
nyma também. 

São também seus vários artigos philolo- 
gicos, publicados com a assignatura— Y— 
em vários números do jornal O Pantologo, 
a pag. 28, 46, 86, 103, IH, 120, 121, 146 e 
171. 

O barão de Villa Nova de Foscôa falleceu 
sem successão, pelo que instituiu universaes 
herdeiros da sua grande casa os seus dois 
sobrinhos seguintes : 

— José Caetano de Campos e 

— Joaquim de Campos Henriques, ambos 
conselheiros formados em direito, e magis- 
trados distinctos, juizes aposentados do su- 
premo tribunal de justiça,— ambos ainda vi- 
vos e rezidentes em Lisboa. 

Para evitarmos repetições, veja-se o ar- 
tigo Pinhel no vol. 7.°— nomeadamente a pa- 
gina 97, col. 1.» 1 

Esta nobre família Campos teve e não sa- 
bemos se tem ainda um ramo na freguezia 
de Freixo de Numão, d'este concelho. 

Fez parte d'aquelle ramo e parte muito 
distincta Manuel d'Almeida Campos, natu- 
ral d'aquella freguezia, medico-cirurgião 
pela Escola Medico Cirúrgica de Lisboa, ca- 
sado cora D. Joanna Maria Rosa de Campos, 
natural de Lisboa, onde viveu e teve uma 
filha, D. Maria José Augusta Campos de 
Gusmão. 

Casou esta senhora com Francisco Anto- 
nio Rodrigues de Gusmão, bacharel formado 
em medicina pela Universidade de Coimbra, 
sócio correspondente da Academia Real das 
Sciencias de Lisboa, etc, um dos nossos 
mais distinctos eseriptores contemporâneos, 
natural de Tondella e já viuvo de D. Efigê- 
nia Victoria Ralbina Pereira Pinto Maciel, 
natural de Faro. 

Do seu primeiro consorcio não teve fi- 



1 O barão de Villa Nova de Foscoa é hoje 
muito dignamente representado n'esta villa 
pelo seu 2.° sobrinho Eduardo de Campos 
Henrique?, pessoa de muito merecimento e 
commendador da ordem de Nossa Senhora 
da Conceição de Villa Viçosa. 



lhos o sr. dr. Francisco Antonio Rodrigues 
de Gusmão, mas do 2.°, teve os seguintes : 

1. °— Francisco Antonio Rodrigues de Gus- 
mão Júnior, formado em philosophia pela 
Universidade de Coimbra ; 

2. °— Maria Francisca Campos de Gusmão; 

3. °— Manuel d'Almeida Crmpos de Gus- 
mão ; 

4. °— D. Maria José Campos de Gusmão ; 

5. °— D. Maria Joaquina Campos de Gus- 
mão. 

O sr. dr. Francisco Antonio Rodrigues de 
Gusmão (pae) nasceu na aldeia do Carva- 
lhal, termo da villa de Tondella, no dia 6 de 
janeiro de 1815. 

V. Tondella no supplemento a este diccio- 
nario, onde completaremos a biographia de 
s. ex. a 

Entretanto pode consulíar-se o Dicciona- 
rio Bibliogmphico de Innocencio Francisco 
da Silva, que lhe dedicou um bello artigo e 
mencionou nada menos de 27 obras suas, 
publicadas até 1859. 

Posto que natural da Villa de Monção, 
mencionaremos também aqui um escriptor 
distinctissimo, Padre João Salgado d'Araujo, 
porque foi abbade d'esta villa e ri'ella viveu 
muitos annos. 

E' o auctor da obra seguinte : 

Successos militares das armas portugue- 
zas... com a geographia das provindas e 
nobreza d'ellas. Lisboa 1644. 

Parece que não publicou outras obras em 
portuguez, mas, seguindo a moda do seu 
tempo, escreveu e publicou em castelhano 
as seis indicadas por Innocencio e deixou 
manuscriptas diversas obras importantes, 
mencionadas na Bibliotheca Luzitana. 

Foi zelosíssimo portuguez e douto escri- 
ptor— segundo a auetorisada opinião de D. 
Francisco Manuel de Mello. 

Entre os senhores d'esta villa conta-se 
Vasco Fernandes Coutindo, 1.° conde de Ma- . 
rialva, o qual se achou na jornada dos in- 
fantes a Tangere, em 1437. 

Foi um dos homens mais ricos e mais no- 
táveis do seu tempo, 5.° marechal meirinho- 
mór do reino, valido de D. João I, D. Duarte 



VIL 



VIL 849 



e D. AfTonso V, senhor d'esta villa e do3 
coutos d'Armamar e Leomil, bem como de 
Numão, Marialva, Ferreiros de Tendaes, etc. 

Em 1708 eram senhores d'esta villa os 
condes de Villa Nova de Portimão, hoje 
muito dignamente representados pelo sr. D. 
João de Lencastre e Távora, que por linha 
hereditária de seus maiores devia ser 9.° 
marquez de Fontes, 7.° marquez d' Abrantes, 
10.° conde de Figueiró, 13.° conde de Sor- 
telha, etc, mas renunciou todos estes títulos, 
por não querer renunciar as idéas legitirnis- 
tas de seus paes e avós. 

Nasceu em 28 de dezembro de 1864 e ca- 
sou em 16 d'abril de 1885 com a ex. ma sr. a 
D. Maria Carlota de Sá Pereira e Menezes, 
que nasceu em 4 de março de 1864, sendo 
filha da marqueza de Oldoini e neta dos. vis- 
condes da Torre dé Moncorvo. 

V. Portimão e Abrantes n'este diccionario 
e no supplemento — e a Memoria histórica, 
genealógica e biographica da Casa d' Abran- 
tes, publicada no Porto em 1883 pelo sr. 
José Augusto Carneiro, gerente liquidatário 
do ramo da casa d'Abrantes no concelho de 
Villa Nova de Gaya. 

Os marquezes d'Abrantes também possuí- 
ram um morgado em Villa Nova de Foscôa. 

No ultimo anno económico pagou este 
concelho : 

Contribuição predial 6:994$049 

Contribuição industrial 2:438$707 

Sumptuária e renda de casas.. 8iO$594 
Decima de juros 630$000 

Conta actualmente este concelho 16 ba- 
charéis formados, filhos seus, sendo nalu- 
raes da freguezia de Villa Nova de Foscôa 
(ou Fozcôa, como muito bem quizerem) os 
10 seguintes :— 1.° Julio Antonio Luna de 
Moura, 2.° José Luiz Moutinho d' Andrade» 
3.° Eduardo de Andrade, 4.° Luiz José Fer- 
reira Margarido, 5.° Alfredo Antonio d'Al- 
meida, 6.° Antonio Joaquim Margarido Pa- 
checo, 7,° José Joaquim Cavalheiro, 8.° Adria- 
no de Sousa Cavalheiro, 9.° Antonio Augusto 
d'Almeida Silvano e 10.° Ramiro Leal. 

O 1.° é prezidente da camará e advogado; 



—o 2.° é também advogado n'este auditó- 
rio; — o 3.° vive das suas rendas:— o 4.° é 
recebedor d'este concelho;— o 5.° é advogado 
no Porto;— o 6.° é juiz de direito;— o 7.° é 
1.° official no ministério da marinha, tendo 
sido delegado em Lisboa e governador civil 
na Guarda ; — o 8.° é medico e eirurgião aju- 
dante do exercito;— o 9.° é escriptor publico 
e jornalista; — o 10.° é professor d'instrueção 
primaria complementar em Sernancelhe. 

Conta este concelho também actualmente 
25 presbyteros, sendo filhos de Villa No- 
va 16. 

Poucas villas do nosso paiz 
contarão na actualidade tan- 
tos presbyteros. 

Dos 40 maiores contribuintes d'este con- 
celho hoje, pertencem a Villa Nova os 11 se- 
guintes:— Padre José Maria d'Almeida, Dr. 
Julio Antonio Luna de Moura, Commenda- 
dor Eduardo de Campos Henriques, Antonio 
Joaquim Ferreira, Cypriano Antonio Sarai- 
va, Padre José Joaquim Pereira de Sousa, 
José Julio Ferreira Margarido, José Pedro 
Saraiva, Joaquim Manuel de Sousa, José 
Marçal Chiote e João Antonio Martinho de 
Andrade. 

Os actuaes vereadores d'este concelho são: 
— Dr. Julio Antonio de Luna e Moura, pre- 
sidente,— João Antonio Moutinho de Andra- 
de, Julio Ferreira Margarido, José Costa, 
Manuel Joaquim d'Albuquerque, Augusto 
Aranda, José de Campos e José Felisberto 
de Vasconcellos. 

Os 3 maiores proprietários de Villa Nova 
de Foscôa na actualidade são— D. Antónia 
Rachel Pereira, o comnendador Eduardo de 
Campos Henriques e Antonio Joaquim Fer- 
reira. 

A estação do Pocinho dista da barca d'este 
nome apenas 35 metros para leste. 

Concluiremos este longo artigo retirando 
qualquer palavra ou phrase que possa me- 
lindrar alguém. 

VILLA NOVA DE FREIXIEIRO-ou sim- 
plesmente Freixieiro— ou Villa de Freixieiro 
— ou Villa de Freixieiro de Basto— ou Villa 
de Basto— ou Villa Nova de Basto— ou Villa 
de Celorico de Basto— aldeia e villa da fre- 



850 VIL 



VIL 



guezia de Britello, hoje séde do concelho e 
comarca de Celorico de Basto, no districto 
e diocese de Braga. 

V. Freixieiro, vol. 3.° pag. 231, col. 2.» 
— e Celorico de Basto, vol. 2.° pag. 233, 
col. l. a 

Na freguezia de Britello, sobre uma gran- 
de e ferlil veiga e junto do pequeno rio de 
Freixieiro, confluente do Tâmega, está hoje 
situada a Villa de Basto, que antigamente 
se chamou Villa Nova de Basto e vulgar- 
mente Villa Nova de Freixieiro, prevales- 
cendo o nome de Villa de Basto, vulgar- 
mente Villa de Celorico de Baste, séde do 
concelho e comarca d'este nome, para se 
distinguir da Villa de Mondim de Basto e da 
de Cabeceiras de Basto, sédes d'estes julga- 
dos e concelhos, que por varias vezes per- 
tenceram á comarca de Celorico de Basto. 

Chamou- se Villa Nova porque a sua fun- 
dação n'este sitio é relativamente moderna, 
pois a antiga e primeira séde do concelho de 
Celorico de Basto, denominada Villa de Bas- 
to, era na freguezia d'Arnoia, junto do an- 
tigo castello de Celorico de Basto— e, por 
provisão d'el-rei D. João V, com data de 21 
d'abnl de 1719, foi mudada para o sitio 
actual, tomando o nome de Freixieiro, por- 
que foi fundada ao norte e em continuação 
da antiga aldeia de Freixieiro, pertencente 
á freguezia de Britello, — junto do rio de- 
nominado Frexieiro também. 

Logo que os habitantes do concelho de 
Celorico de Basto obtiveram provisão para 
a mudança da sua séde, principiaram ali as 
obras publicas da Sova villa, taes foram o 
pelourinho, os paços do concelho, a cadeia, 
o tribunal, residência dos ministros e uma 
capella ;— depois fizeram uma ponte sobre 
o rio Freixieiro— e em seguida se edificaram 
algumas casas particulares; mas a popula- 
ção pouco se desenvolveu, porque o local è 
de pouco movimento e tem só a vida pró- 
pria da séde de um concelho grande e rico 
e de uma comarca importante. 

Quando se fundou a villa n'este sitio, re- 
partiram-se chãos por varias familias do 
concelho com o fim de as determinar a fa- 



zerem casas aqui, mas pouco partido o se ti- 
rou d'esta medida. 

O melhor edifício particular situadtdo na 
nova villa e habitado por uma familiilia no- 
bre, foi a casa mandada fazer pelo prpae do 
dr. José Bernardo Ferreira de Castro, t, 1 pes- 
soa muito considerada n'este concelho o e que 
teve os filhos seguintes: 

— Dr. Joaquim de Castro Pinto de AAthai- 
de, corregedor de Bragança ; 

— Dr. Francisco Pinto Coelho de Cadastro, 
juiz de fóra em Penalva, depois auditotor em 
Traz-os-Montes e no Porto, corregedolor em 
Beja e do eivei na corte, desembargadedor da 
relação do Porto, fazendo o logar na ca?asa da 
supplicação, e ajudante do intendente p geral 
dá policia. Foi este magistrado demittutido de 
desembargador, com muitos outros, enem sa- 
tisfação ao governo de Luiz Philippe, quiuando 
em 1831 uma esquadra franceza invaradiu a 
barra de Lisboa. Desde então ficou o dedoutor 
Francisco Pinto Coelho de Castro vivivendo 
em Lisboa e deixou filhos, entre outr tros o 
dr. José Pinto Coelho d'Athaide e Castro. o, que 
foi o ultimo juiz de fóra de Lamego,-», — e o 
dr. Carlos Zeferino Pinto Coelho, advorogado 
distinctissimo em Lisboa e um dos pririmei- 
ros jurisconsultos de Portugal n'este seseculo. 

Foram também filhos do dr. José Bern-nardo 
Ferreira de Castro os dois presbyteroros se- 
guintes : 

—José Pinto Coelho de Castro, conegigo se- 
cular do Evangelista, muitos annos i lente 
proprietário de theologia moral no semmina- 
rio de Lamego, e 

— Manuel Pinto Coelho de Castro, tammbem 
cónego secular do Evangelista e benefieficiado 
da egreja de Tendaes, no mesmo bispacado. 

Desde os tempos mais longínquos s este 
concelho de Celorico de Basto produziuiu ho- 



1 Uma tia paterna d'este dr. José Berernar- 
do casou na casa da Soalheira, fregiguezia 
d'Arnoia, com Manuel de Moura Coutiitinho, 
senhor da dieta casa. D'este Manuelel de 
Moura Coutinho é bisneto o rev. Placidolo Au- 
gusto de Moura e Vasconcello?, conegígo da 
Sé de Lamego e vice-reitor do SemÍEinario 
d'aquella diocese desde 1858 até hoje. 



VIL 



VIL 851 



raens distinctissimos nas virtudes, nas ar- 
mas e nas leltras. 

Em uma época não muito remota contava 
o desembargo do paço nada menos de qua- 
tro filhos seus— e cora rasão se jacta de ter 
sido um dos berços dos nossos réis. 

Cortam hoje este concelho as seguintes 
estradas a maeadam : 

1. a_De Guimarães e Fafe para Freixieiro, 
Cabeceiras de Basto e Villa Pouca d'Aguiar. 

Concluída e servida por diligencias. 

2. a_D a estação de Cahide, na linha fér- 
rea do Douro, para Freixieiro e Traz-os- 
Montes. 

Também já concluída e servida por dili- 
gencias. 

3. "— Da estação de Villa Mean, na mesma 
linha do Douro, para Freixieiro. 

Está concluída na parte que toca ao con- 
celho d' Amarante e ao districto do Porto. 

Como rectificação ao artigo Celorico de 
Basto, nas terras comprehendidas no foral 
de D. Manuel —em vez de Cacerelhe leia-se 
Cacerilhe, — em vez de Gotom leia-se Gatom 
— e em vez de Santa Tregoa leia-se Santa 
Tecla. 

A comarca de Celorico de Basto é hoje 
formada pelo concelho do seu nome e pelo 
de Mondim de Basto. 

O concelho de Cabeceiras de Basto forma 
hoje comarca própria, 

Na villa de Freixieiro, séde do concelho e 
comarca de Celorico de Basto, foi justiçado 
em li de julho de 1840 o celebre Manuel 
Joaquim Lopes Quijo, auctor de muitos 
roubos e assassinatos. 

V. Freixieiro no supplemento a este díc- 
cionario, onde daremos larga noticia d'este 
infeliz, como promettemos no artigo Victo- 
ria, a paginas 607, col. l. a d'este volume. 

Para esta execução se erigiu uma forca 
de madeira, que depois reduziram a cinzas. 
Na Villa Velha do Castello, antiga séde d'este 
concelho, a forca era de pedra e permanente, 
e ainda ha pouco lá se viam as duas gran- 
des pedras em que se armava. 

Os habitantes d'este concelho pediram a 
transferencia da séde por estar a Villa Ve- 



lha junto do antigo castello, que ainda lá 
existe em ruinas, em local agreste e frio. 

Quizeram mudai- a para a povoação de 
Outeiro Coelhos, da mesma freguezia d'Ar- 
noia, junto da nobre casa do Telho ; mas 
opposeram se os senhores d'esta casa, por 
não quererem visinhança tão incommoda e 
por vezes sanguinária;— e, valendo-se de um 
seu tio, então desembargador do paço, con- 
seguiram afastal-a para o logar de Frei- 
xieiro. 

V. Telho. 

Hoje (maio de 1885) este concelho de Ce- 
lorico de Basto comprehende : 



Superfície em hectares. 14:436 

Prédios inseriptos na matriz 16:460 

Freguezias 22 

Fogos 5:330 

Habitantes ••• 21:600 

O concelho de Mondim de Basto (vide vol. 
5.° pag. 400, col. l. a ) comprehende hoje : 

Superfície em hectares 24:528 

Prédios inseriptos na matriz 1:372 

Freguezias 9 

Fogos i'-86i 

Habitantes 7:546 

Total da população d'esta comarca de Ce- 
lorico de Basto : 

Freguezias 31 

Fogos 7:191 

Habitantes 29:146 

VILLA NOVA DE GAIA. 



V. Gaia n'este diccionario e no supple- 
mento. 

VILLA NOVA DOS INFANTES— ou sim- 
ples mente ín/aníes— (não Infant as)— fregue- 
zia do concelho e comarca de Guimarães, 
districto e diocese de Braga, província do 
Minho. 

Orago Santa Maria ou Nossa Senhora da 
Assumpção;— fogos (segundo o ultimo re- 
censeamento) 102 —habitantes 403. 

Beitoria. 

Em 1706 era vigairaria da mesma co- 
marca de Guimarães e da apresentação do 



852 VIL 



VIL 



convento de Pombeiro;— contava 70 fogos— 
e rendia 280*000 réis. 

Em 1768 era reitoria da apresentação do 
abbade do convento de Santo Tbyrso,— con- 
tava 78 fogos— e rendia para o seu parocho 
20*000 réis, além do pé d'altar,— segundo 
se lê no Port. S. e Profano, sob o titulo 
Villa Nova dos Infantes; — e porque o meu 
benemérito antecessor não a procurou sob 
este titulo, julgou que não fez menção d'ella 
o Port. S. e Profano. 

V. Infantas n'este diccionario, onde muito 
ligeiramente já se fallou d 'esta freguezia. 

Segundo se lê na Chorographia Moderna, 
comprehende as aldeias seguintes: Egreja, 
Renda, Assento, Boa Vista, Crujeiras, Bem 
Viver, Forte, Soutinho, Pupa, Bouça da 
Pupa, Pedreira das Boucinhas, Covo Novo, 
Covo Velho, Retorta, Retortinha, Barreiro, 
Fervença, Fojo, Roferla, Paço, Vinha, Ca- 
breira, Casas Novas, Serviçaria, Temporei- 
ra, Bouça, Boucinhas, Sebello, Santa Sara, 
'Freixieiro, Balloral (ou Ballarda?) Redolho, 
Devesa, Sardoal, Quinteiros, Pinheiral, Cas- 
tanheira, Fonte, Eidos, Arieiro, Quinhões, 
Casal, Souto, Souto do Casal, Porta, Outeiro, 
Pouzadouro, Carreiro, Levada, Leira, Ribei- 
ra, Ferraz, Outeirinho e Rezidencia. 

Total— 84 aldeias com 102 fogos ! . . . 

Valha-nos a Senhora do Monte do Car- 
mo I 

Com certeza são aldeias de mais; mas in- 
felizmente não temos para este artigo apon- 
tamentos próprios e por isso as não pode- 
mos reduzir aos seus justos termos. 

Ahi ficam pois as 84 aldeias sob a res- 
ponsabilidade do sr. João Maria Baptista. 

Agora outra questão : 

O Padre Carvalho em 1706 (desculpem -me 
os seus apologistas) sendo aliás uma illus- 
tração superior, fallaildo d'esta freguezia 
deu-lhe o titulo de Villa Nova das Infantas 
-—«nome que tomou (diz elle) de alli se cria- 
rem as irmãs dei Rey D. Affonso Henriques 
quando tinhão sua Corte em Guimaraens.» 
Chorogr. Port. vol. l.° pag. 109. 

Não obstante o exposto, D. Antonio Cae- 
tano de Lima em 1736 {Geogr. Histórica, vol. 



2.° pag. 493) denominou esta freguezia Willa 
Nova dos Infantes. 

O mesmo titulo lhe deu em 1768 Paaulo 
Dias de Nisa no Port. Sacro e Prof.,—)bem 
como o Flaviense em 1882 e José Antconio 
d'Almeida em 1866— «por aqui se creairem 
os irmãos de D. Affonso Henriques» — diz 
elle ; mas, apoiados na Chorographia Poirtu- 
gueza, outros muitos chorographos optairam 
pelo- titulo de Villa Nova das Infantass. O 
meu antecessor e com elle o sr. João Miaria 
Baptista, denominaram-na simplesmente* In- 
fantas—e assim a denominam o Censoi de 
1878, o mappa das Dioceses, em 1882,,— e 
outras publicações offieiaes. 

O sr. João Maria Baptista (Chorogr apphia 
Moderna, vol. 2.°, pag. 484) insurge-se> até 
contra os que dão a esta parochia o tittulo 
dos Infantes. 

« A E. P. {Estatística Parochial) e D>. C. 
(Diccionario Chorographico d'Almeida) di- 
zem que o chamar-se esta freguezia Willa 
Nova dos Infantes é por ali terem sido area- 
dos os irmàos de D. Affonso Henriques; eirro 
manifesto (diz o sr. João Maria Baptista) ppois 
declara Carv. 0 e o confirma o D. G. M. (fflic- 
cionario gecgraphico manuscripto) que alli se 
crearam as infantas D. Sancha, D. Urracsa e 
D. Thereza, irmãs de D. Sancho I, filhos i de 
D. Affonso Henriques.» 

Em erro manifesto, porem, laboram (dles- 
culpem-nos s. ex. as ) todos quantos deraom e 
dão a esta parochia o titulo das Infanttas, 
pois deve denominar-se VHla Nova dos ãn- 
f antes, como vamos demonstrar : 

Segundo se lê na Historia de Portugal de 
Alexandre Herculano (vol. 2.° pag. 86) e na 
Monarchia Luzitana (Parte IV, fl. 33, v.) 
D. Sancho í teve de D. Maria Ayres de Fcor- 
nellos dois filhos naturaes, Martim Sanclhes 
e D. Urraca Sanches. 

D'estes dris infantes— e não das irmoãs 
nem irmãos de D. Affonso Henriques— ntem 
das irmãs de D. Sancho I — tomou esta ppa- 
rochia o titulo, porque a estes dois infanttes 
a doou D. Sincho I e n'ella foram creadcos. 

No testamento de D. Sancho (Monarclàia 
Lusitana, Parte IV, fl. 290, v.) se lê o sse- 
guinte : i. ..Et istae sunt haereãitates qmas 



VIL 



VIL 



853 



dedi filiis meis quos habeo de Donna Maria 
Arias, Villa Nova, ete.» 

Em vulgar' diz esta verba do testamento 
de D. Sancho I o seguinte :— « . . .E estas são 
as herdades que dei aos meus filhos que te- 
nho de D. Maria Ayres,— Villa Nova, etc.» 

E em seguida na mesma verba menciona 
os nomes dos ditos dous filhos,— D. Martim 
Sanches e D. Urraca Sanches, dizendo que 
déra mais áquelle oito mil morabitinos e a 
esta sete mil, da torre de Belver. 

Viveram os ditos dois infantes n'esta Villa 
Nova e depois a venderam, como se lê na 
Benediciina Luzitana (vol. 2.° pag. 32) pois 
fallando do Mosteiro de Santo Thyrso e do 
abbade D. Silvestre, que governou pelos an- 
nos de 1225, n'ella textualmente se lê o se- 
guinte:— «Em tempo d'este Prelado vende- 
ram ao Mosteiro aquelles dois irmãos Dom 
Mariym Sanches, e Donna Urraca Sanches, 
filhos ambos do dito Rey D. Sancho, e de 
Donna Maria Ayres de Fornelo, venderão 
como digo Gulains e Villa Nova dos Infan- 
tes (que fica entre Guimaraens, e Pom- 
beyro, terras que seu pay lhes tinha dado). 
E D. Urraca, como mais pia, e devota, dei- 
xou liberalmente ao Mosteyro certa vinha e 
casaes alem do couto de Villa Nova, que ven- 
deu. A qual venda o nosso Papa Gregorio IX 
aucterisou, e confirmou. Tinha este couto de 
Villa Nova eivei, e crime, como diz el Rey 
D. João de Boa Memoria em hua demarca- 
ção, que d'elle mandou fazer.» 

Julgo pois ter provado exuberantemente 
que esta freguezia foi propriedade, vivenda 
e couto dos infantes D. Martim Sanches e 
D. Urraca Sanches, filhos de D. Sancho I— 
e que, em attençào a elles, se denominou e 
deve denominar Villa Nova dos Infantes, ou 
simplesmente Infantes— e não Infantas, ou 
Villa Nova das Infantas. 

Demora esta freguezia na margem direita 
do rio Vizella, do qual dista a sua egreja 
parochial apenas meio kilometro,— 2 da es- 
trada real de Guimarães a Fafe, para S. — e 
6 de Guimarães para E. S. E. 

Junto da egreja matriz d'esta parochia ha- | 



via em 1379 (não sabemos se haverá hoje 
ainda) uma fonte denominada Onega, se- 
gundo diz Viterbo, pois sob a palavra Coomha 
se lê no Elucidário o seguinte : — Por coomha 
havia El-Rei daver huuma taça dauga de 
huuma fonte, que está a par da Igrejd de 
Villa Nova (das Infantes, que he em terra 
de Sá, riba de Visella) que chamam, fonte 
d' Onega, e hum carneiro. 

Doe. de Santo Thyrso de 1379. 

Aquella pena da taça d'agua recorda-nos 
uma outra muito semelhante : 

Desde tempo immemorial houve gran- 
des questões, desordens, ferimentos, mortes 
e demandas entre a villa de Manteigas, ao 
sul da Serra da Estrella, e.a villa de Gou- 
veia, ao norte, por causa dos montados e 
pastagens. Foi uma d'essas demandas jul- 
gada, ha muito, em favor da Villa de Gou- 
veia, impondo o juiz á camará, de Manteigas 
a pena de ir incorporada no dia de S. João, 
depois de soar a meia noite da véspera, á 
fonte de S. Pedro da mesma villa, colher 
um copo d'agua e mandai -o com 240 réis á 
camará de Gouveia todos os annos, devendo 
fazer se a entrega no mesmo dia, antes de 
nascer o sol, — o que ainda hoje se cum- 
pre! 

V. no supplemento Gouveia e Manteigas, 
povoações muito nossas conhecidas. 

Notem que as duas villas distam uma da 
outra mais de 15 kilometros de serra e são 
muito abundantes d"agua ! 

Sobre esta freguezia dos Infantes pesou no 
dia 7 de agosto de 1884 uma trovoada me- 
donha, O Commercio de Guimarães descre- 
veu-a nos termos seguintes : 

«Após uma fortíssima descarga eléctrica, 
cahíram duas faíscas no antigo solar das 
Curugeiras, que hoje pertence ao sr. An- 
drade, tenente de infanteria, matando uma 
d'ellas uma pobre mulher, que tinha ido le- 
var pão áquella casa. 

Em uma sala estava a esposa do sr. An- 
drade com um filhinho e a padeira, que, to- 
mada de susto, pedira para se demorar. 
Como as descargas eléctricas se succediam 
violentamente umas após outras, a esposa do 
sr. Andrade foi buscar um livro para orar, 



854 VIL 



VIL 



ficando na sala a creancinha e a infeliz mu- 
lher. N'esta oecasião, uma faisca cahiu em 
uma cornija da casa, desceu, e, entrando por 
uma janella, fulminou a padeira, lambendo- 
Ihe umas contas de ouro, que trazia ao pes- 
coço, passando em seguida para a região 
lombar, aonde lhe abriu profundos sulcos 
na massa muscular. 

N'este momento chegou a esposa do sr. 
Andrade, que á vista d'aquelle horroroso 
espectáculo gritou por seu marido, que en- 
tão descansava. O sr. Andrade appareceu 
immediatamente, e tratou de apagar o in- 
cêndio, que já lavrava nas roupas da des- 
venturada mulher. A creancinha escapou 
milagrosamente d'este incidente, não rece- 
bendo contusão alguma.» 

VILLA NOVA DE LANHESES— V. Lanhe- 
ses, vol. 4.° pag. 47, col. 2. a 

VILLA NOVA DE MIL FONTES— villa ex- 
tincta e freguezia do concelho e comarca de 
Odemira, dislricto e bispado de Beja no 
baixo-Alemtejo. 

Orago Nossa Senhora da Graça. Fogos 
(pelo ultimo censo) 165, — habitantes 659 ; 
mas hoje tem 172 fogos e 703 habitantes. 

Priorado. 

Em 1708, segundo se lê na Chorographia 
Portugueza, esta parochia era villa, séde do 
concelho do seu nome, formado por ella e 
pela do Cercal, hoje do concelho de S. Thiago 
de Cacem, — e contavam ambas (não esta só 
como se lê na Chorographia Moderna) 400 
fogos. Era da comarca do Campo d'Ourique, 
arcebispado d'Evora, e commenda da ordem 
de S. Thiago;— tinha prior e um beneficiado, 
freires da mesma ordem,— casa de Miseri- 
córdia com seu hospital,— uma ermida de 
S. Sebastião, outra de Nossa Senhora da 
Cella, outra de S. Bernardino de Senna— e 
um castello com 12 peças d'artilheria. For- 
mavam o seu governo civil 2 juizes ordiná- 
rios, 3 vereadores, 1 procurador do conce- 
lho, 1 escrivão da camará, 1 juiz dos órfãos, 
2 tabelliães do judicial e notas e 1 alcaide. 
Tinha finalmente duas companhias d'orde- 
nanças na villa e uma no seu termo, ou na 
freguezia do Cercal. 

Em 1736, segundo se lê na Geogr. Hist. de 



Lima (tomo 2.° pag. 692) contava estaa fre- 
guezia 83 fogos com 275 habitantes— e ) a do 
Cercal 183 fogos com 852 habitantes, seendo 
o total da população d'este concelho de ; Villa 
Nova de Mil Fontes 266 fogos e 1:127 alilmas. 
Parece-nos pois incrível que em 1708, oou28 
annos antes, contasse 400 fogos, comao diz 
Carvalho. 

Em 1768, segundo se lê no Port. S. e i Prof. 
era priorado da apresentação d'el-rei i pelo 
tribunal da Mesa da Consciência,— reendia 
para o seu prior 3 moios de trigo^ 2 dde ce- 
vada e 15$000 réis em dinheiro, aforai o pé 
d'altar— e contava apenas 48 fogos 1 

Em 32 annos a sua população baiiixou» 
pois, de 83 fogos a 48;— hoje porém cconta, 
como já disemos, 172 fogos. 

Segundo se lê na Chorographia Modderna, 
comprehende esta parochia, além da villlla, os 
montes ou casaes seguintes:— Eira dda Pe- 
dra, Aivadas, Poço, Furna do Poço, Azzenha 
Feteira, Pousadas, Queimado, Zambujijeiro. 
Parreira, Casa Nova, Godins, Brejo, , Boa 
Vista, Adail, Soudo, Alpendrada, Moinhho da 
Cella, Porto da Mó, Agoinha, Cascalhheira, 
Casa Velha, Moinho do Barranco, Moinhho da 
Asneira, Gama, Bate Pé, Galeado, Amaeiral, 
Freixial, Pereira, Laranjeira, Lameira, , Bru- 
nheiras— e os sitios de Vidigal, Barrranco, 
Val de Porcas e Cella, cada um com 2 ccasas. 

As suas herdades principaes hoje sãoo a do 
Sôdo, pertencente a Antonio Felix da ( Cruz, 
—a de Alpendurada, pertencente ao c conde 
do Bracial,— a das Pousadas, pertencennte ao 
dr. José Maria d'Andrade— e a de DeWivado, 
pertencente a Brissos José. 

Freguezias limitrophes : Sines, Cerceai, S. 
Luiz e Odemira. 

Demora esta villa no extremo occiddental 
do Baixo-Alemtejo e na costa do maar, em 
terreno plano e. arenoso, cerca de 30 ) kilo- 
metros ao sul do cabo de Sines e 15 ao ) norte 
do cabo Sardão, na margem direita e rna foz 
do rio Mira, que é navegável para embbarca- 
çòes de cabotagem até á villa e parochhia de 
Odemira, séde do seu actual concelhho, do 
qual dista 26 kilometros pelo rio e 118 por 
terra. 



VIL 



VIL 



855 



É limitada esta freguezia ao norte pela pe- 
quena ribeira dos Vidigaes,— ao poente pelo 
oceano,— ao sul pelo rio Mira— e ao nascente 
pela cordilheira de montanhas que nascendo 
junto d'Alcacer morre em Odemira, corren- 
do parallela ao mar. 

Esta parochia desde tempos muito anti- 
gos formava com a do Cercal o concelho de 
Villa Nova de Mil Fontes, extincto por de- 
creto de 24 d'outubro de 1855, pelo qual 
passou para o de Odemira, cujos concelhos 
limitrophes são Aljesur e Monchique, no Al- 
garve, ao sul,— S. Thiago de Cacem, na Ex- 
tremadura, ao norte— e Aljustrel e Ourique, 
no Alemtejo, a E. N. E. 

Dista actualmente 55 kilometros da linha 
férrea do sul (estação de Casevel) mas, logo 
que se abra á circulação o complemento 
d'esta linha, hoje em construcção, de Case- 
vel a Faro, deve ter n'ella estação muito mais 
próxima. 

Os templos d'esta parochia hoje reduzem- 
se á sua egreja matriz e a duas capellas pu- 
blicas. 

A matriz é muito antiga e de modesta fa- 
brica, e demanda urgente restauração. Sup- 
põe se que data do reinado de D. João III 
(1521-1557) e se acha bastante arruinada. 

As duas capellas são as seguintes:— S. Se- 
bastião, na extremidade norte da villa— e 
Nossa Senhora da Cella (hoje com a invoca- 
ção de Santo Antonio) cerca de 8 kilome- 
tros para N. E.— entre altos serros, mas em 
sitio pittoresco e muito aprazível. Suppõe- 
se que junto d'ella viveram em tempos re- 
motos alguns monges em eommunidade. 

Da antiga capella de S. Bernardino de 
Senna já nem restam vestígios, — bem como 
da de Santo Isidoro que, segundo diz Car- 
valho, estava em sitio altissimo, do qual se 
avistava Lisboa. 

Segundo se lê no Agiologio Lusitano, (vol. 
3.° pag. 327 e 333) é muito interessante a 
historia da mencionada capella de S. Ber- 
nardino: 

Pertenceu á ordem dos frades menores 
franciscanos da província do Algarve um 
religioso de nome Bernardino, que era um 
modelo de virtudes. 



Sendo conventual de Xabregas, conmi- 
modava-o o bulício da côrte, pelo que pas- 
sou para o seu convento de Odemira, um 
dos mais solitários da ordem e, desejando 
ainda vida mais austera e penitente, foi ha- 
bitar uma gruta que descobriu junto de 
Villa Nova de Mil Fontes, onde vivia como 
perfeito anachoreta, completamente separa- 
do do mundo. 

Foi muito sentida em Lisboa a sua ausên- 
cia, nomeadamente pelo regedor das justiças 
Diogo da Silva, de quem era confessor, pelo 
que, aproximando-se a quaresma, Diogo da 
Silva rogou ao provincial da ordem que o 
chamasse a Lisboa para se desobrigar com 
elle. Escreveu-lhe logo o provincial chaman- 
do-o, e o pobre anachoreta, dócil á voz do 
seu superior, embarcou na 1.» caravella que 
de Villa Nova de Mil Fontes partiu para 
Lisboa e que naufragou na viagem, pere- 
cendo o santo anachoreta. O facto determi- 
nou os habitantes de Villa Nova de Mil Fon- 
tes a erigir na gruta que o santo monge ha- 
bitara uma capella dedicada a S. Bernardino 
de Senna, já então canonisado, e lhe fizeram 
muitos annos pomposa festa com especial 
commemoração do santo anachoreta, Fr. 
Bernardino, cuja morte teve logar pelos an- 
nos de 1533. 

Foi Villa Nova de Mil Fontes um dos pri- 
meiros concelhos de Portugal, dando-lhe 
essa primasia D. Alfonso III quando, expul- 
sos os mouros de todo o Alemtejo, começou 
a cuidar da administração do reino. 

Foi. esta villa tomada aos mouros pelo 
bispo de Lisboa D. Soeiro, com ajuda dos ca- 
valleiros de certa crusada. 

Alguém diz que D. Alfonso III lhe deu 
foral, mas Franklim não o menciona ; ape- 
nas sabemos que D. Manuel lhe deu fo- 
ral novo em Lisboa, no dia 20 d'agosto de 
1512. 

Liv. de Foraes Novos do Alemtejo, fl. 42, 
v. col. 2." 

Desde os princípios do século xvi (não sa- 
bemos se por disposição expressa no foral 
de D. Manuel, se por algum alvará posterior) 
esta villa e a de Sines pagavam annualmente 
da dizima do pescado quatrocentos mil réis 



856 



VIL 



VIL 



ao immortal descobridor da índia, D. Vasco j 
da Gama. 

Também já por aquelle tempo e até o j 
principio do século xvm, esta villa teve casa 
de Misericórdia e hospital, o que tudo re- I 
vella a sua importância; começou porem a I 
sua decadência muitos annos antes com os 
repetidos assaltos dos piratas argelinos, por 
estar junto da costa. 

No principio do reinado de D. João II, por 
exemplo, saltaram os mouros em terra e sa- 
quearam e incendiaram esta villa, deixan- 
do-a quasi deserta. 

Foi uma verdadeira razzial 

Para a defender e amparar, o mesmo rei 
lhe concedeu o privilegio de conto para 50 
homisiados, permittindo-lhes o viverem li- 
vremente na villa e seu termo, com a condi- 
ção de a ajudarem a rebater as investidas 
dos mouros, — o que foi de grande alcance, 
porque os prineipaes moradores da villa ti- 
nham abandonado as suas casas e procurado 
domicilio mais seguro longe da costa. Lar- 
gos annos porem continuou a soffrer insul- 
tos dos corsários, não tão repetidos, mas 
ainda mais audaciosos. 

No fim da ominosa occupação filippina, 
pelos annos de 1638, tres barcos argelinos, 
acobertados pelos rochedos da praia do sul, 
poderam sem serem vistos ancorar, já de 
noite, detraz da Pedra da Atalaya. D'ali 
marchou muito astutamente um d'elles para 
o Canal, dois kilometros ao norte da villa, 
ficando os outros escondidos na Atalaya. 

Ao romper da manhã desembarcaram os 
mouros que tinham ido para o Canal, e des- 
truíram e saquearam um casal próximo, 
cujos alicerces ainda hoje lá se veem. Cor- 
reram logo em tropel em soceorro do dicto 
casal os moradores da villa e, aproveitando- 
se da bem calculada ausência dos seus ha- 
bitantes mais validos, de repente foi inves- 
tida e saqueada pelas guarnições dos outros 
dois barcos argelinos, levando captivos mui- 
tos dos seus habitantes que não poderam 
fugir, entre elles o prior d'esta parochia, 
pois indo já a distancia volveu árectaguar- 
da com o fim de retirar da egreja o SaDtis- 
simo Sacramento e salval-o de profanação. 



Cahindo em poder dos mouros, foi !ev,vado 
captivo para Argel, d'onde annos depoois o 
resgatou D. João IV. 

Este mesmo rei, condoído de tantos i des- 
gostos, mandou fazer um castello paraa de- 
fesa d'esta villa, — castello hoje ena ruinnas, e 
o guarneceu com 6 peças d'artilheria e ( duas 
companhias de soldados, obrigando ?alem 
d'isso os moradores da villa e do seuteermo 
a irem apresentar-se ao governador, logo 
que ouvissem o signal de rebate, quee era 
um tiro de peça e o toque do sino do ) eas- 
tello. Tinha este uma ponte levadiça, foossos, 
barbacan, paiol, capella,acommodaçõesppara 
a guarnição, etc. 

Quando el-rei D. Manuel deu foral a i esta 
villa, chamava- se ella MU FonUs; D. . Ma- 
nuel lhe deu o titulo de Villa Nova, taalvez 
pelo facto de a repovoar,— e desde entãão se 
denomina Villa Nova de MU Fontes,— nnome 
que alguns auctores julgam muito bemfaapro- 
priado, nomeadâmente o sr. João Mariaa Ba- 
ptista na sua Chorographia Moderna, pois 
fallando d'esta villa diz o seguinte: «De 
aguas é tão abundante que deve o seu nnome 
ás muitas fontes que brotam na villa e \ seus 
arredores.» 

Saibam porém os leitores que ri estai villa 
não ha uma única fonte ! Toda a sua aagua 
se reduz á de tres poços ! 

Não é pois da agua que brota na villa % que 
lhe provem o nome de Villa de MU Fonntes, 
mas dos muitos arroios que nas suas i visi- 
nhanças, ao longo da costa, se dirigenm da 
terra para o mar, sendo magnifica e até í me- 
dicinal a agua de muitos d'elles: mas o j meu 
illustrado amigo, commendador e dr. i Abel 
da Silva Ribeiro, que possue aqui propprie- 
dades e que tem feito largos estudos e | pro- 
fundas investigações com relação a esta a pa- 
rochia, diz o seguinte : 

«Supponho que o nome de Mil Fo'ontes 
provem do de mellis fons, com que oss ro- 
manos designavam todo o terreno que i cir- 
cumdava aquella povoação, por ser ahbun- 
dantissimo de mel de superior qualidadde em 
rasão das plantas aromáticas de que eraa ex- 
trahido.- Ainda hoje o mel d'aquelles stsitios 
é muito estimado pelo seu delicado sabbor.» 



VIL 



VIL 857 



Em um livro das actas da extincta ca- 
mará d'esta villa, relativo ao armo de 170o, 
se acha uma postura curiosíssima: — a pena 
de cincoenta réis imposta a toda a mulher 

que tivesse má língua e discutisse no soa- 
lheiro as vidas alheias!. . . 

Esta parochia de Mil Fontes foi uma das 
primeiras terras da península que ouviram 
os vagidos da infância do homem. 

As excavações que em diversos pontos 
d'esta freguezia mandou fazer, ha annos, o 
sr. dr. Abel da Silva Ribeiro, provaram evi- 
dentemente que o homem prehistorico aqui 
viveu e aqui esboçou a sua primitiva eivili- 
sação. 

Aqui encontrou s. ex. a numerosos macha- 
dos e outros muitos instrumentos de pedra 
polida, de cobre e de bronze, que mandou 
para o Muzeu Archeologico de Lisboa — e 
maior e mais abundante seria a colheita, se 
se continuasse e alargasse a exploração. 

O mesmo benemérito archeologo aqui en- 
controu parte d'uma piroga, feita (se suppõe) 
do tronco de um roble cavado por meio de 
fogo e de golpes de machado de pedra,— es- 
boço imperfeitíssimo, embrião primordial 
das nossas embarcações, dos nossos grandes 
paquetes e dos nossos temíveis couraçados 
— ad majorem humanitatis gloriam I 

Foi encontrado este primoroso espécimen 
archeologico enterrado no lodo, a quatro 
metros de profundidade. 

Willemain e Brué (Etienne Robert) dizem 
que a Villa Nova de Mil Fontes fôra dado 
pelos romanos o nome de Porlus Annibalis, 
mas o sr. dr. Levy Maria Jordão, nas suas 
Portugaliae Inseri ptiones Romanae, pag. lví 
— e outros muitos auctores, sustentam que o 
Portus Annibalis é villa Nova de Portimão. 
Quer, porem, fosse ou não fosse o Porlus 
Annibalis, foi com certeza esta villa muito 
anterior a oceupação romana, como se in- 
fere dos mencionados espécimens prehisto- 
ricos. 

Também não duvidamos de que foi oceu- 
pada pelos cartagineses, porque nas explo- 
rações feitas pelo sr. dr. Abel da Silva Ri- 



beiro, em um promontoriosinho ao norte da 
entrada da barra, se encontraram differentes 
utensílios usados por elles,— louça, arpões, 
anzoes, pregos de cobre e alicerces dos tan- 
ques em que faziam a salga do peixe. 

De uma passagem de Strabão parece con- 
cluir se também que algumas vezes se abri- 
gou na barra de Mil Fontes a armada de 
Annibal,— e Hamílcar no seu Périplo falia 
d'este posto como muito vantajoso para se- 
gurança dos navios acossados pelos ventos 
de oeste e sul. 

Da oceupação de Mil Fontes pelos celtas, 
phenicios e grego?, etc, não são raras as 
provas,— e da oceupação romana abundan- 
tíssimas. Aqui deixaram não só utensílios, 
moedas e sepulturas, mas palavras da sua 
própria linguagem, que ainda hoje subsis- 
tem. 

Villa Nova de Mil Fontes é hoje uma das 
mais pequenas e humildes parochias do con- 
celho de Odemira, não porque o terreno, 
apesar de areiento, deixe de remunerar o 
agricultor, mas porque a indolência dos po- 
vos do littoral aceresce a falta de braços e 
de recursos de toda a ordem, nomeada- 
mente de boas vias de communicaeão. 

As suas producções dominantes são— trigo 
de excellente qualidade, principalmente o 
tremez,— milho, feijão, arroz e fructas ma- 
gnificas, merecendo especial menção os fi- 
gos, melancias e melões. 

É tambern mimosa de hortaliça e de pei- 
xe, tanto do rio como do mar. 

Como prova do muito que esta villa deve 
ao sr. dr. e commendador Abel da Silva Ri- 
beiro, citaremos ainda dois factos importan- 
tes : 

1. °— Uma pequena quinta modelo que s. 
ex. a aqui possue e que pode considerar-se 
uma eschola agrícola, tal é o mimo, excel- 
lencia e variedade das suas producções. 

2. ° — Os ensaios sobre piscicultura que 
em um dos pontos da costa s. ex. a já fez por 
duas vezes em 4 espécies de peixes d'agua 
salgada 1 com óptimo resultado, o que prova 

1 As 4 espécies de peixes foram: — labrax 



ta % 



858 



VIL 



que, se em Portugal a piscicultura fôra con- 
venientemente dirigida e auxiliada pelos po- 
deres públicos, podíamos ter uma alimenta- 
ção sadia, barata e abundante e não neces- 
sitávamos de importar, como importamos, 
peixe sec.co no valor approximado de dois 
mil contos por anno ! . . . 

Seria para desejar que o nosso governo ? 
seguindo o exemplo dos Estados Unidos da 
America, prestasse a devida attenção á pis- 
cicultura, aproveitando o exemplo dado pelo 
sr. dr. Abel da Silva Ribeiro. 

Agora mesmo tive a honra de receber de 
s. ex. a uma carta sobre o assumpto. É tão 
interessante que não posso resistir á tenta- 
ção de transcrever o tópico seguinte : 

«Foram os primeiros ensaios feitos em 
Portugal— e creio que na Europa— em es- 
pécies d'agua salgada;— muito imperfeitos 
e sem luz alguma que me guiasse, pois que 
os trabalhos especiaes apenas tractam de 
piscicultura das espécies d'agua doce, mas, 
apesar de ser uma coisa inteiramente nova 
para mim e de adoptar um methodo muito 
imperfeito,— o resultado excedeu a minha 
expectativa. Foi grandioso, magnifico,— 
d'aquelles que aniquilam o espirito do ho- 
mem, fazendo-o curvar até o pó e confessar 
a existência de Deus, se antes o não conhe- 
cia! Felizmente eu não precisava d'essa pro- 
va, e por isso, ao ver tão esplendido suces- 
so, tal foi o meu enthusiasmo e a minha con- 
fusão, que chorei ! . . . 

«Apenas houve uma perda d'ovos de 4 a 
5 por cento, que não fecundaram. Decorri- 
das algumas semanas estiveram dois ho- 
mens deitando ao mar baldes e baldes— não 
d'agua, mas litteralmente de peixes, durante 
dois dias 1 Já a esse tempo os pequeninos 
peixes podiam fugir á voracidade dos maio- 
res; e tanto foi a abundância d'elles que, 
passados mais de oito annos, ainda hoje 
n'aquelle sitio se encontra prodigiosa quan- 
tidade de peixe, pois, sendo de espécies es- 
tacionarias, se tem conservado por ali. 



lúpus (roballo) — chrysophys aurata (dou- 
rada)— mugil cephahis (tainha)— e sobavul- 
garis (linguado). 



VIL 

«Ha dois annos mandei eu ali fazer r uma 
pescaria, cercando uma pequena bahiaia ou 
recanto do rio, junto ao mar; isto na o occa- 
sião de maré cheia; e, na vasante, colhehemos 
mais de quarenta arrobas de peixel 

«Fiz mais dois ensaios com a mesmma fe- 
licidade, pelo que fiquei verdadeirammente 
fanático pela piscicultura. Empreguei ;i altas 
diligencias para que fosse convertido ei em lei 
o projecto que o meu mallogrado amigígo dr. 
Pires de Lima apresentou na camará s sobre 
o assumpto. Desejava ir para Aveiro en-nsaiar 
em grande o meu methodo e, como mene ali- 
mentava o fogo sagrado da experienciaia e do 
enthusiasmo, creio que alguma cousa fi faria. 
Era uma industria nova no aperfefeiçoa- 
mento da qual eu empenharia o meu p pouco 
saber, mas toda a actividade e a exubtberan- 
cia de vida com que a natureza me d(dotou. 
Nada, porém, consegui; e n'um excesssso de 
indignação, lancei ao fogo todos os mmanu- 
seriptos que já tinha sobre piscicultura a e que 
me custaram dias e dias de grande ti traba- 
lho,— fadigas do corpo, zangas, motejejos da 
multidão ignara — e por fim o despreseso de 
quem tinha obrigação de olhar mais s séria- 
mente pelo futuro de Portugal. 

«Tudo destrui — e, desenganado aindídapor 
outra tentativa para que o governo aprprovei- 
tâsse a minha boa vontade e a minhma de- 
dicação em pró da archeologia, — ababando- 
nei aquellas duas especialidades e hojoje de- 
dico-me aos meus doentes e. . . a culultivar 
batatas e couves !» 

É infelizmente assim que em Portutugal se ] 
aproveitam as dedicações e os talentosos e se 
premeia o estudo, o trabalho e o desintereresseí 

Não temos a honra de conhecer pesessoal- 
mente o sr. commendador Abel da Silvlva Ri- 
beiro, mas sabemos que, alem de serer for- 
mado pela Eschola Medico-Cirurgicica do] 
Porto e um clinico de primeira plamna,— é 
uma illustração superior, um archeieologo 
dístincto, um cavalheiro estiroadissimoio e um 
patriota benemérito, dotado de grandele acti- 
vidade e energia. Mal avisado andou,u, pois 
o governo não aproveitando tão raroro con- 
juncto de dotes. 



VIL 



VJL 859 



Para a biographia de s. ex. a e de seu ir- 
mão Francisco da Silva Ribeiro, digníssimo 
director das obras publicas na Guarda, ha 
muitos annos, veja-se o artigo Pinheiro da 
Bemposta, vol. 7.° pag. 5o,~- e na pag. 2. a do 
Diário Popular de 26 de setembro de 1883, 
o bello artigo datado de Villa Nova de Mil 
Fontes, todo dedicado ao sr. dr. Abel da 
Silva Ribeiro e ás nobilíssimas qualidades 
que o distinguem. 

Esta villa, desde que foi tomada aos mou- 
ros, pertenceu á ordem de S. Thiago e tinha 
aqui ella uma boa commenda, que andou 
muitos annos na casa do marquez das Minas. 

A freguezia do Cercal, hoje autónoma, foi 
um curato annexo a esta parochia de Mil 
Fontes. Os parochos de uma e outra eram 
freires da ordem de S. Thiago, apresentados 
por ella e pagos pelo rendimento da dieta 
commenda. 

Cerca de 12 kilometros ao norte d'esta 
villa e a pequena distancia da costa se vé 
no oceano a Ilha do Pecegueiro, que os phe- 
nicios denominavam Petamia, como diz João 
de Marianne nas suas Antiguidades de Res- 
panha. 

Ali se encontram ainda actualmente ves- 
tígios de remota oceupação. 

A barra de Mil Fontes está hoje muito 
obstruída pelas areias que o vento norte e 
as chuvas teem arrastado para ella dos Mê- 
does da Eira da Pedra e da Rocha dos Pre- 
tos; mas não ha muito era accessivel a na- 
vios d'alto bordo. 

Ainda em 1828 deu entrada e sahida á 
fragata de guerra inglesa Terros, capitão 
Hoop, com agua aberta em viagem para a 
índia, e a um brigue que a rebocou para 
Lisboa,— isto em maré vasia d'aguas vivasl 

Dentro do rio foi concertada a fragata e 
sahiu depois com a mesma facilidade com 
que entrou. 

Este facto mostra que podiam e deviam 
aproveitar-se as magnificas condições da 
barra e da bacia que fórma o rio, para abrigo 
das embarcações acossadas pelo vento dos 
quadrantes sul e oeste; mas infelizmente em 



Portugal a politica absorve todas as atten- 
ções dos nossos governantes e não lhes so- 
bra tempo para mais nada. 

Diremos ainda que nos últimos annos esta 
barra, não obstante o seu completo aban- 
dono da parte dos nossos governos, parece 
ter melhorado um pouco, pois a ella teem 
vindo alguns navios carregar minério das 
minas de S. Luiz. 

Nos velhos paços do concelho funeciona 
hoje uma esehola ofíicial de instrucção pri- 
maria elementar para o sexo masculino. 

VILLA NOVA DE MONSARROS-villa e 
parochia do concelho e comarca da Anadia. 

V. Monsarros. 

No Echo de Portugal, de 29 de março de 
1883, se lé o seguinte : 

•Em 25 de fevereiro de 1847, estando em 
Villa Nova de Monsarros o tenente coronel 
do batalhão movei da Bairrada, que seguia 
o partido da patuleia ou da Junta do Porto, 
Joaquim Rodrigues de Campos, juiz da l. a 
vara de Lisboa, cunhado de João Rebelloda 
Costa Cabral, compadre da Rainha a Se- 
nhora D. Maria II, foi surprehe-ndido por 
uma força de Saldanha, cartista ou que se- 
guia o partido da rainha. 

A força estava aquartelada, e quando os 
piquetes foram surprehendidos e, aos pri- 
meiros tiros, Campos sahiu do quartel des- 
armado, a ver o que aquillo era, logo um 
piquete de eavallaria com soldados de infan- 
teria o feriram ; correndo elle a fugir, di- 
zendo que não o matassem que se entregava, 
a nada attenderam. Já atordoado com as 
cutiladas, que a principio aparava nos bra- 
ços, cahiu n'um poço, e d'ahi os soldados o 
tiraram já morto e o despojaram de tudo, 
que não era pouco, pois tinha comsigo bom 
dinheiro. 

Eneontraram-lhe na algibeira uma carta 
do cunhado João Rebello, em que lbe dizia 
que a rainha lhe perdoava, se elle se apre- 
sentasse. Deixaram-no nú. 

A força popular retirou-se para a serra e 
os cobardes não a perseguiram, mas entra- 
J ram na povoação, mataram o regedor, rou- 
baram e fizeram liberalissimas cousas, pelas 
quaes o justo governo da rainha os conde- 
corou. 



860 VIL 



VIL 



Com o tenente coronel Campos foram mor- 
tos mais dois officiaes e oito soldados, que 
não poderam resistir; tal foi a surpresa, con- 
duzida por um scelerado da Mealhada, cha- 
mado Facadas, que já tinha estado degreda- 
do, e que depois, em 1870, voltou a degredo 
perpetuo por ler assassinado barbaramente 
junto á portaria sul do Bussaco o velho me- 
dico de Cacemes.» 

Viu-se depois no Diário do Governo que 
os assassinos d'estes infelizes foram conde- 
corados por tão heróico feito. 

Ao capitão de infanteria n.° 4 Jeronymo 
Alves Guedes, foi concedido um grau da or- 
dem da Torre Espada ;— e foram nomeados 
cavalleiros da ordem de Christo— João José 
da Gama Lobo, alferes do mesmo regimento 
de infanteria n.° 4,— Manuel João Baptista, 
picador e alferes de cavallaria n.° 8— e Vi- 
ctorino Cesar da Silveira, commandante dos j 
guias e alferes do mesmo regimento de ca- 
vallaria n.° 8. 

«Este foi o assassino de Campos» diz o 
citado periódico. 

Com rasão se orgulha esta villa de contar 
entre os seus priores um distincto escriptor 
publico e deputado ás cortes de 1822 a 1823, 
—o rev. dr. Manuel Dias de Sousa. 

No supplemento ao artigo Sobradello da 
Goma ou Souto de Sobradello, concelho da 
Povoa de Lanhoso, sua terra natal, ciaremos 
mais larga noticia de tão illustrado patriota; 
—entretanto veja- se o Diccionario Biblio- 
graphico de Innocencio Francisco da Silva 
e o Conimbricense de 13 e 20 de junho de 
1885. 

VILLA NOVA DO MONTE— sitio notável 
no concelho de Chaves, junto da ribeira de 
S. Thiago, que suppomos ser a Ribeira 
d' Oura, de que já se fallou em Oura e Vi- 
dago. 

Ali existiu uma grande cidade romana, 
de que ainda se conservavam importantes 
vestígios em 1734, segundo se lê nas Me- 
morias do Arcebispado de Braga por D. Je- 
ronymo Contador d'Argote, vol. 2.° pag. 495. 

«Em Villa Nova do Monte, limite da ri- 
beira de Santiago, a quatro léguas de Cha- 



ves (diz Argote) existem as ruínas de e uma 
populosa Cidade, porque ao que se vê, 3, pas- 
sava de tres mil passos a sua circumvalalação; 
tem muralha e contra-muralha, comm seu 
fosso entre huma e outra. D'estas ruininas a 
outras, que íicão no Lugar de Lama dtde Ou- 
riço, corre huma corda de montanhihas, e 
nesta em diversos sitios se vem humaias ca- 
sas, ou cavernas nobaixo da montanhiha, al- 
gumas obradas em penhascos de tal 1 sorte 
que parte parece producção da nalurereza, e 
parte do artificio; outras são compostatas de 
argamaça, e rochedos: não são muito p gran- 
des. A grandeza da povoação basta parara in- 
dicio de ser obra romana. As grutas, cou ca- 
vernas abertas, e fabricadas entre os peienhas- 
cos bem poderiam servir ou a algumaia su- 
perstição, ou de abriga aos que trabalhlhavão 
nas minas, posto que não acho menção lo exis- 
tião alli vestígios d'ellas.» 

i 

Já estivemos em Vidago, Chaves e V Verim, 
mas não tivemos occasião de visitar a aquel- 
las ruínas, pelo que nada. podemos acaccres- 
centar ao que diz Argote. 

VILLA NOVA DE MUHIA-V. Muhiaia, vol. 
5.» pag. 585, col. 1." e seg. 

VILLA NOVA D'0UREM— villa, fregsguezia 
e séde do concelho e da comarca do seseu no- 
me, no districto de Santarém, patriartrchado 
de Lisboa, província da Extremadura.a. 

Orago Nossa Senhora da Piedade, fogos 

540,— habitantes 2:395. 
Priorado. 

Comprehende as aldeias seguintes: Villa 

Nova d' Ourem (anteriormente Ald.ei,eia da 
Cruz) séde da parochia, do concelhmo e da 
comarca,— Pinheiro, Alqueidão, Valltlle-tra- 
vesso, Lourinha, Louçã, VillÕes, Grórespos, 
Pimenteira, Pinigardos, Corredoura, , Cari- 
dade e Carregal;— os casaes de Millilheira, 
Marnoto, Gagos e Casalinho,— e varias ts quin- 
tas. 

Parochias limitrophes:— Ourem, Ce^eissa e 
Olival. 

Esta comarca de Villa Nova d' C Ourem 
comprehende apenas o concelho do iseseu no- 
me com as 9 freguezias seguintes: Ceissssa, Es- 
pite, Fátima, Formigaes, Freixianda,, Ç Olival, 
Ourem, Rio de Couros e Villa Nova d'(OiOurem 



VIL 



VIL 861 



População total (segundo o recenseamento 
de 1878): 

Fogos 4:640 

Habitantes 19983 

Superfície em hectares 46:757 

Prédios inscriptos na matriz 38:200 

Concelhos limitrophes : — Torres Novas, 
Thomar, Ferreira do Zêzere, Alvaiázere, 
Pombal, Leiria, Batalha e Porto de Moz. 

Producções dominantes d'este concelho e 
d'esta freguezia— vinho, azeite, cereaes, ma- 
deira de pinho, fructa, mel, gado, caça e lã. 

O antigo concelho d 1 Ourem é o mesmo 
concelho que actualmente se denomina Villa 
Nova tf Ourem. Mudou apenas de nome e de 
séde, pelo que, para evitarmos repetições, 
veja-se o artigo Ourem com relação á histo- 
ria, antiguidade, etymologia, privilégios, fo- 
raes, transformação e outras particularida- 
des d'este concelho. Aqui trataremos da fre- 
guezia de Villa Novad'Ourem, fazendo ape- 
nas algumas referencias ao concelho. 

Desde os tempos mais remotos se escolhe- 
ram para séde das grandes povoações os 
morros e píncaros, por serem menos acces- 
siveis e mais defensáveis ;— e, porque este 
recanto da península hispânica, verdadeiro 
jardim á beira mar plantado, foi desde os 
tempos prehistoricos theatro incessante de 
guerras, quasi todos os seus morros e pín- 
caros foram habitados e fortificados. Muitas 
d'essas povoações e fortificações desappare- 
ceram e d'ellas apenas restam vestígios na 
historia, nos escombros ou nos seus nomes, 
— e d'outras nem os mais ténues vestígios 
restam ; mas na província da Extremadura 
ainda se conservam bastantes, taes são Lis- 
boa, Leiria, Santarém, Palmella, Almada, 
Cintra, Torres Vedras, Torres Novas, Tho- 
mar, Peniche, Porto de Moz e Ourem. 

Estava Ourem na mais feliz situação para 
os tempos de guerra d'armas brancas, pois 
coroava um alto píncaro de forma cónica, 
dominando o fértil valle do seu nome e 
grande parte da Extremadura. Por isso ali 
se levantou um castello tão importante que 
volume x 



o próprio imperador de Marrocos, Miramo- 
lim, o respeitou, quando marchava sobre 
Santarém com ura poderoso exercito. Foi 
também respeitado por D. João I de Cas- 
tella, quando invadiu Portugal com o grande 
exercito que foi completamente desbaratado 
em Aljubarrota. 

Attrahidos pela valentia dos seus muros, 
pelos grandes privilégios dos seus foraes e 
pelos privilégios ainda maiores dos seus po- 
derosos senhores, nomeadamente dos con- 
des d'Ourem, marquezes de Valença, duques 
de Bragança, de Barcellos e de Villa Viçosa 
ou da sereníssima e poderosíssima casa de 
Bragança, que foi sempre um estado no es- 
tado e que teve desde a batalha d' Aljubar- 
rota o senhorio d'Ourem, ali se concentrou 
e desenvolveu um povoado importante,— po- 
voado que augmentou com a creação da in- 
signe e real collegiada do seu nome, rival 
das de Cedofeita, Guimarães e Barcellos e 
que chegou a ter mais de cem mil cruzados 
de renda, que equivaliam talvez a duzentos 
mil cruzados da nossa moeda actual ! ■ . . 

Em 1712 contava a freguezia e villa d'Ou- 
rem a bagatella de 930 fogos com 3:136 ha- 
bitantes,— muita nobresa e muita riquesa, 
— uma sumptuosa egreja da collegiada e 18 
capellas publicas. Além d'isso estavam an- 
nexas á poderosa collegiada as 4 grandes 
freguezias de Ceissa, Freixianda, Fátima e 
Olival, com 1820 fogos e 7:300 habitantes, 
das quaes recebia os dízimos. Representava 
pois e paroehiava por vigários seus a colle- 
giada cinco freguezias, contando ao todo 
cerca de 2:800 fogos e 11:000 habitantes. 

Era a villa também cabeça de comarca e 
de ouvidoria, cujo ouvidor entrava por cor- 
reição nas villas de Porto de Moz, Avellar, 
Chão de Couce, Aguda, Pousa Flores e Ma- 
çãs de D. Maria. 

Era pois Ourem uma villa muito impor- 
tante e muito considerada ainda nos princí- 
pios d'este século, mas soffreu muito com o 
terramoto de 1755, que desmoronou quasi to- 
dos os seus edifícios, incluindo a sumptuosa 
egreja da collegiada,— e soflreu não menos 
com a guerra da península, nomeadamente 
em quanto o exercito de Massena se conser- 

55 



862 VIL 



VIL 



vou em frente das linhas de Torres Vedras, 
desde novembro de 1810 até março de 1811. 

Não só foi saqueada, mas incendiada to- 
da, exceptuando unicamente vinte e tantas 
casas ! 

Soffreu também muito com as guerras ci- 
vis posteriores,— com a desmembração d'esta 
parochia— e mais ainda com a extincção dos 
dízimos e da sua collegiada,— tanto que no 
2.° quartel d'este século, depois d'uma lucta 
titânica, mas inglória, passou pelo vexame 
de se ver afrontada e supplantada pela po- 
voação de Aldeia da Cruz, para a qual foi 
transferida a séde do concelho e da comarca 
d'Ourem,— passando de senhora á condição 
de escrava e vendo crescer a herva nas suas 
ruas, cahirem por terra as suas lendas, os 
seus edifícios e as suas muralhas, fugirem 
os seus habitantes espavoridos em frente de 
tanta desolação e ser a sua rival, a obscura 
Aldeia da Crus, elevada á cathegoria de villa 
e de séde do concelho e da comarca com o 
titulo de Villa Nova d'Ourem 1 . . . * 

As coisas passaram-se assim : 

Quando em 11 d'agosto de 1385 el-rei D. 
João I e o condestavel D. Nuno Alvares Pe- 
reira marchavam de Thomar contra os cas- 
telhanos e se dispunham a dar-lhes batalha 
(a de Aljubarrota) estiveram na villa dou- 
rem e havia por esse tempo no sopé do mon- 
te, onde se levantava aquella villa com o seu 
alteroso Castello, uma pequena povoação de- 
nominada Pédêlla, no caminho de Thomar, 
Leiria, Santarém e Torres Novas para a 
villa d'Ourem. 

Dada a famosa batalha no dia 14 d'agosto 
de 1385 e derrotados completamente os cas- 



1 Succedeu a Ourem o mesmo que á villa 
de Castello Rodrigo, na Beira Baixa, pois 
sendo ainda nos fins do ultimo século uma 
villa e uma praça de guerra importante e 
muito priveligiada, hoje está quasi deserta 
(terá 40 fogos ! . . .) e é cabeça do concelho 
e da comarca Figueira de Castello Rodrigo, 
povoação que se ergueu ao sopé da nobre 
villa e que principiou por uns humildes al- 
pendres levantados em volta do campo em 
que se faziam as grandes feiras, concedidas 
pelos nossos primeiros réis áquella villa e 
praça de guerra. 



telhanos, volveu D. Nuno Alvares Pereieira no 
dia seguinte a estas paragens para cummprir 
certos votos,— e, chegando a Pédêlla, i, onde 
(segundo se suppòe) descançou em umaia hu- 
milde estalagem que ali havia, soube )e que 
na batalha perecêra o seu irmão D. P Pedro 
Alvares Pereira, mestre da ordem de 0 Cala- 
trava, que fazia parte do exercito castelblhano, 
e junto da mesma povoação, no sitio do o Car- 
valhal, em um grande souto de carvairalhos, 
mandou erigir, em memoria do falleleeido, 
uma cruz de pedra, da qual a dieta popovoa- 
ção com o decorrer do tempo tomou o d nome 
de Aldeia d'ao Pé da Cruz— depois AiAldeia 
da Cruz. 

Ali se conservou a dieta cruz muitosos an- 
nos, até que desabou com o perpassarar dos 
séculos; mas o benemérito dr. Joaquimm Go- 
mes Vieira Gaio, a quem este concelhcho, do 
qual foi administrador e prezidente dída ca- 
mará, muito deve, a mandou restaurarar. 

Collocou se a nova cruz em outubroro de 
1857, cinco metros ao nascente do local d onde 
esteve a antiga— e é da mesma pedra a com 
que foi feito o convento da Batalha. 

Tem uma peanha de cantaria de ô-V^SS— 
e a haste, braços e carapeta medem d'alaltura 
14 m ,04. 

Sendo o local muito aprazível e corortado 
por estradas importantes, com o tempnpo se 
desenvolveu consideravelmente a popululação 
e tanto que por occasião do terremototo de 
1755 para ali fugiram os cónegos da ia real 
collegiada e grande parte dos habitantetes da 
villa d'Ourem, muitos dos quaes ali fíxaxaram 
a sua residência e não mais volveram p para 
a villa, mesmo porque ali se faziam os b mer- 
cados e feiras, que davam ao local muitata im- 
portância, e porque, tendo acabado ha m muito 
as guerras com os mouros e castelhatianos, 
cessara a necessidade de procurarem abibrigo 
nos muros do Castello e de subirem a erempi- 
nada encosta. 

Tanto perdeu Ourem com o terremmoto, 
como lucrou a Aldeia da Cruz. 

D. José I mandou restaurar alguns e* edifí- 
cios da villa, mas a maior parte não masais se 
ergueu,— era quanto que a Aldeia da C' t Cruz, 
alem de pouco soffrer com o terremoto o por 



VIL 



VIL 863 



estar na campina, viu augmentar espantosa- 
mente os seus edifícios, a sua riqueza e a 
sua população. 

Em 1810 os soldados de Massena assola- 
ram toda a Extremadura, nomeadamente a 
Villa d'Ourem, que foi saqueada e reduzida 
a cinzas, e não pouparam a Aldeia da Cruz; 
mas Ourem, anteriormente já pobre e mais 
falta de recursos, não pôde restabelecer-se, 
em quanto que a Aldeia da Cruz de prompto 
se restabeleceu, ficando a valer muito mais 
do que a vilia, posto que fosse uma simples 
povoação rural da parochia d'ella, pelo que 
os seus habitantes se lembraram de seguir 
o exemplo da freguezia de Ceissa, que ha 
muito se havia arvorado em parochia inde- 
pendente da collegiada, e tractaram de pro- 
mover a sua independência também. 

Com este intuito requereram em 1824 ao 
governo a sua desmembração da freguezia 
da collegiada e a creação d'uma nova fre- 
guezia formada por differentes aldeias, 1 
tendo por séde a da Cruz, onde já havia 
uma capella com 3 altares,— Senhora da Pie- 
dade (no altar mór) Santíssimo Sacramento 
e S. Sebastião, — todos 3 com irmandades 
próprias, — Santíssimo permanente— e dois 
capellães pagos pelo povo, para lhes dizerem 
missa aos domingos e dias santos e lhes mi- 
nistrarem os sacramentos,— capella em que 
já havia funeeionado o próprio cabido da 
collegiada cerca de oito mezes, em seguida 
ao terramoto de 1755. 

Na sua petição declaravam os supplican- 
tes que se obrigavam por uma escriptura, 
já feita e lavrada nas notas do tabellião Joa- 
quim Maria da Costa, em 20 de dezembro de 
1823, a pagar ao novo parocho, e que nada 



i Penigardos, Castello, Aldeia dos Ala- 
mos, Peras Ruivas, Carregal, tyespos, Vil- 
lòes, Val Travesso, Mattos, Lourinha, Louçã, 
Pinheiro, Motta da Vide, Alquidão, Pimen- 
teira, Fonte de Cathariua, S. Gens, Carida- 
de, Milheira, Marnota e Aldeia da Cruz, com 
o total de 1:200 pessoas de 7 annos para 
cima, ficando o priorado da villa com 1:405 
almas, numero superior ao que se pretendia 
desannexar. 



pediam á collegiada d'0urem, com a condi- 
ção de que o parocho seria nomeado por el- 
les e confirmado pelo seu bispo diocesano 
(o de Leiria). 

Mandou o governo ouvir o dicto prelado, 
que informou favoravelmente, lembrando o 
alvitre de que ao novo parocho se désse para 
côngrua uma das conezias da collegiada & o 
titulo de conego-vigario, ficando os suppli- 
cantes obrigados somente á despeza da fa- 
brica da nova erecta. 

Mandou em seguida o governo ouvir a 
junta da sereníssima Casa de Bragança, por 
ser donatária da villa e da comarca d'Ou- 
rem — e por seu turno a junta (em maio de 
1825) mandou ouvir o desembargador e pro- 
curador da fazenda, o qual dfsse que infor- 
masse o corregedor da comarca h 

Informou elle dizendo entre outras coisas 
— que achava justíssima a pretensão dos 
supplicantes;— que a povoação de Aldeia da 
Cruz era grande e muito bem situada ;— que 
n'ella já rezidiam, havia muitos annos, todas 
as auctoridades da villa;— que a dieta aldeia 
contava ao tempo 826 habitantes;— que jul- 
gava muito acceitavel o alvitre do prelado; 
— que a povoação era rica e tanto que foi a 
primeira que se restabeleceu depois da in- 
vasão franceza;— que algumas das aldeias 
indicadas para a nova erecta, nomeadamente 
a de Peras Ruivas, se oppunham, mas que 
isso pouco importava, porque bastavam a 
Aldeia da Cruz e os casaes próximos para 
constituírem uma grande freguezia, e que o 
único motivo da opposição d'algumas das 
mencionadas aldeias eram as intrigas mano- 
bradas pelo cabido para ter maior numero 
de subordinados, etc. 

Em 12 de setembro do mesmo anno diri- 
giu o cabido á junta da casa de Bragança 
uma representação contra a nova erecta, di- 
zendo entre outras coisas— que não era o 
bem espiritual que movia os interessados na 



i Francisco Fernando d' Almeida Madeira, 
magistrado digníssimo. 

Com as suas informações muito contri- 
buiu para que a desannexação vingasse.. 



864 VIL 



VIL 



desannexação, mas o indiscreto capricho de 
augmentar a dieta aldeia com a ruina da 
Villa e de defraudar os dízimos. 

Deu-se vista de tudo ao desembargador e 
procurador da fazenda, o qual mandou que 
informasse de novo o corregedor. Este não 
só confirmou, mas ampliou a sua primeira 
informação. 

Eatre outras coisas disse— que na impor- 
tante povoação de Aldeia da Cruz a popu- 
lação augmentava sensivelmente, como elle 
próprio tinha notado no decurso de 13 an- 
nos, e que a da villa baixava e tendia a 
desapparecer por não poder prestar commo- 
didades algumas aos seus hahitantes e menos 
alliciar os defóra ;— que não se tornando 
susceptível de conservação e menos de au- 
gmento, ella por si, sem industria humana 
ou caso fortuito, havia de fatalmente desap- 
parecer, o que já teria acontecido ha muito, 
se os* membros da collegiada não fossem 
obrigados a rezidir n'ella para satisfazerem 
ao coro, como elles próprios confessavam ; 
—que os recorrentes argumentavam com a 
pobresa da Aldeia da Cruz e dos logares 
annexos, mas que estes eram os que traba- 
lhavam e os sustentavam;~que a mesma 
tropa, devendo pelo seu itinerário aquarte- 
lasse na villa, deixava a opulência d'ella 
pela pobresa da Aldeia, por não haver ali 
mais do que os membros da collegiada, os 
recorrentes, pois que o resto, pela sua po- 
bresa, era nada, bastaudo dizer-se que na 
villa não encontrava uma só pessoa para 
ser carcereiro! «e que seria dos mesmos 
membros da collegiada, se não fossem os 
moradores da Aldeia? São totalmente appa- 
rentes e imaginarias as rasões expendi- 
das. . .— Taes expressões tornam-se injurio- 
sas a uma povoação que é a principal do 
termo, onde rezidem as auctoridades, pro- 
fessores e mais empregados públicos,— po- 
voação tal que no culto divino e festividades 
he digna de ser imitada e não só no termo, 
mas em toda a comarca. . . » 

Terminou dizendo— que julgava justíssima 
a creação da nova erecta e que a opposição 
do cabido era toda caprichosa e de emulação. 

Em 18 d'agosto de 1826 se deu vista ao 



desembargador e procurador da fazendda, o 
qual optou pela creação da nova erectta e 
pelo alvitre do prelado leiriense : — quae se 
désse ao parocho para sua côngrua susttten- 
tação um dos canonicatos da collegiada. . 

Concordou a junta da sereníssima Casaa de 
Bragança, em consulta de 22 de setembbro, 
— e em 9 d'outubro do mesmo anno > de 
1826 a sr.» D. Isabel Maria, infanta regeente 
por fallecimento d'el-rei D. João VI, ressol- 
veu a questão nos termos seguintes : iCoomo 
parece, devendo-se verificar a desannexaoção 
. . . quando vagar o primeiro canonicato} da 
Insigne Collegiada, visto conslar-me qque 
actualmente tod^s estão prehenchidos.» 

Em vista d'este despacho requereramn a 
S. A. os habitantes de Aldeia da Cruz < di- 
rendo — que podia demorar-se muito a > va- 
gatura do canonicato e que, desejando) se 
tornasse de prompto effectiva a creação • da 
nova erecta, pediam lhes d^sse para paroccho 
o rev. Domingos Antonio d'Almeida, do ( di- 
cto logar, que havia muitos annos era cca- 
pellão dos supplicantes e lhes administraava 
os sacramentos com todo o zelo, tendo siddo 
já antes da invasão franceza parocho da ccol- 
legiada alguns annos, e da freguezia de FFa- 
tima,— e que elles supplicantes lhe satisbfa- 
riam a côngrua, em quanto se não déssee a 
vaga do canonicato. 

Em 23 de janeiro de 1827 mandou S. . A. 
ouvir a junta da Casa de Bragança, a quaal, 
em harmonia com o parecer do procuraddor 
da fazenda, respondeu— que se verificassee a 
desannexação só quando vagasse o canonni- 
cato, como fora resolvido por S. A. emi 9 
d'outubro de 1826; mas, em quanto se prro- 
cessava esta consulta, requereu a S. A. o ppa- 
dre Domingos pedindo se fizesse de promppto 
a desannexação e a nomeação d'elle suppbli- 
cante para parocho da nova erecta, que eblle 
se obrigava a servir gratuitamente até vaggar 
o primeiro canonicato na collegiada, desati- 
nado para edngrua da nova erecta. 

Sendo ouvido de novo o desembargaddor 
da fazenda, opinou porque se esperasse peela 
vagatura do canonicato, mas a junta da Caasa 
da Bragança, em consulta de 15 de junho ede 
1327, disse que julgava não haver inconvure- 
niente em que S. A. deferisse o requerri- 



VIL 



VIL 865 



mento do supplicante, pelo que S. A. deferiu 
nos termos seguintes : «Como parece. Pala- 
cio da Ajuda, 9 de janeiro de 1828. I. R. 
(Infanta regente, D. Isabel Maria) *. 

As grandes complicações que se deram na 
alta politica do nosso paiz procrastinaram 
algum tempo a erecção d'esta parochia; mas 
por decreto de 29 d'agosto de 1829, datado 
do palácio de Queluz, foi o padre Domingos 
Antonio d'Almeida apresentado pelo sr. D. 
Miguel na egreja de Nossa Senhora da Pie- 
dade d'Aldeia da Cruz, dando-se-lhe para 
côngrua o canonicato que vagou na colle- 
giada pelo fallecimento do cónego Manuel 
José Ribeiro, segundo a resolução de 9 d'ou- 
tubro de 1826; não chegou porem a tomar 
posse, porque surgiram logo contra elle de- 
nuncias e intrigas que determinaram o go- 
verno do sr. D. Miguel a mandar prender o 
dicto padre Domingos e a anuullar aquelle 
decreto por outro com data de 22 d'outu- 
bro do mesmo anno. 

Por decreto de 29 de março de 1831 foi 
nomeado conego-parocho da nova erecta Fr. 
Antonio de S. Boaventura, da ordem de S. 
Francisco, da província de Portugal, mestre 
de theologia e professor jubilado no real es- 
tabelecimento dos estudos do Bairro Alto, 
em Lisboa; mas, extinctos os dízimos em 
1834, abaudonou a freguezia, cuja côngrua 
era o canonicato, e retirou-se para a sua 
terra natal, onde falleceu pouco tempo de r - 
pois. 

Também ao mesmo anno de 1834 a colle- 
giada soffreu um duro golpe com a extinc- 
ção dos dízimos que constituíam o melhor 
das suas rendas. Alem d'isso os foreiros 
também se recusaram a pagar os fóros e a 
collegiada não se atreveu a demandal-os, 
por lhe faltarem os documentos precisos, 
pelo que ficou pobríssima e sem rendas al- 
gumas ! E, para complemento da sua des- 
graça, quasi todos os couegos, sendo taxa- 
dos de miguelistas, foram suspensos e no- 
meado um extranho, — o padre Joaquim 
Mendes dAzevedo,— prior d'ella encomuien- 



1 Extracto fiel do archivo da Casa de Bra- 
gança. 



dado, com o titulo de vigário da vara, exis- 
tindo ainda alguns cónegos não suspensos, 
mas que nunca mais voltaram,^ coro,-— e 
assim terminou a insigne e real collegiada 
$ Ourem l. . . 

O antigo prior foi reintegrado em 1836; 
mas já ao tempo o dr. João de Deus Antu- 
nes Pinto, bacharel formado em cânones , 
prior de S. Thomé de Lisboa e governador 
temporal do bispado de Leiria, por S. M. I. 
o duque de Bragança, e vigário capitular 
pelo rev. cabido leiriense, havia em 29 de 
janeiro de 1836 dividido o bispado de Leiria 
em 4 districtos, sendo a capital de um d'el- 
les a nova freguezia de Aldeia da Cruz,—e 
nomeado vigário d'esta parochia e do seu 
districto o padre Domingos Antonio dAl- 
meida, pelo que a elle, em quanto foi vivo, 
ficou subordinado o velho prior da villa e da 
collegiada dOureml... 

Durou pois quasi dez annos a grande lu- 
cta entre os habitantes da Aldeia da Cruz e 
a collegiada, terminando do modo mais sur- 
prehendente e glorioso para aquella e mais 
triste e doloroso para esta, que pouco tempo 
sobreviveu a tão grande catastrophe ! 

Esta freguezia d' Aldeia da Cruz (hoje Villa 
Nova d' Ourem) conta pois os parochos se- 
guintes : 

l,o— Fr. Antonio de S. Boaventura, co- 
nego-vigario (1831-1834). 

2,o — Domingos Antonio d' Almeida, vigá- 
rio, desde 1834 não sabemos até quando. 

Z.o—Marcellino d' Almeida Vieira Borges, 
(1850). Vigário. 

Í.«—Manutl Midões, (1851-1856). Vigário. 

5. °— José Cypriano Borga, 1.° prior, (1856 
1867). 

Permutou com o seguinte e é hoje prior 
de Bucellas, no concelho dos Olivaes, sendo 
natural de Villa Nova d'Ourem e presbytero 
de muito merecimento. 

6. °— Domingos Antonio Alvares. 

7. ° — Manuel Nogueira da Conceição. 
Não vão mais longe os meus apontamen- 
tos informes. 

A rainha D. Maria II, por alvará de ,23 de 



866 VIL 



VIL 



setembro de 1841, elevou a povoação à' Al- 
deia da Cruz, que já então era cabeça do 
concelho d'Ourem, á cathegoria de villa com 
a denominação de Villa Nova dourem. 

«Usa esta villa as armas do concelho que 
é um brasão do principio da monarchia e 
commum a todo elle» — diz o Esboço histó- 
rico do concelho de Villa Nova d' Ourem, 
publicado em 1868 pelo benemérito filho 
d'esta villa, dr. José das Neves Gomes Ely- 
seu (pag. 1 14); mas parece-me isto uma cha- 
rada, pois não diz que brasão seja,— e no 
principio da sua Memoria dá em lytographia 
nada menos de 4 brasões d'Ourem, todos 
muito differentes ! 

O sr. Ignacio de Vilhena' Barbosa nas Ci- 
dades e Villas deu-lhe o brasão n.° 1 do dr. 
Elyseu, mas com a águia olhando para a di- 
reita io espectador, em quanto que a do 
brasão do dr. Elyseu olha para o lado op- 
posto;— e um excellente livro que temos ni- 
tidamente lytographado, com as armas das 
nossa< villas e cidades, mas sem data nem 
nome de auctor, dá a Ourem as mesmas ar* 
mas que lhe deram o sr. f . Vilhena Barbosa 
e Gomes Elyseu, no escudo n.° 1, mas com 
outra variante:— a águia tem as azas fecha- 
das,— volta as costas ao espectador— e olha 
para a esquerda d'elle. 

Veja-se n'este diccionario o artigo Ourem, 
vol. 6.° pag. 3£4, col. 2. a e pag 335, col. 2.» 
também, — e a citada Memoria do dr. Gomes 
Elyseu, pag. 45 e a nota da pag. 162, na 
qual diz que as armas do n.° 2 estão na casa 
da almotaçaria em Aldeia, da Cruz e são — 
um escudo com uma águia, tendo as azas 
abertas, voltada para o espectador e olhando 
para a esquerda d'elle. No alto do escudo, á 
direita do espectador, uma meia lua e á es- 
querda uma estrella. 

Não descrevemos os outros cinco (!) por- 
que são da villa velha e não queremos fati- 
gar os leitores. 

Outra bulha : 

A Memoria do dr. Elyseu diz que o orago 
d'esta parochia é Nossa Senhora da Mater- 
nidade; — o Couseiro de Leiria diz que é 
Nossa Senhora da Purificação;— as publica- 
ções officiaes dizem que é nossa Senhora da 



Piedade— e alguém já lhe deu como o orago 
também Nossa Senhora do Pé da Cruzuz. 

Vejam que embrogliol. . . 

Quando se creou esta freguezia, dfdeu-se- 
lhe o titulo de Nossa Senhora da Pifiedade, 
—o mesmo que já tinha a capella qique foi 
arvorada em matriz, pois era sua pa d rd roei ra, 
com irmandade e festa próprias, utnsna lin- 
díssima imagem de Nossa Senhora dida Pie- 
dade, que estava no altar-mór com o o seu 
amado filho morto no regaço, tendo a c. cabeça 
pendente sobre o braço direito da Vitfirgem. 

Algum tempo depois da creação d'esesta fre- 
guezia tentaram os seus parochianos d;dar-lhe 
como orago Nossa Senhora da Maternmidade, 
o que não se realisou legalmente, p> pois na 
collação dos seu3 priores continuou a a dar- 
se-lhe o titulo de Nossa Senhora da PiPiedade. 

Esta parochia era do bispado de 1 Leiria, 
mas desde 1882, data da ultima circurumscri-í 
pção diocesana, foi extincta a diocese d de Lei- 
ria e dividida pelo patriarchado e p pela de! 
Coimbra, passando para o patriararchado,| 
além d'outras, todas as freguezias s d'este 
concelho de Villa Nova d'Ourem. 

A construcção dos novos paços do o conce- 
lho, que são amplos e magestosos, i princi-j 
piou em 9 de junho de 1874— e no ananno se-j 
guinte se creou a comarca de Villa Ia Nova 
d'Ourem, de 3." classe, formada unicacamentei 
pelas 9 freguezias do §eu concelho. 
. Nos novos paços do concelho funccccionam; 
todas as 3uas repartições publicas— a a cama-j 
ra, o tribunal de justiça, a administraração do 
cencelho, a eserivania da fazenda, rececebedo- 
ria, correio e telegrapho, datando a o creação 
d'este de 13 d'agosto de 1881. 

Tem esta \illa um bom cemitério. FcFoi feito 
por uma commissão de parochianos, á, á custa 
d'elles e de vários subscriptores (honmralhes 
seja ! . . .) e, depois de concluído, enkntregue 
por elles á camará, que não despendeieu comj 
elle um real, mas não hesitou em arvrvoral-o 
em fonte de receita, creando pesadas <s quotas 
de co vagem. 

Foi concluído em 1856 e benzid(do com 
grande pompa no dia 9 de setembrbro d'a-i 
quelle anno pelo benemérito prior Joíosó Cy- 
priano Borga, precedendo officios sololemnes 



VIL 



VIL 867 



na matriz pelas almas dos parochianos que 
ali haviam sido sepultados — e depois uma 
solemne e commovente procissão até o novo 
eemiterio. 

A 1.» pessoa que n'elle se sepultou foi 
Claudina Maria, que falleeeu de cholera 
morbus n'aquelle mesmo mez. 

Creada a freguezia de Aldeia da Cruz, fi- 
cou servindo de matriz a antiga capella de 
Nossa Senhora da Piedade, mas, como a po- 
pulação augmentasse espantosamente, foi 
mister substituir a capella por um templo 
mais amplo. 

Por iniciativa do mesmo benemérito prior 
José Cypriano Borga se deu principio ás 
obras do novo templo em 21 d'agosto de 
1861 sobre o local da dieta capella. Cons- 
truiu- se primeiramente a capella do Santís- 
simo, que depois ficou ao lado esquerdo da 
nova egreja e foi benzida pelo mesmo prior 
no dia 20 d'outubro de 1867. Depois se de- 
moliu a antiga capella e no seu chão se fez 
o novo templo, ficando ligado á capella do 
Santíssimo. 

Foi benzida a capella mór no dia 24 de 
novembro de 1873 pelo prior Manuel No- 
gueira da Conceição, que ao tempo já tinha 
permutado com o rev. José Cypriano Borga. 

O novo templo é amplo, mas siogelo, e fal- 
tam-lhe ainda as decorações interiores. 

O baptistério da capella demolida tinha a 
data de 1828, mas serviu a vez primeira em 
1831, ministrando-se o 1.° baptismo a, Fran- 
cisco, filho legitimo de José Lopes e de Ma- 
ria de Jesus. 

Esta villa é hoje muito abundante de ex- 
cellente agua potável. Foi encanada em tu- 
bos pela camará desde o sitio da Caridade 
e jorra em tres ehafarizes— Fonte Nova, Ri- 
beirinha e Praça do peixe, — chegando a agua 
a este (foi o ultimo) em 22 de novembro de 
1882. 

Custaram as obras, ao todo, mais de tres 
contos de réis. 

Villa Nova d'Ourem está na margem es- 
querda da ribeira de Ourem, que desagua no 
rio Nabão, a 20 kilometros de distancia, de- 
pois de regar muitos campos e dar movi- 



mento a muitos pisões e moinhos d'azeite e 
de cereaes. 

Dista d'Ourem 2 kilometros para N. E.— 
10 da estação de Chão de Maçãs, no cami- 
nho de ferro do norte, para 0. S. O — -20 de 
Thomar, pela nova estrada para N. O.— 24 
de Leiria, para S. E.— 140 de Lisboa— e 217 
do Porto, pela linha férrea. 

Está muito bem servida de estradas a ma- 
cadam, pois tem estrada real, feita ha muito, 
para Leiria e para Chão de Maçãs, Thomar 
e Santarém;— estradas districtaes, era via de 
construcção, para Porto de Moz, Figueiró 
dos Vinhos e Torres Novas,— e estradas con- 
celhias para Espite e Ourem. 

Este concelho é cortado de S. E. a N. O. 
na sua extremidade E. pelo caminho de 
ferro do norte que tem dentro d'elle o via- 
ducto da ribeira de Ceissa, o túnel d'Alber- 
garia, o túnel e a estação de Chão de Ma- 
ças e a estação de Caxarias. É por isso que, 
estando a sua estação de Chão de Maçãs em 
terreno áspero, muito agreste e pedragoso, 
ali se encontra quasi todo o anno á venda 
excellente fructa. Vae da mimosa e fertilis- 
sima Ribeira d' Ourem. 

Tem esta villa bons edifícios, entre os 
quaes avultam os paços do concelho, a egreja 
matriz, a casa da família Almeidas e a es- 
chola do conde de Ferreira, principiada no 
campo da feira mensal, em 17 de julho de 
1867. 

Ali funecionam duas aulas muoicipaes 
para o sexo masculino,— uma de instrueção 
primaria elementar— outra de ensino com- 
plementar. 

Também ha na villa outra aula offlcial de 
instrueção primaria elementar para o sexo 
feminino— e dois largos: o do Conde de Fer- 
reira, onde se ergue a eschola feila com o 
subsidio d'este benemérito titular portuen- 
se,— e a Praça do Mercado, onde se fazem os 
grandes mercados semanaes d'esta villa, to- 
das as quintas feiras, aos quaes concorrem 
muitos tendeiros e negociantes de Leiria, 
Thomar e Torres Novas e grande quantida- 
de de povo d'estas e d'outras povoações cir- 
cumvisinhas. 

Abundam estes mercados em lençaria, 



868 VIL 



VIL 



pannos de lintio, algodão e lã e outros arti- 
gos de tendas,— e em cereaes, legumes, hor- 
taliça, fructas e peixe fresco das praias da 
Nazareth e Vieira, havendo também nos 
mesmos dias feira de gado suino no largo 
dos Paços do Concelho. 

Ha também n'esta villa feira mensal no 
dia 3, muito concorrida de gado bovino, 
azinino e cavallar— e de gado lanígero tam- 
bém, em certos mezes. 

Dão -lhe muita vida os seus mercados e 
feiras. 

Tem boas lojas commerciaes de mercea- 
ria e d'outros artigos também, mas de pouco 
movimento, exceptuando os dias de feira e 
de mercado e os domingos, em que os ha- 
bitantes sertanejos costumam concorrer á 
villa em grande numero para tractarem dos 
seus negócios e sortir-se de vários arti- 
gos. 

Ha n'esta villa um pequeno bairro ou si- 
tio denominado Castella, muito digno de es- 
pecial menção pela sua remota antiguidade 
e pelas lendas que o envolvem. 

Diz à tradição que depois da batalha de 
Aljubarrota um dos muitos castelhanos que 
fugiram espavoridos na direcção d'Oarem 
se escondeu em uma matta junto do logar 
da Melroeira, mal ferido. 

Passando por essa occasião ali D. Nuno 
Alvares Pereira, quando em seguida á bata- 
lha foi a Ceissa e Ourem cumprir certos vo- 
tos, como já dissemos, ouviu os gemidos do 
pobre castelhano e approximou-se d'elle. 

Ficando o santo condestavel commovido, 
fez desmontar um dos seus cavalleiros e con- 
duzir o pobre com todo o carinho para a 
povoação de Pêdella (depois Aldeia da Cruz 
e hoje Villa Nova d'Ourem) onde o mandou 
tractar e, sobrevivendo, lhe deu casas em 
que passou o resto dos seus dias, deixando 
successão. 

D'essas casas provem ao dicto bairro o 
nome de Castella e aos seus habitantes o de 
castelhanos. 

Ha n'esta freguezia, entre outras, as se- 
guintes capellas j.ublicas: 
Is— Nossa Senhora das Mercês, no Al- 



queidão, onde também se venera a imajagem 
de S. Lourenço. 

Dizem que a dieta imagem da Senmhora 
ali foi collocada por um ermitão, pelos s an- 
nos de 1400 e tem irmandade com estatututos 
approvados pelo bispo de Leiria D. Pe J edro 
Barbosa. 

O Santuário Mariano menciona um f; facto 
espantoso succedido com esta imagemm na 
primeira procissão de Passos que se fezíz em 
Ourem. 

%*— Nossa Senhora do Bom Despachoio, na 
Lourinha, com irmandade e comprommisso 
desde 1743. 

3. »— Nossa Senhora dos Bemedios, ?, na 
Louçã. 

4. *— Nossa Senhora do Rosario, no ) Pi- 
nheiro. 

5. » — Nossa Senhora do Livramento, , em 
Val-Travesso. 

Tem confraria própria e mordomia deie S. 
Sebastião. 

6. *— S. João Baptista, na aldeia de Villíllões. 
Todas são antigas e se conservam abiber- 

tas ao culto, mas maltratadas e sem tererem 
coisa digna de especial menção. 

Ha n'eâte concelho muitas quintas e ca;asas 
nobres. Mencionaremos apenas as segujuin- 
tes : 

Na freguezia â'Ourem 

A quinta ou casa dos Contos ou u da 
Caridade, pertencente ao visconde do ZaSam- 
bujal; hoje é de Jorge de Cabedo, moracador 
em Setúbal. 

2. a — A quinta e casa de S. Gens, da farami- 
lia Trigosos, hoje de Sebastião Trigoscso e 
Mello, rezidente em Lisboa. 

3. *— A quinta do Caneiro, que foi de JcJoão 
Paes do Amaral, da nobre familia Paes s de 
Mangoalde, hoje pertencente a Simão Pa^aes 
rezidente na casa dos Barbos, concelho o de 
Torres Novas. 

4. a — A casa e quinta da Parreira, halabi- 
tada por João Carlos da Silva Alhaide, i, da 
nobre familia Âthaides, de Leiria. 

Pertence hoje esta quinta a Miguel 1 do 
Canto e Castro, digno par do reino, queie a 
herdou de sua mãe, D. Isabel da Silva Athmai- 
de, de Leiria. 



VIL 



VIL 



869 



5.*— A casa e quinta dos Namorados, ou 
dos Castellinos, assim denominada por ser 
da família Castellinos Manueis d' Aboim. 

Hoje pertence ao honradíssimo cavalheiro 
AntODio de Sousa Castellino de Mello e Al- 
vim, da nobre casa da Motta, de quem adian- 
te fallaremos, e o seu ultimo possuidor foi 
Antonio Castellino Manuel d'Aboim, ultimo 
eapitão-mòr d'este concelho. 

Na freguezia da Ceissa 

6/— A casa e quinta da Motta, rezidencia 
de Antonio de Sousa Castellino de Mello e 
Alvim, typo da verdadeira nobreza de san- 
gue e de caracter, filho do desembargador 
Antonio Gomes Ribeiro, do Peso da Regoa, 
e de sua mulher D. Maria José de Sousa 
Castellino e Alvim, descendente por linha 
eollateral do cardeal D. Jorge da Costa, d'Al- 
pedrinha. 

Antonio de Sousa Castellino è casado com 
D. Philomena do Vadre Manique, da nobre 
familia Vadres Maniques, de Lisboa, senhora 
virtuosíssima, e tem os filhos seguintes : — 
Pedro de Sousa do Vadre Manique, bacha- 
rel formado em direito, — Antonio, collegial 
de Campolide, onde estuda preparatórios, 
— e duas senhoras de esmeradíssima educa- 
ção, ainda solteiras, que vivem com seus 
paes. 

7. »— A casa de Ceissa, cujo ultimo possui- 
dor foi Thimoteo de Sousa Alvim, também 
"descendente por linha eollateral do famoso 
cardeal d'Alpedrinha. 

Deixou Thimoteo de Sousa uma única fi- 
lha perfilhada e herdeira, casada com o dr. 
Joaquim da Silva JNeves. 

Na freguezia do Olival 

8. " — A casa e quinta da Maçomodia, hoje 
deshabitada e que foi dos Peixotos Macha- 
dos. 

Pelos annos de 1754 a 1756 D. José Pei- 
xoto Machado, monsenhor da. patriarchal de 
Lisboa, obteve do governo a graça de per- 
filhar um filho, Manuel Thomaz Peixoto Ma- 
chado, que houve de D. Isabel Praça, (irmã 
do cónego Praça, d'Ourem) e instituiu n'elle 



um vinculo com a invocação de Nossa Se- 
nhora da Guia, composto de varias terras no 
concelho d'Ourem, edificando casa e capella 
no logar de Maçomodia, cuja instituição tem 
a data de 1756. 

Casou Manuel Thomaz Peixoto Machado 
com D. Theresa de Vilhena d' Azevedo Cou- 
tinho Pires e Távora, irmã de José d' Azevedo 
Vieira, da nobre casa dus Azevédos ou dos 
Santos Martyres,ãe Paredes da Beira, 1 e tive- 
ram José Manuel Peixoto d'Azevedo Macha- 
do, que morreu solteiro em 1830,— e duas 
filhas que morreram também solteiras e já 
de provecta idade, em 1860 e 1868. 

José d'Azevedo Vieira, de Paredes da 
Beira, casado com D. Jeronyma da Costa * 
Tavares Coutinho e Ornellas, da casa de 
Trancoso, teve d'este matrimouio tres filhas, 
das quaes duas morreram sem descendên- 
cia, e a mais velha, D. Maria José d' Azevedo 
de Sousa Coutinho, herdeira do vinculo da 
casa de Paredes, Várzea de Trevões e Cas- 
tanheiro, na Beira Alia, casou com Antonio 
de Lemos Carvalho e Sousa Beltrão, 2 da no- 
bre casa e quinta do Ribeiro, concelho de 
Sernancelhe, e tiveram os filhos seguintes : 

— Marianno de Lemos d' Azevedo, primo- 
génito, herdeiro dos vínculos e da maior 
parte da grande casa de seus paes, cavalheiro 
dislincto por nascimento e mais distincto 
pelo seu nobilíssimo caracter, ainda solteiro 
e rezidente em Villa Nova d'Ourem ; 

— José Maria de Lemos Azevedo, que mor- 
reu deixando dois filhos; 

— Antonio de Lemos Azevedo, casado e 
com successão, hoje senhor da nobre casa de 
Taredes da Beira, por accordo com seu ir- 
mão mais velho, Marianno de Lemos ; 

— D. Henriqueta Augusta de Lêmos Bel- 
trão, casada com José de Sousa, de Rioda- 



1 V. Paredes, vol. 6.° pag. 487, col. i.« e 
seguintes. 

2 Filho de Marianno de Lemos Carvalho 
e Sousa, senhor do vinculo do Lad.ario e dos 
prasos de Adaufa, em Sautar, descendente 
dos Lemos, da Trofa, por s^u pae Bernardo 
de Carvalho e Lemos, filho Í° da casa de 
Sautar, casado com D. Maria José Felix 
d'Almeida Beltrão, da quinta do Ribeiro e 
Carapito d'Aguiar. 



870 VIL 



VIL 



des, concelho da Pesqueira. Sem descendên- 
cia. 

— D. Maria da Piedade de Lemos Azeve- 
do, casada com Nicolau Pereira de Mendonça 
Falcão, 1 de Girabolhos, residente em Vi- 
zeu. 

As duas irmãs e herdeiras de José Ma- 
nuel Peixoto d'Azevedo Machado, da casa da 
Maçomodia, aboliram o vinculo em 1835 e 
em 18i2 doaram todos os seus bens a seu 
primo Marianno de Lemos Azevedo, o qual 
por morte da ultima d'aquellas senhoras mu- 
dou a sua residência, da quinta do Ribeiro, 
na Beira, pará Villa Nova d'Ourem, onde 
mandou fazer casa d'habitação, por estar a 
da Maçomodia em sitio ermo e de péssimas 
serventias. 

Esta viila e este concelho soffreram muito, 
como já dissemos, por occasião da guerra 
peninsular e muito também com as guerras 
civis posteriores, nomeadamente em 1833 a 
1836, como se lê de pag. 141 a 144 da ex- 
cellente Memoria do dr. José das Neves Go- 
mes Elyseu, para onde. remettemos os leito- 
res, porque estamos anciosos por fechar este 
artigo; apenas muito summariamente apon- 
taremos os factos seguintes : 

Em 1836 organisou-se n'esta villa (ainda 
então Aldeia da Cruz) um batalhão de guar- 
das nacionaes, eommandado por Luiz José 
Lopes, hoje morador no logar dos Pisões, 
que havia feito parte d'uma celebre guerri- 
lha liberal do tristemente celebre D. Manuel 
d' Alcochete, a quem o general (depois mare- 
chal e duque) Saldanha ordenou que se 
afastasse com a tal guerrilha ou antes qua- 
drilha para uma legoa de distancia do exer- 
cito que elle general commandava, sob pena 
de o mandar fuzilar !. . . 

Tanto a guerrilha de D. Manuel d'Alco- 
chete, como o tal batalhão do Luiz José Lopes 
praticaram excessos e crimes de tal ordem 
que a pena ainda hoje se recusa a descre- 
vel-osl. . . 



1 V. Pinhanços, vol. 7.° pag. 38, col. l. a e 
seguintes, — e Yilla da Ponte, freguezia do 
concelho de Sernancelhe. 



Dissolvida a tal guarda nacional, onrgani- 
sou-se n'esta villa um batalhão movei d ou cí- 
vico ejusdem fusfuris, a que o povo i deu o 
nome de batalhão dos canecos, sob o ) com- 
inando do dr. Gaijo, de bachica meiímoria, 
administrador d'este concelhol. . . 

Um dia, com o pretexto de prendeler um 
refractário, dirigiu-se a aguerrida cohhorte á 
povoação da Urgeira e, não encontrando o 
tal refraetario, incendiaram-lhe a casa a e um 
colmeal, fizeram mão baixa em tudo q quanto 
encontraram e, orgulhosos com o feiuto, en- 
traram triumphantes na villa ao som dde cor- 
netas, em marcha gravei 

O mesmo administrador outro dia, áá fren- 
te d'uma escolta do seu batalhão, prtrendeu 
dois homens, sendo um d'elles um pobfore ve- 
lho e, marchando com elles para Leiririà, a 8 
kilometros de Villa Nova d'Ourem, maandou 
fusilal-os, e regressou muito satisfeitcto dei- 
xando-os estendidos na estrada 1 

A um outro homem, João Lopes dasis Lou- 
çãs, porque havia furtado um jumento, , pren- 
deu-o e funlou-o também. 

Que bello administrador 1 . . . 

Ainda ultimamente, no dia 29 de junnho de 
1884, por occasião das eleições de deleputa- 
dos para as cortes coDstituintes que nno mo- 
mento (junho de 1885) estão funccionnando, 
foi esta formosa villa thealro dos maionres ex- 
cessos, também attribuidos ao adminnistra- 
dor do concelho, por ver que a opposisição o 
levava de vencida na urna. 

Um correspondente da localidade n narrou 
tão triste successo nos termos seguinutes : 

«Os soldados enfurecidos bayonetanram o 
povo encarniçadamente, perseguindo o sem 
distincção não só os aggressores, mas *, os ci- 
dadãos inoffensivos e mesmo de certata gra- 
duação. 

, Correu n'esta primeira carga muito sa.angue. 

Dois ou tres soldados foram maltraatados 
com pedras e muitos populares graveemente 
feridos com bayonetadas. 

Haviam-se dispersado os grupos; ; cada 
qual ia retirando para sua casa, ou se 3 reco- 
lheu á egreja, onde a ordem não haviria sido 
alterada e a meza eleitoral exercia qquanto 
possível as suas funcções. 



VIL 



VIL 871 



Suppunha-se o conflicto terminado. Foi 
então que se ouviram dois tiros de rewol- 
ver; diz-se que um fôra disparado pelo al- 
feres Magalhães e outro pelo administrador 
do concelho. 

Foi em seguida proferida por este a voz 
de fogo. O commandante recusou-se a cum- 
prir, e exigiu ordem por escripto; mas, como 
nem assim quizesse tomar essa responsabi- 
lidade, o administrador repetia a voz de fo- 
go, e o corneta deu o signal. Começou logo 
o tiroteio assassino I 

Viu-se então a soldadesca atirando pelas 
ruas nas direcções que lhe eram designadas, 
ou que o haviam sido previamente. 

Os srs. José da Fonseca Ritto e o prior 
Nogueira escaparam como por milagre I 

Uma descarga dirigida para o sitio, onde 
elles caminhavam pacificamente, matou duas 
mulheres e feriu outra. 

Logo em seguida foi lançado por terra, 
morto, um chefe de família e feridos muitos 
outros, um dos quaes está em perigo de 
vida. 

Tres soldados espingardearam a casa do 
sr. José Maria Fernandes, a curta distancia, 
e elle foi varado por uma bala, que lhe en- 
trou pelo peito junto ao hombro esquerdo, e 
saiu pelas costas. O seu estado é muito 
grave. 

Junto d'elle estava o sr. José dos Reis, 
que por pouco não foi tocado por uma bala 
na garganta. 

Contra o sr. José Pereira Marques, que se 
achava no portal da sua casa, disparou um 
soldado um tiro quasi á queima-roupa, e 
deixou elle de ser morto, porque se desviou 
da pontaria, que o malvado lhe fazia. A bala 
batendo na cantaria do portal e desfazendo- 
se em estilhaços, feriu-o gravemente n'um 
braço e na cara. 

A um pobre homem, que estava encosta- 
do a um poste das obras da casa do sr. 
Francisco Lopes Pessoa, fez um soldado pon- 
taria e varou-lhe um braço com uma bala. 

Emfim, a soldadesca dispersa dirigiu os 
seus tiros contra os principaes progressistas 
da terra, que são os honrados negociantes 
José da Fonseça Ritto, José Maria Fernan- 
des e José Pereira Marques. 



As suas casas foram o alvo do tiroteio; 
attestam-n'o os estragos das balas. 

Os mortos e feridos jazeram lançados por 
terra por espaço de mais d'uma hora, sem 
soccorros. 

As auctoridades administrativas torna- 
ram-se indifferentes a esse espectáculo de 
sangue. 

Era eommovedor o vêr um bando de 
ereanças chorando sobre o cadáver de sua 
mãe assassinada. 

Honra ao mui digno juiz de direito d'esta 
comarca que, affrontando as balas, veiu com 
a sua presença pacificar os espíritos e soc- 
correr os desgraçados, dando as providen- 
cias que podiam estar ao seu alcance. 

Foi coadjuvado pelo digno delegado do 
procurador régio e pelos facultativos do 
partido, os srs. drs. Rarjona e Aggripino, 
que teem prestado relevantíssimos serviços. 

A força de caçadores 6, aqui destacada, 
foi quem praticou este glorioso feito de ar- 
mas. 

O administrador do concelho, Joaquim 
José da Silva Neves, acha-se desde então 
installado na casa da administração, guar- 
dado por uma grande força militar, e de lá 
não tornou a sahír. 

Vêem-se nas calçadas da villa enormes 
rastos de sangue.» 

No mesmo dia e por oceasião das mesmas 
eleições de deputados correu sangue e houve 
ferimentos e mortes em outras assembléas do 
nosso continente e nos Açores, 

Abstemo-nos de commentarios. 

Mais outra seena de sangue que horrori- 
sou este concelho no ultimo anno. Os jor- 
naes noticiaram-na assim : 

«Foi encontrado morto, com o coração 
atravessado por uma bala, na manhã de 26 
do corrente, no sitio denominado Sapataria, 
próximo a Villa Nova d'Ourem, Francisco 
dos Santos Margarida. Suspeita-se que foi 
assassinado por um irmão, chamado Arthur 
dos Santos Margarida, com quem o morto 
andava ha tempos desavindo e que parece 
ameaçava matal-o. O morto devia levar com- 
sigo 37 moedas e um cordão d'oiro, perten- 
cente a uma sua namorada. Também le\ava 



872 VIL 



VIL 



um relógio de prata, cujo destino se igno- 
ra. 

Foram já detidos a mãe e o irmão, sus- 
peito do assassínio, emquanto se procede a 
mais largas averiguações. Acham-se na ca- 
deia de Villa Nova d'Ourem.» 

Passados dias, o mesmo jornal accrescen- 
tava os seguintes pormenores: 

«Francisco dos Santos Margarida, o mor- 
to, tinha 30 annos. Trazia comsigo n'um 
cinto, 37 moedas, um relógio de prata eum 
cordão de ouro, que tudo lhe desappareceu. 
Estão presos um irmào da victima, chamado 
Arthur dos Santos Margarida, a mãe e mais 
dois rapazes. Parece que ha muito tempo 
que havia rixa entre os dois irmãos, che- 
gando já por uma vez a vias de facto, rece- 
bendo o Francisco tanta pancada que flcára 
aleijado. Na quinta feira ultima estiveram 
novamente altercando os dois na feira da 
viila, mas as cousas ficaram porahi. No dia 
seguinte o aleijado appareceu assassinado 
com um tiro de bala.» 

Triste! 

Para desanojar os leitores enfadados com 
tão lúgubres scenas, vou contar lhes um fa- 
cto que prende com esta villa e que parece 
uma anecdota d'almanach. 

Ao sr. Manuel Maria Portella, meu bom 
amigo e Cyreneu, illustrado e benemérito 
filho de Setúbal, devo a communicaçào de 
tão singular occorreneia, nos termos seguin- 
tes: 

«Do Almanach Burocrático de 1876, fl. 
540, consta que José Joaquim Januário La 
pa, distincto offlcial d'artilheria, foi feito ba- 
rão de Villa Nova d' Ourem em 20 de janeiro 
de 1847— -e visconde do mesmo titulo em 12 
de março de 1853. 

Alem d'outro» cargos importantes exer- 
ceu o de governador geral da índia e o de 
ministro da marinha e ultramar. 

Succedeu-lhe no titulo de visconde de 
Villa Nova d'Ourem seu filho Elesbão José 
de Bettencourt Lapa, em 1 d'agosto de 1870. 

Deu-se um facto notável entre o 1.° vis- 
conde de Villa Nova d'Ourem e o padre Pa- 
trício de Moura e Brito, natural de Setúbal. 

Quando aquelle titular, antes de o ser, re- 



zldia em Villa Franca, estando a jogar r o ga- 
mão com o referido padre, que ali era \ prior, 
affirmava este que havia de dar um coodilho 
ao Lapa, o qual por sua parte afflrmnava o 
contrario, accrescentando que faria daqquelle 
prior um bispo, se d'elle recebesse uma codi- 
Iho e viesse algum dia a ser ministro, ddando 
ás suas palavras um tom de puro grracejo. 

O tempo correu, e Lapa, da modestita po- 
sição que então occupava como adminnistra- 
dor das Lezírias do Tejo, 1 passou a eblevar- 
se na escala social pelos seus méritos 6 3 pelos 
successos da politica e chegou a ser nminis- 
tro de estado. 

O prior de Villa Franca seguindo-lhae, por 
assim dizer, os movimentos, e advertiddo por 
um feliz presentimento, logo que o viseconde 
foi nomeado ministro, se lhe apreseentou, 
dando-lhe os parabéns e reclamando o • cum- 
primento da promessa. 

O ministro, que a principio se nãoo lem- 
brava da promessa, recordou -se perrfeita- 
mente d'ella, por fim, e deu ao pridor de 
Villa Frauea a mitra de Cabo Verde. 

D. Patrício de Moura e Brito foi ddepois 
bispo do Funchal.» 

Abençoado codilho !.. . 

Aproveitando o ensejo, daremos aqui i mais 
alguns apontamentos biographicos do 11.° ba- 
rão e 1 0 visconde de Villa Nova d'Ouurem, 
—José Joaquim Januário Lapa,— do cconse- 
lho de sua magestade, ministro e secretario 
d'estado, commendador das ordens da ITorre 
e Espada e das de S. Bento d'Aviz e dele Isa- 
bel a catholica, condecorado com umaa me- 
dalha de gratidão oflvrecida pelo exercitito da 
índia, marechal de campo, etc. 

Falleceu com 63 annos de idade no i dia 1 
de junho de 1859. 

Aos treze annos (em 1809) foi com í seus 
paes para o Brazil, e dois annos depobis as- 
sentou voluntariamente praça desoldaddono 
1.° regimento de artilheria do Bio de Janneiro. 

Estudou o curso de mathematica, f forti- 
ficação e desenho, e sciencias physicas eena- 
turaes na academia militar d'aquella ccida- 



1 V. Villa Franca de Xira. 



VIL 



VIL 873 



de, sendo quatro vezes premiado pelo seu 
merecimento. 

Achando-se na Parahibado Norte em 1818, 
foi incumbido de fortificar a costa d'esta pro- 
víncia desde a praia de Lucena, ao norte do 
Cabedello, até á Bahia-Formosa. Foi nomea- 
do por provisão regia delegado do commis- 
sario inspector geral das fortalezas e postos 
de guerra do reino do Brazil, encarregado 
de òrganisar e instruir o regimento de arti- 
lheria a cavallo do Bio de Janeiro, e nomea- 
do lente de mathematica na escola militar 
d'este regimento. Tinha então apenas vinte 
e quatro annos. 

Seguiu ali o seu accesso até ao posto de 
major. 

Proclamada a independência do Brazil e 
tendo o novo império de òrganisar todos os 
seus serviços, abria -se á capacidade do moço 
official de artilheria um vasto campo para a 
conquista da sua fama e dos seus interesses. 
Ajuda vam-no a estima geral em que era tido 
e as valiosas relações que lhe proporcionara 
o seu casamento com uma senhora das prin- 
cipaes famílias do Bio de Janeiro. 

A todas as vantagens e seducçòes prefe- 
riu o seu nome de portuguez e voltou a Lis- 
boa em 1825. 

N'esta viagem teve ensejo de mostrar a sua 
tempera de heroe praticando um d'esses as- 
sombrosos actos de valor com que os homens, 
ás vezes, a si mesmos se excedem. 

O navio em que embarcara no Bio de Ja- 
neiro era uma galera mercante, a qual, de- 
pois de soffrer grande temporal nas alturas 
da Bahia, naufragou n'aquellas paragens. 

Na enormidade do perigo, os marinheiros, 
sem ouvirem as vozes do capitão, que inu- 
tilmente os chamava á ordem e que teve de 
fugir diante dVUes pelo furor com que o 
aggrediram na brutalidade do seu instincto, 
lançaram o escaler ao mar, invadiram no tu- 
multuosamente e procuraram salvar-se, ex- 
pondo á mais irremediável perda os seus 
officiaes e todos os passageiros que vinham 
a bordo. 

O major Lapa, formoso mancebo de 29 
anno9, de pé, na tolda do navio, soltos os 
cabellos ao açoute d'aquelle vendaval terrí- 



vel, concebe uma idéa heróica e não hesita 
a pol-a em pratica um instante. De espada 
em punho salta ao escaler, e com a voz, 
com o gesto, com a sublimidade da sua ins- 
piração magnifica e com a firmeza da sua 
resolução decidida, elle, a mocidade scintil- 
lante e varonil, a encarnação do génio e do 
heroísmo, impõe o respeito e o temor áquel- 
les homens desvairados e destemidos; obriga 
a marinhagem a voltar ao navio, deixando 
apenas comsigo os remadores precisos; faz 
descer para o escaler as mulheres, as crean- 
ças e os doentes que estavam a bordo, e ven- 
cendo o furor das ondas vae lançal-os na 
praia da costa, a cídco léguas de distancia, 
volta de novo á galera e conduz para terra 
o resto dos passageiros e da marinhagem. 

Mas n'isto lembra-se de dois enfermos, 
incapazes de se moverem, e dos quaes nin- 
guém mais se lembrou nas angustias d'a- 
quelle perigo. Era preciso ir salval-os ainda 
Ao longe, a galera desfazia-se, cançada de 
luctar com a violência das vagas. 

E o moço artilheiro pela terceira vez faz o 
difficil trajecto, chegando ainda a tempo de 
voltar, senhor impassível do perigo e ven- 
cedor da morte. 

Basgo nobilíssimo de coragem, merecedor 
de ser eternamente repetido 1 

Conseguindo voltar a Portugal, foi o seu 
engenho aproveitado em muitos trabalhos 
scientificos. 

Desempenhou commisíões mineralógicas 
e montanisticas; foi empregado no arsenal 
do exercito; organísou, instruiu e comman- 
dou o batalhão nacional de artífices deste 
estabelecimento; dirigiu o fabrico e distri- 
buição de todo o material de artilheria e 
munições de guerra das fortificações de Lis- 
boa, Palmella e Setúbal em 1833, e concor- 
reu na mesma época, com o batalhão que 
commandava, para a defeza das linhas da 
capital. 

Em seguida fez parte de varias comrnis- 
sões nomeadas para tratar do aperfeiçoa- 
mento do material e do serviço da artilheria. 
Dirigiu a manufactura dos novos arreios, 
que se adoptaram, por proposta sua, para 
as parelhas dos parques de campanha, e 



874 VIL 



VIL 



montou e instruiu no respectivo exercício 
uma bateria de artilheria a cavallo. 

Foi depois collocado na terceira secção do 
exercito, em virtude da parte activa que to- 
mou nos acontecimentos de Belém, em 1836, 
e na tentativa dos marechaes, em 1837, para 
a restauração da Carta. N'esta situação en- 
controu immediataraente a sua intelligencia 
novos trabalhos em que se applicasse. Foi 
empregado pela companhia das Lezírias do 
Tejo e Sado, como director geral das obras 
das suas propriedades e administrador del- 
ias. 

Tendo voltado depois, pelas suas convic- 
ções politicas, á actividade do serviço no 
exercito, foi despachado tenente coronel em 
1841 cora a antiguidade de 5 de setembro 
de 1837; coronel graduado era 23 de agosto 
de 1843, e coronel effectivo em 10 de março 
de 1845. 

Em 1846 e no anno seguinte foi successi- 
vamente investido no cargo de governador 
militar de Santarém; commandante de uma 
columna movei ao norte do Tejo, com a qual 
reunindo-se ao exercito de operações, assis- 
tiu á acção de Torres Vedras, onde se dis- 
tinguiu pelo seu valor; e commandante de 
uma columna destacada do dito exercito na 
Beira e em Traz-os-Montes. 

Regressando a Lisboa no fim da lucta, foi 
eleito deputado ás cortes pelos círculos da 
Beira Alta e da Extremadura; exerceu dis- 
tinctamente, de modo que ainda hoje é com 
saudades lembrado, o cargo de coronel do 
1.° regimento de artilheria; foi governador 
civil de Lisboa ; ministro da marinha e ul- 
tramar; ajudante general do exercito; mi- 
nistro da guerra e pela segunda vez minis- 
tro da marinha, sendo exonerado d'estes 
cargos sempre a pedido seu. 

Como governador civil de Lisboa, cargo 
de que tomou posse pouco depois de termi- 
nada a lucta com a Junta do Porto, houve- 
se com o máximo acerto. 

Foi também governador geral da índia, 
etc. 

No Diário Illustrado de 12 de maio de 
1875 pode ver-se o retrato de s. ex. a e a sua 
biographia completa, na introducção da qual 



se lhe deu o titulo de Visconde de Ouurem. 
Foi lapso. 

Era visconde de Villa Nova d'Ourema, po- 
voação differente da de Villa d' Ourem, ccomo 
já dissemos supra, posto que o sr. Ignnacio 
Vilhena Barbosa, meu bom amigo e meestre, 
nas Cidades e Villas, pag. 104, in-fine,', fal- 
lando de Ourem diz que esta villa tambbem é 
nomeada Villa Nova d' Ourem. 

Aliquando dormitai Homerus. 

Ourem está no curuto de um pincarro— e 
Villa Nova d'Ourem na baixa, a 2 kildome- 
tros de distancia ;— Ourem foi desde o t tem- 
po dos romanos talvez povoação muraada — 
e Villa Nova d'Ourem foi sempre aberrta;— 
Ourem já era uma praça de guerra nmuito 
importante no século xiv— e Villa Novva de 
Ourem n'esse tempo era a microscopicsa po- 
voação de Pédella, depois Aldeia da CZruz ; 
Ourem è villa e parochia desde os prrinci- 
pios da nossa monarchia— e Villa Novva de 
Ourem é parochia de direito desde 18228, de 
facto desde 1831— e villa desde 1841;;— fi- 
nalmente Ourem foi séde de concelho ) e de 
comarca desde tempos muito remotoos até 
que perdeu essas preeminências em 11834, 
passando a séde do concelho para VilUa No- 
va d' Ourem (então Aldeia da Crwz) 1 — e aa séde 
da comarca para Thomar, sendo esta Villa 
Nova séde de comarca também desde 1875. 

Não se confunda pois a villa velha (^Ou- 
rem cora Villa Nova d'Ourem. 

Neste concelho ha minas de carvPão de 
pedra. Sabemos que foram registradaas na 
camará d'esta villa uma em agosto de 1 1874, 
—outra em fevereiro de 1875— e outrra em 
setembro do mesmo anno. 

Falleceu no dia 26 d'agosto de 187?5, em 
Lisboa, José da Silva Mendes Leal, naascido 
em 1796 e contando por consequenccia 79 
annos de idade. 

Era filho de João da Silva e de D. 1 Fran- 
cisca Ignacia Mendes Leal, natural de3 Villa 
Nova de Ourem. Foi cantor da antig?a pa- 



1 A administração do concelho d'0)urem 
já estava na Aldeia da Cruz desde 18113. 



VIL 



VIL 875 



triarchal e da Sé patriarchal, musico da ca- 
mará do tempo de D. João VI, até ao rei- 
nado da senhora D. Maria II, praça da I.» 
companhia do i.° batalhão fixo de Lisboa 
em 1834, e quando falleceu era musico apo- 
sentado da sé e mestre de piano. Os filhos 
que lhe sobreviveram são o sr. conselheiro 
José da Silva Mendes Leal e ossrs. Joaquim 
José da Silva Mendes Leal, João Garlos da 
Silva Mandes Leal e D. Maria Carlota Men- 
des Leal Cardoso. 

São também naturaes de Villa Nova dou- 
rem o dr. Vicente das Neves Gomes Elyseu, 
actual juiz da relação de Lisboa, — o dr. 
Agostinho Albano d'Almeida, facultativo 
aposentado do hospital das Caldas da Rai- 
nha—e o dr. José das Neves Gomes Elyseu, 
magistrado digníssimo e auctor do interes- 
sante Esboço Histórico do concelho de Villa 
Nova d' Ourem. 

Poderíamos mencionar Outros muitos fi- 
lhos beneméritos d'esta villa e d'este conce- 
lho, mas não queremos abusar da paciência 
dos leitores e dos editores. 

Noticias que recebemos á ultima hora 

0 movimento parochial d'esta freguezia 
no ultimo anno foi o seguinte ^nascimen- 
tos 65;— casamentos 13;--obitos 33. 

As festas principaes que hoje aqui se ce- 
lebram são a de Nossa Senhora da Piedade 
(orago)— Santíssimo Sacramento,— S. Sebas- 
tião—e Santo Antonio. 

Atè esta data (julho de 1885) esta fregue- 
zia conta 10 parochos 1 : 

1. ° — Antonio de S. Bernardino Pereira Re- 
bello da Fonseca, — vigário- cónego da colle- 
giada d'Ourem. 

Parochiou desde 1831 até 1834. 

2. °— Domingos Antonio d' Almeida, natu- 
ral d'esta parochia,— 1834 a 1849. 

3. ° — Antonio Vieira d' Almeida Borges, — 
parochiou seis mezes. 

4. °— Antonio Dias André, de 25 de junho 
de 1849, até janeiro de 1850. 

5. ° — Marcellino Vieira Borges, de janeiro 
de 1850 a janeiro de 1851. 

6. °— Manuel Midões, de 1851 a 1856. 

1 Fica assim rectificada a lista supra. 



Todos estes foram simples vigários encom- 
mendados. 

7. °— José Cypriano Borga, natural d'esta 
freguezia,— 1.° parocho (prior) collado,— 
1856 a 1867. 

8. ° — Domingos Antonio Alvares, 2.° prior 
collado,— 1867 a 1868. 

9. °— José Joaquim d' Almeida Pacheco,— 
encommendado,— 1868 a 1871. 

10. ° — Manuel Nogueira da Conceição, — o 
rev. prior actual. 

Foi encommendado desde junho de 1871 
até julho de 1874, data em que tomou posse 
como prior collado. 

Capellas publicas 1 

1. » — Nossa Senhora das Mercês, na aldeia 
de Alqueidão. 

A imagem é bastante imperfeita e foi le- 
vada para ali por um ermitão no século xiv. 

A capella está hoje dentro do cemitério 
d'aquella povoação. 

2. " — Senhor do Bom Despacho, na aldeia 
da Lourinha. Muito arruinada. 

3. " — Nossa Senhora dos Remédios, na al- 
deia de Louçans. Mal tractada. 

4. a — Nossa Senhora do Rosario, na povoa- 
ção do Pinheiro. 

Está dentro do cemitério da localidade, 
feito em 1860 por iniciativa do rev. prior 
José Cyprian© Borga. 

5. " — Nossa Senhora do Livramento, na al- 
deia de Valtravesso e também hoje dentro do 
cemitério da localidade. 

Festejam a Virgem e S. Sebastião. 

6. »— S. João Baptista, na aldeia de Villões. 
Em ruinas. 

Em 1855 o rev. José Cypriano Borga, 
sendo parocho em Coimbrão, foi convidado 
por alguns dos seus patrícios para se collar 
em Villa Nova d'Ourem e promover a cons- 
trucção de uma egreja que substituísse a Ca- 
pella de Nossa Senhora da Piedade de Al- 



1 Desculpemnos as repetições, filhas da 
precipitação com que eserevemos. 

Estamos no Porto revendo as provas da 
ultima parte d' este artigo, tendo em Lisboa 
já revistas as provas da parte restante I. . - 



876 VIL 



VIL 



deia da Cruz, pois alem de ser pequena para 
matriz, estava muito arruinada. 

Annuiu elle,— e em 1859, sendo já prior 
d'esta villa, determinou-se a emprehender 
a construcção do novo templo, arcando cora 
as maiores difficuldades e contrariedades. 
Além de não haver dinheiro para a obra, 
não concordavam na escolha do local, pelo 
que elle teve de decidir a questão, optando 
pelo local da dieta capela. 

No mesmo anno deu principio á demoli- 
ção das velhas sacristias, para no chão 
d'ellas se abrirem os alicerces da parede la- 
teral da nova egreja, e, depois de percorrer 
a freguezia, pediudo esmolas, dias de traba- 
lho, etc, para o novo templo,— ao que nin- 
guém se recusou, — no dia 21 d'agosto de 
1861 o mestre pedreiro João da Silva lançou 
a primeira pedra do novo edifício. 

As obras proseguiram muito lentamente, 
por falta de recursos. 

Em 1864 o mesmo prior, auxiliado pelos 
seus parochianos, fez na praça um basar, 
que foi uma festa esplendida, em que toma- 
ram parte a philarmonica e as senhoras mais 
distinctas da villa. Ilendeu 229$540 réis, 
que muito contribuíram para o adianta- 
mento das obras. Depois o dr. Antonio Eleu- 
therio, de Thomar, e Amónio Maia, de Tor- 
res Novas, deputados por este circulo, obti- 
veram do governo 1:300$000 réis de subsi- 
dio para as mesmas obras. 

Em 1867 estavam concluídas as capellas 
do Santíssimo, a do Senhor dos Passos,, o 
baptistério, a sacristia e a casa do despa- 
cho. 

A capella do Santíssimo foi benzida com 
grande pompa peio btDemerito prior em 20 
de outubro d'aquelle mesmo anno, e ficou 
servindo de egreja parochial;— depois se de- 
molia a parte restante da velha capella e fo- 
ram proseguindo as obras até á sua conclu- 
são, tractando-se ainda no momento das 
decorações interiores. 

Deve-se pois em grande parte a nova 
egreja á iniciativa e dedicação do benemé- 
rito prior José Cypriano Borga. 

Tem ella defeitos. A capella mór ficou pe- 
quena por falta de chão, pois entesta com a 



rua publica; — ao corpo da egreja tiraaram- 
lhe um metro na altura, por economiia,—e 
alteraram também o risco, abrindo imuito 
inconvenientemente uma porta lateraal de- 
fronte do púlpito. 

Interiormente tern altar- mór,— 4 latteraes 
e tecto de estuque, sobresahindo a meio 
d'elle a imagem de Nossa Senhora dia Pie- 
dade em relevo, com o Menino Jesuis nos 
braços. 

A villa não tem edifícios brasonadeos. Os 
mais importantes são a casa que foi dle An- 
tonio Joaquim d'Almeida, hoje de sems her- 
deiros,— e a do sr. Marianno de Lemoss, que 
é também o 1.° proprietário d'esta fregruezia. 
O 2.° é o sr. dr. Agostinho d'Almeida.. 

A planície ou ribeira, onde está Villai Nova 
d'Ourem, estende-se desde Ceissa até ;S. Se- 
bastião d'Alvejar, ficando ao norte a ILouri- 
nha e o Monte Allo— e ao sul os grandles pi- 
nheiraes da Casa de Bragança. 

O rev. prior José Cypriano Borga masceu 
no casal da Milheiro, desta fregueziai, a 26 
de julho de 1831. Foi o ultimo filho d'esta 
parochia baplisado na villa velha d'Omrem, 
poÍ3 nos fins d'aquelle mesmo anno se creou 
e separou de direito e de facto a fregueízia de 
Aldeia da Cruz, hoje Villa Nova d'Olurem. 

Seus paes, Francisco Vieira Borga <e Ma- 
ria Josepha, humildes, mas honrados llavra- 
dores, o confiaram em 1843 aos virtucosissi- 
simos frades do Varatojo,— Fr. José e Fr. 
Manuel da Conceição, — que desde 18J34 vi- 
viam como foragidos na serra de Santco An- 
tonio de Minde, concelho de Porto de !Moz, 1 
onde ensinavam porluguez, francez, latim, 
lógica e disciplinas ecclesiasticas aos; ordi- 
nandos dos povos circumvisinhos, qme os 
idolatravam. Tinham n'aquelle tempo 8*0 dis- 
cípulos!. . . 

Em 1852 recolheu-se ao seminário dte Lei- 
ria; — recebeu a ordem de presbyterro em 
Coimbra, a 23 de setembro de 1854, — e foi 
logo parochiar, como encommendado, a fre- 
guezia da Barreira, da qual passou p>ara a 



1 V. Minde, serra,— e Minde, freguesia,— 
vol. 5. 4 pag. 233. 



VIL 



VIL 877 



de Coimbrão, ambas do concelho de Leiria. 
Em 2 de junho de 1856 collou-se n'esta Villa 
Nova d'Ourem, onde logo prestou relevantes 
serviços, pois sendo n'aquelle anno açoitada 
pelo cholera e não havendo na freguezia ou- 
tro padre,— elle não sò ministrou os sacra- 
mentos a todos os cholericos, mas confor- 
tou-os e por vezes lhes applicou os remédios 
que os facultativos indicavam, pelo que o 
administrador do concelho depois lhe deu 
um attestado honrosissimo. 

Em 1859 deu principio á nova egreja;— 
no dia 20 d'outubro benzeu a nova capella 
do Santissimo;— no fim d'aquelle anno col- 
lou-se em Alcabideche, no concelho de Cas- 
caes, permutando com o prior Domingos 
Antonio Alvares,— e em 1872 transferiu-se 
para a freguezia de Bucellas, concelho dos 
Olivaes, onde se collou em 13 de novembro 
do mesmo anno. 

Em 1877 foi na peregrinação portugueza 
a Roma;— visitou o sanctuario de Lourdes, 
—Marselha, Génova, Roma, Nápoles, Pom- 
peia, etc, e no dia i.° de junho d'aquelle 
mesmo anno já estava com os seus paro- 
chianos e lhes deu com grande pompa 
e extraordinária concorrência de fieis a 
benção papal, concedida por S. Santidade 
Pio IX. 

É ainda prior de Bucellas e prior dignís- 
simo. 

A estrada a macadam de Leiria a Thomar 
e que atravessa esta villa, forma uma am- 
pla estrada rua. Yindo de Thomar, denomi- 
nasse Rua Direita, desde a entrada da villa 
até á Praça;— Rua de Belfort, desde a Praça 
até á Fonte Nova,—e Rua dos Alamos, d'ali 
até á outra extremidade da villa. 

A freguezia d'Ourem, ou da villa velha 
d'Ourem, apesar da sua decadência, ainda 
hoje (segundo uma nota que se dignou en- 
viar-me o seu rev. prior) conta 880 fogos e 
3:610 habitantes. 

O censo de 1878 deu-lhe 830 fogos e 
3:432 habitantes. 

O seu movimento parochialno ultimo an- 
no, foi o seguinte:— nascimentos 137,— ca- 
samentos 25,— óbitos 59. 

VOLUME X 



Vé-se pois que a população da villa ve- 
lha não diminue, augmental. . . 

VILLA NOVA D'0UTIL -aldeia da fregue- 
zia ã' Outil, concelho e comarca de Canta- 
nhede. 

V. Outil, vol. 6.° pag. 362, col. 1.» 

Por provisão do desembargo do paço, com 
data de 17 de dezembro de 1574, se perniit- 
tiu que os moradores das freguezias de S. 
Martinho d' Arvore e de Outil, bem como os 
da aldeia de Villa Nova d'Outil, podessem 
cortar carne nos dictos logares pelo preço 
estipulado para Coimbra;— e por outra pro- 
visão da mesma procedência, com data de 
10 de janeiro de 1777, se ordenou ao corre* 
gedor de Coimbra que fizesse conter na obe- 
diência ao mosteiro de Cellas (hoje, 1885, 
já extincto) os habitantes dos seus casaes 
nos districtos de Tobim, Feteira, Lobares, 
Figueiró do Campo, Eiras e Villa Nova 
oV Outil, obrigando-os a pagarem todos os 
direitos devidos ao mosteiro, na conformi- 
dade do foral e dos arbitramentos do cos- 
tume, procedendo contra os que assim o não 
cumprissem. 

VILLA NOVA DA PALHAÇA — freguezia 
do concelho e comarca d'Aveiro. 

V. Palhaça, vol. 6.° pag. 425. 

Desde 1882, data da ultima circumscri- 
pção diocesana, foi supprimido o bispado 
d'Aveiro e dividido pelos do Porto e de 
Coimbra, passando para este ultimo a fre- 
guesia da Palhaça, ou de Villa Nova da Pa- 
lhaça, com todas as do concelho d'Aveiro e 
as dos concelhos de Agueda, Anadia, Ílhavo, 
Oliveira do Bairro e Vagos. As freguezias 
restantes do districto e da diocese de Aveiro 
ficaram pertencendo á diocese do Porto. São 
as dos concelhos d' Arouca (exceptuando a 
d'Alvarenga) Albergaria Velha, Castello de 
Paiva, Estarreja, Feira, Oliveira d'Azemeis 
e 7 do de Macieira de Cambra. As duas res- 
tantes d'este ultimo concelho, bem como as 
do concelho de Sever do Vouga, pertencem 
ao bispado de Vizeu. 

Está portanto o districto d'Aveiro divi- 
dido pelos bispades de Coimbra, Lamego, 
Porto e Vizeu ! . * . 

VILLA NOVA DE PENALVA. 

V. SepulchroyTrancozêllo e Trancozellos. 



878 



VIL 



VILLA NOVA DE PORTIMÃO— villa, fre- 
guezia e séde de concelho e de comarca do 
districto e diocese de Faro, província do 
Algarve. 

V. Portimão n'este diccionario e no sup- 
plemento, onde desenvolverei consideravel- 
mente aquelle artigo com as notas colhidas 
por mim na localidade e com os interessan- 
tes apontamentos que se dignou enviar-me 
o muito illustrado e benemérito prior d'a 
quella formosa villa, o rev. sr. José Gonçal 
ves Vieira, a qupm mais uma vez reitéro os 
meus cordeaes agradecimentos, pedindo-lhe 
me desculpe o não dar agora, como bem 
desejava, o supplemento áquelle artigo, por- 
que circunstancias muito extranhas á mi- 
nha vontade me forçam a passar adiante. 

Agradeço também ao sr. José Augusto 
Carneiro o exemplar que se dignou offere- 
cer-me da sua interessante Memoria histó- 
rica, genealógica e biographica da casa de 
Abrantes ou dos antigos condes e senhores 
de Villa Nova de Portimão, hoje muito di- 
gnamente representados pelo sr. D. João Ma- 
ria da Piedade, José, Pedro, Paulo, Bento, 
Francisco de Assis e Xavier, Ignacio de 
Loyolla, Luiz Gonzaga, Antonio, Braz, Ber- 
nardo, Paulo Eremita, Veríssimo dos Santos 
Innocentes, Thomaz de Cantuaria, marquez 
d'Abrantes e de Fontes, conde de Penaguião, 
de Figueiró, de Sortelha e de Villa Nova de' 
Portimão, camareiro-mór e commendádor- 
mór na ordem d'Aviz, de sua casa, grande 
de Portugal e de Hespanha, etc, etc. 

VILLA NOVA DO PRÍNCIPE— V. Azem- 
ja, vol. 1.» pag. 291, col. 2.» 

VILLA NOVA DE PUSSOS— freguezia do 
concelho de Alvaiázere, districto de Leiria, 
na Extremadura. 

V. Pussos, vol. 7.° pag. 716, col. i. a 

VILLA NOVA DA RAINHA— freguezia do 
concelho d'Azambuja, comarca do Cartaxo, 
districto e diocese de Lisboa, província da 
Extremadura. 

Orago Santa Martha,— fogos 9 i,— habitan- 
tes 360. 
Priorado. 

Em 1712 era vigairaria da comarca de 
Alemquer, annexa á matriz de Santo Este- 
vam d'aqfuella villa,— e contava 70 fogos, os 



VIL 

quaes apresentavam o seu vigário, quês era 
collado. 

Em 1768 era curato da mesma apressen- 
tação;— rendia para o cura 80#000 réiss— e 
contava 105 fogos. 

Em 1840 perteucia esta parochia ao ccon- 
celho d'Alemquer, do qual passou parra o 
da Azambuja por decreto de outubro- de 
1855. 

Comprehende esta freguezia os casaess do 
Loiro, d'El-Rei, de Val da Serpe, Vali de 
Mouro— e as quintas do Queimado, perten- 
cente a D. Catharina Rita Pereira,— dce S. 
Julião e do Caldas, pertencentes a João Giar- 
cez Palha d'Almeida,— Barracas pertencesnte 
á Companhia das Lezírias do Tejo e Sadoo,— 
e Arneiros, a José Rodrigues Duarte Mdon- 
teiro. 

A Chorographia Moderna menciona taam- 
bem as quintas do Novaes, da Mina e do 
Conde. 

A Chorographia Portugueza mencionaa o 
olival do Queimado,— uma grande quinta crha- 
mada Aldeia de Pegas, pertencente ao coimde 
de Castello Melhor,— e outra denominaada 
Quinta do Rei, que era de Antonio Perejira 
da Silva. 

Parochias limitrophes— Triana ou Nosssa 
Senhora da Assumpção d'Alemquer, a O.».— 
Azambuja, a E. N. E.— e o Tejo a E.— beem 
como a linha férrea do norte, da qual dissta 
cerca de 200 metros,— 6 kilometros d'Aleim- 
quer,— 7 da Azambuja— 18 do Cartaxo — 40 
de Lisboa— e 297 do Porto. 

Passa n'esta freguezia a estrada reall a 
macadam de Lisboa ao Porto— e está apprro- 
vado o projecto de uma estrada districttal 
que deve atravessar esta parocbia tann- 
bem. 

Esta freguezia comprehende parte da (de 
S. Bartholomeu do Paul a" Ott a, que foi e?x- 
tineta, passando a outra parte para a frre- 
guezia do Espirito Santo de Otta, pertein- 
cente a este mesmo concelho d'Alemqueer. 

V. 0'lla, vol. 6.° pag. 304, col. 2.» — e 
Paul d'0'tta no mesmo vol. pag. 508, col. 11.» 

Entre a povoação de Villa Nova da Rainrha 
e o Tejo ha uma grande campina, e para o 
lado d'Alemquer outra com 5 kilometros rjde 



VIL 



VIL 879 



comprimento e 2 a 3 de largura K São fér- 
teis e produzem muitos cereaes, mas por 
serem muito planas e em grande parte ala- 
gadiças, são um viveiro de sesões e de fe- 
bres paludosas que já extinguiram a popu- 
lação da freguezia de S. Bartholomeu do 
Paul d'0'tta e que açoutam cruelmente a 
d'esta. 

Diz J. A. d'Almeida que os romanos cha- 
maram a esta freguezia Pugna Tagi, corru- 
pto vocábulo Punhete. 

Foi lapso. Confundiu esta parochia com a 
de Villa Nova de Constância, ou Punhete. 

Também o sr. José Maria Baptista diz que 
ha n'esta parochia uma feira annual a 19 de 
março, 2 em quanto que os apontamentos 
que recebi do próprio administrador do con- 
celho dizem que não ha n'esta parochia feira 
alguma. 

Os templos d'esta freguezia hoje reduzem- 
se á sua egreja matriz, que é muito antiga, 
pois n'ella se recebeu o condestavel D. Nuno 
Alvares Pereira com D. Leonor d'Alvim. 

Era então Villa Nova da Bainha uma 
grande povoação e villa, á qual el-rei D. 
Fernando, segundo se lé na Chorographia 
Portugueza, deii foral (Franklim não o men- 
ciona) concedendo-lhe o privilegio de não 
pagar jugada nem oitavos;— mas os caste- 
lhanos a destruíram quando retiravam da 
batalha d'Aljubarrota. 

Suppõe-se que a pobre villa esteve no oli- 
val do Queimado. Apenas pouparam a egreja 
matriz e junto d'ella algumas casas. 

Foi tão completa a destruição, que na lo- 
calidade nem a memoria se conserva de tal 
villa! 

Banham esta parochia os rios d'Alemquer 
e de 0'tta, que desaguam no Tejo, a distan- 
cia de 1:500 metros da povoação de Villa 
Nova da Rainha, á saida da qual teem uma 



1 Carvalho diz que só na campina do la- 
do d'Alemquer semeavam mais de cem moios 
de trigo, no seu tempo,— e que tinha esta 
várzea um provedor, que era o juiz de fóra, 
com seu escrivão e um meirinho próprios. 

2 Almeida menciona ainda outra feira an- 
nual de 2 dias, a 28 de julho. 



ponte de pedra, na estrada do Carregado, e 
duas azenhas. 

Producções dominantes— cereaes, vinho e 
azeite. 

Também cria bastante gado. 

O cholera morbus fez aqui muitas victi- 
mas em 1833 e 1834. 

Esta freguezia comprehende os montes de 
S. Pedro, que nada offerecem de notável. 

Tem uma eschola offlcial de instrucção 
primaria elementar para o sexo masculino. 

Na interessante Memoria sobre estudos 
prehistoricos em Portugal, publicada pelo 
sr. Carlos Ribeiro em 1878 e por elle offe- 
recida á nossa Academia Real das Seiencias, 
se lé, a pag. 19, o seguinte : 

a Não ha muito que nas proximidades de 
Bellas, no meio das estações da epochaneo- 
lithiea, encontramos objectos de quartzite 
trabalhados, d'envolta com fragmentos de 
pedra polida; e estes quartzites, pelo seu as- 
pecto e forma não differem dos quartzites 
trabalhados por mão d'homem, que nós en- 
contrámos também nos terrenos terciários e 
quartenarios de Villa Nova da Rainha, Bar- 
quinha e Ponte de Sor.» 

Do exposto se deduz que o chão d'esta pa- 
rochia foi habitado nos tempos prehistoricos 
da pedra polida, bem como grande parte da 
bacia hydrographica do Tejo e do rio de 
Odemira. 

V. Villa Nova de Mil Fontes e a Memoria 
citada. 

VILLA NOVA DA RAINHA— freguezia do 
concelho de Santa Comba-Dão, comarca de 
Tondella, districto e diocese de Viseu, na 
Beira Alta. 

Orago o Santíssimo nome de Jesus.— Fo- 
gos 150,— habitantes 620. Curato. 

Em 1708 era curato da apresentação da 
prior de Santa Maria de Treixedo, hoje Nossa 
Senhora da Assumpção do Treixedo, no an- 
tiquíssimo concelho d'este nome, comarca de 
Vizeu,— e tinha o dicto curato 70 fogos com 
206 pessoas maiores e quarenta e seis me- 
nores, segundo se lé na Chorographia Por- 
tugueza. 

Em 1768, segundo se lé no Port. S. e Pro- 
fano, era curato da mesma apresentação,,— 



880 



VIL 



VIL 



contava 65 fogos — e rendia para o cura 
30$000 réis, afóra o pé d'altar. 

Hoje tanto Villa Nova da Rainha como 
Treixedo são fregqezias do concelho de Santa 
Comba-Dão. 

É muito antigo este povoado de Villa No- 
va da Rainha e o seu território, pelo me- 
nos parte d'elle, deve ser mimoso e fértil, 
porque é banhado por um ribeiro, confluente 
do rio Dão, e demora no abençoado territó- 
rio do Valle de Besteiros, que produz muito 
milho, muito vinho e grande quantidade de 
laranjas, das melhores do nosso paiz. 

V. Besteiros, valle, vol. l.° pag. 393, col. 
primeira. 

Em 1210 D. Sancho I doou esta Villa Nova 
da Bainha, do Valle dé Resteiros, a Fernão 
Nunes — e confirmou a doação o seu mor- 
domo D. Gonçalo Mendes. Doe. de Lorvão. 

Nada mais posso adiantar porque, tendo 
passado muitas vezes em Santa Comba-Dão, 
nunea visitei esta Villa Nova da Rainha e, 
apesar das minhas reiteradas instancias, nem 
o sr. administrador do concelho nem o rev. 
paroeho até hoje se dignaram mandar-me 
apontamentos alguns. Além d'isso por fata- 
lidade nenhum dos meus mappas indica 
esta parochia ; — o diccionario d'Almeida 
apenas a mencionou peio titulo, como todas 
as chorographia3 que me cercam,— e o sr. 
José Maria Baptista nada pôde adiantar lam- 
bem por se haver perdido o relatório do 
Diccionario Geographico Manuscripto,- exis- 
tente na Torre do Tombo ! . . . 

Apontamentos recebidos á ultima hora : 

Esta freguezia não comprehende aldeias 
nem quintas ou casaes dignos de menção. 

Parochias limitrophes : — Dardavaz, Mu- 
raz, Tonda e Treixedo:— as 3 primeiras per- 
tencem ao coneelho de Tondella— e a ultima 
ao de Santa Combadão. 

Dista da séde do concelho 12 kilometros; 
—da séde da comarca 7;— 2 da estrada real 
n.° 8 da Mealhada a Vizeu, por Santa Com- 
ba-Dão;— 14 da estação de Santa Comba- 
Dão, que é a mais próxima na linha da Beira 
Alta;— 49 da Pampilhosa, entroncamento da ' 



linha da Beira Alta na do Norte; — 100)0 da 
cidade da Figueira;— 181 de Villar Forrrmo- 
so ;— 156 do Porto— e 280 de Lisboa.' 

O ribeiro que banha esta freguezia t tem 
uma pequena ponte, tres moinhos para a ce- 
reaes, um para azeitona, e desagua no o rio 
Dão a distancia de 10 kilometros. 

As producções principaes d'esta paroeochia 
são:— milho, vinho, azeite, feijões, fructetas, 
gado e caça. 

Nunca foi villa e não tem edifícios c que 
mereçam especial menção. 

Tem cemitério contíguo á egreja matatriz. 

Abundam n'esta parochia vendedeiras is de 
queijos e de pinhões. 

Não tem outra industria. 

Ha n'esta freguezia uma serra bastatante 

elevada, mas de pequenas dimensões, a 

Serra da Senhora da Esperança, — assim o de- 
nominada por ter uma Capella da mesma a in- 
vocação de Nossa Senhora, com festata e 
grande romagem no dia 5 d'agosto. 

Não ha n'esta freguezia outra capellála — 
nem escola alguma. 

Com vista aos illustres vereadores de Samnta 
Comba-Dão. 

A egreja matriz é um templo modesto. o. 

VILLA NOVA DE REGUENGOS ou P RE- 
GUENGOS DE MONSARAZ — ou simplples- 
mente Beguengos, villa, freguezia e sédeie do 
concelho d'este nome na comarca do I Re- 
dondo, província do Alemtejo. 

V. Beguengos, vol. 8.° pag. 115, col. 1. 2. a 
in-fine. 

VILLA NOVA DE SANDE — ou simplples- 
mente Sande, — freguezia do coneelho e o co- 
marca de Guimarães, orago Santa Mamria, 
paradistineção das outras freguezias de ScSan- 
de (mais tres) pertencentes ao mesmo cecon- 
eelho e comarca. 

V. Sande, vol. 8.° pag. 88, col. 2. a 

VILLA NOVA DE SEIRA.-.Assim se ( de- 
nominava antigamente a freguezia actual al de 
Ceira ou Seira, no concelho e comarca a de 
Coimbra. 

V. Ceira, vol. 2.° pag. 266, in fine. 

Ao que já alli dissemos d'esta paroiebehia, 
vamos acerescentar algumas noticias impipor- 
tantes : 



VIL 



VIL 881 



No archivo da camará municipal de Coim- 
bra se encontra entre os Documentos avul- 
sos (em papel) o processo das vistorias que» 
a requerimento do juiz de Seira, fez a cama- 
rá de Coimbra nas tomadias dos baldios e 
rocio3 d'aquella parochia, comprehendendo 
—os autos da vistoria e demarcação de 3i 
de maio de 1640 e de 30 de maio de 1642, 
— o despacho de 21 de junho de 1642, que 
os julgou por sentença — e algumas petições, 
embargos e outros documentos e termos, re- 
lativos ás dietas vistorias. 

Termina com o despacho de 21 de feve- 
reiro de 1643, que despresou os embargos e 
mandou dar cumprimento á sentença de 
1642. 

No mesmo archivo se encontra entre as 
Cartas originaes dos infantes uma do infante 
D. Pedro, duque de Coimbra, datada de 14 
de maio de 1439, dirigida ao corregedor 
Mendo Affonso d'Antas, havendo por bem o 
mandar cumprir a carta d'el-rei, seu pae, 
confirmada por el-rei, seu irmão, que das 
serventias das pontes, fontes e calçadas não 
escusava os caseiros e lavradores do bispo, 
cabido., mosteiros, egrejas e fidalgos da ci- 
dade e termo, ordenando que pela mesma 
forma servissem aos giros no corregi mento 
do caminho de Ceira os homens e caseiros 
dos conventos de S. Jorge e de Semide, sem 
embargo da escusa que lhes concedêra,— ao 
de S. Jorge pela singular devoção do pae 
d'elle infante para com o dito mosteiro;— ao 
deSemide por ser pobre e n'elle jazerem do- 
nas, filhas d'algo. 

No mesmo archivo se encontra no Liv. II 
das Nomeações dos Ofjiciaes da Camara, uma 
ordem (original) da monteria-mór do reino, 
com data de 13 de novembro de 1794, pe- 
dindo á camará informações com relação ao 
officio do monteiro-mor de Ceira. 

No mesmo archivo, fl. 213, v. do 1.° Livro 
da Correia, que comprehende os regimen- 
tos e posturas da cidade de Coimbra, feitos 
em 1554, se encontra a postura da ordenan- 
ça da pasagem daa barqua de seyra — ou a 
tabeliã dos preços da passagem na dita bar- 
ca, in illo te mpore,— coisa, muito interessan- 



I te hoje para os amadores de curiosidades 
históricas. 

No mesmo archivo e no Livro III das Cor- 
reias se encontra a fl. 258, v. uma carta re- 
gia de 2 de maio de 1716, participando á 
camará de Coimbra o nascimento de um in- 
fante, — e era seguida uma provisão do de- 
sembargo do paço com data de 15 de julho 
do mesmo anno, declarando que á mesma 
camará competia a eleição do juiz da vinte- 
tena de Ceira. 

No mesmo archivo se encontra no tomo 
3.° do Registo, a fl. 269, v. o regimento da 
barca da passsagem de Ceira, feito em 23 de 
maio de 1573, muito curioso também. 

No mesmo archivo se encontra no tomo 
33 do Registo, fl. 44 e 45, uma carta de no- 
meação do monteiro-mór dos lobos e mais 
bichos em Ceira, Castello Viegas e outros 
logares, datada de 1644. 

No mesmo archivo se encontra a fl. 396 
do tomo 60 do Registo uma provisão do de- 
sembargo do paço, com data de 7 de novem- 
bro de 1832, dando ao juiz do tombo do mor- 
gado de Ceira, da condessa da Ribeira Gran- 
de, jurisdieção privativa em todas as causas 
com os emphyteutas e rendeiros do dicto 
tombo. 

D'aqui se infere a importância do morga- 
do que os condes da Ribeira Grande tinham» 
— e não sabemos se tem ainda, — em Ceira. 

No mesmo archivo se encontram a fl. 65, 
v. e 71 do Registo da Correspondência (n.° 7) 
os officios e edictaes que precederam o afora 
mento de certos baldios em Ceira. 

No mesmo archivo, a fl. 389, v. do tomo I 
do Registo da Legislação, se encontra uma 
provisão do desembargo do paço, com data 
de 25 de junho de 1773, ordenando que os 
caseiros dos morgados que a condessa da Ri- 
beira Grande, D. Joanna Thomasia, tinha em 
Ceira e Sarnache, não podessem recolher os 
fructos das eiras e lagares sem prévio aviso 
do rendeiro. 

No mesmo archivo, a fl. 202 do tomo 2.* 
do Registo da Legislação, se encontra uma 
provisão do desembargo do paço, com data 
de 19 d'abril de 1788, concedendo a Thomaz 
Joaquim da Motta— em sua vida somente — 



882 VIL 



VIL 



a administração da barca de passagem no 
Mondego, chamada barca de Ceira, que era 
da corôa. 

Finalmente no mesmo arehivo e no mes- 
mo Registo da Legislação, a fl. 19, v. do to- 
mo 4.° se encontra uma provisão do desem- 
bargo do paço, com data de 3 d'abril de 1807, 
estabelecendo nas freguezias de Almalaguezi 
Castello Viegas e Ceira, á custa dos sobejos 
das sisas d'ellas, o partido de 15011000 réis 
para um facultativo que curasse os habitan- 
tes dos dictos logares e os pobres, de graça- 

VILLA NOVA DO SEPULCHRO-ou Villa 
Nova de Penalva. 

V. Sepulchro,—Trancozello—e Trancozel- 
los. 

VILLA NOVA DE SOUTO D EL-REI— ou 

Arneiros,— freguezia do concelho, comarca e 
diocese de Lamego. 

V. Arneiros, tomo 1.°, onde já se fallou 
d'esta freguezia; mas no supplemento desen- 
volverei amplamente aquelle artigo, o que 
agora não posso fazer, por falta de espaço. 

VILLA NOVA DE TAZEM — freguezia do 
concelho e comarca de Gouveia, districto e 
dioeese da Guarda, província da Beira Baixa. 

Priorado. Fogos 550, — habitantes 2:310. 

Orago Nossa Senhora da Assumpção. 

Em 1768 era priorado do padroado real, 
—contava 2i7 fogos— e rendia 650$000 réis. 

O censo de 1878 deu-lhe 506 fogos e 2:068 
habitantes. 

Comprehende as aldeias ou povoações se- 
guintes:— Villa Nova, séde da freguezia, com 
360 fogos, — Tazem, com 130 e Paçoinhos, 
com 60. 

Comprehende também os moinhos do Cu- 
vo e da Fidalga,— e as quintas de Lagares, 
Regadas, Ribeira e Reguengo, todas pouco 
importantes, porque a propriedade se acha 
aqui muito dividida. 

Freguezias limitrophes:— Cativellos a N.— 
Rio Torto a E.,— Lagarinhos a sueste,— La- 
ges e Girabolhos a O. 

Villa Nova, séde da freguezia, dista da al- 
deia de Paçoinhos 500 metros; — da de Ta- 
zem 1:500; — 7 kilometros da margem es- 
querda do Mondego;— 12 de Gouveia; — 16 
da estação de Mangualde (a mais próxima) 
na linha da Beira Alta;— 60 da Guarda, pela 



estrada a macadam, — 99 pela linha feErrea 
da Beira Alta;— 145 da Figueira; — 1999 do 
Porto— e 323 de Lisboa. 

Esta é uma das freguezias do nosso » paiz 
que tem tido mais nomes differentes e 3 que 
mais dores de cabeça tem causado aos i nos- 
sos chorographos para a discriminareem e 
classificarem, vendo-se todos perplexos e 3 sem 
poderem sahir do labyrintho. 

Notem : 

Nos fins do século xm denominavva-se 
Villa Nova de Riba-Mondego, por estar, ccomo 
já dissemos, na margem esquerda do Mon- 
dego, no termo de Folgosinho, pelo que 
também se denominou Villa Nova de Fol- 
gosinho. 

Era então uma simples herdade ou qquin- 
ta de D. Guilhelmo, que lhe deu o 1.° f foral 
na era de 1220, anno de 1182. V. Casal r oes- 
te diccionario e Exaveaduras em Viterbbo. 

Hoje mal se acredita que pertencessise ao 
termo de Folgosinho, porque estavilla ? anti- 
quíssima é hoje uma pobre e obscura fre- 
guezia do concelho de Gouveia, alcandonrada 
na Serra da Estrella, cerca de 20 kilomeetros 
a E. de Villa Nova de Tazem, e terá hoje 3 ape- 
nas metade da população d'esta poroochia- 
Alem d'isso entre ella e Villa Nova de Trazem 
mettem-se de permeio muitas parochias.s, al- 
gumas das quaes foram desde tempos re-emo- 
tos villas e concelhos também, taes são í Gou- 
veia, Mello e Cabra. 

Desde os princípios do século xvi ddeno- 
minou-se também Villa Nova do Casal, \ por- 
que pertenceu á antiga Commenda do CGasal 
que tinha por cabeça a aldeia do Casal, , cer- 
ca de 18 kilometros a S. O. hoje da parooehia 
de Travancinha, concelho de Ceia. 

D. Manuel deu foral em Lisboa, a 221 de 
fevereiro de 1514, á dieta Commenda doo Ca- 
sal e a esta freguezia de Villa Nova, poois a 
dieta commenda e o dicto foral comprefehen- 
diam as terras seguintes:— Casal, Cativeiellos, 
Lageosa, Pereiro, Povoa da Rainha, Sanmei- 
ce, Travancinha, Varzia do Fundo e } Villa 
Nova, hoje Villa Nova de Tazem. 

Livro de Foraes Novos da Beira, fl. 333, v. 
col. 2.» 



VIL 



VIL 883 



Depois se denominou também Villa Nova ] 
do Casal, porque até 1834 esta paroehia fa- 
zia parte do julgado do Casal, pertencente ao 
.termo de Geia,— julgado que comprehendia 
entre outras povoações Tazem e Paçoinhos. 

Passou pois esta paroehia (não sabemos 
quando) do concelho de Folgosinho, cerca 
de 20 kilometros a N. E., para o de Ceia, 
cerca de 15 kilometros a S.,— e para o jul- 
gado do Casal, paroehia de Travancinha, cer- 
ca de 18 kilometros a S. O. mettendo-se de 
permeio varias freguezias ! . . . 

Deixando o julgado do Casal e passando 
para o concelho e comarca de -Gouveia, não 
mais se denominou Villa Nova do Casal, mas 
simplesmente Villa Nova e também Villa No- 
va de Tazem (ainda hoje e não sabemos des- 
de quando) — titulo que tomou da visinha 
povoação de Tazem, hoje simples aldeia d'es- 
ta paroehia, mas muito antiga e que já foi 
povoação mais importante e matriz d'esta fre- 
guezia de Villa Nova. Ali se encontram ainda 
hoje claros vestígios da velha egreja, no lo- 
cal da capella de S. João. 

Do exposto se vê que esta freguezia de Vil- 
la Nova ou Villa Nova de Tazem, no conce- 
lho de Gouveia, já se denominou Villa Nova 
de Riba-Mondego, — Villa Nova de Folgosi- 
nho, e Villa Nova do Casal, mas nunca se 
denominou Casal. 

Também nunca foi villa,mas teve doisfo- 
raes, como dissemos supra, — um dado por 
D. Guilhelmo, outro por D. Manuel. 

Até 1882, data da ultima circumscripção 
diocesana, pertenceu ao bispado de Coim- 
bra; mas desde aquella data passou com to- 
das as freguezias dos concelhos de Gouveia e 
de Ceia para o bispado da Guarda. 

Atravessa esta freguezia a estrada mu- 
nicipal de Ponte Pedrinha a Gativellos, cuja 
extensão é de 10 kilometros. 

Passam também a 5 kilometros d'esta fre- 
guezia— do lado sueste, a estrada real da bei- 
ra, de Coimbra a Celorico, pela margem es- 
querda do Mondego e ponte da Murcella sobre 
o Alva, e a igual distancia, pelo lado nordes- 
te, a estrada a macadam de Gouveia a Man- 
gualde, atravez do Monte Aljão, grande bal- 
dio de Gouveia, passando o Mondego na pon- 



te Palhez e tocando na estação dos Cuvos, 
ou de Mangualde. 

Demora esta freguezia em terreno relati- 
vamente fundo e quasi plano, ou suavemente 
ondulado, entre a margem esquerda do 
Mondego e a pendente N. O. da grande Ser- 
ra da Estrella, cujo antemural é imponen- 
te e surge a distancia de 10 kilometros d*es- 
ta paroehia, para S. E. 

A egreja matriz é um templo modesto e 
pouco espaçoso, relativamente á grande po- 
pulação d'esta paroehia,— a mais populosa e 
mais importante do concelho, depois da vil- 
la de Gouveia. 

Ha também n'esta paroehia as capellas se- 
guintes : S. Miguel, S. Bartholomeu, Santo 
Antonio e Senhora dos Milagres, em Villa No- 
va, todas publicas, exceptuando a ultima;— 
S. Cosme e S. Damião, capella também publi- 
ca, elegante e muito bem situada, em Paçoi- 
nhos,—e S. Sebastião e S. João, também pu- 
blicas, em Tazem,— tendo a de S. João festa 
e romagem no dia do seu orago, 24 de ju- 
nho. 

Nenhuma das outras festas que hoje aqui 
se fazem merece especial menção. 

Ha também n'esta paroehia muitos edifí- 
cios decentes, mas nenhum notável,— e uma 
feira em Villa Nova, nas quintas domingas 
de cada mez. 

Foi sempre povoação aberta, sem visos de 
fortificação alguma, por estar em planície ; 

— pelo contrario foram fortificadas muit\s 
das povoações que estão no próximo ante- 
mural da Serra da Estrella, taes são Celori- 
co, Linhares, Gouveia e Ceia. 

Também nunca teve convento algum. Os 
mais próximos eram o do Couto, de freiras 
franciscanas, em Nabainhos, — o de freiras 
franciscanas também, na freguezia de Vinhó, 

— o do Espirito Santo, de frades francisca- 
nos, junto da villa de Gouveia, para O. — e 
mesmo na villa o Collegio dos Jesuítas, de- 
pois convento das freiras franciscanas d' Al- 
meida,— em seguida quartel militar— e por 
ultimo rezidencia dos condes de Caria, com 
vistas esplendidas e uma bella cerca. 

Ha em Villa Nova uma linda rua,deno mi- 



íimj 



884 



VIL 



nada de Antonio Mendes, formada por um 
lanço de estrada municipal de Ponte Pedri- 
nha a Cativellos, que atravessou a povoação 
e lhe deu muito realce. Denominaram-na de 
Antonio Mendes por gratidão para com o pre- 
sidente da camará que mandou fazer a dieta 
estrada,— o commendador e dr. Antonio Men- 
des Duarte e Silva, de Gouveia, um dos pri- 
meiros proprietários e industriaes d'este 
concelho e que Já foi deputado ás cortes, 
secretario geral do governo civil da Guarda 
e Governador Civil do mesmo districto. 

Ha também na grande povoação de Villa 
Nova um bom largo, junto da matriz, deno- 
minado da Egreja. N'elle se fazem as fei- 
ras. 

Banha esta freguezia um ribeiro que di- 
vide a povoação de Villa Nova em dois bair- 
ros e desagua no Mondego, no sitio de Por- 
to de Rei, cerca de 8 kilometros ao poente 
de Villa Nova. Tem uma ponte, de um só ar- 
co, denominada do Castello, na estrada de 
Ponte Pedrinha a Cativellos. 

Producções principaes:— vinho, azeite, ce- 
reaes e fruetas,— predominando o vinho, que 
é o melhor do concelho e gosa de justa fa- 
ma na Beira, como vinho de pasto. 

No ultimo anno em que se procedeu ao ar- 
rolamento do vinho para o lançamento da 
contribuição denominada subsidio litterario, 
verificou-se que esta parochia produzia vin- 
te e quatro mil hectolitros— ou 60:000 almu- 
des, de 40 litros 1 Hoje produz menos, por 
causa das muitas doenças que affectam os vi- 
nhedos de todo o nosso paiz, posto que a 
phylloxera ainda aqui não chegou. 

Pôde compular-se a sua producção actual 
em 16:000 hectolitros,— ou 40:000 almudes. 

Quando em 1850 a 1860 o oidium assolou 
os vinhedos do Douro e a aguardente attin- 
giu preços fabulosos, montaram-se n'esta fre- 
guezia tres machinas de queimar vinho, que 
fabricaram grande quantidade de aguarden- 
te para o Porto e Begoa. 

Não tem nem nunca teve uma fabrica de 
lanifícios, como outras freguezias d'este con- 
celho, que actualmente conta vinte e seis das 
dietas fabricas, algumas das quaes tem da- 
do fortunas importantes, nomeadamente as 



VIL 

da opulenta casa Rainhas, de Gouveia, hoje 
avaliada em quatro centos contos de réis ! ! t 

Produz esta parochia muita fructa de boa 
qualidade, principalmente castanhas, cere- 
jas, figos, abrunhos, peras, maçãs, pecegos, 
melões, melancias e nesperas japonicas. La- 
ranja muito pouca e muito azeda, por cau- 
sa da vizinhança da grande serra e por fal- 
ta de ravinas ou quebradas fundas. 

Tem abundância de granito para construc- 
ções e de mattas de pinho para lenha e ma- 
deira. 

A propriedade aqui está muito dividida, 
bem agricultada e é toda pertencente aos 
habitantes da parochia, muitos dos quaes 
possuem largos chãos fóra d'ella, pelo que 
esta parochia ó uma das mais ricas e prospe- 
ras da Beiral 

Os seus habitantes são muito religiosos, 
muito tractaveis, bem morigerados, respei- 
tadores das pessoas que consideram princi- 
paes, laboriosos e agenciadores. Costumam 
concorrer em grande numero ás feiras dos 
povos circumvisinhos, nas quaes vendem a 
retalho géneros de mercearia, fazendas bran- 
cas, vinho, etc. 

Com rasão se orgulha esta parochia de 
haver produzido bastantes homens notáveis. 
Mencionaremos apenas os seguintes : 

Francisco Henrique Toscano, ultimo ca- 
pitão-mór do Casal. 

Foi um cavalheiro respeitável e muito re- 
ligioso. Na egreja matriz se conservam ainda 
differentes alfaias dadas por elle. 

Pela sua bondade e cavalheirismo for- 
mava um verdadeiro contraste com o seu 
visinho e também capitão-mór, o tristemente 
celebre Jorge Botto, de Vinhó, que foi o 
açoite d'este concelho de Gouveia, muitos 
annos. 

No artigo Vinhó lhe daremos o logar de 
honra, que merecei 

Apesar de ser Francisco Henrique Tos- 
cano um cavalheiro d'extrema bondade, foi 
perseguido e roubado pela celebre quadrilha 
dos Brandões de Midões, 1 que foram a ver- 



1 V. Midões, vol. 5.° pag. 211, col. 



VIL 



VIL 885 



gonha da humanidade e o maior açoite das 
margens do Mondego e do Alva n'este sé- 
culo,— bem como os Marçaes de Villa Nova 
de Foseôa (Vide) nas margens do Alto Dou- 
ro I . . . 

O bom do F. H. Toscano seria victima dos 
Brandões, se o não defendessem os próprios 
liberaes, seus visinhos;— honra lhes seja ! 

O padre José Henrique Toscano, irmão 
d'aquelle eapitão-mór. 

Desempenhou muitos annos o cargo de 
vice-reitor do Seminário de Coimbra e foi 
elle quem salvou da rapacidade dos pseudo- 
liberaes de 1834 as riquezas d'aquelle esta- 
belecimento scientifico e religioso, como se 
aprazia em confessar o fallecido e virtuoso 
bispo-conde de Coimbra, depois cardeal-pa- 
triarcha de Lisboa, D. Manuel Bento Rodri- 
gues, sendo aliás tido como liberal, e o pa- 
dre Toscano como realista. 

Dr. Henrique do Couto, lente da faculdade 
de philosophia e director do Jardim Bota- 
nieo da Universidade muitos annos, pelo 
meado d'este século. 

Eugénio Accursio Ferreira, major de en- 
genheiros e director das obras publicas nas 
ilhas de S. Thomé e Príncipe, onde falleceu 
em 1881. 

O dr. Jeronymo Joaquim de Figueiredo* 
lente de medicina e pharmacia na Univer- 
sidade de Coimbra, sócio da Academia Real 
das Sciencias de Lisboa, etc, auctor da Flo- 
ra pharmaceutica, obra magistral n'aquelle 
tempo. 

Foi uma das victimas do cobarde morti- 
cínio que teve logar no dia 18 de março de 
1828, junto de Condeixa Velha. V. vol. 2.° 
pag. 371. 

Nasceu na Muxagata, mas casou aqui,— 
aqui passava as ferias — e aqui nasceram os 
seus filhos seguintes : 



Oliveira do Hospital, vol. 6.° pag. 280, col. 
%.»—Taboa, vol. 9.° pag. 467, col. 2."— La 
Vendetta ou O Saldo de Contas, por Arsênio 
de Chatenay, Porto, 1880,— Várzea de Meruge 
vol. 10.° pag. 232, col. l. a — e nomeadamente 
Várzea da Candosa, vol. 10.° pag. 214 e se- 
guintes. 



O dr. Venâncio de Figueiredo, 1.° director 
geral dos telegraphos, logar que não chegou 
a exercer, porque a morte o surprehendeu. 

Albino Francisco de Figueiredo e Almeida, 
do concelho de S. Magestade, cavalleiro da 
Torre e Espada, coronel graduado do corpo 
de engenharia, bacharel formado em naa- 
thematica pela Universidade de Coimbra, 
lente da Eschola Polytechnica, deputado ás 
cortes em 1856, sócio da Academia Real das 
Sciencias de Lisboa, etc. 

Nasceu n'esta párochia no dia 4 d'oulu- 
bro de 1803 e morreu de um ataque apo- 
pletico em Lisboa, sendo deputado e ainda 
solteiro K 

Publicou as obras seguintes : 

Elementos de Arithmetica ... em 1828,— 
Projecto da reforma da Inslrucção Publica, 
em 1836, — Curso de Mechanica Racional, 
em 1839, etc. 

Antonio Joaquim de Figueiredo e Silva, 
bacharel formado em philosophia pela Uni- 
versidade de Coimbra, doutor em medicina 
pela Universidade de Montpellier, professor 
do Instituto Agrieola, Sócio e secretario per- 
petuo da l. a classe da Academia Real das 
Sciencias de Lisboa, etc. 

Achando-se em Wisbaden, na Allemanha, 
foi accomettido de um ataque de alienação 
mental e suicidou-se no dia 14 d'agosto de 
1857. 

Foi homem muito illustrado e auctor de 
varias obras indicadas por Innoeencio. 

Para a sua biographia veja-se a Gazeta 
Medica de Lisboa, tomo VI, 1858, pag. 163 e 
seguintes. 

Padre Francisco Pires da Costa, presbí- 
tero da congregação de S. Camillo de Lel- 
lis, etc. 

Foi geral da sua ordem, orador distin- 



1 Vive em Paranhos, concelho de Ceia, 
um sobrinho, — único representante d'esta 
família notável pela intelligencia e outras 
prendas. Pelo menos o Venâncio (diz o meu 
informador) fez parte da sociedade secreta 
dos Divodignos, à qual se attribuem as mor- 
tes perpetradas no Cartaxinho, em 18 de 
março de 18281... 

V. Condeixa Velha, logar citado. 



886 VIL 



VIL 



ctissimo, preconisado, e não sabemos se elei- 
to, bispo durante o governo de D. Miguel, 
dignidade que não chegou a exercer, por- 
que a morte o surprehendeu. 

Foi homem muito virtuoso e de superior 
illustração, auctor do Novo Ministro dos en- 
fermos... Lisboa, 1815,— e do Opúsculo ca- 
nónico. . . em deíeza da doctrina do S. P. 
Bento XIV. . . Lisboa, 1817. 

Ainda hoje (1885) se conserva n'esta pa- 
roehia de Villa Nova de Tazem um exem- 
plar do Oriente, de José Agostinho de Ma- 
cedo, annotado pelo padre Francisco Pires 
da Costa. 

Cerca de 2 kilometros a N. O. da matriz 
d'esta parochia ha uma caverna, denomina- 
da Cova da Maria do Bento, pelo facto se- 
guinte : 

Haverá 45 annos desappareceu d'esta fre- 
guezia uma mulher, Maria do Bento. Decor- 
reram seis mezes sem haver d'ella noticia. 
Suspeitou-se que tivesse sido assassinada 
por um cunhado, de nome Simão, com quem 
andava mal avinda. A justiça procedeu a de- 
vassa e minuciosas indagações sem nada 
descobrir; mas passado meio anno soube-se 
que effectivamente a pobre mulher fôra as- 
sassinada pelo referido Simão, como reve- 
lou um criado d'este, por nome Antonio de 
Paula, que narrou o facto, dizendo que, de- 
pois de estrangulada, a lançaram na dieta 
caverna. 

Ali se encontrou o cadáver da infeliz, já 
em adiantada decomposição; — o assassino 
foi immediatamente preso— e em seguida 
julgado e condemnado a degredo perpetuo 
para a Africa occidental, onde falleceu. 

Ha n'esta freguezia tres escolas offleiaes 
de instrucção primaria elementar, — uma 
para o sexo masculino, outra para o femini- 
no, diurnas,— e outra nocturna, para adultos 
do sexo masculino. 

As do sexo masculino são pelo systema de 
João de Deus— e o resultado obtido tem si- 
do surprehendente! 

Ha em Villa Nova uma pequena estala- 
gem. 

Cerca de 500 metros ao nascente d'esta 



parochia se encontram ainda hoje claross ves- 
tígios d'uma povoação muito antiga, ttalvez 
romana, inclusivamente sepulturas aboertas 
na rocha ; não ha porém memoria de Uerem 
ali apparecido pedras com inscripções,, nem 
moedas ou medalhas. 

O clima d'esta parochia é benigno nGO ve- 
rão e áspero no inverno, sendo a temppera- 
tura sujeita a rápidas variações. 

Predominam aqui doenças agudas e cchro- 
nieas do apparelho respiratório— e temn ha- 
vido também aqui algumas epidemias dde fe- 
bre typhoide, mas benigna. 

O cemitério d'esta parochia está junfcto da 
egreja matriz e foi feito em 1793 á custta do 
benemérito prior— Manoel da Costa dTAn- 
drade Almeida,— que falleceu em 1854, , con- 
tando 100 annos de idade! 

Em 1834 as convulsões politicas obrriga- 
ram tão benemérito prior a deixar a freegue- 
zia, com grande pesar dos seus parochiaanos. 
Foi reintegrado em 1848 e continuou aa pa- 
rochiar até 1854, data em que falleceu.. Era 
natural d'Alpedrinha,— cantava muito bem 
— e tinha sido capellão— cantor na patiriar- 
chal. 

Esta freguezia é séde de um partido mu- 
nicipal, que foi provido pela primeira* vez 
em 1872 no actual facultativo, Joaquim IBor- 
ges Garcia de Campos, alumno da Escthola 
Medico-Cirurgica do Porto, cujo curso (con- 
cluiu em 1871. 

É s. ex. a natural d'esta freguezia, esava- 
lheiro de muito merecimento e de graande 
influencia n'este concelho; muito desiinte- 
ressado, muito dedicado pela pobresai— e 
hoje senhor da melhor fortuna d'esta fre- 
guezia e de uma das melhores d'este comee- 
lho,— pois casou em 28 de janeiro do (cor- 
rente anno com a ex. ma sr. a D. Maria ffian- 
dida d'Almeida Rainha, filha do fallecidoo in- 
dustrial, capitalista e grande proprietaario, 
Joaquim d'Almeida Rainha e de D. Cllara 
Rita d'Almeida Rainha, donos da opukenta 
casa Rainhas, de Gouveia, hoje a primeeira 
do districto da Guarda I . . . 

Tem a sr.» D. Maria Cândida apenas edois 
irmãos, ambos solteiros,— D. Maria Guilher- 
mina d'Almeida Rainha e Julio Cesar dVAl- 



VIL 



VIL 887 



meida Rainha, bacharel formado em direito 
e licenciado (com o 6.° anno) em theologia 
pela Universidade de Coimbra, cavalheiro 
de superior illustração, que já foi o 1.° advo- 
gado d'esta comarca de Gouveia, em quanto 
quiz advogar, e deputado ás cortes em va- 
rias legislaturas. 

Esta freguezia foi muito rendosa no tem- 
po dos dízimos. Os seus priores eram pa- 
droeiros das freguezias de Lagarinhos e Ca- 
tivellos, cujos curas apresentavam. Ainda 
hoje rende mais de 400^000 réis, provenien- 
tes do pé d'altar, fóros e juro de inscripçòes. 
Tem além d'isso rezidencia,— um pequeno 
passal contiguo-100#000 réis de côngrua 
(derrama em dinheiro) para o parocho— e 
40$000 réis para o coadjutor. 

O seu prior actual é o rev. Manuel Fer- 
nandes Toscano, filho d'esta parochia. 

Em 1811 os francezes do exercito de Mas- 
sena, quando retiravam de Torres Vedras 
pela ponte da Murcella, atravessaram e as- 
solaram esta freguezia e roubaram todas as 
pratas da egreja matriz, incluindo tres lâm- 
padas, cruzes processionaes, thuribulo8, va- 
sos, etc. Toda a população fugiu, apenas 
constou que os francezes se approximàvam, 
mas ainda poderam haver ás mãos o cirur- 
gião Thomé Lopes de Campos (avô materno 
do sr. dr. Joaquim Borges Garcia de Cam- 
pos) e o mataram. 

Também esta freguezia soffreu muito em 
1810, quando por aqui estacionou o exer- 
cito anglo-luso, esperando o exercito fran- 
cez, pois n'esta freguezia acampou muito 
tempo uma divisão inglesa. 

Em 1826 estiveram também n'esta fregue- 
zia o batalhão académico e as milícias de 
Coimbra,— forças que faziam parte da divi- 
são do general Claudino. 

Os académicos ilhéus e brazileiros admi- 
raram muito um grande nevão que presen- 
ciaram,— phenomeno meteorológico extra- 
nho para elles. 

Dos vereadores actuaes d'este concelho 
pertencem dois a esta parochia,— Francisco 
Henrique Toscano, effectivo, e José Borges 
Garcia, substituto. 



Dos 40 maiores contribuintes pertewcem 
a esta parochia 8 :— dr. Fernando Henriques 
Toscano, filho do antigo eapitão-mór Fran- 
cisco Henriques Toscano,— dr. José d'Almeida 
Pedroso,— dr. Joaquim Borges Garcia de 
Campos,— Joaquim Pinto Tavares —Manuel 
d'Almeida Liz e Vasconcellos — Gaspar do 
Couto Almeida Valle —Joaquim Ferreira dos 
Santos— e Francisco Henriques Toscano. 

Um dos membros mais distinctos da res- 
peitável família Toscano, d'esta freguezia, é 
o sr. dr. Fernando Henriques Toscano, juiz 
de direito, actualmente em Cabeceiras de 
Basto. 

Nasceu n'esta freguezia em 1840;— foi ad- 
ministrador do concelho de Ceia —juiz ordi- 
nário em Oliveira do Hospital,— delegado 
do procurador régio em Alcácer do SaL 
Ceia e Fundão,— e juiz de direito na comar- 
ca de Santa Cruz (ilha da Madeira) -d'onde 
foi transferido para Cabeceiras de Basto. 

É um magistrado digníssimo. 

Também é natural d'esta freguezia o sr. 
dr. Gaspar Borges Garcia Pereira, bacharel 
formado em theologia e direito, administra- 
dor da casa da marquesa dé Monfalim e 
advogado, rezidente no Porto. 

São também naturaes d esta freguezia os 
8 presbyteros seguintes :— Manuel Fernan- 
des Toscano, prior,— Joaquim Vaz dos San- 
tos, coadjutor,— José Garcia, José do Couto 
Martins, Gaspar José d'Oliveira, Antonio 
Ferreira d' Almeida, vigário actual de Cati- 
vellos, José Pinto Ferreira Marvão, de 81 
annosde idade— e Francisco Pinto Ferreira 
Marvão, de 81 annos de idade também, tio 
do. antecedente. 

É também natural d'esta freguezia o sr. 
José d' Almeida, alferes da Guarda munici- 
pal do Porto. 

«Ha finalmente n'esta freguezia, no sitio 
chamado Pero Moleiro, (diz o meu informa- 
dor) um penedo enorme que, impulsionado 
sem grande esforço, faz doze a dezeseis os- 
cillaçoes.» 

Aqui temos pois nós mais ura dos raros 
penedos oscillantes que ainda existem na 
península t 



888 VIL 

No supplemento a este diccionario,-- se 
Deus nos conservar a vida e elle estiver 
ainda a nosso cargo,— daremos circumstan- 
ciada noticia do tal Penedo oscillante; entre- 
tanto, para elle chamamos a attenção dos ar- 
cheologos. 

É-lhes fácil o visital-o. porque está na 
margem esquerda do Mondego, distante 
cerca de 16 kilometros da estação de Man- 
gualde (caminho de ferro da Beira)— e passa 
a quatro kilometros d'elle a estrada a ma- 
cadam da dieta estação para Gouveia, ser- 
vida por diligencias. 

Lembro ainda aos archeologos que tam- 
bém por essa occasião podem visitar um 
dolmen que se encontra, ainda perfeito e com 
mesa, servindo de choupana para abrigo de 
madeiras, na freguezia de Rio Torto, limi- 
trophe de Villa Nova de Tazem, a poucos 
metros de distancia da nova estrada da Bei- 
ra, ao norte d'ella e ao poente da ribeira de 
Rio Torto. 

Vê-se perfeitamente da estrada da Beira. 

O tal Penedo oscillante é de fórma cónica: 
—tem de circurnferencia máxima 15 m ,45 e 
de altura 3 metros. Assenta sobre outro pe- 
nedo, que se eleva do solo 60 centímetros; 
—a sua base é approximadamente espheri- 
ca— e a face superior é plana, mas ligeira- 
mente inclinada para o norte. 

O dicto penedo está em uma pequena 
planura, entre um pinheiral e uma vinha; 
— é de granito;— o seu volume deve medir 
approximadamente 30 metros cúbicos— e, 
apesar d'isso, uma só pessoa com pequeno 
impulso imprime-lhe 12 a 16 oseillações bem 
sensíveis I . . . 

Oscilla para todos os quadrantes— e mais 
. facilmente de norte a sul, ou vice- versa. 
Não é accessivel por nenhum dos lados. 
Dista do Mondego ou da Ponte Pulhez 8 
kilometros— 3 da ribeira de Cativellos— e 
1:500 metros da egreja matriz, para N. E. 

No sitio denominado Cafail, cerca de 500 
metros ao norte do dicto penedo, ha vestí- 
gios de povoação antiquíssima. Ali se teem 
encontrado muitos tijolos de grande espes- 
sura e outras velharias,— e a pequena dis- 
tancia se vêem ainda algumas sepulturas 



VIL 

abertas na rocha, havendo lembrança dou- 
tras muitas. 

Sepulturas d'esta espécie são triviaes ain- 
da hoje no nosso paiz. N'este diccionario se 
faz menção de muitas— e muitas nós temos 
visto; mas nunca vimos tantas em tão pe- 
queno espaço como na freguezia de Moreira 
de Rei (concelho de Trancoso) junto da 
egreja matriz. Ainda hoje ali se contam mais 
de 50 de diversas dimensões e orientações, 
todas abertas em grandes penedos de gra- 
nito. V. Moreira de Rei n'este diccionario e 
no supplemento. 

Os dolmens são muito mais raros— e mais 
raros ainda os penedos oscillantesl . . . 

O dolmen indicado supra já foi (me pa- 
rece) reconhecido em 1881 pela secção ar- 
cheologica da Expedição identifica, que ex- 
plorou a serra da Estrella n'aquella data; 
—mas o penedo oscillante d'esta freguezia, 
ou de Pero Moleiro, jazeu sempre ignorado 
e desconhecido até hoje. 
.VILLA NOVA DA TELHA — freguezia do 
• concelho da Maia, comarca, districto e dio- 
I cese do Porto, na província do Douro. 

Reitoria. Orago Nossa Senhora da Expe- ) 
ctação — ou Santa Maria;— fogos 210,— al- 
mas 850. 

Em 1623, segundo se lê no Catalogo dos 
bispos do Porto, denominava-se simples- 
mente Villa Nova;— era, reitoria da apresen- 
tação do convento cruzio de Moreira— e 
CpDUva 162 habitantes. 

Em 1687, segundo se lê nas Constituições 
do bispo D. João de Sousa, denominava se 
Villa Nova da Telha,- e contava 58 fogos 
com 231 habitantes. 

Em 1706, segundo se lê na Chorographia 
Porlugueza, era vigairaria perpetua apre- 
sentada pelo prior do couvento de Moreira; 
—contava 60 fogos;— rendia para o vigário 
130^000 rs.—e para o convento 220^000 rs. 

Em 1768, segundo se lê no Portugal S. e 
Profano, era priorado da apresentação do 
mesmo convento;— rendia 200^000 réis— e 
contava 67 fogos. 

Em 1857, segundo se lê no Almanach 
Eccl. do Porto, contava 185 fogos e 659 al- 
mas,— rendia 200#000 réis— e era seu rei- 
tor collado o rev. José Narciso Loureiro. 



VIL 

Finalmente o censo de 1878 deu-lhe 157 
fogos e 710 habitantes. 

Comprehende as povoações seguintes : — 
— Villa Nova, ou Aldeia, a principal, Egre- 
ja, Quires, Cambados, Lagiellas, Ponte, Mon- 
te, Arrabalde, Prozella, ou Perozella e Villar 
do Senhor. 

Freguezias limitrophes:— Avelêda e Vil- 
lar do Pinheiro, a N.— Moreira a S. — Villar 
do Pinheiro a E.— e Perafita e Lavra a 0. 

Atravessam esta freguezia de sul a norte 
a estrada a macadam do Porto a Villa do 
Conde e a linha férrea (via reduzida) do 
Porto á Povoa de Varzim e Villa Nova de 
Famalicão. Tem esta linha na extremidade 
sul d'esta parochia a estação de Pedras Ru- 
j bras, distando d'ella a egreja matriz cerca 
de 1 kilometro,— 6 da séde do concelho (po- 
voação do Castello, na freguezia de Santa 
Maria de Avioso) — 12 do Porto — e 349 de 
Lisboa. 

A egreja paroehial é um templo humilde 
; e pobre, mas muito antigo, bem como esta 
parochia, pois no seu archivo se encontram 
registradas duas doações feitas a esta egreja 
uma de 1353, — outra de 1355. Constava esta 
; de tres maravedis velhos de prata lavrada, 
impostos em vários casaes e bens, com a 
obrigação dos abbades dizerem certas e de- 
terminadas missas. 

Das dietas doações se eonclue que esta pa- 
roquia é anterior ao século xiv — e que em 
1355 era abbadia, — mas abbadia já annexa 
ao convento de Moreira, em virtude da re- 
nunciação que d'ella fez aos cónegos regran- 
\ tes o abbade e dr. Belchior Fernandes Vele- 
jo, que se recolheu ao dicto mosteiro no an- 
no de 1298, sendo bispo do Porto D. Sancho 
, Pires e prior de Moreira D. João Pires, seu 
; sobrinho. Conservou porem esta parochia o 
titulo de abbadia até que o prior do convento 
de Moreira, D. Gregorio, por bulia do Papa 
Sixto V, datada de 30 d'agosto de 1586, uniu 
ao mosteiro os dízimos d'esta freguezia, pas- 
sando os seus parochos a intitular-se reito- 
res. 

O mosteiro tomou posse d'ella em 21 de 
junho de 1589. 



VIL 889 

Em 1544 era abbade d'esta freguezia o rev. 
Domingos Fogaça, fidalgo da casa do infan- 
te D. Henrique e seu governador no arcebis- 
pado d'Evora. Tudo isto consta de um docu- 
mento interessantíssimo, cujo original se con- 
serva no archivo d'esta parochia. E' um 
Tombo dos bens, encargos e rendimentos 
d'ella, ordenado pelo dicto abbade e feito pelo 
tabellião Manuel Camello em 18 d'abril de 
1544. 

Bem quizeramos dar aqui um longo ex- 
tracto de tão curioso documento, mas a ne- 
cessidade de aligeirar e resumir nos obriga 
a passar adiante. Indicaremos apenas muito 
summariamente um dos itens, em que se 
mencionam as diversas propriedades que ao 
tempo pertenciam a esta egreja, com as suas 
medições e confrontações: 

« Item. Maais numa bouça que se chama 
Cruz, que anda a pão, que está fóra da die- 
ta area; e levará de semeadura a terça que 
anda a pão. 1 que está cercada por vallo so- 
bre si, que tem em comprido cento e vinte 
varas de medir, de cinco palmos a vara, e 
parte do aguião (norte) com terras do mon- 
te que ha um outeiro e cerqua de Santo Alei- 
xo, e do vendaval (sul) com terras da dieta 
cerqua da dieta egreja, e do soão (leste) com 
a dieta cerqua, e do abrego 2 com a estrada 
publica que vai para o Portó e Villa de Con- 
de.» 

D'este item se infere que ao norte da die- 
ta bouça existiu uma capella de Santo Alei- 
xo com sua cerca, talvez restos d'antiga for- 
tificação, pois estava em um outeiro e junto 
d'uma estrada publica importante (a do Por- 
to para Villa de Conde). 

A dieta bouça é hoje denominada bouça 
do padrão, nome que parece revelar a pas- 
sagem d'«ma estrada romana por aquelles 
sitios — e a existência d'um marco milliar 
n'aquelle ponto. 

Nem da capella, nem da cerca ou fortifica- 



1 Não diz quanto levava de semeadura. 

2 O tabellião queria indicar o poente, mas 
claudicou, pois abrego nos séculos xv e xvi 
significava o mesmo que vendaval ou o sul. 

Veja-se em Viterbo — Aguião, Vendaval, 
Soão e Abrego. 



890 VIL 



VIL 



ção, nem do marco existem hoje memorias 
ou vestígios alguns na localidade. 

Diz mais o dicto Tombo que o caseiro da- 
ria ao abbade 40 alqueires de trigo, 10 de 
centeio, 10 de milho, uma marrã e metade 
do vinho que as vinhas dessem cada anno> 
medido á bica do lagar, sem o abbade fazer 
com isso despesa alguma;— e tambemo Tom- 
bo menciona as doações que citámos supra. 

Depois que esta parochia deixou de ser 
abbadia^ teve entre outros reitores os seguin- 
tes; — D. Antonio de S. Thomaz d'Araujo 
Rangel, pelos annos de 1733,— Antonio Mon- 
teiro,— Manuel Moreira,— Antonio da Costa 
Villas Boas, — Antonio Gonçalves,— e Anto- 
nio José de Pinho, natural de S. Vicente de 
Pereira. 

Quando em 13 de setembro de 1772 o be- 
nemérito bispo do Porto D. Fr. Joào Raphael 
de Mendonça visitou estaegreja, era aqui rei- 
tor Manuel Vicente de Pinho, sobrinho do 
antecedente;— a este succedeu também um 
seu sobrinho, Antonio José Alvares de Pinho, 
— e a este o rvd.° José Narciso Loureiro, na- 
tural da freguezia de Rezende, bispado de 
Lamego. Parochiou esta freguezia 30 annos 
e falleceu a 5 de janeiro de 1864. 

Jaz no cemitério parochial sob uma la- 
pide com a inscripçào seguinte : 

FOSTE NO MUNDO ADORADO, 
UM MODELLO FOSTE AQUI; 
MAS DEUS TE QUIZ A SEU LADO, 
QUE RESTA ? CHORAR POR TI. 

Foi o bom padre Loureiro, de Rezende, o 
ultimo reitor collocado que teve esta paro- 
chia. Succedeu-lhe o rev. Francisco José da 
Silva Arozo, da freguezia d'Avelleda, encom- 
mendado, — e a este o rev. Joaquim Antu- 
nes d'Azevedo, de Villar do Pinheiro, digno 
parocho na actualidade, e também encom- 
mendado. 

O primeiro nome d'esta freguezia foi sim- 
plesmente Villa Nova ou Villa Nova da Maia, 
depois Villa Nova da Telha em razão da mui- 
ta telha que se fabricava aqui em differen- 
tes pontos e mesmo junto da matriz, como re- 



velam ainda hoje os nomes de vários sitios 
d'esta parochia, taes são — os de Campo da 
Telheira, Campo do Forno, Casa do Telhado, 
etc. 

D'aqui foi telha para o quartel de Santo 
Ovidio, do Porto. Para a egreja e convento 
de Leça do Balio foram também no anno de 
1798 por uma vez 38 moios de telha— e por 
outra 29 carros, importando toda em 75:400 
réis, segundo a conta assignada pelo mestre 
telheiro, Manuel José Pereira, de Villar do 
Paraiso; — ha muito, porem, que n'esta pa- 
rochia cessou o fabrico da telha. 

E' também para notar-se que, tendo havi- 
do aqui tantas fabricas de lelha, algumas no 
próprio passal, — e tendo ido d'aqui telha 
para o Porto e para as parochias interme- 
diarias e circumvisinhas, a residência paro- 
chial esteja ainda hoje coberta de colmo ?!.. 

Vem a propósito o dizer se: — em casa de 
ferreiro espeto de pau. 

O documento mais antigo que encontra- 
mos, em que se dá a esta parochia o titulo 
de Villa Nova da Telha, são as Constituições 
de D. João de Souza, impressas em 1690. 

O chão d'esta freguezia é plano, saudável 
e fértil. As suas producções principaes são 
milho, vinho de enforcado e hervagens, pois 
engorda e exporta muito gado bovino para a 
Inglaterra. 

Também teve grandes devesas de casta- 
nho, creadase destinadasexpressamente para 
arcos de pipas, — arcos ou vergas, que expor- 
tava em grande quantidade e no valor de 
muitos contos de réis para o Porto. Consti- 
tuía este ramo de negocio a sua principal ri- 
queza, mas hoje se acha muito decaído— já 
com a doença que desde o meado d'este sé- 
culo affectou os nossos castanheiros todos, — 
já com a substituição dos arcos de pau pelos 
de ferro. 

As devesas de castanho d'esta parochia ri- 
valisavam com os lindíssimos pomares de 
castanheiros da vi 11a e da serra de Monchi- 
que, no Algarve. 

Também, como já dissemos, foi aqui ou- 
trora muito importante a industria do fabri- 
co da telha,— industria hoje completamente 
extincta. 



VIL 



VIL 891 



Atravessa e banha esta parochia o peque- 
no ribeiro Cambado, que rega os seus cam- 
pos e lameiros, e que lambem move alguns 
moinhos de cereaes, mas somente no inverno. 

São naturaes (Testa freguezia os srs. Joa- 
quim Dias de Souza Arozo, da grande casa 
de Quires, bacharel formado em direito e ta- 
bellião do concelho de Bouças, rezidente em 
Mathosinhos, — e Antonio Moreira do Couto, 
presidente da camará municipal da Maia, fa- 
cultativo muito distincto, residente na sua ca- 
sa de Villar do Senhor. Foi também natural 
d'esta parochia o abastado lavrador (proprie- 
tário) Antonio da Silva Salgueiro, muito co- 
nhecido e respeitado no Porto pelo seu no- 
bre caracter e pela sua avultada fortuna. 

É também natural d'esta freguezia e n'el- 
la rezidente Antonio Ferreira Moreira, bom 
esculptor. Foram feitos por elle dois altares 
da egreja parochial de Leça da Palmeira (os 
primeiros, entrando, parallellos um ao outro) 
— e foi também obra sua um dos altares da 
egreja matriz de Lavra. 

Em 1859 nasceu aqui uma creança do se- 
xo masculino que foi immediatamente en- 
terrada por se suppor que nasceu morta, ou 
para se occultar o seu nascimento. É certo 
que a pobre creança esteve enterrada algu- 
mas horas; — depois (não sabemos bem por- 
que motivo) desenterraram-na e, sendo en- 
contrada ainda com vida, baptisaram-na; — 
foi-lhe dado o nome de Manuel — e produziu 
um rapaz travesso e tão vigoroso que dava 
soco bravio (diz o meu informador) em to- 
dos os outros moços seus visinhos que lhe 
pozeram a alcunha de desenterrado e se di- 
vertiam com elle, charoando-o por esta alcu- 
nha. 

Embarcou ha annos para o Brazil e faz 
parte da grande colónia portugueza que po- 
voa aquelle império. 

Em 1834 appareceu n'esta freguezia e n'el- 
la fixou a sua residência um homem de má 
catadura, que se empregava no officio de ta- 
noeiroe que foi durante alguns annos o terror 
d'estes povos. Era valente e perverso, indigi- 
tado como salteador e assassino e capitão de 
uma quadrilha de ladrões que n'aquelle tem- 



po infestou este concelho. Deram-lhe a al- 
cunha de Casaca de Ferro, porque chamava 
ao dinheiro ferro (fégo, dizia elle)— e usava 
habitualmente de uma casaca enorme, cujos 
botões eram luzentes peças d'ouro de 7$500 
réis, cada umalf . . . 

Ignoramos o verdadeiro nome, bem como 
a naturalidade e o fim do tal casa de ferro. 

Esta freguezia é pobre,— já pela decadên- 
cia do seu eommercio dos arcos e da sua in- 
dustria da telha, — já porque é muito pro- 
pensa a demandas e pleitos de toda ordem. 

As justiças do concelho e da comarca teem 
aqui um excellente património I . . . 

Não nos consta que esta parochia fosse em 
tempo algum villa; o que sabemos é que a 
sua povoação principal,— Villa Nova,— es- 
teve em tempos remotos um pouco mais 
para S. O. da egreja matriz actual, no sitio 
hoje denominado Cortinhas de Figueira. Al- 
guém se lembra ainda de ver ali uns par- 
dieiros ou restos do antigo povoado. Com a 
mudança da directriz da estrada publica, 
deixaram aquelle local e se transferiram 
para junto da nova estrada, levantando ca- 
sas de um e do outro lado d'ella. 

A egreja matriz também esteve um pouco 
mais para N. O. no sitio das antigas casas 
do caseiro do passal, onde teem apparecido 
sepulturas. 

Ao rev. sr. Joaquim Antunes Gonçalves, 
de Villar do Pinheiro, digno reitor actual 
d'esta freguezia de Villa Nova da Telha, 
agradeço os apontamentos que muito gene- 
rosa e espontaneamente me enviou. 

VILLA NOVA DE THUIAS-freguezia do 
concelho do Marco de Canaveses, districto e 
diocese do Porto. 

V. Thuias, vol. 9.° pag. 574, col. 1.» 

VILLA NOVA DE TURQUEL, hoje sim- 
plesmente Turquel, — villa e freguezia do 
concelho d'Alcobaça, districto de Leiria, pa- 
triarchado de Lisboa, na Extremadura. 

Ao que já dissemos d'esta parochia no ar- 
tigo Turquel, vol. 9.» pag. 760, acrescenta- 
remos o seguinte: 

Alem da celebre gruta da Casa da Moura, 
ha no termo d'esta freguezia a gruta que de- 



892 VIL 



VIL 



nominam Cova do Cabeço da Ladra, umi ki- 
lometro ao norte da Cosa da Moura,— e a 
do Algar do Estreito, um kilometro ao poen- 
te da do Cabeço da Ladra. 

Em 1881 foram estas grutas cuidadosa- 
mente exploradas pelo illustre geólogo e an- 
thropologo Carlos Ribeiro, que mandou 
n'ellas proceder a consideráveis trabalhos 
de excavação e movimento de terra e en- 
controu na do Algar do Estreito muitas pre- 
ciosidades archeologico-pre-historicas, taes 
como — facas de silex,— machados, lanças, 
placas, amuletos e outros objectos de pedra 
polida,— estyletes e vários utensílios perfu- 
rantes de osso,— vasos d'argilla*de diversas 
formas e tamanhos,— pedaços de crystal,— 
ossadas humanas e muitos outros objectos 
que passaram a enriquecer as collecções da 
secção geológica da Direcção geral dos tra- 
balhos geodésicos. 

No artigo Turquel dissemos que foi dada 
a esta villa carta de povoação, na era de 
1352 (1314 de J. Ch.) pelo real mosteiro 
d'Alcobaça. 

Por ser um documento muito interessante 
e curioso, daremos aqui alguns tópicos da 
dieta carta, traduzida do seu original latino 
que esteve no cartório do mesmo real mos- 
teiro, no livro VI dos Dourados, fl. l. a e se- 
guintes. 

a Em nome de Deus, Amen Nós, Fr. 

Pedro, abbade da congregação do Mosteiro 
d* Alcobaça. . . de commum consentimento e 
beneplácito nosso damos e concedemos umas 
certas nossas terras próprias no circuito da 
nossa Granja de Turquel, assim como se 
divide com os povos d'Evora, pela parte do 
norte, e pela parte do oriente pela balisa que 
vae para a Alagôa das Ovelhas, e d'ahi pela 
mesma balisa que vae para a Alagôa da 
Ereira e caminho publico que vem de Otta, 
como melhor se vê dos marcos ali mettidos; 
— d'ali á Cabeça Rasa;—e da Cabeça Rasa 
desce além de S. Bartholomeu e encaminha 
para a ribeira que vae direita a Marondás, 
até o termo d'Evora, excepto a sobredicta 
Granja de Turquel com sua vinha, com seus 
olivaes e com suas hortas e pomares e com 
suas mattas. . . E aquella parte de terra que 



fica á Granja está dividida e determinada 
pelo nosso celareiro, e demarcada pelos ses- 
meiros para todos os povos da nossa povoa- 
ção ou villa, a qual queremos que se chame 
— Villa Nova de Turquel,— e para os seus 
successores, os quaes nunca devem ser me- 
nos de quarenta, continua e pessoalmente 
residentes n'ella, para ser por elles possuída 
para sempre, com tal condição e pacto con- 
vém a saber: 

«Que todos elles e os seus vindouros nos 
paguem e aos nossos successores annual- 
mente a quarta parte de todo o pão e legu- 
mes que tiverem na eira, e do linho no ten- 
dal. Outro sim das vinhas que houverem de 
ser postas e dos olivaes. . . e de todos os 
fructos das arvores que tiverem ou planta- 
rem, nos dêem a quinta parte, assim como 
fazem os d'Evora. ... E da azeitona do oli- 
vedo que lhes damos, tanto elles como seus 
successores, metade em paz e salvo na ei- 
ra E tomarão para si as dietas nossas 

terras, fazendo ahi depois do sexto anno ca- 
sas, no tempo que lhes está assignado, mo- 
rando pessoal e continuamente na dieta 
Villa Nova pelos predietos seis annos 

«E não lhes seja licito emprasar, ou ven- 
der, ou doar, nem d'outro modo alienar as 
dietas nossas terras á Clérigo, Militar, Pa- 
gem d'armas, ou Religioso ou Serraceno, ou 
Judeu, nem a outro que nos não pague o 
nosso fôro. . . 

«Outro sim não devemos fazer outra po- 
voação, nem pôr outros agricultores entre a 
predicta nova povoação e a serra da Men- 
diga, excepto que o mestre de Turquel e os 
frades que ahi residem e guardam as ove- 
lhas e outros animaes nossos possam no so- 
bredicto terreno fazer suas casas, como lhes 
parecer conveniente. . . . 

«Feita em Alcobaça, no primeiro dia de 
agosto da era de 1352.» 

V. O Mosteiro d" Alcobaça, por M. Vieira 
Natividade, Coimbra, 1885, pag. 70 a 73, on- 
de se encontra a dieta carta na sua integra. 

VILLA NUNE — freguezia do concelho e 
comarca de Cabeceiras de «Basto, districto e 
diocese de Braga, província do Minho. 

Vigairaria. Fogos 70— habitantes 285. 

Orago Santo André, o Apostolo. 



VIL 



VIL 893 



Em 1706 era vigairaria da apresentação 
do9 frades Jeronymos, de Coimbra; contava 
apenas 36 fogos;— pertencia ao mesmo con- 
celho de Cabeceiras de Basto— e á grande 
comarca de Guimarães. 

Em 1768 era vigairaria da mesma apre- 
sentação;— rendia para o vigário 40$000 rs. 
— e contava 55 fogos. 

Comprehende as aldeias seguintes, todas 
pequenas e pouco importantes:— Villa Nune f 
sede da parochia,— Gandra, Valle, Bouça, 
Casa Nova, Silva, Tojaes, Frontelheiro ou 
Forno Telheiro, Muro, Picoto, Val de Mos- 
teiro (?) Morouço de Cima, Morouço de Bai- 
xo, Outeiro, Boçada, Crujeira, Bouça da 
Crujeira, Simães, Carqueijal, Vinha da Can- 
cella, Rezidencia, Oleiros, e Mulher Mor- 
tal... 

Freguezias limitrophes:— Arco de Baúlhe, 
a N. — Canedo, a S. — Faia, ao poente — e 
Athey, ao nascente, além do Tâmega, no 
concelho de Mondim de Basto. 

Demora na margem direita do Tâmega, 
do qual dista (a egreja parochial) 2 kilome- 
tros, — 12 da séde do concelho e da comarca, 
—15 de Freixieiró, séde do concelho de Ce- 
lorico de Basto,— 42 de Guimarães, 50 das 
Caldas de Vizella,— 65 de Braga,— 98 do 
Porto (pela linha férrea de Guimarães)— e 
135 de Lisboa. 

Até 12 de novembro de 1875, data da 
creação da comarca de Cabeceiras de Basto, 
Villa Nune pertencia ao concelho e julgado 
de Cabeceiras, comarca de Celorico de Basto. 

A egreja matriz é pequena, singela, po- 
bre e de pouco rendimento, — tanto assim 
que o vigário ó encommendado, — rezide na 
freguezia de Canedo,— e não se faz aqui festa 
alguma digna de menção. 

A mesma freguezia é também pequena e 
pobre — e abundante de larápios ou ralonei- 
ros. 

Producções dominantes: — vinho bom de 
mesa, bem conhecido por vinho de Basto, — 
eereaes e excellente fructa de pevide e ca- 
roço, inclusivamente laranjas, como em to- 
das as freguezias da margem direita do Tâ- 
mega. 

Também cria bastante gado bovino, mas 
volume x 



não tem vaccas. Compra os novilhos em Bar- 
roso. 

As quintas principaes d'esta parochia são 
tres : a de Oleiros, de Francisco Lopes Pe- 
reira do Lago,— a da Granja, do dr. Fran- 
cisco Teixeira Machado— e a da Crujeira, de 
D. Balbina Teixeira Machado. 

São estes também hoje os seus primeiros 
proprietários. 

Os seus melhores edifícios são a nobre 
casa da Granja, em Villa Nune, brazonada, 
— a de Oleiros— e a da Crujeira. 

Não ha n'esta freguezia estrada alguma a 
macadam. Procede-se no momento aos es- 
tudos de uma estrada districtal que, partin- 
do da real, n.° 32 (do Porto a Villa Pouca 
d'Aguiar) do Arco de Baúlhe, deve atraves- 
sar esta freguezia de Villa Nune em direc- 
ção a Fermil, e entronear n'esta aldeia com 
a estrada que a liga á séde do concelho e 
comarca de Celorico de Basto (a villa de 
Freixieiró). 

A estrada a macadam que hoje mais se 
approxima d'esta parochia é a real, n.° 32, 
indicada supra. 

Não tem aula alguma, nem sequer d'ins- 
trucção primaria elementar! Não admira 
pois que n'ella abundem larápios e rato- 
neiros, por falta de conveniente educação e 
de instrucção. 

Com vista aos illustres vereadores. 

Também n'esta freguezia não ha memoria 
de convento ou mosteiro algum, posto que 
uma das suas aldeias se denomina Val de 
Mosteiro. 

O Tâmega corre aqui fundo, por entre 
margens escabrosas, e por isso pouca utili- 
dade presta á agricultura; mas a parochia 
tem bastantes nascentes e arroios que ferti- 
lisam os seus campos e pomares. 

Na egreja matriz ha uma capella de S. 
José, digna de especial menção. 

Foi edificada em 1792 por Miguel Teixei- 
ra, da casa do Valle, d'esta parochia. 

Este Miguel Teixeira matou um seu visi- 
nho por questões sobre agua de rega;— em 
seguida fugiu para o Brazil, onde juntou boa 
fortuna;— depois mandou construir a dieta 

57 



894 VIL 



VIL 



eapella e concorreu para a fundação da con- 
fraria de S. José e Almas, que ainda hoje 
existe, com a pia intenção de que Deus lhe 
acceitaria estes actos em desconto do seu 
crime. 

Tem a mencionada confraria hoje o capi- 
tal de um conto e quatrocentos mil réis, mas 
deveria ser muito maior, se as administra- 
ções anteriores não fossem, como desgraça- 
damente teem sido, péssimas ( 

Na dieta eapella se acha gravada uma 
inscripçâo, commemorando o nome do fun- 
dador e o facto a que alludimos. 

Foi aqui paroeho durante 44 annos o rev. 
José Caetano Lourenço de Miranda, que fal- 
leceu no dia 4 de novembro de 1876, dei- 
xando de si uma memoria honrosissima. 

Viveu e morreu pobre, mas muito con- 
tente e satisfeito. 

Repartiu sempre todas as suas economias 
pelos necessitados sorrindo, nunca dizendo 
que era esmola, mas empréstimo, traduzindo 
em factos este formoso pensamento : — quem 
dá aos pobres empresta a Deus. 

Que nobresa de caracter ! Que santo mi- 
nistro do Senhor 1 

Não havia uma única pessoa n'esta fre- 
guezía e nas circumvisinhas que o não co- 
nhecesse e o não adorasse. 

O seu funeral foi concorridissimo e alta- 
mente commovedor, não faltando um único 
dos seus freguezes a pranteal-o. 

Era a viva imagem do bom pastor. 

Por vezes se lhe offereceu ensejo de trans- 
ferir-se para outra egreja mais rendosa, mas 
nunca teve forças para separar-se dos seus 
queridos paroehianos. 

Deus o tenha em bom logar. 

No supplemento ao artigo Langroiva, pe- 
quena e pobre villa do concelho da Meda, 
distrieto da Guarda, apresentaremos também 
aos leitores um dos nossos decanos na vida 
parochial e paroeho digníssimo, virtuosís- 
simo e por extremo esmoler também,— an- 
cião venerando e venerado por todos, — o 
rev. dr. José Caetano Lopes Bandarra— que 
apesar de ser uma illustração, formado em 
direito e em theologia,^e podendo oceupar 
um dos mais altos postos na gerarchia eccle- 



siastiea, viveu sempre com a maior moodes- 
tia e singelesà;— é simples vigário ha pperto 
de 50 annos n'aquella pobre villa;— munca 
pretendeu outro beneficio melhor— e, salem 
de nunca receber um real de côngrua i nem 
de emolumentos dos seus parochianojs,— 
com elles e com a pobresa tem gasto a for- 
tuna que herdou dos seus maiores !. . . 

É um paroeho inimitável,— verdadeiroo as- 
sombro de abnegação e virtude 1 

Dava honra aos tempos apostólicos ei aos 
séculos dourados do christianismo— e sseria 
hoje a gloria do episcopado portuguezz, se 
na distribuição das mitras se attenddesse 
unicamente ao mérito dos agraciados. 

VILLA PASCACIA— ou Villa Pascoal. . As- 
sim se denominou em tempos muito reemo- 
tos uma villa ou aldeia junto de Bragga e 
pertencente á freguezia de Santa Ollaya 
(Eulália). 

Confinava com Dume e Colina, seguindo 
as Inquirições d'el-rei D. Ordonho. 

Memorias de Argote, vol. 4.° pag. 359J. 

VILLA PLANA— ou Villa Chã, villa que 
estava junto do monte Marão. 

Já existia no tempo dos suevos, poiss foi 
mencionada na divisão feita por el-rei Tlheo- 
domiro e na bulia do papa Pascoal I. 

V. Villa Chã do Marão — e Argote, voi>l 4.° 
pag. 359. 

VILLA DA PONTE— freguezia do conceelho 
e comarca de Montalegre, distrieto de Willa 
Real, diocese de Braga, província de Trraz- 
os-Montes. 

Reitoria. Orago Santa Maria Magdale3na; 
—fogos 72,— habitantes 298. 

Em 1706 esta freguezia contava SO fogços e- 
estava annexa á de Santa Marinha de Ferrral. 

Em 1768 era curato da apresentaçãoo do 
abbade de Santa Marinha;— contava 485 fo- 
gos — e rendia 70$000 réis. 

O Mappa das dioceses deu-lhe 68 fogODS — 
e 422 habitantes; mas com certesa foi laipso, 
porque ninguém acredita que em 68 fogos 
haja tal cifra de habitantes. 

Comprehende apenas duas povoaçòess — 
Villa da Ponte, séde da parochia, — e ffius- 
tello, — ambas mencionadas na Chorograpohia 
Portugueza, — a 1." com 30 fogos — e ai 2.* 
com 20. 



VIL 



VIL 895 



Freguezias limitrophes: — Pondras, a S. 
O —Alturas de Barroso, a S. E.— Negrões, 
a N. E.— e Fervidellas a N. 0. 

Desde 1840 até 1853 foi do julgado e con- 
celho de Ruivães, comarca de Montalegre, 
mas por decreto de 31 de dezembro de 1833 
passou para o concelho de Montalegre. 

O seus templos reduzem-se á egreja ma- 
triz e a uma capella publica, da invocação 
de S. Mamede, na povoação de Bustello. 

Por provisão de 23 de junho de 1812 lhe 
foi concedida uma escola de instrucção pri- 
maria. 

Demora esta freguezia em um amplo valle, 
cortado a meio pelo rio Regavão (uma das 
nascentes do Cavado) que rega e fertilisa os 
seus campos, — move differentes moinhos— 
e é abundante de peixe miúdo. 

O seu solo é muito fértil— e as suas pro- 
ducções principaes são milho, feijões, cen- 
teio, batatas, linho e feno. 

Villa da Ponte, a séde da parochia, está na 
margem esquerda do Regavão J — e dista de 
Montalegre 22 kilomelros para O. S.— 18 de 
Ruivães,— 65 de Braga, pela estrada realn. 0 
28, de Braga a Chaves e que toca em Sala- 
monde e Ruivães;— 120 do Porto— e 457 de 
Lisboa. 

Um pouco ao norte da séde d'esta fregue- 
zia ha sobre o Regavão uma boa ponte de pe- 
dra, 2 que dá passagem para um ramal da 
estrada n.° 28 de Braga a Chaves e para a 
de Montalegre a Basto. 

Por esta freguezia passava uma via mili- 
tar romana de Braga a Chaves— e segue com 
pequenas variantes o mesmo traçado a nova 
estrada real a macadam, n.° 28, já construí- 
da desde Braga até Ruivães — e da Portella 
de Brunhedo até Chaves,— mas ainda em es- 
tudos desde Ruivães até á Portella de Bru- 
nhedo. 

Era natural d'esta parochia o bacharel Do- 



1 Os mappas e a Chorographia Moderna 
dizem Rabagão; mas hoje na localidade to- 
dos dão a este rio o nome de Regavão. 

2 D'esta ponte, ou talvez d'outra mais an- 
tiga, tomou esta parochia o nome de Villa 
da Ponte. 



mingos Martins Pereira, que foi advogado era 
Montalegre e falleceu nos fins do ultimo sé- 
culo. 

Também nasceu n'esta freguezia e na mes- 
ma povoação da Villa da Ponte, em 1859, o 
bacharel Domingos Gonçalves Pereira;— con- 
cluiu a sua formatura em direito na Univer- 
sidade de Coimbra, em 1879;— seguiu a ma- 
gistratura — e é actualmente delegado do pro- 
curador régio de Villa Pouca d' Aguiar. 

Ao meu illustrado collega o rev. sr. José 
dos Santos Moura, abbade de Caires, agra- 
deço os apontamentos que se dignou en- 
viar-me. 

VILLA DA PONTE— villa e freguezia do 
concelho de Sernancelhe, comarca de Moi- 
menta da Beira, districto de Vizeu, bispado 
de Lamego, na Beira Alta. 

V. Ponte, vol. 7.° pag. 160, col. 2. a in-fine 
onde já se fallou d'esta freguezia; aprovei- 
tando porém o ensejo, acerescentaremos o 
seguinte : 

Esta parochia é formada por uma .povoa- 
ção compacta e única. Não comprehende al- 
deias, mas somente alguns moinhos e as 
quintas de Feveros, Cárdia, Carvalhal e S. 
Roque. 

Freguezias limitrophes:— Cernancelhe ou 
Sernancelhe, séde do concelho, a S.— Frei- 
xinho a N.— Ferreirim de Fontearcada a E. 
— e Penso a O. 

Dista da séde do concelho 2 e meio kilo- 
melros,— 14 de Moimenta da Beira, séde da 
comarca,— 55 de Viseu, séde do districto,— 
45 de Lamego, séde do bispado— 57 da es- 
tação da Regoa, na linha do Douro,— 161 do 
Porto— e 498 de Lisboa. 

Tem para a Regoa, por Moimenta da Beira 
e Lamego, uma estrada real a macadám, 
que segue d'esta villa também para Tran- 
coso, Celorico da Beira e Guarda,— e desde 
1883 já tem construídos também alguns ki- 
lometros de uma estrada districtal que, par- 
tindo da estrada real supra deve ir á esta- 
ção do Pinhão, na linha do Douro, pela villa 
de S. João da Pesqueira. 

Está construída apenas desde aquella es- 
trada real até Ferreirim, atravessando esta 
parochia de Villa da Ponte. 



896 VIL 

Os antigos e humildes paços do concelho 
d'esta villa são hoje propriedade particular, 
mas em frente d'elles ainda se conserva o 
pelourinho. 

Os templos d'esta parochia reduzem-se á 
egreja matriz e duas capellas publicas,— 
além do formoso sanctuario de Nossa Se- 
nhora das Necessidades. 

A egreja é antiga, mas bem conservada, 
e tem interiormente uma capella particular. 

As duas capellas publicas estão á entrada 
da villa, vindo da ponte que lhe deu o no- 
me,— uma de S. Sebastião, a leste, antiga e 
com alpendre,— outra do Senhor dos Paços, 
a oeste e nova, á beira da estrada real e 
com luzida festa no 1.° domingo d'agosto. 

Em um alto, pittoresco e vistoso cabeço 
de granito que se ergue na margem esquer- 
da do Távora, fronteiro á villa e distante 
d'ella apenas 1:500 metros, demora o for- 
moso santuário. 

A ermida de Nossa Senhora das Necessi- 
dades.é ampla, elegante, bem tractada e de 
recente construcção;— tem um átrio espa- 
çoso de fórma quadrilonga, com parapeito e 
pyramides de granito;— e para o átrio se sobe 
por uma escadaria da mesma pedra, bem 
traçada em zig-zagues ou lacetes com pateos 
para descanço. 

Ao lado da ermida se ergue uma casa no- 
va, onde rezide o ermitão,— e a meio da di- 
eta casa uma torre com sinos, também nova. 

Tem 2 festas com grande romagem no dia 
15 d'agosto e na 2. a feira depois da Paschoa, 
sendo numeroso o concurso de romeiros não 
só das circumvisinhanças, mas até da pro- 
víncia do Minho, podendo calcular-se o pro- 
ducto das offerendas em 80 a 100 mil réis 
por anno. 

Como o local é muito aprazível e muito 
aceessivel, por estar a poucos metros da es- 
trada real e da nova estrada districtal, mui- 
tas das famílias principaes circumvisinhas 
costumam vizital-o por mera distracção du- 
rante o anno. 

No artigo Ponte pôde ver-se a descripção 
das outras dependências d'este sanctuario. 

Tem a villa 2 edifícios brasonados— um í 



VIL 

pertencente aos herdeiros dft Sebastião de 
Gouveia Osorio— e outro pertencente ao dr. 
Luiz Cardoso de Lucena Araujo Coutinho. 

Ha também aqui um edifício relativamente 
notável, mais antigo e com capella, mas não 
brasonado. Pertenceu a José Joaquim d'Al- 
meida Leilão e é hoje da sua filha e herdei- 
ra, rezidente em Canas de Senhorim. 

Merece também especial menção, pela sua 
antiguidade e tradições a casa que foi de 
Salvador de Sousa Rebello, filho do dr. Bal- 
thazar d' Almeida Rebello e de D. Angela de 
Sousa, de Paredes da Beira. 

Salvador de Sousa Rebello, bacharel for- 
mado em direito pela Universidade de Coim- 
bra, foi por D. João V nomeado juiz de fóra 
das villas de Almodôvar e de Padrões, em 
novembro de 1723;— em 1737 ouvidor e pro- 
vedor de Faro— e mais tarde ouvidor da ca- 
pitania do Pará. 

Foi também provedor das obras, orphãos, 
capellas, hospitaes, confrarias e albergarias 
e contador das terças da cidade da Guarda, 
por alvará de 18 de julho de 1744,— e des- 
embargador da relação do Porto por alvará 
de 15 d'abril de 1750. 

Teve Salvador de Sousa duas filhas— D. 
Innocencia de Sousa Rebello e D. Thereza 
de Sousa Rebello. A l. a casou com Lourenço 
Carrilho Leitão de Castro e não teve suc- 
cessão;— a 2.» casou com João Bodrigues 
Ferreira de Sousa, capitão do regimento de 
milícias de Lamego, e teve 3 filhos— José de 
Sousa Rebello da Costa Azevedo, D. Ma- 
thilde e D. Joaquina. 

José de Sousa foi major do mesmo regi- 
mento de milícias de Lamego, condecorado 
com as medalhas da guerra peninsular, e 
casou com D. Margarida Augusta de Noro- 
»ha e Menezes, que ao tempo vivia na Villa 
da Ponte com o seu tio dr. Antonio da Cu- 
nha Noronha e Menezes, abbade d'esta villa 
e afamado jurisconsulto, pertencente á nobre 
família Noronhas, de S. Chrystovam de No- 
gueira, no concelho de Sinfães, hoje extin- 
cta. 

D. Margarida Augusta era irmã dos tres 
presbyteros seguintes : 



VIL 



VIL 897 



i.o_padre Lourenço Antonio Pinto da 
Cunha, um dos 5 infelizes que foram cobar- 
demente assassinados em Viseu durante os 
excessos que enlutaram o nosso paiz na 2.» 
metade d'este século. 

2. °— Padre Antonio da Cunha Noronha e 
Menezes, cavalleiro da ordem de Christo e 
reitor de Cabril, concelho de Castro d'Ayre. 

3. °— Padre Francisco Pinto Correia de 
Noronha, que fez parte do corpo docente do 
extincto Collegio dos Nobres, em Lisboa. 

D. Margarida de Sousa deixou dois filhos 
—D. Maria José de Sousa Azevedo e Noro- 
nha e José de Sousa Rebello da Costa Sobral 
e Azevedo, cavalheiro muito obsequiador e 
muito tractavel. Casou com sua prima D. 
Henriqueta Augusta de Lemos Azevedo; da 
nobilíssima casa dos Azevedos de Paredes 
da Beira e da quinta do Ribeiro, irmã de 
Marianno de Lemos d'Azevedo Carvalho e 
Sousa, hoje residente em Villa Nova dou- 
rem,— cavalheiro respeitabilissimo pela sua 
graude fortuna, pelo seu nascimento e mais 
ainda pela nobreza do seu caracter. V. Pa- 
redes da Beira, vol. 6." pag. 487— e Villa 
Nova d' Ourem. 

José de Sousa e D. Henriqueta não tive- 
ram successão— e vivem na sua casa de 
Riodades, concelho de S. João da Pesqueira. 

Como reminiscência do tempo em que esta 
villa foi dos nobres condes da Ponte, ainda 
hoje aqui se vê o brasão d'elles em uma pa- 
rede contigua á velha casa da camará e em 
differentes marcos de pedra, de mais de um 
metro d'allura, indicando a linha divisória 
entre o antigo termo d'esta villa e das paro- 
chias do Penso e da Sarzeda. 

Tem esta villa a meio um largo, que de- 
nominam Praça, seis pequenas ruas calce- 
tadas—e uma boa ponte de granito sobre o 
Távora, com 3 olhaes e não quatro, como se 
disse no artigo Ponte. 

Banham esta freguezia o Távora, confluen- 
te do Douro,— e o regato de Medreiro, que 
passa ao sul da villa e desagua nó Távora, 
junto da ponte. Ha n'este ribeiro um pontão 
e 4 moinhos para cereaes. 

Ha na villa uma eschola official de ins- 
trucção primaria elementar para o sexo 



masculino — e alem do Távora, junto da 
ponte e da estrada real, uma pequena hos- 
pedaria ou casa de pasto. 

Esta villa, por estar em terreno plano, 
nunca foi fortificada. 

Também não consta que appareeessem 
n'ella ou no seu termo sepulturas abertas na 
rocha, nem moedas romanas, mas teemi-se 
encontrado em muitas das parochias cir- 
cumvisinhas. 

VILLA POUCA— aldeia da freguezia de 
Arnoia, concelho e comarca de Celorico de 
Basto, dislricto e diocese de Braga. 

V. Arnoia, vol. 1.° pag. 238, X. 

Ha n'esta aldeia de Villa Pouca excellen- 
tes aguas férreas, que ainda não estão de- 
vidamente exploradas e analysadas, mas já 
os povos vizinhos fazem uso d'ellas com 
grande vantagem, bebendo-as. 

Houve n'esta aldeia, em tempos muito re- 
motos, um cavalheiro importante, chamado 
Pedro Peres, segundo se lé na interessan- 
tíssima Descripção de Baste que o sr. D. 
José de Moura Coutinho, penúltimo bispo 
de Lamego, da nobre casa do Telhô (veja-se 
esta palavra) deixou manuscripla,bem como 
18 livros in-folio sobre genealogias. 

É hoje possuidor d'estas preciosidades bi- 
bliographicas — e de toda a grande livraria 
da casa do Telhô — o sr. dr. Joaquim Ber- 
nardino Cardoso, da casa de Toiando, n'esta 
parochia, e hábil jurisconsulto. 

Comprehende mais esta freguezia d'ár- 
noia as aldeias seguintes:— Corredoura, Vil- 
lalba, Villa Verde, Castello, antiga séde do 
concelho de Basto,— Souto Maior, Chélo, 
Salmães, Carvalho Verde, Cima de Villa, 
Ferreiros, Cerqueda, terra natal de Coneti- 
lia Retezindes, que fez a primeira doação 
para a fundação do convento benedictino 
d'Arnoia,— Habaldo ou Arrabalde, uuteiro- 
Coelhos, Boucinha, Arnoia (Arnoia vetus) 
Senra, Lourido, Taipa, Cêgoa (antigamente 
Chega) Serrazinho, Cruz de Baixo, Cruz de 
Cima, Travassos, Travas3Ínho, Alcácer, Es- 
tribaria, Paço, antigo solar dos Mouras Cou- 
tinhos da casa do Telhô e d'outros Mouras, 
de Basto,— Lage, Tornadouro, onde está a ca- 
sa da Vista Alegre, que foi de Manuel José 



898 VIL 



VIL 



de Vasconcellos e hoje é do seu filho, o rev. 
Plácido Augusto de Moura e Vasconcellos, 
cónego e vice-reitor do Seminário, em La- 
mego,— S. Jorge, Lama, Villar, com feira 
mensal no dia 30 de cada mez,— Torre, Le- 
vada, Fôjo, Santo Thyrso, Pombal, Padim, 
hoje cása de D. Josepha Alves Lopes, casada 
com Agostinho Alves da Cunha, possuidor 
do extineto convento e cerca dos frades de 
Arnoia — Figueira, Casinha, Temperas, Ca- 
bo, Souto, Pereira, Casal de Nino, Gandra, 
Levada, Mosteiro e Casa Nova. 

Comprehende também muitas casas e 
quintas importantes. Mencionaremos apenas 
as seguintes :—l. a Telhô, que foi dos Mou- 
ras Coutinhos e é hoje de D. Joaquina Re- 
bello Teixeira, natural da Veiga, freguezia 
da Cumieira, concelho de Santa Martha de 
Penaguião. A mesma senhora possue hoje 
também a grande quinta contigua á casa de 
Telhô por compra que fez á herdeira de D- 
Antónia de Moura Coutinho, ultima repre- 
sentante da nobre casa do Telho— herdeira 
que era também do Douro e parenta da sr. a 
D. Antónia. 

2. a - Casal. 

Foi de José Pinto de Gondar e Motta e é 
hoje do seu parente Antonio de Sousa. 

3. a — Casal de Nino. 

Pertence hoje ao dr. Francisco Teixeira 
da Motta. 

4. " — Toiando. 

É hoje do dr.' Joaquim Bernardino Car- 
doso, já mencionado, possuidor da grande 
livraria da casa de Telhô e dos preciosos 
manuscriptos deixados pelo sr. D. José de 
Moura Coutinho. 

Sendo o sr. D. José ainda deão em Lame- 
go, em 1834, e vendo os excessos de toda a 
ordem, que assolavam o nosso paiz n'aquella 
data, recolheu-se á sua casa do Telhô, certo 
de que todos a respeitariam, como respeita- 
ram, e ali se conservou até 1842, data em 
que regressou a Lamego. 

Foi durante aquelles 8 annos que s. ex. a , 
aproveitando alguns trabalhos dos seus 
maiores, escreveu a Descripção do antigo 
concelho de Basto— e os 18 grandes fólios so- 
bre genealogias,— um dos mais importantes 



nobiliários que se escreveram em Portugal 
n'este século! 

Era s. ex. a um genealogista consummado 
e muito auctorisado— pelos seus vastos co- 
nhecimentos na especialidade,— pela nobre- 
sa proverbial do seu caracter— e pela sua 
alta posição como bispo, pelo que nos gran- 
des pleitos sobre sueeessão de vínculos os 
tribunaes superiores muitas vezes o consul- 
taram e regularam os accordãos pela opi- 
nião de s. ex. s 

5. a — Bouça. 

Foi do dr. José Joaquim Teixeira da Motta 
e é hoje do seu filho Antonio Augusto Tei- 
xeira da Motta. 

6. a — Casinha. 

De Joaquim Augusto de Moura e Vascon- 
cellos 

S 7. a — Taipa,— de Joaquim Alves Machado. 

í — 

] Os melhores edifícios são os de Telhô, 
Toiando, Casal, Casal de Nino e dois pala- 
cetes na povoação de Arnoia, — um que foi 
de Francisco da Cunha Coutinho e é hoje 
do seu herdeiro Carlos Maria da Cunha Cou- 
tinho, de Santa Marinha do Zêzere, em Baião, 
— e outro que foi de José Joaquim Alves de 
Andrade e Vasconcellos e é hoje do seu 
genro Avelino Leite de Sampaio. 

São brasonados os do Telhô, do Casal, do 
Paço e de Santo Andou (Abdon) que foi dos 
Pintos Ribeiros e pertence hoje, por compra, 
ao dr. Joaquim Bernardino Cardoso, da casa 
de Toiando. 

As festas prineipaes que hoje se celebram 
n'esta parochia são as da Semana Santa,— 
S. João Baptista (o padroeiro) e Coração de 
Maria. 

Conta hoje esta parochia 482 fogos— e 
1:960 habitantes. 

Suppòe-se que tomou o nome de Arnoias 
ou Arnoia de Arnaldo de Baião, seu funda- 
dor—e que anteriormente se chamava S. 
João do Ermo. 

Também se suppõe que esteve aqui no 
tempo da oecupação romana a cidade de 
Celiobriga, (hoje Celorico de Basto) á qual 
se refere uma inscripção encontrada em uma 
pedra da egreja de Santa Senhorinha de Ca- 



VIL 



VIL 899 



beceiras de Basto, segundo se lê no tomo 1.° 
das Memorias d'Argote, pag. 317 a 319. 
A dieta inscripção é a seguinte : 

m p. caes 

J O. HÀDR. 
AN. PONT. M 

AUG. PYO 
FURNYUM 
APROC. V I 
T. A VEGETI. 

Segundo Argote, quer dizer : 

«Tito Valério Vegeeio, superintendente 
das calçadas, dedicou esta memoria ao im- 
perador Elío Adriano, pontifice máximo au- 
gusto pio. 

O dr. Hubner 1 dá esta mesma inscripção 
e outra encontrada nas ruinas do mosteiro 
de Santa Comba, na freguezia de S. Miguel 
de Refoios;— completou-as e disse que reve- 
lam positivamente a existência de uma po- 
voação municipal ou cidade romana por es- 
tes sitios. 

A 2. a inscripção citada pelo dr. Emilio 
Hubner é a mesma que se encontra sob o 
n.° 258, a paginas 115, no Portugalliae Ins- 
criptiones Romanae do dr. Levy Maria Jor- 
dão, mas com algumas variantes. 

Em nenhuma das citadas inscripções se 
encontra o titulo da cidade, a que se refe- 
rem, mas tanto Argote nas suas Memorias, 
como o dr. João de Barros nas suas Anti- 
guidades d'Entre Douro e Minho, dizem que 
era Celiobriga (hoje Celorico de Basto) a ca- 
pital dos povos celerinos, que por ali estan- 
ciaram. Ptolomeu na 2. a Taboa da Europa, 
eap. VI, a menciona na descripção da chan- 
cellaria de Braga, a 6 gr. e 43 m. de longi- 
tude—e 20 m. de latitude. 

Alguém diz que estava perto dos rios Ce- 
Ihe e Celinho, outr'ora denominados Celium 
e Celiolum, como se lô na doação de Muma- 
dona, segundo Estaço nas suas Antiguidades 
de Portugal: — Inter Celium et Celiolum. 

Finalmente, o Concilio Lucense menciona 



i Noticias Archeologicas de Portugal, pag. 
80-81, na traducção da Academia. 



entre as parochias da diocese de Braga treâ 
denominadas Ceio, Celiolis Celiotão. «.Pre- 
sumo que alguma d'es-tas povoações era a 
antiga Celiobriga*— diz Argote. 

V. Celorico de Basto— e Villa Nova de 
Freixieiro. 

VILLA POUCA D'AGUIAR— villa, fregiue- 
zia, séde de concelho e de comarca, disitri- 
cto de Villa Real, diocese de Braga, provín- 
cia de Trazos-Montes. 

Reitoria. 

Orago o Salvador;— fogos 410 —habitan- 
tes 1:808. 

D. Antonio Caetano de Lima em 1736 deu- 
lhe 182 fogos e 612 habitantes;— o Portugal 
S. e Profano em 1768 deu-lhe 187 fogos;— 
Almeida em 1866 deu-lhe 347 fogos— e o 
ultimo recenseamento 397 fogos e 1804 ha- 
bitantes. 

Tem sido pois constante o augmento da 
sua população. Desde 1736 até hoje (1885) 
—ou nos últimos 149 ânuos, a sua popula- 
ção accusa um augmento de 228 fogos e 
1:196 habitantes, — promettendo continuar 
na mesma progressão, porque o seu clima é 
saudável, posto que bastante frio no inverno. 

Aqui não ha pântanos, nem arrosaes, nem 
febres endémicas, como nos campos ^Avei- 
ro, de Coimbra e de Leiria;— pelo contrario, 
esta villa tem ar puro e excellente agua po- 
tável e para rega. Além d'isso está muito 
vantajosamente situada na importantíssima 
estrada real, n.° 5, da Regoa a Verim, por 
Villa Real de Traz-os-Montes, Villa Pouca, 
Pedras Salgadas, Vidago e Chaves —estrada 
servida por diligencias e que atravessa pelo 
centro, de sul a norte, a villa de que nos oc- 
cupamos, formando uma bella rua,— a do 
Cruzeiro, que é hoje a melhor da villa,— e 
o campo ou praça de Luiz de Camões. 

Tem já construída e explorada por dili- 
gencias também outra bella estrada real a 
macadám para o Porto, por Basto, — e em 
construcção mais 3 estradas a macadam :— 
uma districtal para Murça, atravessando as 
importantes freguezias de Jalles;— outra- real 
para Mirandella—e outra municipal para 
Boticas. 

Note- se que e3tá também projectada, ha 
muito, uma linha férrea que, partindo (da li- 



900 VIL 



VIL 



uha do Douro, nas proximidades da estação 
da Regoa, deve ir até Chaves e Verim, pelos 
Valles do Corgo e do Tâmega, approximan- 
do-se de Villa Real de Traz-os-Montes e de 
Villa Pouca d'Aguiar,— bem como dos im- 
portantes estabelecimentos balneares das 
Pedras Salgadas e de Vidago *. 

Esta villa em 1706, segundo se lê na Cho- 
rographia Portugueza, era séde do antigo 
concelho d'Aguiar, que pertencia á grande 
comarca de Guimarães e contava 1:750 fo- 
gos em 12 freguezias:— a da villa, que era 
reitoria e commenda da ordem de Christo, 
— Tellões, Soutello, Santa Martha da Monta- 
nha, S. Martinho de Bornes, Vrea de Bor- 
nes, Valloura, Pensalvos, Affonsim, Parada 
de Monteiros, Bragado e Capelludos. 

O seu governo civil era formado por um 
juiz do eivei e crime, vereadores, procura- 
dor do concelho, um juiz dos orphãos com 
seu escrivão, um alcaide e um meirinho. 

Hoje este concelho comprehende mais 4 
freguezias (além das 12 mencionadas) que 
são :— Alfarella de Jalles 2 , Gouvães da Ser- 
ra, Tres Minas e Vrêa de Jalles. 

Total do concelho : 

Freguezias 16 

Fogos (pelo ultimo recenseamento).. 3:603 

Habitantes 16:055 

Superfície em heetares 36:792 

Prédios inscriptos na matriz 34:712 

Pagou no ultimo anno económico : 
De contribuição predial. . . 6:795$845 réis. 
De renda de casas e sum- 
ptuária 717,0475 réis. 

De contribuição industrial. 1:010$370 » 
De decima de juros 889#094 » 



1 Ha bem poucos dias, o conde de Villa 
Real, deputado ás cortes constituintes que 
estão funccionando n'esta data, apresentou 
na camará um projecto para a construcção 
d'esta linha do valle do Corgo. 

2 Alfarella de Jalles, ainda hoje uma das 
freguezias mais importantes d'este concelho, 
foi villa e concelho próprio, formado pela 
freguezia do seu nome e pelas de Vrêa de 
Jalles e Trez Minas. Vide. 



I Comprehende também esta comarca o) con- 
celho de Ribeira de Pena, que tem ; 



Freguezias g 

Fogos (pelo ultimo recenseamento). 11:83